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Cinema Antes do Fim, ou Arte não é Palavrão

Foto de Carlos Fernando Castro
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David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ
9/10/2006 · 192 · 15
 

"Ninguém quer saber de drama. O que interessa é só filme para jovens. Terror, suspense, humor escatológico". Quem ouviu essa frase, dita de diferentes maneiras por diferentes executivos do mundo do cinema, brasileiros e estrangeiros, foi um amigo meu, também diretor de cinema. Durante o Festival do Rio, que se encerra hoje, meu amigo teve inúmeras reuniões com gente do lado business do cinema. E o diagnóstico do mercado é esse: pelo menos quando muito dinheiro está envolvido, cinema é feito para adolescentes, ou adultos de mentalidade adolescente.

Não posso negar que escutar isso me deprimiu. Não que eu não soubesse que a preferência do mercado era mesmo o entretenimento mais banal. Mas uma frase como "drama não interessa" chega a ser uma ofensa pessoal para alguém que gosta de Almodóvar, de Bergman, de Cassavetes, de Truffaut, de Altman, de Paul Thomas Anderson. Também não posso negar que a frase funcionou como uma injeção de ânimo nesse momento em que realizo meu filme completamente fora de qualquer sistema de financiamento, oficial ou "de mercado".

Mas nem todos os filmes podem nem devem ser feitos como o meu Um Romance de Geração, que está sendo produzido de forma cooperativa, sem patrocínio ou investimento nenhum a não ser o dos artistas e técnicos envolvidos. Cineastas, assim como técnicos e atores, precisam e merecem viver do seu trabalho. Em algum nível, é preciso e até saudável lidar com o mercado. Mas o que fazer se a cada ano que passa esse mercado é mais e mais nivelado pelo mínimo (e bota mínimo nisso) denominador comum?

Sempre houve a distinção entre comércio e arte, no cinema. E muitos verdadeiros artistas do cinema conseguiram e conseguem se equilibrar no fio da navalha e produzir arte dentro do "sistema", assim como muitos cineastas e roteiristas que nunca tiveram outra ambição se não produzir hits foram também capazes de transcender o marketing e fazer bons filmes. Sinto, no entando, que cada vez mais esse equilíbrio se torna improvável, impossível.

Toda essa conversa me lembra uma resposta que Robert Altman deu numa entrevista publicada no número 2 da fabulosa (e impossível de ser achar no Brasil) revista Projections: "Há uma cena em "O Jogador" em que Griffin Mill diz "me fascina a idéia de eliminar o roteirista do processo artístico", e ele continua, "então, se der para eliminar também os diretores e atores, nós realmente teremos conseguido alguma coisa de valor". E isso é exatamente o que os executivos dos estúdios estão tentando fazer, embora talvez eles nem tenham consciência disso".

Essa entrevista de Altman é de 13 anos atrás. Hoje, a coisa já é bem pior, e está ficando pior. No Brasil, não importa se nos tempos de FHC ou se na era Lula, referir-se ao cinema como arte, dizer-se "artista", é praticamente falar um grosseiro palavrão. Foi Domingos de Oliveira quem me alertou para isso, e ele tem razão. Mas por quê? Gostaria que alguém me respondesse.

Estou fazendo um longa-metragem livre. Pagando, com meus companheiros de viagem atores e técnicos, o preço de trabalhar em horários doidos e com limitações técnicas. Mas estou, estamos todos, vivendo uma experiência do cinema como arte. Se o filme será, ao final, diante dos olhos dos seus espectadores, sejam eles quantos forem, válido artisticamente, isso já é outra história. Esperamos todos que seja sim, e em nosso crédito temos a integridade de cada uma das nossas ações. Nenhum ator foi escolhido por nenhum critério que não fosse a qualidade do seu trabalho. Nenhuma decisão, de roteiro, de enquadramento, de edição, de nada, está sendo tomada por nenhum motivo que não seja fazer um filme honesto e que tenha algo a dizer.

Como disse antes, todos nós precisamos viver, e essa é uma aspiração tão legítima quanto a de um médico ou dentista de querer ter pacientes nos seus consultórios pagando por seus serviços essenciais. Faremos, farei, outros filmes em que compromissos tenham que ser aceitos, e se tudo der certo esses trabalhos serão também valiosos artisticamente, serão também honestos e íntegros. Eu não sou contra a indústria do cinema. A indústria do cinema é necessária. A indústria do cinema nos deu Táxi Driver, nos deu O Último Tango em Paris.

Mas assim como tantos médicos e dentistas que, à parte do trabalho em clínicas e consultórios particulares, fazem diversos tipos de serviços comunitários e sociais, também os cineastas que não querem ver a arte do cinema morrer - seja no mundo, seja dentro deles próprios - devem em algum momento fazer um filme livre. Unzinho, pelo menos, antes que os donos da bola consigam tirar do jogo de vez todos os diretores, roteiristas e atores dignos de assim serem chamados.

