Cinema brazuca: fracasso nas Bilheterias?

Sora Maia em Esses Moços
Vai um ingresso aí?
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josé araripe · Salvador, BA
19/4/2007 · 96 · 5
 

O que o chutômetro disse pro achômetro a respeito das baixas bilheterias de nossos filmes?

O porquê dos filmes brasileiros não estarem levando mais público aos cinemas pode e deve ser investigado. Porém trata-se de assunto para ser avaliado mais por cientistas – pesquisadores e comunicadores profissionais – do que simplesmente por cineastas ou jornalistas. Estes sim são, entre outros, objetos dos segmentos a serem ouvidos. E há muito o que se fazer para descobrir o que se passa nos “mistérios” do mercado, antes de se ligar o achômetro.

Que mistérios existem, existem.

Mas a cada rodada de investigação leiga só aumenta a desinformação e a mistificação de teoria A ou B.

E não justifica esse empirismo, já que o Brasil detêm tecnologia para realizar pesquisas quantitativas e qualitativas que podem trazer luzes novas às sombras que se confundem numa seara que não permite suposições ou visões siluetadas.

O que faz filme A ou B ter melhor desempenho nas salas?

Ninguem sabe, a verdade é essa.

O exercício do livre pensar pode ajudar nas etapas que antecedem à elaboração de uma pesquisa, mas além disso só atrapalha. E pesquisas não são infalíveis e podem ser inúteis ou fotografar outros focos que não interessem se for mal planejada.

Antes de qualquer passo nesse sentido, é importante saber quem e o que pretende-se auscultar. Definir esse universo passa por deter dados anteriores sobre o micro e o macro ambiente econômico e social a ser investigado.

No caso das pesquisas para diagnosticar essa “enfermidade” de nossa relação investimento x audiência serão necessários mais que uma linha de pesquisa.

E para isso é preciso antes de tudo, que as cabeças pensantes e interessados se desocuparem dos arraigados preconceitos que envolve o uso das ferramentas do marketing – área demonizada pelos xiitas e chaatos – e fundamental nesse pacto para compreender melhor esse mercado novo, que entre suas peculiaridades traz a principal: ser um mercado dominado por produtos estrangeiros turbinados por esta própria tecnologia e suas ramificações como publicidade, promoção, lobby, endomarketing, merchandesing e outros derivados.

Para melhor desempenho dos produtos brasileiros no mercado não adianta tatear no escuro; ou se investe um pouco nesse setor ou estaremos a cada semana contando ingressos e condenando os filmes e as leis de benefícios como os vilões.

Onde estão os dados que provam isso? Se as estatísticas só se referem ao desempenho cópia x bilheteria. Onde estão as pesquisas ou os cruzamentos de dados entre investimentos em mídia e número de espectadores?

Onde estão as pesquisas qualitativas que podem apontar as preferências nos segmentos de público ou a relação entre os valores agregados à produção, como temas, gêneros, atores e marcas famosas. A onde estão as leituras mais aprofundadas sobre as questões das outras mídias de entretenimentos x cinema, ou relativas às peculiaridades de cada região ou períodos do ano? A onde estão os dados comparativos com outras cinemaografias?

É compreensível que a cada matéria sobre o tema em jornal da grande mídia, se avente apenas a superfície das opiniões e percepções vivenciais, já que estes dados abrangentes não existem.

E mais ainda: mesmo que tomemos algumas metodologias aplicadas em outras áreas, a aplicação destas na área do cinema vai exigir também um pouco de paciência, para se chegar às metodologias mais apropriadas.

Deixando os profetas do apocalipse de lado e levando o tema a sério, urge arregaçar as mangas e unir forças: governo, associações, acadêmicos e empresários para inaugurar programas sistemáticos e regulares que possam levantar informações que gerem novas técnicas e modalidades de comunicação, para assim otimizar as relações custo x benefício das nossas produções.

São muitas as camadas do processo entre o tema e a tela que precisam destas técnicas; praticamente todas as áreas da atividade cinematográfica no Brasil ignoram ou desprezam essas ferramentas – por desconhecimento, por preconceitos ou por falta de recursos fisicos ou humanos. Elas podem ajudar muito se houver disposição, humildade e despreendimento.

É quase um tabu tocar nesse assunto. Há os que acham que qualquer pesquisa é manipulação do ethos de sua obra. Nem tanto à terra nem tanto ao mar. O mercado não é um templo da monocultura, há igrejas de muito matizes e vende a alma a Deus ou ao Diabo quem quer – ingênuo ou auto-nocivo é fazê-lo sem consciência disso.

