Cinema em branco & preto / Take 1

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Grande Otelo
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Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
5/12/2007 · 304 · 20
 

Imagem popular: Visibilidade zero
Exterior/Noite



Entre outras e mais dramáticas conseqüências, a pobreza continuada e generalizada, na qual se permite que viva grande parte de nossa população, criou para a mídia do Brasil uma espécie de perturbadora "impropriedade estética", causada pela contradição evidente entre a imagem real de povo não-branco, que efetivamente somos, e aquela imagem virtual, manipulada por intermédio de diversos artifícios, que insistimos em propalar para mundo como sendo o nosso look ideal.

Por que nos espaços da mídia (vista aqui como o conjunto de mecanismos de difusão social e cultural independentes) o Brasil aparece sempre assim, mascarado, fantasiado de uma outra coisa que não é ele mesmo?

Acreditem, esta não é uma conversa de filigranas ou irrelevâncias. Visibilidade é um axioma midiático por excelência, já que, a rigor, se um fato ou problema está invisível é porque ele não está acontecendo ou simplesmente jamais existiu.

Envergonhada talvez de nossa imagem real, nossa mídia – expressão mais evidente da maneira peculiar que a gente tem de olhar a nossa própria cara em espelhos simbólicos – tem demonstrado persistente intenção de falsear, justamente, o signo essencial de nossa personalidade: nosso biotipo, a cor de nossa pele, os traços físicos mais marcantes, aquela face original que todo povo que se preza costuma assumir como orgulho nacional e patrimônio estético intocável.

Racismo é pouco – e vago – para definir esta estranha disposição de nossos meios de difusão cultural para, sub-repticiamente, ir sabotando a nossa auto-imagem. Que diabo de paranóia seria esta? Por que ficar durante séculos como uma espécie de "país michael jackson", tentando esconder debaixo de um tapete pra lá de puído o perfil mulato inzoneiro da maioria de nossos charmosos habitantes? Seríamos uma sociedade acometida por uma espécie de vitiligo moral?

Você viu quantas vezes, nos livros escolares, a cara do João Cândido, o almirante negro da Revolta da Chibata, um herói brasileiro tão ou mais significativo do que aquele tristonho alferes Tiradentes? E a cara do negro Oswaldão, aquele líder militar da guerrilha do Araguaia (se é que você sabe o que foi isto), aquela revolta que deu errado mas que contribuiu para a escalação de alguns de seus sobreviventes (a maioria já caída em desgraças éticas, é verdade) para o primeiro escalão do atual governo do país?

Como se poderá forjar um verdadeiro orgulho nacional, amor à pátria, sem a ampla difusão da imagem destes heróis de nossa nacionalidade, tenham lá a cor que tiverem?

Não se pode negar que, no âmbito de nossa mídia ligeira, aquela voltada para o jornalismo superficial e comezinho do dia-a-dia, o merchandising rasteiro, o jingle espirituoso, o outdoor de subúrbio, alguns traços, ainda que tímidos, de nosso perfil étnico têm aparecido.

Neste jornalismo ligeiro predomina, infelizmente, uma defensiva e, apesar de justificável, raivosa depreciação do outro. A pauta, como sempre, tem sido aquele rol de personagens não-brancos, atores eternos e subalternos de nossas piores mazelas, da violência urbana, do crime "organizado", do jovem traficante armado com um fuzil de guerra, bandido assassino, defendido pela jovem favelada de shortinho leg, com o bebê no colo, aquela que jogava pedras no poder público, como uma louca, até o grand finale: a hollywoodiana imagem da carcaça retorcida de um ônibus em chamas (antes de haver o poder SS das milícias, é claro).

Para distensionar os ânimos e os espíritos, no restante desta mídia ligeira, nos anúncios de magazines femininos, nos programas de fofocas televisivas, nos outdoors etc. é concedido mais espaço a aspectos, digamos assim, arejados e mundanos: belas mulatas – geralmente sós –, jovens negros musculosos – acompanhados por falsas louras desinibidas – mulatos, morenos, morenas (muitas morenas), diversas imagens "etnicamente corretas", no fundo apenas apelativas, porque subliminarmente tendem a associar raça negra e mestiçagem a sexo aberrante, como anúncio de açougue light, animalizando o outro, do mesmo modo como se fazia no tempo da escravidão. É coisa de gente normal, isso?

Câmera discreta

Estereotipando e generalizando na sua cobertura sobre o dia-a-dia do Brasil real, os aspectos mais exteriores de nossa dramática questão social – muitas vezes de maneira histérica e sensacionalista –, tornando desta forma totalmente invisíveis todos os outros aspectos positivos, o cotidiano e a cultura das pessoas não-brancas deste país, nossa mídia nada mais faz do que propaganda de guerra, incitando a opinião pública normal contra o outro, o anormal, mais ou menos como o fez a imprensa standard de Bush, justificando bombas e barbaridades na invasão (e na atual ocupação) do Iraque.

Seriam cidadãos americanos os nossos brancos normais? Seriam anormais fedayns iraquianos os nossos marginais não-brancos? Claro que não.

Como agravante, naqueles aspectos sociologicamente mais profundos que caracterizam a aceitação de nossa imagem nacional efetiva, não é difícil detectar-se a existência daqueles sutis artifícios usados para identificar e separar as coisas apropriadas para serem mostradas, daquelas que devem ser cuidadosamente maquiadas, editadas ou, simplesmente, escondidas dos olhos das pessoas "de bem".

Um conjunto de elementos estéticos, que são fashion, style, low profile, positivos em suma ou que, simplesmente, funcionam, isolado de um outro conjunto de coisas que não devem ser mostradas, de jeito nenhum (a não ser em ocasiões socialmente corretas), porque são down, feias, incômodas e que, do ponto de vista comercial, são portanto negativas, não funcionam, sendo impróprias ao consumo – ou não recomendadas – aos olhos daqueles indivíduos considerados normais.

E quem seriam neste contexto tão patologicamente televisivo os normais do Brasil? São aqueles 30% que estão em pleno gozo de seus direitos de renda e cidadania, gente que, até prova em contrário, é predominantemente branca, beneficiária, como vimos, de um sistema de cotas firmemente assentado em mais de 500 anos de exclusão e invisibilização do outro.

A questão básica portanto passa a ser: por que, no contexto desta separação entre aqueles que têm daqueles que não têm – uma separação que, apesar de odiosa, poderia ter como atenuante o fato de ser naturalmente apenas social – o componente étnico, racial é tão determinante? Será inteligente (para não dizer justo ou correto) insistir numa imagem nacional tão despudoradamente falsa como esta que nossa mídia difunde, uma imagem calcada no perfil étnico dos brancos, tornando virtualmente invisível todos os, digamos, 70% restantes de não-brancos?

Afinal, serve para que a imagem daquele olhar constrangido do crioulinho magrelo, que tenta fazer malabarismo no sinal fechado? O que podemos fazer com esta imagem tão perturbadora senão deletá-la de nosso HD emocional, assim que o sinal se abrir? Não seria porque ela, do jeito como a tratamos, não serve para vender nada, senão a nossa brasileiríssima iniqüidade?

Deve ser por isso que, do ponto de vista estritamente imagético, daqueles registros sobre nós mesmos que legaremos à posteridade, a maioria esmagadora dos elementos culturais, por exemplo o teatro, a literatura, as telenovelas etc., continuam a ser, ad infinitum, simbolizados na maior parte das vezes, por personagens e atores do perfil étnico hegemônico.

Na literatura, entre a mais recente exceção à regra – Paulo Lins – e a última já se vão mais de um século. Antes de Cidade de Deus, a última foi aquela que narrava a pungente dicotomia entre a luz e a escuridão, representada pelo simbólico conflito ideológico latente, na obra de dois de nossos maiores escritores, ambos negros: Machado de Assis, aquele que ascendeu na sociedade branca tornando literariamente invisível, de forma brilhante, sua própria negritude, e Lima Barreto, aquele que, ao contrário, morreu louco tentando iluminar, de forma não menos brilhante, a sua (e a nossa) própria condição racial e suburbana, em emocionados romances.

E é nesta angustiante dicotomia, entre a luz e a sombra, que vai vivendo a nossa vacilante, vadia e, por isto mesmo, tão cinematográfica alma brasileira.

(Uma confortável cadeira será necessária para assistir um pouco mais deste drama no take 2 desta história meio 'film noir'. Desliguem os celulares, por favor)


Spírito Santo

(Parcialmente publicado em O Observatório da Imprensa em 14/05/2003)

Veja isto!: Uma campanha do bem

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Saramar
 

De início (porque li aos pedaços, indo e voltando, lá longe e aqui) só posso me impressionar com a atualidade desse ensaio (?).
Triste constatação de que tudo o que você analisou demonstrou não sofreu nenhuma mudança.
E sofrerá?

beijos, volto depois de fazer melhor leitura.

Saramar · Goiânia, GO 4/12/2007 01:16
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Spírito Santo
 

Galera,
Aviso importante:
Este 'take 1', na verdade, é uma partição sugerida pelo JOca Oeiras de um post que era único. Ficou bacana assim, em duas partes, mas, eu, num lapso comum, na hora de reeditar deixei o 'take 2' na frente da fila de edição. A carroça na frente dos burros. Nada que os intelingentes clicks de mouse dos colegas, na hora de ler, não resolverão.

Sorry

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 4/12/2007 09:51
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Tom Damatta
 

Spírito. Confesso que ainda não conhecia teu texto. Os resgates em P&B, a edição gráfica caprichosa explindo aqui na minha tela, tudo digno de uma impressão, como costumo fazer com as coisas que me prendem desde o começo. Gostei do já manjado Machado. Não só pela sacada, mas também pela sonoridade. Massa mesmo!!!

Tom Damatta · Araguaína, TO 4/12/2007 20:01
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Spírito Santo
 

Tom,
Quando eu era garoto, na escola, via sempre a cara do Machado de Assis, assim 'normal', branquinha como a do José de Alencar, a do Olavo Bilac e não achava nada demais. Quando os caras do Mov. Negro nos anos 70 me provaram (com esta foto do Marc Ferrez) que o cara era 'negão', tomei um susto sem tamanho: Como assim? O maior literato do Brasil era 'negão'? Existe escritor 'negão'?
Criança sofre...

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 5/12/2007 06:24
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Tom Damatta
 

rsrsrs... E fotógrafo negão?
Tá vendo esse braço em P&B?

Pois é Spírito.
Sei que você entende.
Mas muitos não vão entender.

Além de negro, poeta da imagem que se capta com luz e sombra. Assim mesmo, preto no branco, ou branco no preto, ou como o leitor preferir. Espoletado, sim, mas de alma leve e coração puro, como um menino

Criança sofre...

Tom Damatta · Araguaína, TO 5/12/2007 09:51
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Spírito Santo
 

Grande e preto Tom!
Congratulemo-nos então(em todos os tons)

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 5/12/2007 10:09
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Tom Damatta
 

Amém, Spírito.

Aproveito que voltei para colar aqui o acabo de deixar num perfil do NOSSO SÍTIO. É que preocupa-me o fato de os vendavais que quebraram aquela taça ainda rondarem a cabeça de uns e outros, apesar da bonança que já reina por aqui, com as novas manhãs que estão chegando:

Todos nós somos num ou noutro momento espoletados, sobretudo quando está em jogo uma coisa tão elementar e pessoal como OPINIÃO.

Nós, que somos tantos, de tantos lugares diferentes neste Overmundo, que pensamos e nos manifestamos de modos tão divergentes, temos mais é que aprender, de alma leve, como meninos e meninas.

Eu quero seguir com todos os de sangue bom da comunidade na longa viagem. Se sou um vagão com dano, quero ir para a oficina.
Não quero pesar para as locomotivas.
Quero estar engraxadinho.


Adeus ano velho!

Tom Damatta · Araguaína, TO 5/12/2007 10:20
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Spírito Santo
 

Engraxadinho estás, caro Tom. Estás sendo bom engraxate também, mas, convenhamos...aja graxa.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/12/2007 06:59
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Rinaldo Santos Teixeira
 

Caro Spírito, sinto em seu texto derme e epiderme como às de Joel Zito Araújo, de Noel dos Santos Carvalho, de Abdias do Nascimento, assim como o apetite justo de um Robert Stam, de um Donald Boogle mais o levantamento preciso de João Carlos Rodrigues, porém, em linhas de pedra, cada palavra uma pedrada, no fim um muro a ser quebrado. Valeu a contruibuição!

Rinaldo Santos Teixeira · Campo Belo, MG 6/12/2007 12:42
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Juliaura
 

Spirito, querido, amado, idolatrado, salve, salve.
Estou de pé, num pé só feito uma Saci, aplaudindo e cachimbando teus teiquis.
Inda não li tudim pruque tô de Kuduro... sem banda larga, quero dizer. Mas lerei.
E...
Vou dizer...
Vou dizer...
Vou dizer, sim:
Já gostei de botão e...
e...
e...
Votei.

beijin di sarará, Saravá!

Juliaura · Porto Alegre, RS 6/12/2007 14:44
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Spírito Santo
 

rinaldo,

É a desconstrução do muro. Pedras-cabeças duras pra caramba. Cimentado com a argamassa antiga deste mundo. Se até o muro de Berlin caiu...

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/12/2007 19:14
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Lili_Beth*
 

Olá Spírito Santo:

Que trabalho maravilhoso esse teu. Estive viajando pelos caminhos que tu percorreste. Mas penso que não são respeitadas as diferenças sejam elas quais forem. Desrespeitar o ser_Ser é uma catástrofe.
Guardarei o teu trabalho para lê-lo outras vezes.
Vou ler o take 2.
PARABÉNS!

Beijos_Meus*
*

Lili_Beth* · Rio de Janeiro, RJ 6/12/2007 19:40
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Spírito Santo
 

Lili_Beth,

Brigadu!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/12/2007 20:24
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Spírito Santo
 

Galera,

Pra facilitar a visita, permitam-me linkar o TAKE 2 aqui.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 6/12/2007 20:26
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Mansur
 

Demorei mas cheguei. Grande Spirito, sua lucidez me encanta. Essas questões me movem. Mas peraí, vou comentar daqui a pouco, tô indo para o take 2. Pipoca, por favor.

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 7/12/2007 12:45
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Spírito Santo
 

Mansur,

Então vá. Depois volta. Vou lá mandar um recado para ti (sem álcool, claro)

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 7/12/2007 13:14
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Andre Pessego
 

Meu Caro Spirito Santo, e também aos que deram contribuição importante com seus comentários.
"No Brasil só o negro luta, só o negro lutou. Não se conhece na História do Brasil luta desencadeada pelo pobre não negro". Decio Freitas. Depois de vasculhar movimentos sociais no Brasil, e na abertura de "Palmares".
E a vida do negro no Brasil, sua História "terá de ser suprida pelas análises e dados fornecidos pelos seus mais encarniçados inimigos" De Rocha Pomba, 1900 a Décio de Freitas, 1978, passando por todos os que ao assunto se dedicaram.
Toda a História da pessoa negra, da África, regiões que a recebeu, só começa a ser examinada e contada já no II quartel do Séc. XX. Mesmo a História do Haiti não saiu dos quarteis, das clausuras cristãs e das gavetas dos corpos diplomáticos.
Ainda hoje dos milhares de textos da biografia de Napoleão não consta a derrota para o Haiti.
Da biografia do Duque de Caxias, Patrono do Exercito Brasileiro, não consta as centenas de negros que ele matou extamente em Caxias. E os matou depois de aprisionados. Amarrados.
Constou entre os instimos que Nina Rodrigues escreveu
muito do que escreveu, para poder ser lido, e que os Africanos de Nina foi publicado mais de 10 anos de sua morte, que ele quisera antes mudar muito. Mas não consta que o a expressão
"nao podemos tratar igualmente os desiguais" de Nina Rodrigues
e se referia extamente ao negro. Pedindo que no primeiro Codigo Civil constasse "Já que o negro foi alijado por séculos, que por outros sejam tratados com vantagens para cima", (não sei se literalmente é assim).
Tudo isto, não queiramos tratar sem dar nomes ao bois.
Precisamos sim, cobrar de uma única figura: Forças Armadas
Brasileiras.
O dia que no Exercito tiver acima de 25% de oficiais generais negros. Todos quererão aceitarão o sentido da igualdade real. E que não precisa pssar pelo bolso de um ou de outro. Cada um com o seu bolso.
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 7/12/2007 15:01
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victorvapf
 

Spirito eu comentei votei, repito a gora porque nao saiu!!! Parabens amigo

victorvapf · Belo Horizonte, MG 7/12/2007 15:25
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Mansur
 

Meu comentário está no take 2.

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 7/12/2007 15:51
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Guto Mello
 

Bom texto !!!

Guto Mello · Niterói, RJ 7/12/2007 16:24
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