E antes de terminar esse texto me ocorre que também críticos e espectadores deveriam assumir um papel nessa luta. Boicotar a burrice e valorizar a coragem não custa nada. É só uma transferência de investimento. Na hora de pagar um ingresso, onde é que você bota o seu dinheiro?

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Thiago Camelo
 

Oi David! Um pouco do que você reclama e questiona é debatido aqui, numa entrevista que eu fiz com o crítico e cineasta Eduardo Valente. Acho que, na entrevista, há idéias que convergem e - também - divergem daquilo que você trata na colaboração acima. Abraço!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 5/10/2006 16:05
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ronaldo lemos
 

Adoraria ver uma pesquisa feita no Brasil sobre o perfil demográfico dos freqûentadores de cinema. A hipótese de trabalho em uma pesquisa como essa seria de que, com a predominância do modelo de sala multiplex, a partir de meados da década de noventa, houve uma mudança grande na demografia dos freqûentadores das salas. Um dos elementos que a pesquisa poderia constatar é a predominância do público entre 16 e 30 anos nas salas de cinema. Com isso, certamente há uma mudança de mercado em termos da demanda por filmes, como a questão levantada pelo texto do David.

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 5/10/2006 16:36
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Thiago Camelo
 

Mas Ronaldo e David, vocês realmente notam essa mudança nas produções brasileiras? Porque a frase "o que interessa é só filme para jovens. Terror, suspense, humor escatológico" impõe um tipo de produção que realmente não enxergo nas atuais produções brasileiras. Concordo que muita coisa ruim está sendo feita por aqui, mas nada de terror, suspense ou humor escatológico. Outra coisa, acho muito ruim da parte de quem falou a frase definir filmes para jovens como sendo obras necessariamente ruins. Afinal, o que seria um filme para jovens? Eu não sei definir isso, bem como também não consigo afirmar que filmes de terror, suspense e - mesmo - humor escatológico não tenham o mesmo valor artístico que os grandes clássicos citados pelo David no texto.

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 5/10/2006 16:47
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David França Mendes
 

Eu não estava falando do cinema brasileiro, estava falando do mercado mundial. Desculpe a resposta corrida, estou saindo para filmar!

Em tempo: claro que nem todo filme para jovem é ruim, muito pelo contrário, mas você acha certo toda a indústria ser voltada não só para um único segmento etário, mas também para um perfil específico desse segmento?

RONALDO: vi sua matéria com o Eduardo, que conheço, gostei, mas não entendi a sugestão de ediçao.

Abraços a todos

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 5/10/2006 16:51
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Thiago Camelo
 

Ah sim! Entendi agora. Minha opinião sobre isso e sobre a relação da arte com a indústria é tão subjetiva, David, que num primeiro momento me soa estranho mesmo existir a necessidade de dirigir um filme (ou uma obra) a um segmento, um target, como dizem. Sei não, mas me parece estranho demais a tendência de há muito tempo de procurar gaveta pras coisas, do tipo, isso aqui é pra velhinhos, isso aqui é pros modernos, isso aqui é pros jovens... Mas enfim, não sou ingênuo (embora seja romântico) o bastante para duvidar de que o mundo de hoje é realmente assim e que o melhor a fazer é tentar observá-lo e entender o seu giro. Sobre a matéria com o Eduardo, que na verdade fui eu que escrevi (e não o Ronaldo), sugeri porque acho que a discussão em relação à indústria e os caminhos do cinema mundial - indicada na sua colaboração - também se dá por lá. Abração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 6/10/2006 15:43
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Edson Wander
 

Só um pitaco antes de depositar meu overponto nessa discussão importante. Desde sempre ouço e leio sobre essa peleja de filme de arte x filme de mercado. Não acho que seja algo que não possa conviver, como aliás convive e muito mal no Brasil. A questão, que me parece até unânime, é como tornar essa relação menos desigual para a primeira categoria. E não vejo saída se não adotarmos as polêmicas cotas e políticas de incentivo às salas para os chamados "filmes de arte", incluindo aqui (não de forma conceitual) a cinematografia brasileira. Sem isso, independente do retorno disso (e com certeza não é imediato, quiçá nem no médio prazo), vamos continuar alimentando esse nhenhenhém. Justo, mas ainda assim um nenhenhém. Muitos países europeus resolveram essa parada numa boa.
Abraços,
EW

Edson Wander · Goiânia, GO 8/10/2006 20:00
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arlindo fernandez
 

bacana-bacana
gostei da matéria. Confesso que perdi a vontade de "reclamar".
Hoje, tô assim. "adoro filmes de artes" --já vi um milhão de filmes,inclusive os lixos.
Tenho um sonho fazer ao menos um filme de arte. (alguem vai ver). Escrevi o roteiro e estou concorrendo a verbas ante ao Minc.
Vc já está filmando?
Parabens.

