Cinema baiano, uma nova leitura da tal retomada

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josé araripe · Salvador, BA
17/4/2006 · 92 · 11
 

Cinematografia Baiana, assim como outras do Brasil, é repleta de sazonalidade ou fases. Desde o pioneiro Moacir Gramacho do tempo dos filmes inflamáveis de nitrato, ao profícuo Alexandre Robatto, são dezenas ou quase uma centena de cineastas que fizeram estória, história ou História. Claro que como a história é quase sempre contada pelos vencedores, o que sobrou destas versões nos limita a um ou dois nomes e poucos filmes, entre estes "vencedores" um nome em especial pela sua grandeza assumiu dimensões internacionais e brilha como um farol em terra de cego: Glauber Rocha.

Um nome da Crítica como Walter da Silveira, do mesmo quilate de um Paulo Emílio, é praticamente desconhecido nacionalmente; porém, esse advogado de causas trabalhistas populares, através de seu Clube de Cinema da Bahia, deu régua e compasso a muita gente, inclusive ao menino Glauber. E como a nossa memória é pródiga em lapsos ou provincianismos, e se alimenta do que a história oficial do sudeste legitima, nos sobra apenas alguns cadinhos que as escolas, universidades e jornais tratam reiteradamente com amnésia, legando aos seus estudantes fragmentos cravados de vícios, abismos e preconceitos.

Hoje, século 21, quando se fala de Retomada do cinema baiano é necessário antes de tudo conhecer o caminho desses diversos ciclos e cineastas que legaram ao Brasil uma razoável quantidade de boas obras. A começar de Roberto Pires com seu pioneiro Redenção, e seus a Grande Feira e Tocaia no Asfalto. Juntamente com Rex Schindler, Braga Neto, Luis Paulino dos Santos, Trigueirinho Neto, Oscar Santana, esses homens formaram o chamado ciclo baiano, a nova onda como nominou Maria do Socorro Carvalho, autora de excelente livro homônimo;
Glauber, que freqüentava esse grupo, logo seria responsável por um movimento chamado Cinema Novo, que até hoje impressiona gregos e baianos.

A ditadura impulsionou e provocou novos cineastas que tinham no documentário suas ferramentas de luta, entre eles Guido Araújo, Tuna espinheira, Agnaldo Azevedo, José Telles, Timo Andrade, Roberto Gaguinho, Tuna Espinheira, Lázaro Torres, Kabá Gaudenzi e José Walter Lima.

Na corrente da contra cultura nosso underground teve seus criativos como André Luiz de Oliveira, Álvaro Guimarães, Zé Humberto Dias.

E o que dizer do combativo Feirense Olney São Paulo, o lençoense cidadão do mundo Orlando Senna, o dileto filho de Poções Geraldo Sarno que inscreveram seus nomes com ferro e fogo nessa história?

E tem mais: competindo no mercado à partir de bases mais industriais como o apoio da Embrafilme, além do exilado Glauber, lá estavam Fernando Coni Campos e José Frazão e que emplacaram sucessos no grande circuito.

A chegada do super 8, nos anos de chumbo, possibilitou que houvesse uma reciclagem significante, abrindo portas para mais de um grupo de inventores do minicinema. Nesta época despontam Pola Ribeiro, Fernando Belens, Edgard Navarro, Jorge Felippi, Joel de Almeida. Surge o Grubacin, que reúne profissionais liberais estabelecidos que praticam através das possibilidades da bitola, dezenas de filmes bem produzidos, entre o nomes encontramos os fotográfos Robson Roberto, Ailton Sampaio, Milton Gaúcho, Cícero Bathomarco, Carlos Modesto entre outros. É desta época o movimento iconoclasta e paródico do neonovíssimo cinema novo de Virgilio Carvalho e Marcus Sergipe.

Em meio às essas revoluções e cizânias que a profusão de grupos e estilo provocava, o artista plástico Chico Liberato e sua esposa Alba Liberato produziram uma obra de desenho animado especial com destaque para um dos pouco longas nacionais do gênero: O Boi Aruá.
Nomes como Lula Wandeoursen, Lucio Mendes, Roque Araújo, Alonso Rodrigues e outros produziram documentários significantes
no período.

Numa Bahia que sempre recebeu cineastas de outros estados a exemplo de Nelson Pereira, Rui Guerra, Zé Agripino, Rogério Sganzerla, Cacá Diegues, Sergio Resende, Walter Salles e Wladimir de Carvalho entre outros, entre dezenas, do Brasil e de fora, o cinema foi praticado mesmo na crise dos anos Collor. Foram poucos e raros longas durante quase duas décadas, mas a expressão de rodar em película ou em vídeo continuou a gerar obras periféricas – curtas - que conquistaram prêmios importantes nos principais festivais brasileiros.

