O cenário é inusitado. Não pela grandeza de inovações estéticas, mas exatamente pela simplicidade dos elementos essenciais de composição do espaço. No Plano Geral: uma vila de pescadores, localizada à beira das lagoas, rios e praias do segundo menor Estado do país em extensão, mas não em magnitude. Close: nos rostos atentos de crianças, jovens, adultos e idosos, uma espécie de encantamento instantâneo, provocado pela multiplicidade de imagens, sons e idéias projetadas em uma velha conhecida: a vela de jangada. É esse o suporte não-convencional escolhido pelo cineasta e cineclubista (adjetivo que faz questão de ressaltar: faz parte de sua personalidade) Hermano Figueredo para a retomada de seus projetos de democratização das produções nacionais.
As projeções acontecem para um público que, em condições normais, não têm o cinema como fonte de diversão. A iniciativa recebeu o inspirador nome de Acenda uma Vela, e está sendo desenvolvida através da ONG Ideário, recebendo o apoio do Ministério da Cultura. O nome do projeto tem ainda inspiração na frase de Confúcio "mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão". Ou seja, não adianta apenas vociferar contra os problemas na produção, distribuição e exibição de filmes no País. É preciso, antes disso, buscar caminhos para se contrapor a esta realidade.
O reinício de um trabalho de projeção para populações carentes aconteceu no fim do ano passado e foi concluído em fevereiro, com uma exibição para mais de 200 pessoas no Posto Sete, praia de Jatiúca, em Maceió. Mas as atividades de cinema itinerante não param aí: a Ideário já está em busca de novos incentivos, apresentando a experiência bem-sucedida. Tampouco a proposta é novidade no currículo de Hermano. Desde 1987, em Natal, no Rio Grande do Norte, foca suas ações no cinema itinerante. Em Maceió, tudo começou em 1999. Mais recentemente, um projeto de extensão na Universidade Federal de Alagoas, o Olhar e Ver, garantia que as comunidades carentes próximas ao Campus A.C Simões pudessem conferir os curtas e longas-metragens disponibilizados pela Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), da qual Hermano é diretor de relações institucionais. "O Acenda uma Vela nasceu como um alevino na esteira de uma atividade à qual venho me dedicando há quase 20 anos, desde as minhas primeiras exibições performáticas como cineclubista", conta o cineasta. Em Maceió, o projeto teve início no fim do ano passado, mas a experiência aconteceu antes no litoral cearense, de 1995 a 1997.
A utilização da vela de jangada nasceu da busca de um suporte que tenha um significado, uma representação cultural para os espectadores. "Na verdade, venho incorporando provocações, e procurando simbologias para meu trabalho. Quando as pessoas começaram a falar que cinema desta forma não era mais viável, que o grande lance era a internet, a rede mundial de computadores, por exemplo, passei a exibir os filmes em uma rede de dormir. A rede é algo antigo para os moradores", brinca Hermano. Tudo começou quando, em uma dessas exibições, uma moradora questionou seu trabalho, alegando que as crianças precisavam de comida, não de filmes. A resposta foi imediata: iniciou a projeção na barriga de um menino. "As mudanças são culturais por excelência e políticas por decorrência", sentencia.
Assim, a proposta é aliar a poesia simbólica do próprio ato de projeção com as possibilidades da atitude cinematográfica: os espectadores interagem com o momento; e o momento, com a cultura da comunidade. Para Hermano, tudo isso tem uma razão muito simples de existir: possibilitar a seres humanos sem acesso aos filmes que não são transmitidos via TV a chance de conferir a produção nacional, que, diga-se de passagem, ainda tem pouco espaço nos cinemas brasileiros. "É um contra-senso muito grande: nunca se produziu tanto no País, mas cada vez menos filmes chegam ao grande público. Em dois anos, foram mais de 100 produções, mas só 20 foram lançadas comercialmente", revolta-se. As alfinetadas vão, em especial, para a cultura dos filmes nos moldes da indústria cinematográfica e a redução das salas de cinema aos ambientes de shopping-centers. Mas as saídas apontadas, ao menos como formas de se contrapor a esta realidade, estão, ao seu ver, na multiplicação de cineclubes e nas ABDs espalhadas pelo País.
"Este trabalho que fazemos aqui em Alagoas é um indicativo. Ele mostra para as pessoas que há, sim, um grande público para o cinema no Brasil, e que este público está marginalizado. Jacaré dos Homens, Pirimpirim, Xexéu, mais do que nomes exóticos, são lugares onde há pessoas ávidas por cultura, pessoas que indiretamente financiam a produção de filmes e que não tem dinheiro para pegar dois ou mais ônibus e pagar ingressos para ir ao cinema. O acesso ao cinema é um direito e um desejo", diz, ressaltando a importância do apoio do Ministério da Cultura nessa sua empreitada. "Atualmente, só temos o apoio do MinC para desenvolver nosso trabalho. Não há lei municipal e estadual para a cultura por aqui. Em contraposição a isso, estamos produzindo cada vez mais em Alagoas. Isso não é apenas um desabafo, mas um convite para que os órgãos públicos abram os olhos para a importância da cultura alagoana", diz.
