Diferente de todos esses filmes medíocres que não acrescentam nada na vida das pessoas, o documentário Estamira de Marcos Prado chega com um toque singular e reflexivo. É possível ter dignidade mesmo quando se vive num “lixão”? O que é insano e o que é razão quando o que se tem para comer são restos podres e mofados? Quem é Deus nesse mundo tão cruel e hipócrita? Essas indagações fazem parte do imaginário do documentário vencedor de 23 prêmios, entre eles nacionais e internacionais.
O cenário é no Aterro Sanitário do Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, Rio de Janeiro, lá por dia mais de oito mil toneladas de lixo são jogadas nos mais de 1.200.000 metros quadrados. Uma situação deplorável que mistura humanos com animais carniceiros, e os dois buscam a mesma coisa: sobreviver.
Apesar do vídeo ter só sonoras, não dá aquela vontade de ir embora do cinema. Pelo contrário, instiga – se ainda mais a cada cena. O filme é bem singular, corajoso e com uma linguagem muito própria. Ausente de qualquer “estrelismo” de diretor.
O filme é livre, entra fielmente como um observador do cotidiano, da vida, do pensamento e do comportamento daquela senhora revoltosa, doente, louca e cheia de tormentos e crenças. E mostra a realidade “assim como ela é”, sem maquiagem ou panos quentes. Escancara a opinião de uma mulher que para muitos é apenas uma pobre coitada, com problemas mentais e que não presta para nada. E que na realidade, é tudo ao contrário.
Não é possível classificar o filme facilmente ou colocar rótulos ou estereótipos. Cada cena nos convida a entrar ainda mais naquele mundo varrido de Estamira, e a cada passo entendemos os motivos que levaram uma senhora de 63 anos, estar há 20, vivendo no lixão. Sim, por que para ela, estar no aterro todo dia é um emprego como qualquer outro. É dali que ela tira o que comer, o que vestir, a decoração de sua casa. E todo o resto. Ali ela tem amigos de trabalho e até possíveis maridos.
O filme tem vários sentidos... Cada um deles bem complexos que nos transmitem divergentes sensações. Realmente, Marcos Prado não teve medo de arriscar e explorou muito bem cada cena. A construção do filme é tão bem elaborada e tão sólida que mesmo a cena mais bizarra não nos remete a pensar coisas do tipo: coitada ou que tolice!.
Estamira é por si superior. Em nenhum momento o filme nos passa essa sensação de dó e piedade. Mas sim, o de indignação e horror pelo que acontece com inúmeras pessoas no mundo inteiro que não tem a mínima condição de viver dignamente.
O filme pode não ter nada disso. Mas Estamira está nos cinemas nacionais e internacionais, e uma vez vista, fica a sensação de que estas imagens e a dialética não tem nada de insano. Pelo contrário, como diz o determinado trocadilo. “Tão simples né?”.
Danielle,
a colaboração está bacana, bem escrita e com fotos legais retidada do filme. Porém, existe um fato que você não tocou e que nas universidades hum ano atrás foi bem discutido e principalmente nas aulas de ética, que é a forma como o produtor tratou a imagem da Estamira.
Na edição do filme ele poderia ter protegido mais a imagem dessa pessoa que tem problemas mentais e que em seu mundo onde criou sua própria língua (dialéto), seu próprio meio de sub-existência na maior das contradições ele não perdurou em usa-la para figurar seu trabalho.
Existe este ponto de vista que poderia ser discutido e trabalhado, mas só dei este toque aqui porque percebi que não foi citado em teu texto.
Abraços.
Muito Obrigada Higor!
Bem colocado seu ponto.
Abraços
Danielle, o conteúdo esta muito bom. Uma questão: um filme tem obrigação de acrescentar algo para a vida das pessoas? Se sim, como se avalia isso?
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 6/11/2007 21:24Bem, Higor, eu ainda nao vi Estamira. O que exatamente seria um uso anti-etico da imagem dela? Voce poderia detalhar o caso?
Roberto Maxwell · Japão , WW 7/11/2007 00:59
Às vezes me pergunto:
Vivem os loucos nos hospícios?
E nas escolas os normais?
Agradecido.
Nossa, em quase 15 anos de magisterio, conheci muito louco em escola, conheci gente que ficou louco na escola... hehehe
Roberto Maxwell · Japão , WW 7/11/2007 08:53
Olá Roberto.
Exemplo:
A imagem dela em posições constragedora, em determinados trechos, muitas vezes ela contando sobre suas aflições, sua vida e na própria intimidade da familia percebe-se um reforço do que levou a doença dela. Usa-se tudo isso como artifício para trabalhar uma opinião e não colocar dois lados dessa situação.
A edição talvez tenha pecado em não dar atenção para a reserva da imagem um cuidado maior com o ser humano. Existe diversas formas de entreter o público. Ali foi usada uma violência desnecessária, em muitas pessoas havia um desconforto com as imagens, talvez ele quiz passar isso..
Dai que coloquei a pauta ali em cima, pra mim foi anti-ético, claro este é meu ponto de vista.
Obs: Roberto depois preciso conversar contigo, preciso de algfumas dicas de roteiro. Posso alugar você por e-mail rs..
Humm!!
A escola ensina a produzir
lixo e loucos?
Será Estamira louca? Louca para quem?...
Ai, ai já tou ficando louco... hehehe
Agradecido
Adorei a problemática levantada por todos.
Quero todos no meu msn, AGORAaaaa!!!rss
Abraços...
Amigo Alê Barreto, obrigação é uma palavra um tanto forte para falar de cinema... ou qualquer tipo de arte... acredito na pluralidade e criatividade de cada um.
Claro, que há os que gostam de filmes que transmitem algo, acrescente uma idéia nova, um novo conceito... outra vertente de um assunto comum... ou coisa do gênero.
E como a maioria das coisas se baseia em uma dicotomia... há os que não se importam em assistir ou apreciar uma obra sem forma, nem conteúdo. Um filme que é mediano, fala de senso comum e se preocupa mais com o montante final do que com as possíveis contruções do enredo.
É isso, obrigação não existe.. o que acontece são gostos... pessoas e pessoas! Uns apreciam a bela arte só pq é bela e outros degustam um bom vinho e apreciam não só a beleza... mas apreciam a dialética, a criatividade... enfim.. desfruta da obra como um todo!
...
Beijo grande...
Sei la, Danielle, um filme que para muitos eh mediano, para outros pode ser arte. Acho subjetivo.
Roberto Maxwell · Japão , WW 10/11/2007 01:08
sim sim... concordo... eu quis dizer exatamente isso... existem gostos e gostos... arte é subjetiva!
ABraços
Somente hoje vi o filme (28/09/2008 - Canal Brasil) e achei muito interessante. E Estamira? como ela está hoje?
Francinaldo Silva · Chapadinha, MA 28/9/2008 17:02
Olá, estudo psicologia e tivemos algumas aulas sobre o filme Estamira.
Também fiquei curiosa para saber como/onde ela está hoje em dia, e encontrei esta reportagem:
http://revistatpm.uol.com.br/56/estamira/02.htm
com uma entrevista com o diretor, amei.
Abraços!
http://agrandegaia.wordpress.com
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