Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Cinema e Maria Bethânia casam bem

Biscoito Fino
Caetano, Bethânia e Dona Canô, o trio musical de Santo Amaro
1
Tacilda Aquino · Goiânia, GO
26/11/2007 · 127 · 10
 

A cantora baiana que sempre foi avessa a expor sua vida em público tem se deixado filmar, tanto no palco quanto fora dele, para várias produções nos últimos anos.


Alguém dúvida que Maria Bethânia é uma artista que nasceu no palco? Um palco, que vale lembrar, no caso de Bethânia, vai além do local onde a cantora canta e encanta o público – mesmo quando desafina. No palco, Bethânia se apresenta assim como uma atriz que preferiu seguir carreira de cantora, mas nunca abriu mão de sua veia interpretativa. A ponto de a crítica chegar a afirmar que Bethânia “dramatiza demais”.

Outro dia vi no Youtube, um vídeo de Maria Bethânia e Ana Carolina, em que a cantora baiana diz que. “Não componho. Minha criação é na hora de interpretar. Descobrir minha autoria na forma em que entendo a letra, a harmonia”. Isso explica a forma com que a artista compreende todas as músicas de seu repertório. Não existe no Brasil outra artista que se “entregue” tanto à interpretação como ela. Com Bethânia a gente consegue até mesmo gostar um pouco de Ana Carolina – que grita mais do que canta. A menina mineira está até suave em Pra Rua Me Levar. Bethânia funciona até mesmo ao lado da alemã Hanna Schygulla cantando La Vie em Rose. E alguém já tinha ouvido Bethânia cantando em francês? pode conferir no Youtube.


Bom, mas a idéia inicial deste texto era falar da força interpretativa de Maria Bethânia. Que ela existe no palco, todo mundo sabe. E que existe também fora dele, quando a artista está sendo fotografada a 24 quadros do segundo, pode ser conferido no documentário Maria Bethânia: Música É Perfume (2005), dirigido pelo francês Georges Gachot e nos mais recentes Bethânia Bem de Perto e Pedrinha de Aruanda , recém-lançados pela Biscoito Fino em DVD duplo. Os filmes permitem aos fãs conhecer características de personalidade e gostos artísticos que permaneceram e que mudaram na trajetória da maior intérprete da canção brasileira.


Bem de Perto - Bethânia, ainda jovem, teve seus primeiros passos profissionais registrados por ninguém menos que Eduardo Escorel e Julio Bressane numa produção inegavelmente histórica. Nele a cantora baiana aparece com 20 anos de idade. A fama tinha sido conquistada três anos antes com Carcará (João do Vale - José Cândido), no Teatro Opinião. Aquela lenda da cantora baiana que substituiu Nara Leão no Teatro Opinião.

Ainda em estado bruto de formação, Bethânia nem imaginava que iria se tornar uma das grandes cantoras do Brasil. Se soubesse, certamente teria sido mais comedida ao responder as perguntadas do entrevistador ocultado pelas câmeras.

Com a vivacidade e a espontaneidade da juventude, a reclama que o público só quer ouvi-la cantar Carcará -- "Eu quero cantar outras coisas", desabafa para as câmeras de Bressane. Dando voz a outras canções e refrões que não apenas ao "pega, mata e come", ela consegue se desvencilhar do rótulo de cantora de protesto. Ela canta Vinicius, Baden Powell, Paulinho da Viola, Luiz Gonzaga.

O filme tem participações de Jards Macalé, Rosinha de Valença,-- que eu vi em um show na cidade de Dijón, na França,em 1989, Susana de Moraes – que media as negociações para Bethânia se apresentar no exterior e Caetano Veloso.

Bethânia não presta atenção ao empresário estrangeiro que está fechando uma turnê européia dela, detona um clássico da bossa nova – “Eu odeio O Barquinho" -- e ironiza Roberto Carlos. "Eu vi ele cantar Quero que Vá Tudo pro Inferno. Acho a música de uma pobreza total". Curiosamente, em 1993 Bethânia gravaria um disco inteiro dedicado às canções do rei. A dramaticidade teatral fica por conta das canções. Closes mostram gestos grandes e jugular estufada.

É uma Bethânia bem menos expansiva que se encontra em Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda, de Andrucha Waddington. Nele o diretor de Eu Tu Eles e Casa de Areia acompanha a viagem da diva no carro conduzido pelo irmão Caetano Veloso até a baiana Santo Amaro da Purificação para comemorar seus 60 anos de vida ao lado da família. Ele dirige, ela conversa sentada a seu lado. Expressões e gestos sobrepõem-se às palavras. "Você sabe como Fernando Pessoa chamava a lua?", pergunta Bethânia. Caetano solta: "Ele não chamava de lua não?" "Chamava. Mas em alguns momentos ele chamava de Nossa Senhora do Silêncio", rebate."Essa é expressão linda".

Na verdade Bethânia pouco fala no filme. Ou melhor, pouco se expõe, ainda que Andrucha Waddington tenha conseguido afrouxar as defesas da artista. Bethânia está desarmada, longe dos rigores cênicos, vivendo o cotidiano familiar sem maquiagem, sem retoques. São momentos raros, mas que nos dão a sensação de estarmos mais próximo da artista. Quando ela fala, expõe lembranças como a de João Gilberto ao volante do carro, dirigindo "tão bem quanto canta". (olha ele se redimindo por falar mal da bossa nova em Bem de Perto!).