Luzes, câmera, projeção!
A afirmativa de que o público para o cinema nacional existe fica claro quando se acompanha iniciativas como a da Ideário. Quando Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) defendia a importância da produção cinematográfica brasileira, afirmando que o pior filme nacional nos diz mais que o melhor estrangeiro, implicitamente também evidenciava uma constatação: o povo brasileiro gosta de se ver representado nas telas. E era exatamente isso que acontecia na Massagueira, localizada às margens da Lagoa Manguaba, em Marechal Deodoro, na primeira quinta-feira deste ano de 2006. Era também a primeira vez que a comunidade recebia a equipe da Ideário para assistir à exibição de filmes. Mais do que um lugar onde se encontra um complexo gastronômico, o local é residência de centenas de pessoas que têm na pesca sua fonte de subsistência.
A divulgação foi feita através de panfletos e na propaganda boca-a-boca. Em frente à igreja Divina Pastora, o espaço ideal. Crianças brincavam e os moradores se espalhavam pelo local, acomodando-se nas calçadas ou nos batentes. Na tela, ou melhor, na vela, dois curtas mineiros, um deles, Negócio fechado, dirigido por Rodrigo Costa, arranca risos da platéia. Antes da exibição, Hermano exibe seus dotes narradores, explica do que se trata o filme, vencedor de inúmeros prêmios (Escolha do Público no Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2001, Prêmio Especial de Roteiro /ABD-RJ no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2001, Melhor Roteiro no Festival de Curitiba 2002, entre outros). Em seguida, apresenta seu filme, um média-metragem de quase 50 minutos, intitulado Mirante Mercado. A película registra a alma de trabalhadores informais alagoanos, que têm na criatividade a sua arma para a sobrevivência.
E foi justamente o filme assinado pelo exibidor que mais encantou Jorge Vitorino, 63 anos, pescador e morador de Massagueira. "Eu nunca tinha visto esse tipo de coisa, não", relata, ao ser questionado sobre o que havia achado da apresentação dos filmes na vela da jangada. "Tudo muito bonito. Gostei de todos os filmes. O nosso, alagoano, então, é uma beleza, não sei se é porque é nosso, mas é bom a gente ver nosso povo, né? Tudo o que eles disseram no filme é muito bonito e certo. É a batalha da vida, porque a vida é assim, e a gente dá o melhor pra ela", diz, avaliando o depoimento dos personagens. Apesar de gostar de filmes, seu Jorge Vitorino não vai ao cinema há muito tempo. Sua diversão é assistir a TV, especialmente jornais e humorísticos. Ficou sabendo da exibição na pracinha através do filho. "Então eu vim ver. Gosto de ver tudo e depois contar o que vi", finaliza, mostrando outro dote além da pescaria: o de contador de histórias.
Mesmo sem a experiência de vida de Seu Jorge, Leonel Gomes dos Passos, 10 anos, também assistiu atento a todos os filmes, diferentemente da maioria das crianças do local, que brincavam aguardando a hora dos infantis. Trazido pelo avô Ponciano, diz ter gostado muito dos curtas-metragens. "Só tinha visto filme no cinema e na TV, mas assim também é muito bom. Se tiver de novo, eu volto", entusiasma-se o garoto, que também mora na Massagueira. Apesar de adorar as produções cinematográficas, Leonel confirma as estatísticas: quase não vai ao cinema e vê TV todos os dias, até mais de meia-noite. Mais do que quebrar a rotina dessas crianças, adultos e senhores, o Acenda uma Vela mostra tanto aos que participam quanto aos que olham de fora que a realidade brasileira é muito mais plural do que se imagina. E que isso não é apenas um discurso, mas um retrato de uma sociedade que anseia por outras possibilidades. Seja no cinema, na música, nas artes cênicas ou visuais. E criatividade não falta para produzir. Nem para divulgar essa produção. Prova disso foi o aceno de um dos espectadores para esta que vos escreve (e que estava lá somente para registrar o ocorrido): "A gente gostou muito, viu? Parabéns! Da próxima vez, avise a gente para avisar o pessoal". Pois é, Massagueira já está de braços abertos, para que outros espectadores e admiradores possam surgir, outras velas possam se acender e outros olhos possam brilhar com tudo aquilo que não passa na tela da TV. E que assim seja.
Quem é Hermano Figueredo
Hermano Figueredo é um pernambucano nascido em Campina Grande-PB, que se considera "mais alagoano que o pé de pau da praça Rayol" (referindo-se à árvore centenária localizada no bairro do Jaraguá, em Maceió). Sua história com o cinema vem desde menino, mas foi na década de 70 que iniciou um trabalho não-mercadológico com o sétima arte, organizando exibições de filmes no Cine Teatro do Parque e no Cine Art Palácio, em Recife. Embrenhou-se pelos caminhos do teatro, mas trocou-o pelo cinema. Aliás, trocou, não. A veia teatral (e a paixão pelo que faz) se revela em uma simples apresentação de filme, o que lhe valeu o adjetivo de "cineclubático-performático" no meio cinematográfico. "Queria compartilhar com outros os filmes que queria ver", simplifica. Em 1978, no Cine Teatro do Parque, anunciou O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, mas lá o público teve uma surpresa: era Encouraçado Potekim, de Sergei Eisenstein, proibido pela ditadura brasileira, que seria exibido.