Em 2007, se o conjunto de operadores do cinema brasileiro não incrementar bem essas áreas, deixará os flancos abertos para os concorrentes desleais – o capital estrangeiro subsidiado e desproporcional e principalmente para os defensores da retração das políticas de benefícios fiscais à produções.

Como diria o filósofo: O preço da liberdade é a eterna vigilância.

E junto com a vigília deve estar a tecnologia e o bom senso em investir, para decifrarmos os “mistérios” sem usar bolas de cristal. Deixemos essas pseudociências para os personagens nas telas. E as pesquisas podem mostrar, não serem necessáriamente nas telas do dito cinemão...

por José Araripe Jr.
Cineasta
lança em maio o longa Esses Moços:
www.essesmocos.blogspot.com/

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Egeu Laus
 

Araripe,
Só pra informar: um produtora norte-americana diz que de cada 10 filmes deles, 6 são fracassos (para o nível de investimento deles, claro), dois vão mais ou menos, um vai muito bem e um estoura a boca do balão, pagando os custos de todos os outros e permitindo reiniciar a brincadeira...

Como eles sabem disso? Pesquisas...

Um trabalho para ser feito pelo BNDES em convênio com alguma Universidade e um Instituto de Pesquisa...

Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2007 13:55
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Leandróide
 

Apoiado, José!!!

Discordo ligeiramente do Egeu no sentido de que a iniciativa deve partir de cineastas e/ou produtoras dispostos a entender o "mercado" (já não era sem tempo!) do que de outras instituições.

Não é possível que nos contentemos com o discurso de que não somos assistidos porque não passamos nos cinemas ou vice-versa para explicar os fatores que levam ao sucesso ou fracasso de público no país de determinado filme.

Abraços a todos,
L.

Leandróide · Florianópolis, SC 18/4/2007 16:02
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Marcellus
 

O filme brasileiro não é assistido porque é ruim. Os cineastas estão mais querendo ganhar o Oscar do que desensolver uma estética própria. A India (Bollywood) tem industria cinematografica e não está nem aí para Hollywood. O brasileiro gosta de copiar e colocar nas telas o que os gringos querem ver, a saída é se 'inventar' uma estética nacional, desenvolver um mercado interno abordando questões relevantes para os brasileiros, a única maneira de atrair público é fazer bons filmes.

Marcellus · São Paulo, SP 20/4/2007 16:27
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Jair Santana
 

Isso é fato Araripe.
O cinema brasileiro precisa de pesquisa séria. De uma grande pesquisa.
Pra sabermos porque o público ainda não fez as pazes definitiva com o cinema nacional. Ainda é comum escutar comentários como "é filme brasileiro? então não vou."

E assim, filmes maravilhosos como "O Céu de Suely" e "Cinema, Aspirinas e Urubus" são vistos por um público minímo.
A crítica torceu o nariz pra "2 Filhos de Francisco" e foi o maior sucesso de bilherteria desde o ininicio da retomada. Porque?
Pela músca sertaneja? Pela historia de vencer a probreza tipo "sonho americano"? Pelo atores?
No fim, não saberemos, pois não houve essa busca de saber o "porque".
O cinema brasileiro tem medo de deixar de ser autoral. E se tornar "Global".
Mas precisamos sim de industria cinematográfica, para filmes como "O Céu de Suely" possam existir, é preciso sim, haver filmes como "2 Filhos de Francisco". E para isso tem que se conhecer e conhecer seu público. Por que cinema, pode sim, ser autoral, mas acima de tudo precisa conversar com seu público.

Jair Santana · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 17:34
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lurnelfilho
 

Parabéns Araripe, pôs o dedo em umas das feridas do cinema nacional. Uma ferida nunca tocada. Nosso não conhecemos nossos hábitos. Sugiro um Livro chamado ECONOMIA E POLITICA CULTURAL, é uma publicação do MinC. Tem um pouco (muito pouco) sobre nosso costumes culturais.
Em resposta ao Marcellus, existem ótimos filmes brasileiros de temáticas diferentes que não fazem bilheteria. Porém não podemos acreditar que esse fracasso se pq os filmes não passam. Existe realmente o problema de exibição, mas os que são exibidos tb não tem grande vem de bilhetes.
acredito que urge um plano federal de formação de público audivisual.

lurnelfilho · Rio de Janeiro, RJ 28/6/2007 17:09
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