A década de 90, com a retomada nacional, acordou a letargia natural e proporcional à Bahia nordestina e brasileiramente apartada, e trouxe mais mobilização da classe que começou a se organizar e lutar por melhores política públicas do estado. Com exceção de uns poucos que deixaram a luta porque foram chamados ao écran celeste, os demais continuaram se acreditando cineastas e escrevendo seus roteiros e buscando seus recursos para filmar, independente do status que a mídia, a história ou academia lhe conferem.

Essa profícua produção pode ser medida e conferida no recente levantamento apresentado pelo site da Associação Baiana de Cinema – www.abcvbahia.com.br. Ali é possível ver a inclusão de novos atores de panorama de todas as gerações, some a estes, os nomes de Sergio Machado, Jorge Alfredo, Rosana Almeida, Antomio Olavo, Edyala Iglesias, Roberto Duarte, Monica Simões; adicione os inquietos e produtivos Solange Lima, Adler Paz, Lula Oliveira, Kiko Povoas, Caó Cruz Alves, Henrique Dantas, João Rodrigo Mattos e Sofia Federico.

Depois da bonança parece que veio a tempestade e com ela, uma enxurrada de novos realizadores, como Karina Rabinovtz, Élson Rosário, Fábio Rocha, Daniel Lisboa e mais um centena, que em dez anos motivados pelo festival a Imagem em 5 minutos, produziram, mais de 500 vídeos no formato.

Recentemente (2005/2006) os longas Esses Moços, Cidade Baixa, Eu me lembro, Cidade das Mulheres, Brilhante, Cascalho chegaram as telas e Estranhos, Jardim das Folhas Sagradas, Pau Brasil, Filhos de João, Revoada estão em produção, juntamente com dezenas de novos curtas.
Fica difícil negar que o cinema da Bahia independe de retomada ou de qualquer rótulo, exista. Existe, vive e persiste, isso só não ver quem não quer!

Claro, que muito ainda terá que ser feito para essa atividade seja mais respeitada e valorizada por aqui. Inclusive a redação de uma breve história que não omita nínguem como essa, superficial, certamente está fazendo.

Os nosso longas e curtas – assim como os de outras regiões e de todo Brasil, precisam e merecem ser vistos, pois ao contrário se tornam invisíveis aos olhos até de seus próprios conterrâneos.

José Araripe
Baiano, cineasta desde 1974.
Autor de Mr. Abrakadabra! Rádio Gogó, O pai do Rock e Esses Moços

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Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Araripe,
Seu texto me parece uma grande queixa estéril. Não há apontamentos de soluções. Só um "precisam e merecem ser vistos", hmm.. sim, como?
O sudeste é tão mal assim que fez do Glauber o maior cineasta do cinema nacional?! Que papo brabo, meu irmão...
Acho seu texto confuso, com uma enumeração de nomes que não me permitem ganhar nenhuma informação no final. Li um monte de nomes e, agora, depois de ter lido, continuo sem saber quem é quem... Não sou capaz de lhe repetir sequer um dos "n" nomes que você mencionou e os quais acha tão fundamentais. É uma série de não-sei-quem-surgiu, depois-não-sei-quem-outro-surgiu... Surgiu da onde? Brotou da terra? Porque esses trabalhos deles são fundamentais?

Enfim. Seu texto me parece um grande crédito de fim de filme: um monte de nomes em sequência, atribuindo a cada um uma função e achando que assim está prestando a devida homenagem que aquela pessoa merece... E antes do fim da subida dos créditos, o espectador já levantou, catou o saco de pipoca e se mandou da sala...

abs
BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 14/4/2006 23:25
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Bruno, não concordo com você não. Parece que o Araripe quer fazer um levantamento (ainda superficial, como ele mesmo diz) de quem produziu coisas que valeram a pena no cinema baiano nas últimas décadas. Tudo bem, o texto às vezes é um pouco truncado (Araripe, realmente valeria uma nova olhada para correção), com muitos nomes citados, mas acho que em termos de registro é válido.

Não achei que parece crédito de fim de filme. Mesmo. Acho que ele faz um apanhado histórico, que talvez pra você não faça muito sentido, mas que pode ser útil e interessante para o pessoal da Bahia (ou mesmo para gente de fora que se interessa pelo cinema produzido na Bahia). Acho que o bacana do Overmundo é a variedade de estilos de textos.