Na década de 80, continuou sua peregrinação pelo cineclubismo, tornando-se uma das lideranças nacionais. Para ele, um filme sempre era mais do que uma projeção: era um espetáculo, uma possibilidade de ação social. O cinema itinerante invadiu grotas, vilas, favelas e bairros da periferia de cidades como Campina Grande, Maceió, Fortaleza e Natal. Hermano acabou revelando sua paixão também detrás das câmaras, em produções como São Luís Caleidoscópio, sobre a cultura popular do Maranhão; Choveu, e daí?, relatando experiências de convivência com o semi-árido alagoano e O que vale no Vale, que aborda o cooperativismo no Vale da Paraíba. Recentemente, lançou A última feira, retratando o derradeiro dia de funcionamento da histórica feira de Arapiraca, já cantada por Hermeto Pascoal. O curta, de 17 minutos, já foi premiado no Festival de São Carlos e exibido no Festival de Tiradentes.
O convite para participar do Festival de Cinema de Maceió pela então prefeita Kátia Born acabou aproximando-o ainda mais de terra, onde acabou se fixando, em 1998 ("Apesar do festival praticamente não ter existido", denuncia). Mirante Mercado, seu penúltimo filme, é uma declaração de amor à cidade. Não uma declaração formal e simples, ressaltando suas belezas naturais, mas ao seu povo. "Existem inúmeras Bahias, São Paulos, Alagoas. Você escolhe que Estado, que País você quer ver. Eu escolhi a Alagoas de um povo forte, criativo, belo", conta.
No filme, Hermano colhe depoimentos de pessoas que nunca chegaram a ter uma carteira de trabalho. Mirante Mercado era um nome de uma antiga linha de ônibus em Maceió, mas é também uma contraposição: mirante representa beleza, sonho; enquanto que mercado dá a idéia de trabalho, de luta pela sobrevivência. Na tela, personagens inusitados: poeta de feira, amolador de tesoura, vendedor de veneno, um carroceiro que se intitula o homem-motor-sem destino, o vendedor de amendoim que, com sua lábia peculiar vende produtos "diet, light e kuat" e diz que não "nasceu para ser mais um". Hermano também não. E assim segue, revelando os Brasis dentro de Alagoas e do Brasil.
O Hermano é mesmo uma figura. Eu acho que a história dele com as velas de jangada tem a ver com os causos que ele conta - parece pescador - mas brincadeiras à parte, eu gostaria de acrescentar que o trabalho da ideário é mesmo muito rico, tendo à frente a Regina Célia Barbosa, mulher do Hermano, que é uma ótima profissional da cultura alagoana. parabéns.
Pois é, a Ideário é mesmo uma referência aqui em Alagoas (o Ponto de Cultura consta como dica no guia das cidades) e a Regina também desenvolve um trabalho maravilhoso na área de literatura (o Letra Viva). Em breve devo falar um pouco sobre isso.
Tati Magalhães · Maceió, AL 10/3/2006 20:53
Tati, que linda matéria!!!!
Parabéns pra você. E um grande abraço no querido Hermano, que não tenho contato há tempos mas que nunca deixo de lembrar por seu talento, criatividade e sensatez. Um grande ser humano.
abraços!!!
Só para informar a quem ler esta matéria e se empolgar com o projeto. Acabou o patrocínio do Minc, mas o Acenda uma vela foi selecionado pelo Banco do Nordeste. Ou seja, a magia continua...
Tati Magalhães · Maceió, AL 13/5/2006 19:15
Tati! que lindo tudo isso, os depoimentos das pessoas na Massagueira, quanta poesia em seu texto, parabéns, brilhante mesmo!
Que texto bom Tati. Inspirador...
E fiquei absolutamente tocada com essa coisa de exibir filme na rede, e na barriga do menino. Vou citar sempre esses fatos quando vierem me falar sobre o verdadeiro cinema brasileiro.
Parabéns a tu e ao povo da Ideário pelo projeto que, ainda bem, continua.
Conheci o Hermano através de Gerson Guimarães, meu amigo, e fiquei muito satisfeito pela simplicidade desse grande cineasta.
Entusiasmado, apaixonado, inspirado, ah!, Hermano não desiste nunca e Regina, sua companheira, sabe muito bem o quanto esse rapaz se dedica.
Valeu Tati. Grande dica.
Eu tenho algumas imagens do encerramento do Projeto no ano passado. Depois postarei por aqui.
GSousa Jr · Maceió, AL 13/8/2007 19:30Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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