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Cinema no Forródromo

Ratão Diniz / Imagens do Povo / IMA
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Thiago Paulino · Aracaju, SE
22/6/2007 · 161 · 10
 

O projeto que já passou por 29 cidades e pretende rodar um total de 25 mil quilômetros até dia 27 de julho montou sua tela para revelar alguns Brasis num aconchegante pedaço de Sergipe.

Já é noite quando sigo na minha carona para Canindé do São Francisco (SE). Da capital Aracaju até lá são 213 km. Parte da equipe do Revelando os Brasis já estava na cidade que fica na beira do Rio São Francisco. No meio do caminho pegamos informação precisa com um sujeito degustando seu copo de café na beira de um posto “Tem errada não! Vocês pegam a próxima à direita e seguem sem dó, sem dó mesmo... vão passar por um bocado de cidadezinhas: Glória, Poço Redondo e vão cair lá em Canindé”. Sem dó seguimos então. Uma música não sai da minha cabeça durante grande parte do trajeto. A bela poesia de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga de “Estrada de Canidé” é a trilha sonora mental.

Ainda no meio do trajeto, uma rápida parada no povoado de Cajueiro para pegar informações. O cenário: casa de taipa (barro batido com madeira), mesa de sinuca em jogo disputado, conversa de beira de estrada e, sobre as cabeças, um dos privilégios das localidades pouco iluminadas: o belo teto celeste estrelado. Chegamos a Canindé quase às dez horas da noite. A equipe se divide: Beatriz e Orlando, os dois coordenadores e idealizadores do projeto, vão descansar no hotel; Aécio contador de boas histórias, piloto do caminhão e da equipe de apoio da projeção continua imóvel recuperando seu sono. “Ratão” Diniz (fotógrafo da equipe e simpatia em forma de gente), o bom baiano-paulista Val (da equipe de projeção e apoio) e eu (overmano caroneiro) decidimos dar um volta na cidade e acabamos conhecendo um arraial cheio de histórias.

Dia da Projeção

Começo de manhã nublada, mas o Sol logo aparece. A equipe circula na cidade pela manhã e vai espalhando a notícia da projeção dos curtas à noite. Folhetos do projeto são entregues em pontos de moto táxi, farmácia e no pequeno centro da cidade reforçando o que o carro de som fez alguns dias antes. “A programação da noite vai ser boa. Vamos passar alguns filmes de graça. Terá um sobre o vaqueiro seu Zé Leobino feito por gente aqui de Canindé. Hoje no Forródromo às sete da noite.” Beatriz passa em algumas escolas. Na volta para o hotel descemos umas vielas e flagramos um gostoso banho de riacho. A garotada interrompe a brincadeira no riacho para cercarem o fotógrafo com seus olhares curiosos. As canetas brindes do projeto fazem o maior sucesso, falamos dos filmes que iam ser exibidos a noite. A notícia segue se espalhando. Uma entrevista na Rádio Xingo FM completa o convite às pessoas da região.

A noite de céu limpo, poucas nuvens, chega rápida. Tudo está pronto e instalado num espaço chamado de Forródromo. Uma espécie de pátio montado para as apresentações de bandas, trios de forrós e quadrilhas. Além da bela decoração de bandeiras, uma pequena vila cenográfica foi montada ali: igrejinha, pequenas casas e até um coreto. Aos poucos as pessoas vão chegando de mansinho, não demora para a maioria das cadeiras estarem ocupadas. Pode-se dizer que o vaqueiro Zé Leobino, 83 anos, foi o grande astro da noite e ele estava adorando aquele movimento.

O curta Zé Leobino, 65 anos de Cavalhada de Clésio Vieira dos Santos e José Ventura Lins é um breve relato sobre a vida do vaqueiro que brincava com seus amigos de infância com cavalos de pau e hoje é um dos líderes mais respeitados da cavalhada. Manifestação de origens medievais em que dois grupos de cavaleiros disputam para acertar suas lanças em pequenas argolas. Isso tudo ao som de uma banda de pífano (flautas de taboca). Geralmente a brincadeira acontece entre o Natal e os dias dos Santos Reis (primeira semana de janeiro). Hoje graças à dedicação de alguns mestres como seu Zé Leobino a cavalhada é uma celebração entre vaqueiros da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco. Na abertura da seção algumas palavras sobre o projeto, a dupla de repentistas Vem-vem e João Bezerra improvisaram alguns versos. Mas as atenções estavam voltadas mesmo para o mestre da cavalhada. Mal pegou no microfone recebeu as palmas do público e alguém da platéia soltou um grito “Esse é o Zé Leó!”. O velho vaqueiro era só simpatia, com seu colete e chapéu de couro. Recitou seus versos, concedeu entrevista e deu risada ao se ver na tela do cinema. Isso, inclusive faz parte de um dos grandes méritos do Revelando os Brasis – o reconhecimento das diversas vidas, modos de encarar o mundo na tela do cinema. Além de buscar facetas desconhecidas desse país-continente, o projeto possibilita ao povo reconhecer-se protagonista de produções culturais. Ver vizinhos e pessoas conhecidas é também uma diversão a parte, pois a mostra está passando nas pequenas cidades dos próprios realizadores.

Do atento público de aproximadamente 600 pessoas teve gente que riu da agilidade do protagonista velho ao subir na jaqueira e se deixou conquistar pela sua figura humana em Brinlhatino de Ériton Bernardes (Muqui –ES); houve aqueles que se impressionaram com o café feito no meio da caatinga em Tropeiros de Artur Gomes dos Santos (Carnaubeira da Penha-PE); teve quem acompanhou a aflição e os passos rápidos de um menino em Nelson de Thales Gomes(Capela-AL) ou navegou junto com os barcos em Borboletade Vicentina Lyra (Piaçabuçu-AL). Aos poucos o poder do áudio-visual foi conquistando e trazendo histórias distantes e ao mesmo tempo tão próximas a Canindé. Passando na tela essas histórias para jovens que nunca tinham entrado em um cinema, como Cleidiane de 16 anos:“achei uma noite muito interessante porque eu não sabia a história de seu Zé Leobino, gostei muito dos Tropeiros e daquele sobre um senhor [Brilhantino] muito bonita história dele.”

A caravana Revelendo Os Brasis encerra mais uma noite de projeção e segue para Alagoas, subindo e adentrando os brasis. E em breve algum outro overmano pega mais uma carona pra contar mais histórias e trazer novos olhares.

(...)

Rápida Conversa com Zé Leó (sua simpatia concedeu esta pequena intimidade).

Só para registrar qual a idade do senhor?

Minha idade. Eu nasci no dia 28 de fevereiro de 1924, então eu estou com 83 anos, né? Agora eu não fico velho. Eu sou o amor e o amor não envelhece [risos].

O que o senhor achou desta noite?

Para mim não sei onde estou, parece que estou no céu.Não ganhei nada, não ganho nada, mas ganhei uma fama e minha afama é do gibão. Que eu nasci pegando gado. Agora tem uma coisa! Desde quando Adailto da Silva Melo [um dos idealizadores do curta] me convidou eu nunca andava em escola não, mas eu gostava de ver aquela literatura de cordel.

Como foi a viagem para o Rio de Janeiro?

Foi uma beleza. Peguei um vôo em Aracaju gostei da viagem de avião.

Como foi a viagem de avião?

Uma coisa linda, rapaz! É melhor do que estar em casa dormindo!É... o avião quando sai faz aquela zuadinha na pista, né?Depois que sobe acabou-se...pronto. Eu gostei demais.

É verdade que o senhor conheceu de Lampião(1)? O senhor tem lembrança dessa época?

Lembro sim. Em 32 ele chegou aqui em Canindé eu tinha 7 anos. Eu ia para as fazendas, né? O emprego que tinha era na vaquearia [emprego de vaqueiro cuidando do gado]. O bando dele passava pela cidade e bonito era o arreio. O arreio do cangaceiro era um arreio que ninguém tem não. Era bonito demais, hômi! Então eu tinha a vocação não para ser cangaceiro, mas para ser vaqueiro e para a cavalhada que eu fiz [durante] 65 anos. Já corri em muitos cantos. Porque dois cangaceiros chegando na cidade acabam com tudo. Só dá boniteza. Eles chegam de duas formas: pelo medo e a boniteza.

-Para o senhor o que é melhor na cavalhada, por que ela é boa?

A cavalhada é boa, porque é o divertimento que não tem briga, não tem cachaça. Todo mundo gosta da cavalhada. Somos doze cavaleiros e todo mundo gosta deles.

-Para encerrar que tal uns versos de sua autoria?

Onde há vida há esperança
Tirada do desespero
Vou fazer um paradeiro
Esperada pelo momento
Vê se sai o sofrimento
Que sinto na minha vida
Passará uma ferida
Que tenho no coração
A dor que meu peito sente
É a dor da separação

(...)

____
(1) Lampião morreu na Grota de Angicos que fica em Piranhas (AL), vizinho a Canindé em uma emboscada. Quando vivo seu bando costumava fazer constantes saques a cidades da região.

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Ilhandarilha
 

Lindo, lindo, Thiago. Apenas um acertinho na legenda a foto da sinuca e seu texto tá perfeito. Abraços!

Ilhandarilha · Vitória, ES 19/6/2007 21:03
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Thiago Paulino
 

Valeu duplo Ilha! Pelo elogio e pela correção!
Abração!

Thiago Paulino · Aracaju, SE 19/6/2007 23:07
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Professor Paulino
 

O relato Cinema no forróramo nos dá a dimensão da importância do projeto Revelando os Barasis. Neste Brasil de tantos Zés passamos a conhecer seu Zé Leobino, personagen importante daquela região. Somente viajando por este Brasil a dentro como fez Guimarães Rosa é que podemos conhecer a riqueza do povo sertanejo. Parabéns!

Professor Paulino · Aracaju, SE 20/6/2007 23:28
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Alejandro Zambrana
 

O texto ficou bem bacana!
A entrevista com o sr Leobino é bem enriquecedor.
Parabéns!

Alejandro Zambrana · Aracaju, SE 21/6/2007 01:09
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Thiago Paulino
 

Professor e Alejandro sejam bem vindos.. realmente afigura de seu Zé Leobino é de uma simpatía e humanidade ímpar.. tentei colocar aqui o arquivo de MP3 com ele recitando alguns versos mas infelizmente não consegui.. Obrigado pelos elogios1

Thiago Paulino · Aracaju, SE 21/6/2007 01:17
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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

Ótimo texto, Thiago. A figura do Zé Leobino deve ser realmente incrível.

Abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 22/6/2007 09:54
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diginois.com.br
 

esse projeto eh realmente incrivel! parabens por mais uma cobertura!

diginois.com.br · Rio de Janeiro, RJ 22/6/2007 10:52
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linney
 

Bela reportagem.
Belas fotos.
Um encanto o sorriso da Grace!

linney · Canoas, RS 22/6/2007 14:04
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Isabela ramos
 

adorei!! parabéns Thyago!

Isabela ramos · Teresina, PI 22/6/2007 18:05
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Ériton Berçaco
 

Thiago,
só hj estou lendo essa sua cobertura. Li alguns textos na época do Circuito de Exibição nas cidades, mas este ainda não havia lido. Excelente cobertura! Fiquei muito emocionado em ver q Brilhantino deu o ar da sua graça por aí. Ele é mesmo um homem encantador.
Gde abraço!

Ériton Berçaco · Muqui, ES 19/6/2008 00:28
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Sinuca disputada, povodo de Cajueiro (SE) zoom
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Ivan, 10, dando umas braçadas no riacho zoom
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