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 9/10/2006 08:14
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David França Mendes
 

J'a estou filmando, sim, olha lá o blog do filme (tem link na matéria).

David França Mendes · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2006 09:15
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arlindo fernandez
 

sem grana!
Vc é heroi. Eu preciso de um milhão.Filme de baixo orçamento. Tenho pretensão em gravar com HD depois fazer tranfer para 35 mm (sai mais barato no final).
O problema é tambem a distribuição.Preciso pelo menos 100 cópias --cada cópia custa por volta de sete mil reais.
Depois ainda preciso contar com um produto acima da média pra poder apresentar em festivais decentes como Cannes. Coisas assim.
O blog já tá no favorito.
abraços

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 9/10/2006 10:25
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Claudiocareca
 

Ótimo o txt! Excelente a discussão, mas e o público de fato estaria interessado em filmes de arte? A maioria das pessoas que eu conheço ou dizem q naum entendem ou dormem antes de tentar...
Nós aqui do Mato tb estamos na briga com alguns roteiros interessantes mas o baixo orçamento é isso aí: 1 Milhão!! E por aqui existem tantos técnicos que é difícil fazer em termos de cooperativa, especialmente em se tratando de película.
Vale a pena fazer algo que nos dá prazer. Que faça sentido, que de fato exija uma reflexão e às vezes uma mudança no pensamento e na visão de mundo das pessoas. Mas esperar que a indústria abra as pernas para isso acho utópico. Em SP ainda temos diversos cinemas que só passam filme de arte e com boa freqüência de público( pelo menos qdo eu estava por aí) agora aqui em Cuiabá durante o Festival de Cinema que acontece há 12 anos, temos sessões com 4 pessoas!!! Imagina um cinema que só passe filme de arte ou só filme brasileiro (cult)...
Parabéns pelo filme espero vê-lo pronto e distribuido!

Claudiocareca · Cuiabá, MT 9/10/2006 17:45
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fatorell
 

:*

fatorell · Rio de Janeiro, RJ 9/10/2006 18:07
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victorb
 

dou graças que aqui em bhz existem pessoas, entidades e até grandes empresas preocupadas em trazer o cinema-arte cada vez mais perto do público consumidor de filmes-pipoca . o que está sendo discutido aqui se redireciona para outros segmentos artísticos (e na minha opnião, também prejudicados) como a música e a ilustração . a linha que separa puro entretenimento e arte é tênue, e tem nome; emoção . terror, suspense e humor escatológico podem ser filmes-arte tanto quanto um drama; se ficar claro que essa é a intenção do autor . o problema aqui é o quão tênue é esse linha, e quem está disposto a se equilibrar nela .

boa sorte no seu filme david, RSS assinado :)

victorb · Belo Horizonte, MG 10/10/2006 00:35
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Marcelo Cabral
 

Não sei diferenciar bem cinema arte de qualquer outro cinema, penso que um diretor de filme de terror pode fazer um grande filme, onde ele coloque ali sua alma artística etc e tal, mesmo que venda muito.
Por exemplo, se seu filme for um grande sucesso David, se a coisa toda vende bastante, seu filme deixa de ser cinema arte? Vira produto da indústria cultural com um valor comercial e com isso automaticamente perde seu valor artístico? Não entendo porque o drama é mais digno de apoio ou e audiência que a comédia escatológica. Concordo com suas observações sobre o mercado e entendo que deve existir um equilíbrio maior entre as produções independentes e as produções ditadas pelo mercado, sejam elas drama ou terror.

Marcelo Cabral · Maceió, AL 10/10/2006 15:28
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Sofia Amorim
 

Não entendo muito de cinema, mas adoro um bom filme. Um filme que realmente nos leve a refletir sobre nossa existência, que mexa, provoque.
Acho, David, que este nivelamento está ocorrendo por todos os lados. Não só no cinema, mas em todas as artes, em quase tudo. A impressão que tenho é que, cada vez mais, as pessoas têm preguiça de pensar, refletir, existir de maneira saudável.
Ainda bem que encontramos pessoas como vc (e todo este pessoal comentando e apoiando sua causa), que procuram fazer diferente.

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 11/10/2006 00:36
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Roberto Maxwell
 

Pois eh, David, eu resolvi dar uma parada nas minhas atividades cinematograficas. Nao sei se sera definitivo. Mas, estou cansado. Cansado ateh o limite do insuportavel.

Roberto Maxwell · Japão , WW 23/11/2006 01:05
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