Cinema na Floresta

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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
23/5/2007 · 258 · 8
 

Abrem-se as portas amazônicas para o cinema que raramente chega por aqui. E não estou falando só de Alta Floresta não, sala de cinema é coisa rara em Mato Grosso: dos 148 municípios existentes, apenas 4, eu disse quatro, têm salas para exibição de filmes. A produção audiovisual brasileira morre nas prateleiras do descaso. É sério, muito sério: não existem salas para a exibição de filmes no Brasil (apenas 7% dos municípios). Dura realidade. Realidade de concreto vedando nossos olhares. Vedando a perspectiva mágica de compartilhar uma sessão de filmes numa sala de cinema. Rir e chorar juntos, se emocionar ao lado de nossos pares, participar da catarse coletiva que emana da telona.

Muito legal a iniciativa de tentar impulsionar o audiovisual em Alta Floresta, município que fica a 860 km de Cuiabá. O núcleo Teatro Experimental de Alta Floresta, em parceria com a Cia D' Artes, comandado pelo produtor cultural, ator e diretor Agostinho Bizinoto, que está há 19 anos promovendo ações culturais na cidade ao lado de sua companheira Elisa (que inclusive, por conta desse trabalho, pela dimensão do que foi realizado nesses anos, ocupa o cargo de vereadora), organizou e produziu um evento simples e totalmente eficiente, sem falso glamour, sem pompas nem circunstâncias, tudo muito bem feito e certeiro. Foi importante também o apoio de núcleos atuantes de Cuiabá, como o Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, coletivo A Fábrika e Espaço Cubo, através do movimento audiovisual Próxima Cena.

Estou falando do 1º Festival Cinema na Floresta. O charme ficou por conta da sala de exibição improvisada no teatro da cidade (Teatro Experimental de Alta Floresta), com equipamento de projeção digital acompanhado de um bom som, sessões lotadas no espaço com capacidade para 210 pessoas, com direito a presença agendada para alunos de várias escolas em sessões matutinas (formação de público), uma sala com cadeiras comuns, dessas de plástico, de mesa de bar (cansa um pouco, mas não prejudicou em nada o brilho do evento).

Fiquei matutando, se é barato o sistema digital, está mais que na hora de sair por aí pelos interiores do Brasil projetando filmes em formato dvd (preço irrisório diante da realidade da película), reunindo pessoas para essa comunhão maravilhosa que rola no espaço de exibição pública. Parece que rola um certo preconceito com o sistema digital.

O cineasta e ator Amauri Tangará e a produtora cultural Tati Mendes, da Cia D'Artes, outros dois batalhadores incansáveis pelo desenvolvimento de uma cultura audiovisual nesse Matão, foram os responsáveis pela pesquisa e seleção dos filmes, além da contribuição na concepção do festival.

Brinquei com o Agostinho no início de uma sessão com cerca de 80% da capacidade da sala ocupada: Agostinho, o duro agora será tirar o cinema do povo, as pessoas estão gostando e vão cobrar a continuidade... problema dos bons, não é?

Estou convencido de que salas de cinema com projeção digital podem revolucionar o cinema brasileiro gerando espaços para a circulação da produção brasileira, não só de longas-metragens, mas de curtas, médias, vídeos, enfim, pode ser o início de uma transformação que só será possível quando tivermos audiência e isso não se produz da noite para o dia. Demanda tempo, demanda ações como essas, no meio do matão, na floresta (o que resta de floresta!), nas pequenas cidades espalhadas pelo território brasileiro; o interessante é produzir as condições para que as pessoas possam assistir aos filmes produzidos no país.

Todos sabem dos problemas de distribuição que emperram o desenvolvimento de uma indústria audiovisual forte no Brasil. São controladas por grupos que preferem o lucro fácil e não têm nenhum compromisso com o desenvolvimento de uma indústria nacional autônoma. A lógica é muito simples: se temos uma audiência em potencial de milhões de habitantes torna-se possível atingir essas pessoas com uma programação popular e de qualidade, que seja o retrato da nossa diversidade cultural, que seja a nossa cara. Existe uma enorme receptividade para isso e a nossa produção vem melhorando muito nos últimos tempos.

Além das sessões infantis e mostras competitivas, a organização do festival promoveu um ciclo de palestras e debates dirigidos para impulsionar ou estimular a produção audiovisual local e também para inserir importantes reflexões como o da distribuição de conteúdo criativo e cultural na web – tendo o site Overmundo como foco; discussão para a formação de um cineclube em Alta Floresta e também sobre as perspectivas da produção independente no país.

Aconteceu uma oficina de produção de vídeo, dirigida por Amauri Tangará, em que foram realizados dois vídeos, com direito a exibição no último dia do festival. Foi uma semana agitada em Alta Floresta. Pude sentir o entusiasmo das pessoas e a vontade de agitar o audiovisual na cidade. Empresários, políticos e artistas de vários segmentos prestigiaram o evento.

O impacto na mídia foi outro ponto muito positivo, repercutiu bastante na capital do estado ocupando os principais cadernos de cultura dos jornais de maior circulação de Mato Grosso. Um comentário que ouvi, em tom de chacota, que reflete a mais pura realidade: “Finalmente Alta Floresta foi alvo de reportagens e artigos fora das páginas policiais”. Isso era muito comum no tempo em que a economia do município era dominada pelo garimpo.

Com uma programação simples e adequada a um público que não está habituado a frequentar salas de cinema, as reações foram de aprovação, de entusiasmo, de prazer. Aliás salas de cinema são sempre interessantes pois as emoções acontecem em cadeia o que torna o espaço de exibição um lugar de celebração, catártico, onde os sujeitos podem vivenciar coletivamente a diversidade da experiência humana. Amauri Tangará selecionou os filmes por um viés didático, procurando mostrar as várias faces/fases da produção audiovisual brasileira, passando pelo Cinema Novo (Capovilla), documentários, produção matogrossense, etc.

O vídeo, que Joel Sagardia e eu fizemos, uma adaptação curtíssima da novela homônima “eunóia”, foi exibido na primeira noite competitiva e confesso que fiquei um tanto acanhado, esperando reações adversas de pessoas mais conservadoras que estavam ali. Fiquei meio cabreiro, sei lá...bobagem minha, preconceito bobo. Rolou tudo bem. Tati Mendes, ao convidar o vídeo para o Festival, justificou dizendo que queriam um pouco de transgressão e que nosso trabalho dava esse tom. Achei ótimo.

Não pude ficar em Alta Floresta durante toda a semana, apesar das insistências da organização que nos recebeu muito bem. A palestra que fiz sobre novas mídias e conhecimento colaborativo foi excelente: quanta receptividade, quanto interesse, quanto terreno para fertilizar, quanta gente aberta para coisas novas, fiquei realmente encantado com tamanha animação. Muita gente ali já tinha acessado o Overmundo, fiquei feliz de ver que o site está entrando firmemente pelos nossos interiores geográficos. Não há limites, Overmundo está na floresta!

Prêmio Capivara. Melhor longa: “Narradores de Javé”, de Eliane Caffé; melhor curta: “Comprometendo a atuação”, de Bruno Bini; e melhor vídeo: “Vanguarda Hip Hop” do coletivo Próxima Cena. Desce o pano. Recolhe a telona. Até o próximo festival. Cinema na Floresta veio para ficar.

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Roberto Maxwell
 

Narradores de Jave? Esse festival aconteceu agora?

Roberto Maxwell · Japão , WW 24/5/2007 07:29
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eduardo ferreira
 

sim roberto, aconteceu agora...a programação não está atualizada, mas não é isso o mais importante, se pensar bem, para atualizar, deveria fazer mostras de todo o percurso do cinema brasileiro desde o início, pois continua praticamente tudo inédito. é novo o que foi feito agora, ou o que nunca foi visto?

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 24/5/2007 11:40
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Marcelo V.
 

Entre as grandes desgraças culturais no Brasil estão o baixíssimo número de salas de cinema e de livrarias. Espera-se que, com a tecnologia digital, as pequenas salas se multipliquem (a projeção não será o espetáculo que já foi, mas para quem não tem nada, um pouquinho já é muito).

Aqui em São Paulo está rolando o projeto Popcine, salas digitais pequenas com preços populares. Meu filme mais recente deve entrar em cartaz nestas salas no fim do ano ou no ano que vem.

Marcelo V. · São Paulo, SP 24/5/2007 14:47
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eduardo ferreira
 

concordo totalmente com você marcelo, sucesso para o seu filme!

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 24/5/2007 17:30
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Kadu de Oliveira
 

O evento foi bacana e deixou saudade.
Ano que vem estaremos ai de novo
Valeu Eduardo,todo o pessoal da Editora EGM
manda um abraço para vc, obrigado por prestigiar,
auxiliar e comentar este evento que é um
marco para Alta Floresta.

Kadu de Oliveira · Alta Floresta, MT 24/5/2007 18:08
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eduardo ferreira
 

grande kadu. ano que vem quero ir novamente. parabéns a toda a galera daí. estou finalizando entrevista que fiz com mestre Agostinho, grande batalhador da cultura do mato-amazônico. abração.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 24/5/2007 18:28
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diginois.com.br
 

poxa, que legal essas popcines marcelo, aonde ficam? estou indo a sao paulo semana que vem e adoraria participar dessa experiencia.
Muito legal a iniciativa Eduardo!!!!!!
Ja escrevi um artigo aqui no overmundo que fala disso. Porque nao fazer os filmes nacionais bancados por leis de incentivo serem vendidos em dvd a 1 real por todo brasil? nao veriamos a multiplicacao de "salas de cinema"? Porque ficar insistindo nesse modelo antigo de filme ter que so ir para sala de cinema se ha tao poucas no brasil.

diginois.com.br · Rio de Janeiro, RJ 25/5/2007 13:52
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Marcelo V.
 

Valeu, Eduardo.

Diginois, na capital há duas salas, uma na rua Maria Antonia (perto do cruzamento com a Consolação) e outra na Vila Mariana. Creio que outras 15 ou 20 salas estão surgindo em cidades do interior do Estado. Nelas, passam somente lançamentos que ficam fora dos cinemas mais comerciais (a preços diminutos, como a sala), e também há exibições especiais gratuitas, como a do filme do Sérgio Muniz "Você Também Pode Dar um Presunto Legal", sobre os Esquadrões da Morte nos anos 70.

Marcelo V. · São Paulo, SP 25/5/2007 16:08
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