Co-produções destituem o DNA regional?
Está decretada a peleja do árido Movie e do Axé Movie contra o eixo do mal?
Em primeiro lugar é melhor explicar bem o que está acontecendo nessas cinematografias:
Num dia de muito sol numa noite no terreiro de Jesus. (na Bahia até Jesus tem terreiro), dois cabras invocados, leia-se o intrépido Edgard Navarro e o lascivo Lyrio Ferreira fizeram um pacto de sangue, dizem as más línguas que era sangue cenográfico.
Mas, pumba! ali na frente de seus pares no terreno infestado de tatus da Jornada Internacional de cinema, batizaram a fusão em homenagem ao indefectível símbolo do festival, de PEBA – que além do bicho de armadura, também significa coisa de qualidade duvidosa.
De lá pra cá essas duas cinematografias fizeram muito poucas parcerias entre sí, mas botaram as cabeças para fora e foram em busca de um lugar ao sol, do sudeste, onde dizem brilha mais. O pernambucanos foram de mala e cuia, e como retirantes pós modernos transaram bem com sampa e com a terra maravilhosa. Logo logo estavam nas manchetes do Brasil com um cinema vigoroso e árido.
Já os baianos entrópicos e autofágicos, ficaram por Salvador e poucos passos deram em direção ao écran da eternidade.
Dizem que trata-se de opção sexual. Calma, calma já eu explico: O cinema baiano é família, até os gays são tradicionalmente casados e criam raízes em sua terra. Produtora lá virou reprodutora.
Já o cinema pernambucano é banda vuô. Enquanto baiano toma uma cerveja o pernambuco já tomou uma meiota de cana. Enquanto cineasta baiano faz boda de pratas, cineasta pernambucano casa e descasa que nem o Rui Guerra ou seria o Sergio Guerra. Ah, não importa guerra é guerra. Os pernambucanos são mais criativos dizem o(a)s parceiro(a)s.
E o que é que o cós tem com a causa do tal regionalismo? Afinal pernambucanos e baianos juram que fazem cinema universal.
Hora Axé movie ou Árido Movie, vai rodando a carrapeta e as duas cinematografias aprendem em timings diferentes que quem não transa com o capeta não chega ao cinema paradiso. Trata-se de uma lei relativa a geopolítica brasileira, nordestino para botar sustança na pança tem que descer pro sul, tem que ser migrante.
E como os mestres Caymmi, Gonzagão lá se vão a emprestar seus talentos à industria da comunicação de massa. Mas, como todo bom nordestino (dizem que baiano não é nordestino, que tudo foi jogada para ter o din din da Sudene e pra isso até tiraram o leste do mapa.) não aguentam ficar longe de casa e na hora de fazer sua arte valer é no seio materno que mamam a seiva da musa.
E assim caminha a humanidade de nosso cinema: nordestino filmando o nordeste e inventando o bom cinema nacional cabra da peste.
Nos últimos anos quem manda no pedaço são os Pernambucamos, é bom que se faça justiça. A receita para esse sucesso não é apenas o mangue beat ou a atitude anti-axé - chama-se atitude peba – sair do buraco e ir cruzar com o tatu bola...
A prática da co-produção tem rendido a possibilidade de se produzir mais e de gerar advento de visibilidade no centro difusor do país. Enquanto isso os baianos se degladiam em suas crises de identidades para negar, renegar ou assumir que as co-produções Cidade Baixa ou O Pai Ò trazem o DNA de suas paternidades.
Essa perda de tempo impede que surja uma nova espécie de Tatu, fruto da evolução das espécies? Que bicho é esse? Novos filhotes estão pondo a cara do mundo – O Cheiro do Ralo é cinema pernambucano por ter sua unimultiplicidade genética ou Dalhia é um filhote desnaturado? João Falcão, Guel Arraes são globais, globalizados ou integrados num processo natural que faz do cinema uma arte industrial de caráter nômade?
Luis André de Oliveira, José Frazão e Geraldo Sarno são exilados ou baianos que saíram para trabalhar fora? Num país em que o bairrismo é mais nocivo que a saúva, fica a impressão nítida que o movimento entre nordestinos e sudestinos em co-produções é vital para a difusão do cinema PEBA.
Até porque no rastro desse eterno processo migratório das aves de arribação – ainda que esteja nascendo a revolução de Cabaceiras - roliúde do nordeste - outros movimentos similares já podem se alinha nesses cruzamentos genéticos de fortalecimento do cinema nacional: O cinema de boa CEPA, que agrupa os talentos da do Ceará e da Paraíba. Ou o outro mundo do ALMA de Alagoas e do Maranhão; já pensou no Cinema PIPA no ar, do AMAR e outros cruzamentos produtivos transengênia brazuca? Vice mainha.
E alguém se arvora a dizer que o Karin Ainouz, e o Walter Carvalho não são vates afinados desse desafio que envolve o profético Rosemberg Cariri e o luminoso Torquato Joel?
Que me perdoem o alinhavo das más palavras, mas fica aqui um mote afamado pra quem quiser glosar:
Se não fosse o valor do nordestino, em São Paulo não tinha multiplex...
José Araripe Jr.
É cineasta PEBA vivendo no Rio de Janeiro
Lança em maio o longa produzido na Bahia, Esses Moços
www.essesmocos.blogspot.com/
Araripe,
Bota aí uma linha em branco entre alguns parágrafos pra arejar o texto.
Vai ficar melhor pra ler...
Abraço!
Outra coisinha: você deixou a "categoria" no automático e ficou como "música", acho que talvez seja "cinema/video", não?
Abraço!
Araripe,
No link do blogspot do film está "essesmoÇos" e a cedilha impede que abra o site. Se colocar "essesmocos", abre direto!
valeu!
Araripe,
Ar
ar
ipe
Urra!
(e por que não seria peba muvi ou, até, peba no cinema mêmo?)
Bahia e Pernambuco não se acomodam mais em suas fronteiras. E se vento algum sopra por aqueles lados, é o Eixo do Mal, verdadeiro Exú dos terreiros áridos, que diz sobre um certo João Falcão ou um tal de José Araripe, ou uma cidade baixa, donde as personagens travestidas de nós mesmos, desnudados da carcaça de sobre-viventes ou de sub-vertentes, transmuda em negativo o universo complexo de cada um. Fantástico o texto, convidativo a sempre oportuna reflexão sobre cultura. FA
Ise Meirelles · Salvador, BA 17/4/2007 15:33
Araripe, vc já leu o texto fantástico na home, "O Caldeirão da Santa Cruz do Esquecimento"? Lembrei-me de vc. Como sempre, nós, da banda norte/ne, temos mtas histórias p contar, e algumas delas dão um bom filme, ou um grande documentário. FA.
Ise Meirelles · Salvador, BA 20/4/2007 18:46Comecei uma pesquisa e verifiquei que foi o primeiro filme de Rosemberg Cariry, "O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto".
Ise Meirelles · Salvador, BA 20/4/2007 18:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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