Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Cidade Escrava

Angela Farina - Pelotas/RS
http://www.flickr.com/photos/angelafarina70/page3/
1
Lúcio Xavier · Curitiba, PR
24/10/2008 · 162 · 9
 

Eva Xavier: Óóóóh! Um menino! Eu sabia que ia ser menino! Deixa eu ver, "vâmo", me deixa pegar ele! Olha que lindo o meu rebento! Amanhã mesmo vou ao terreiro levar o Omolukum e o Abebé para agradecer a Oxum. Ó meu pequeno! Que o Orixá-mãe te guie livre agora pela vida!

O povoamento do Rio Grande do Sul se fez de forma tardia em relação a outras regiões do Brasil. Inicialmente, baseou-se em interesses estratégicos de ocupação de território, com a introdução do imigrante açoriano em pequenas propriedades. Antes disso, vigorava no território o abate bovino para consumo e a captura de mulas para o transporte na região das minas. Somente com o desenvolvimento das charqueadas, a partir da segunda metade do século 18, houve a possibilidade de um real aproveitamento da carne bovina, o que veio a favorecer o desenvolvimento da região da campanha gaúcha, com as estâncias de criação de gado. Esse tipo de negócio determinou o acumulo de riquezas para estancieiros, charqueadores e de cidades como Pelotas, que logo sobressaiu como a principal representante dessa atividade no Estado.

Eva Xavier: Ora Yê Yé Ô Oxum! Aceite essa oferenda como agradecimento por me dar um filho nascido livre! Ora Yê Yé ô minha mãe, vai se chamar Rodolpho!

A indústria do charque se instalou, definitivamente, no Rio Grande do Sul, a partir da charqueada pioneira de José Pinto Martins, em Pelotas, no ano de 1779. Desde então, graças à ampliação do mercado consumidor de charque, devido ao desenvolvimento da lavoura, no centro e norte do país, foram se multiplicando as charqueadas na cidade, resultando num único centro produtor, que perdurou por mais de um século, explorando a mão de obra escrava. O trabalho nas charqueadas era tão duro e estafante que o tipo de mão-de-obra adotado foi o trabalho compulsório dos negros.

Rodolpho: Aqui, parado na ponte de pedra do Santa Bárbara, mais uma vez me vem a lembrança da minha mãe e dos incontáveis relatos que fizera sobre o dia do meu nascimento . Ela não se cansava de contar a história da promessa que fez pra Oxum, quando ainda era moça: no dia em que desse à luz a um filho livre, daria a ele o nome de Rodolpho. Pois numa conversa que ouviu na fazenda do seu senhor, ficou sabendo que o tal nome significava “guerreiro ansioso de glória”. No dia seguinte, aqui nessa mesma ponte, estava ela, depositando nas águas do velho Santa a oferenda prometida.

Na época da safra do charque, os escravos tinham uma jornada de trabalho que chegava a ultrapassar 16 horas diárias. Já nos períodos de entressafra — de maio a outubro — eram deslocados para as olarias, na fabricação de telhas e tijolos, e para a construção dos casarões que hoje formam o meio urbano de Pelotas. Havia dois tipos de escravos nas charqueadas: os qualificados e os sem qualificação. Os escravos qualificados eram os que estavam inseridos no processo de produção e no transporte do charque, eram a maioria entre os cativos. Os sem qualificação realizavam todos os outros tipos de serviços. Entre estes se encontravam as mulheres, em número menor do que o de homens, que participavam, sobretudo das atividades domésticas. Havia uma média de oitenta e quatro cativos por charqueada, podendo ocorrer uma leve variação desse número de acordo com o período. Em Pelotas, parte do século 19 caracterizou-se, em termos populacionais, por uma ampla maioria negra. O Passo dos Negros, por exemplo, anteriormente Passo Rico, passou a se chamar assim devido ao intenso comércio de escravos que ali se dava.

Eva Xavier: Meu pequeno Rodolpho! Meu pequeno e grande “guerreiro ansioso de glória”! Salve Oxum que te deu a glória de não ser escravo! Mas meu filho, vai e segue os passos do teu irmão, aprende a "lê", tenha sempre os escritos como um teu aliado e honra e te orgulha da tua raça. Mesmo livre, ainda terás que resistir às duras penas que impuseram à nossa cor! Agora vai...!

Rodolpho: O bom e forte arroio Santa Bárbara! Quem diria! Olhando assim, tenho a impressão de que toda a minha história, as lutas no movimento operário, a organização da raça negra, toda a ligação com essa cidade do passado, tudo isso parece estar ruindo, junto com as pedras dessa velha ponte! Mas antes de toda essa perda afetiva, a voz da minha mãe é a que ecoa mais alto na minha memória. Foi na sabedoria daquela escrava que me tornei o homem que sou; foi no exemplo daquela vida sofrida, que desde pequeno tive gravadas na lembrança as únicas três verdades que minha mãe escrava carregou até a morte: a da justiça que sempre é feita, a do poder de Oxum que nunca falha e a da resistência da raça negra, que nunca foi passiva com a escravidão!

A riqueza e a opulência da cidade de Pelotas, alcançadas durante o ciclo do charque, foram geradas através da força de trabalho escravo nas charqueadas. Os negros vinham dos mercados centrais do Brasil, eram levados até Rio Grande e depois para as charqueadas de São Francisco de Paula, onde eram submetidos a exaustivos regimes de trabalho, tratados com rigor e violência, o que ocasionava muitas fugas, suicídios, abortos e infanticídios. Outras pequenas resistências também ocorriam no dia a dia, como fugas noturnas para encontros amorosos, bailes, jogos de azar, a manutenção das tradições culturais e religiosas, pequenos e grandes furtos, sabotagens, confrontos corporais, assassinatos dos senhores, de sua família, dos capatazes e capitães do mato, envenenamentos, além de insurreições e formação de quilombos.