Para quem quer continuar a ler sobre o cinema baiano, vai aqui um link de outra matéria do Overmundo sobre o tema.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2006 15:44
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ca_co
 

o bacana do overmundo é a possibilidade de...
Araripe,acredito q vc e o Patrik(escreveu no overmundo,sobre a retomada do cinema baiano) poderiam bater uma bola,seria uma grande contribuição p a memória do cinema baiano.

caco
ssa-jua-ssa

ca_co · Juazeiro, BA 22/5/2006 12:40
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Fábio Fernandes
 

Estou com a Helena. Até porque qualquer lista de nomes parece uma mera enumeração quando a pessoa não tem a referência. Mas a referência está aí, dada pelo araripe. Roberto Pires e Triguerinho Neto não são meros nomes numa lista (aliás, nenhum deles é, mas não entremos nesse mérito): basta estudar um pouquinho de história do cinema brasileiro para saber quem eles são. Acho que esse texto poderia ser melhor desenvolvido sim, mas não o vejo como um texto amargo. É um texto do que tipo que, guardadas as devidas proporções, Glauber provavelmente teria escrito hoje. Ou assinado em baixo. Ou até mesmo criticado, mas defendendo o seu autor mesmo assim.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 3/9/2006 10:47
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Mauro de Araújo
 

Só não vê quem não quer, não, Araripe. Não vê quem não acha esses filmes.

Mauro de Araújo · São Carlos, SP 27/12/2006 15:21
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i.mattiazzo
 

poisé, fiquei até interessada, mas depois de procurar tanto desistí ...

i.mattiazzo · Aracaju, SE 18/3/2007 16:26
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Miguel Carneiro
 

Faço cinema na Bahia desde a distante década de 70,
quando zanzava ao lado de Artur Moreira, AJVS. GODI, fazendo super 8, fiz em 16 mm, fiz vídeos premiados "EU VI A COLUNA PRESTES, PASSAR", PRÊMIO FERNANDO CONI CAMPOS, PORQUÊ ESQUECER ESSE CINEASTA BAIANO?

Miguel Carneiro · Riachão do Jacuípe, BA 22/6/2007 10:21
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Miguel Carneiro
 

não sou eu que quero que me esqueça, é o FERNANDO CONI CAMPOS.... EU CONTINUAREI SE DEIXAREM A FILMAR AQUILO QUE ACHO IMPORTANTE PARA O CINEMA E O POVO DA BAHIA E DO BRASIL

Miguel Carneiro · Riachão do Jacuípe, BA 22/6/2007 10:23
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Mauricio Caleiro
 

Achei o texto excelente, um mapeamento muito útil para quem quer estudar o cinema baiano. Trata-se de um tema ao qual os estudos de cinema no Brasil precisam dar mais atenção, pois além dos dois livros da Maria do Socorro, de dois longos artigos do Setaro, de textos de Walter da Silveira, e das poucas páginas que Fernão Ramos dedica ao tema na esgotada "História do Cinema Brasileiro", há muito pouco material relativo ao tema. E, o que é pior, quase todos os filmes citados estão há tempos fora de circulação ou sequer foram lançados no mercado.

Mauricio Caleiro · São Paulo, SP 26/4/2008 20:54
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Chico Egídio
 

Entendo que um texto que cite tantos nomes possa incomodar um pouco, porém deveríamos criar novos textos complementares relatando as realizações dos que fizeram e fazem o cinema baiano.
Acho válido iniciar o processo!
Aqui em Juazeiro/BA estamos tentando dar visibilidade a este cinema tão difícil de se encontrar.
No Festival Vale Curtas, agora em novembro, exibiremos a semente de um cinema findado precocemente, a obra do fotógrafo Euvaldo Macedo Filho.
Abs,

Chico Egídio · Petrolina, PE 9/10/2008 10:50
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Denise Oliveira
 

Achei o texto um clamor legitimo! Precisamos realmente buscar reconstruir a história do Cinema Baiano, como também buscar disponibilizar as obras (quem tiver em casa compartilhar pela internet), e também produzir cineclubes de exibição e discussão em escolas, universidades, etc.
Em relação aos filmes produzidos pela "Nova Onda Baiana" o acesso não é difícil, com exceção de Redenção (primeiro Longa baiano de Roberto Pires) que acredito ainda está sendo restaurado.
Eu sou aluna do curso de História e estou começando uma nova pesquisa sobre o Cinema Marginal Baiano destacando inicialmente obras como Em Meteorango Kid, o herói intergaláctico de André Luiz Oliveira, Caveira, My Friend (1970), de Álvaro Guimarães, O Anjo Negro (1972), de José Umberto e Super-Outro, média de Edgar Navarro. Estou sentindo dificuldade de referência bibliográfica pra minha pesquisa, queria saber onde posso encontrar críticas de Walter da Silveira e outras referências de críticos do período do lançamento dos filmes.
Qualquer indicação de livros, artigos ou sites fico grata.

Denise Oliveira · Feira de Santana, BA 14/2/2011 19:11
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