Os pontos altos do filme são a missa rezada em homenagem a ela e a seresta organizada na casa da matriarca Dona Canô. Acompanhados pelo violão do maestro Jaime Alem, mãe e filhos interpretam emocionados canções como Chuá Chuá, Felicidade, Oração de Mãe Menininha, Exemplo, Tristeza do Jeca e Gente Humilde.

Dona Canô, que fez 100 anos recentemente, é, na verdade, o centro de Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda. A câmera de Andrucha pega os olhos dessa senhora fixando o longe, contando que foi "seu" Caetano quem colocou o nome na irmã e cantando. Isso mesmo. O talento musical Caetano e Bethânia herdaram da mãe.

Vendo os filmes, me lembro da primeira vez que ouvi Bethânia em um bolachão de meu pai. O disco era Recital na BoateBarroso e as música que me marcaram foram Molambo, composição de Jayme Florence/Augusto Mesquita e Lama, de Paulo Marques e Aylce Chaves. Eu adororava a densidade dramática de Bethânia desfilando os versos: 'Se eu quiser fumar, eu fumo/Se eu quiser beber, eu bebo/
Não me interessa mais ninguém /Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama /Viveu na lama também/Comendo a mesma comida/ Bebendo a minha bebida /Respirando o mesmo ar". O disco que integra a lista dos 100 discos fundamentais da MPB, foi relançado recentemente em CD e merece uma audição.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Saramar
 

Tacilda, obrigada.
Sou admiradora dela e sempre me arrepio ao vê-la.
No documentário "Música é Perfume", seu produtor musical faz a perfeita tradução de Bethânia: ela é uma entidade, a união de cnatora, atriz, declamadora, mulher, quase uma deusa lúdica e dramática.
Maravilha vê-la aqui nesta sua excelente colaboração.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 24/11/2007 21:02
sua opinião: subir
Tacilda Aquino
 

Saramar,
se quiser ver os filmes, te empresto. Você vai gostar, com certeza.

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 24/11/2007 21:11
sua opinião: subir
Saramar
 

Menina, vim votar e, digo-lhe, este não é um voncite que se possa recusar.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 26/11/2007 16:29
sua opinião: subir
Cida Almeida
 

Tacilda, um texto seu sempre casa bem com o leitor. É sempre uma alegria quando tem colaboração sua por aqui, pois sei que vou aprender uma porção de coisas novas. Taí, você já me contou novidade. Assisti recentemente Tempo e Música é Perfume. E concordo com a Saramar: quando Bethânia entra no palco e domina a cena na tela grande, parece uma divindade. Ela é um ser do palco. Sublime a Bethânia declamando!

Beijo grande.

Cida Almeida · Goiânia, GO 26/11/2007 17:09
sua opinião: subir
Fabiano Merli
 

Adorei seu texto. Eu vi Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda e me emocionei muito com a cena do quintal. E a história da Lua é impagável.
Parabéns.

Fabiano Merli · São Paulo, SP 26/11/2007 17:10
sua opinião: subir
Roberta Tum
 

TAcilda,
Maria Bethânia é a diva das divas da MPB.
Fiquei ansiosa por conhecer estes trabalhos.
Beleza de texto mergulho no universo Bethânia.
E... ah...: Ana Carolina chega lá viu? rssss...
Mesmo aos gritos, que disfarçam a timidez,
ela é das boas!

Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 26/11/2007 17:57
sua opinião: subir
Tacilda Aquino
 

Roberta, a menina é jovem, ainda aprende. Lembra do Chicão dizendo para a Cássia Eller que ela gritava e não cantava, que cantora era a Marisa Monte? Cássia Eller baixou o tom e a voz ficou divina. Pode acontecer o mesmo com Ana Carolina. Quando estiver em Goiânia, dá um toque que empresto os DVDs.
Agora Bethânia, como diz a Cida e a Saramar, é uma entidade musical. Canta e encanta mesmo quando desafina -- e ela ainda desafina. Fábiano, eu também me emocionei com o DVD e adorei Bethânia declamando Álvaro de Campos no final de Pedrinha de Aruanda. O texto, escrito em 1917 não podia ser mais atual. Maria Bethânia é sempre; emoção em estado bruto!

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 26/11/2007 18:47
sua opinião: subir
Tacilda Aquino
 

Olha o tropeço no português. Onde se vê "como diz a Cida e a Saramar", leia-se "como dizem a Cida e a Saramar".

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 26/11/2007 18:50
sua opinião: subir
Glês Nascimento
 

Tacilda, que delícia de texto. Sou suspeita para falar de Bethânia porque a amo. Adorei.

Glês Nascimento · Palmas, TO 28/11/2007 19:54
sua opinião: subir
Pepê Mattos
 

Se Bethânia pouco fala no filme (que não assisti) como você diz é porque ela acho que nem precisa... Realmente a simples imagem dela já nos intimida para no minuto seguinte nos arrebatar a tal ponto que sentimos o chão faltar sob nossos pés e, em seguida - exatamente nessa ordem - sua voz nos hipnotiza completamente... Belo texto e bela homenageada quanto a homenageante (existe isso? rsrs)... Deixe as distâncias arrebatarem você também... Beijos

Pepê Mattos · Macapá, AP 3/12/2008 18:56
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Recital na Boate Barroso foi lançado em 1968 zoom
Recital na Boate Barroso foi lançado em 1968
Pedrinha de Arunada, preciosidade histórica zoom
Pedrinha de Arunada, preciosidade histórica

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados