Cinema na bagagem

Ratão Diniz
Alunos têm aulas de Fotografia no projeto Revelando os Brasis.
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Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ
14/7/2008 · 170 · 9
 

Que tipo de aula reúne em uma sala do Rio de Janeiro uma dona-de-casa de 55 anos, um estudante de Letras de 21, um professor de Matemática de 39, um funcionário dos Correios de 27, um secretário de escola de 34, um ator e diretor de teatro de 23 e um outro estudante, agora de Comunicação Social, de 26? Difícil? E se eu disser que todos são de cidades do Brasil com até 20 mil habitantes, ajuda?

Quem acompanha o Overmundo talvez já saiba a resposta. Trata-se do Revelando os Brasis Ano III – projeto do Ministério da Cultura que viabiliza a produção de vídeos digitais a partir de histórias escritas por moradores de municípios com até 20 mil. Segundo o IBGE, o país possui 5.568 municípios, dos quais 4.006 têm até 20 mil habitantes. Ou seja, longe de representarem lugares distantes e de exceção, estas pessoas de sotaque, pele, gestos e idéias tão diferentes falam em nome da paisagem da maioria do país.

No dia 24 de junho, os 40 escolhidos pelo Revelando iniciaram o curso de duas semanas de formação audiovisual, no Rio. Boa parte deles não tinha noção alguma do fazer cinematográfico e descobriu um novo mundo com palavras como diretor, diretor de fotografia, produtor, montador, diretor de produção, roteirista, técnico de som direto... Na mala trouxeram dois aliados: a história pela qual foram selecionados e uma impressionante vontade de aprender.

Aula 1

As turmas foram divididas entre aqueles que contariam suas histórias em ficção e em documentário. Acompanhei duas aulas do pessoal de ficção. Dez alunos que, no primeiro dia, foram apresentados ao cineasta Eduardo Valente, professor que daria o curso de Direção e Roteiro. Com pouco tempo de aula, Eduardo já falava de sinopse, argumento, escaleta, roteiro, roteiro técnico. As primeiras dúvidas surgiam e, rapidamente, aquela “vontade de aprender” ficava explícita. Delmar, de Lençóis (BA), pergunta: “Escaleta é para ter a ordem da narrativa ou de gravação?”. Eduardo pede paciência, aquilo será falado mais tarde. Não satisfeito com a resposta, Delmar insiste: “É que minha história tem muito tempo psicológico, a história vai e volta o tempo todo”. Eduardo pede novamente calma, diz que isso vai ser discutido detalhadamente durante as semanas, e que dali todos voltarão às suas cidades com um roteiro para filmar.

Assim, o professor propõe um exercício: todos leriam o roteiro de Castanho, filme do próprio Eduardo, e depois assistiriam ao filme. No final, uma pergunta: depois de ler a história e ver o curta-metragem, alguém estranhou a adaptação do que estava no papel para a tela?

Adner, de Coimbra (MG), imaginou a trilha sonora diferente. Para Elano, as cenas no spa teriam imagens menos escuras. Delmar perguntou o porquê das roupas antigas na segunda parte do filme. Aprendizado da primeira manhã: cada um tem uma visão própria do filme e tudo em cinema é escolha.

A turma vai para o almoço. Claro que antes de comer fazem as últimas perguntas:

- Qual é a autonomia do diretor de fotografia?

- Para que serve o continuista?

- É necessário usar duas câmeras na filmagem?

Uma semana depois

Aula de Fotografia. O professor Alex Araripe fala intensamente sobre a decupagem das cenas. Ninguém levanta o dedo para perguntar o que é decupagem. Os dez alunos têm seus roteiros nas mãos e, agora, tempo psicológico e tempo real já estão discriminados no papel. O que leva para uma outra etapa da produção cinematográfica e impõe outras tantas dúvidas. Elano, de Mendes (RJ), preocupa-se em como filmar um jogo de futebol. Discute a possibilidade de usar câmera lenta. Sua história, Cachorro Quente Vodu, é sobre uma menina que ao mastigar o sanduíche interfere no resultado de um jogo de futebol. É muita coisa para pensar: “Plano fechado no cachorro quente, será?”. “Como fazer a arquibancada parecer cheia?”. “Como iluminar o ginásio onde o jogo será filmado?”.

Vez de Alan, de Miracema do Tocantins (TO), falar sobre suas questões. O filme dele se passa quase todo num caminhão. Conta a verdadeira história de A Dois Passos do Paraíso, clássico da década de 1980 interpretado pela Blitz. Segundo o rapaz, Evandro Mesquita ouviu o programa de rádio em que Mariposa dedica o seu amor a Arlindo Orlando, um caminhoneiro da região. Daí o famoso trecho da música: Ela nos conta que no dia que seria o dia do dia mais feliz de sua vida Arlindo Orlando, seu noivo.... Pois bem, a questão de Alan é: “Como filmar Arlindo Orlando no caminhão?”. “Pelo espelho retrovisor seria uma solução”. “Mas e à noite, como fazer?”. “Com ajuda dos faróis de outro caminhão, ou até com uma lanterna no colo do ator”, aprende. Depois, volta com um argumento e pontua: “Não sei, quero uma estética meio Cinema, Aspirinas e Urubus, acho que a iluminação terá de ser de outra maneira”.

Agora é Maria, de General Sampaio (CE), quem fala. A história dela descreve ficcionalmente a rotina de sua casa. Canto de pássaros, contato com animais, coaxar dos sapos e conversa com as estrelas. A mulher leva as fotos de como é a locação e, assim, vendo, fica mais fácil entender o caminho da narrativa. Conselho para ela: plano parado, o mundo passa em frente da subjetiva enquanto a lente observa.

Francisco Tadeu, de São Pedro da União (MG), pede a palavra e começa a contar sobre um dos seus maiores dilemas, bem comum, aliás, entre os alunos: como demonstrar a passagem do tempo? No caso do filme dele, que tem como cenário uma barbearia, fica a dica de filmar planos do cabelo acumulando no chão, inseri-los durante a montagem. Assim, de tempos em tempos, o espectador saberia que as horas estão passando. Zito, de Sumé (PB), está envolto com questão parecida. Quer fazer o tempo passar mesclando lua e sol. Todos chegam à conclusão de que o efeito é clichê, e outra solução é proposta: programar a câmera para filmar alguns segundos durante cada hora de toda a noite. Desse modo, na ilha de edição, basta avançar a imagem e se ganha a noite passando num piscar de olhos, com nuvens correndo, estrelas sumindo e o sol nascendo. Truque de cinema.

De alunos a diretores em duas semanas. Essas pessoas voltam às suas cidades com objetivos traçados. Mobilizarão a população local, por certo, para que o filme aconteça. Sofrerão com cada escolha. E, mesmo que o fim ali não seja o de profissionalização, poderão ser chamados de diretores, nem que seja de um filme só. Do Rio, levam de volta na bagagem suas histórias (agora roteirizadas) e a velha vontade de aprender. Mas agora, no coração, carregam o cinema. E isso já basta, seja no Brasil ou numa sala de qualquer lugar do mundo.

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Compulsão Diária
 

Parabéns! Belo projeto para que as diferenças que enriquecem a cultura brasileira enttem em cena e deixem marcas.

Compulsão Diária · São Paulo, SP 13/7/2008 15:03
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MarcilioMedeiros
 

Thiago,
A iniciativa é importantíssima para mostrar a diversidade de perspectivas e realidades e o seu texto relata de forma cativante a experiência da capacitação.
Abs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 13/7/2008 17:24
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Luciana Nabuco
 

Caro Thiago,já dizia Henry Miller que o cinema é a arte de maior possibilidades,infindas,veja você...Eu acredito que esse vício é fantástico,sofredor,sim,como você bem diz,e afinal de contas,é sempre com muita luta que levamos nossos projetos nesse Brasil.e a imagem é um registro eterno.Saudações!

Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ 14/7/2008 12:10
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Natacha Maranhão
 

É lindo demais ver o Revelando revelando tanta coisa por esse nosso Brasilzão, né gente?
Pude acompanhar de perto no ano passado e não esqueço os olhos das pessoas brilhando, a alegria de identificar no filme um e outro conhecido, a emoção de ver sua pequena cidade ali, naquela telona enorme...
lindo, lindo.

Natacha Maranhão · Teresina, PI 14/7/2008 21:27
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Andre Pessego
 

Legal, esta reportagem me levou a "re-visitar" alguns lugares,
e vou ficar de olho na Cultura., TV cultura.
abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 15/7/2008 07:22
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Elano Ribeiro
 

Thiago Camelo, parabéns pelo texto. Parabéns também ao Overmundo, por ser parceiro de um projeto tão bacana. Sinto-me extremamente realizado e feliz por estar participando dessa edição do Revelando os Brasis.
Forte abraço meu amigo.

Elano Ribeiro · Mendes, RJ 16/7/2008 15:57
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Herbeson
 

Show!!

Herbeson · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2008 18:14
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Ilhandarilha
 

Sou super fã do projeto e é ótimo saber que uma nova leva de curtas está vindo por ai. O texto está muito bom, Thiago. Mas olha só, além da parceria já efetivada, não dá pra ter uma parceria na exibição? Adoraria que aqui no overmundo tivéssemos acesso a todas as produções do Revelando os Brasis. Só temos aqui o Brilhantino, do Ériton.
abraços!

Ilhandarilha · Vitória, ES 16/7/2008 22:36
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Thiago Camelo
 

Elano, pra quem não sabe, é o cara aí que estampa a foto que abre o texto. Muito bacana que vc tenha entrado no Overmundo, rapaz...

Ilha, a postagem de algum filme do projeto é a consagração da parceria. É o auge e o maior presente para a comunidade. O que ocorre: esta postagem depende exclusivamente do autor do filme. Não há como forçar ninguém a postar :) Mas é natural que mais filmes sejam postados este ano, com a aproximação cada vez maior do Overmundo com os organizadores do projeto. Abração!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 18/7/2008 14:31
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Eduardo Valente nomeia as funções de uma equipe de cinema. zoom
Eduardo Valente nomeia as funções de uma equipe de cinema.
Um dos 40 selecionados do projeto entende a câmera de vídeo. zoom
Um dos 40 selecionados do projeto entende a câmera de vídeo.
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Discussões de roteiro. zoom
Discussões de roteiro.
Alex Araripe, professor de Fotografia, mostra um enquadramento. zoom
Alex Araripe, professor de Fotografia, mostra um enquadramento.

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