Eva Xavier: É bem assim mesmo como tô te contando meu filho! Foi lá por volta de 1847, era mês de safra de charque e naquele ano os poderosos puderam sentir de perto o gosto do mesmo suplício com que eles nos martirizavam. Como era tempo de safra, tinha muita matança de gado e também muita movimentação de iates e barcos pelos arroios, levando o charque lá pra Rio Grande. Numa feita, num daqueles dias, o iate Quibebe “deu fundo na baliza do mosquito”, atracando em Pelotas pra passar a noite. Era o patrão José Antônio de Almeida, com mais 4 escravos, o Salvador, o João Pernambuco, o Bento e o Dionizio, que no meio da noite atacaram e mataram o Almeida. Foi bem assim, e teu avô ainda contava que sobrou até pro Dionizio, que não tendo participado do motim, morreu por garantia de não delatar o crime do patrão.

A resistência escrava durou até o fim do regime escravista, em 1888, pois, ao contrário do que afirma parte da historiografia tradicional, o regime escravista não teve seu fim antecipado em 1884, como ocorreu em Pelotas. A falsa abolição de 84 é fruto de uma campanha abolicionista que resultou na obtenção de um grande número de cartas de alforria por parte da escravaria e da troca de favores políticos com o Império. Porém, a obtenção das cartas necessariamente não traria a liberdade imediata aos cativos, pois a maioria das cartas passadas naquele ano trazia consigo cláusulas de prestação de serviços. Cláusulas essas que mantinham os escravos, apesar de possuírem sua alforria, ligados a seus senhores. O não cumprimento das obrigações legais, estipuladas em tais documentos, poderia levar a anulação das mesmas. Assim, as fugas, as revoltas, os quilombos e demais resistências, permaneceram até 1888 quando da promulgação da Lei Áurea, lei que assinalou o término oficial da escravidão, mas não o fim das lutas dos negros por sua cidadania.

Eva Xavier: O outro, que ficou mais conhecido, foi o caso do negro Belizário. Era de manhã e se ouviu os gritos de socorro, vindo lá dos lados da praça D. Pedro II. Era a empregada do espanhol Manoel Montaño. Pela rua, vinha correndo o Belizário, um negro escravo de nação Mina, vinha com as mãos ensangüentadas. Logo se desfez da faca que carregava e de surpresa, foi agarrado e detido pelos populares. O negro tinha matado o seu senhor e a mulher. Era mais um dos nossos, lutando e resistindo ao ferrete!

Rodolpho: Hoje, estou aqui, mais uma vez me detendo além do tempo, nas margens desse arroio! De todas as vezes que meu olhar buscou a história de Pelotas, em todas elas a equivalência da minha trajetória e da trajetória da minha raça se fez com a tua, velho Santa Bárbara! Tão resistente quanto os cativos que aqui lutaram, ficam agora, nas pedras da tua ponte, as marcas da certeza de que a justiça sempre se faz e de que o negro cerrou punhos contra o jugo. Mas nasce, cada dia mais forte, a incerteza nas oferendas em tuas águas, pois agora, acredita-se que nem mesmo o poder de Oxum terá forças para libertar a cidade, que vive presa em um passado de opulência e escrava das suas próprias nostalgias.

Nota: Este roteiro é parte do projeto Patrimônio-Pé-De-Ouvido

compartilhe

comentários feed

+ comentar
ayruman
 

Parabens. A grandeza de uma Nação passa pelo o vigor de sua tradições Culturais... Luz e Paz. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 20/10/2008 22:21
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

Lucio.
Triste mas verdadeiro texto.
E como Pelotas, quantas cidades
cresceram à sombra do trabalho escravo?
Hoje, infelizmente, muitos negros e brancos
ainda são escravos do sistema.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/10/2008 23:06
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Lola...
 

Lucio, um trabalho a ser aplaudido. Mas como disse a Doroni, infelizmente a escravidão persiste em novas nuances, como um câncer a corroer a dignidade humana.
Parabéns.

Lola... · Curitiba, PR 22/10/2008 17:29
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Coluna do Domingos
 

Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 24/10/2008 11:25
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andre Pessego
 

Lucio, Meu Caro Lucio. Fantástico a forma de descrição em duas frentes.
Deixa te falar: Dia 17 de novembro deste ano, na cidade do Rio de Janiero, no Plenário da Assembleia Legislativa, a Umbanda do Mundo será homenageada pelo Poder de Estado no Brasil. Grande feito no que pese a diferença.
As Missas Cristãs, Católicas e outros cultos católicos. Batizam, lançam pedras fundamental, etc.
A UMBANDA, a crença sistematizada mais antigada da chamada civilização moderna, ainda não. Exatamente no Brasil.
Tomara que seja um sinal de compreensão do Poder de Estado do Brasil
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 24/10/2008 16:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

voltando
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 24/10/2008 16:12
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Lúcio Xavier
 

Que ótima notícia André! Tá mais do que na hora mesmo de algumas coisas sairem dos convencionalismos. Mas em se tratando do Poder de Estado prefiro esperar ainda pra ver onde isso vai dar.
Um grande abraço!

Lúcio Xavier · Curitiba, PR 24/10/2008 16:21
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Felipe Gesteira
 

Muito bom!!

Felipe Gesteira · João Pessoa, PB 25/10/2008 11:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Cassiane Schmidt
 

Uma verdadeira aula de história! Sua escrita é instigante, nos convida a ler...sempre mais e mais

Cassiane Schmidt · Gaspar, SC 20/11/2008 12:43
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados