Cleber Teixeira

Bruno Dorigatti e Marcelo Brasil
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Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC
15/12/2006 · 132 · 7
 

Em um fim de tarde de outubro nos encontramos na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Eu, Manoel Ricardo de Lima, Julia Studart, Bruno e Walter Castelli; este último, antigo conhecido de Cleber Teixeira, que nos acompanharia até a casa dele para um bate-papo informal.

A recepção foi com um café que já estava posto a mesa. E, enquanto conversávamos, o anfitrião (e suas histórias), além do próprio ambiente, dava um toque todo especial e tornava a visita agradável. Poderia dizer que, para muitos, nada demais, além do relato de algumas pequenas e significativas experiências - para nós um encantamento. E aqui, neste momento, se pudermos diferenciar vivência de experiência, gostaria de pontuar: acho que o Cleber se enquadra/enquadraria no hall das pessoas que desdobram a vida e conseguem carregar consigo além da vivência, uma boa dose de experiência. Em contrapartida, e cada vez mais em voga – e com isso nem sei se não seria deselegante da minha parte dizer -, acredito que um bom bocado das pessoas vive, vive, vive e vive, no entanto, as experiências não batem a porta do hall das vivências. Não transbordam. Funciona como se elas tivessem vivido em tais lugares (tais situações) e esse universo todo não tenha deixado calos. Saliências. Saberes.

E talvez esse tenha sido o encantamento maior. Claro, a experiência de Cleber Teixeira está nos livros, mas em especial, na bagagem (fardo) de vida que carrega a tira colo (o que de fato torna a vivência apenas um acessório. Como se fosse um colar, um brinco, um anel, um pindurico...). E isso tudo, durante a nossa visita, reluzia em cada gesto, em cada momento, em cada observação, ou em uma simples gentileza, delicadeza, afeto...

É como se a biblioteca - que, óbvio, causou em nós um impacto inicial -, tenha desmoronado aos nossos pés, todavia esse desmoronar de livros só acontecia porque estávamos diante daquilo que jogava a biblioteca ao chão. Simplesmente, porque o ato de esparramá-la pela casa não passava de mais uma gentileza. Como se o gesto, vale lembrar que, sem ser pensado/programado, não passasse de um “faz favor” que nos permitisse (um contato maior) uma aproximação.

(E depois deste impacto inicial, fiquei pensando cá com meus botões, interrogando minhas interrogações, e a pergunta, por um instante, era de uma força assustadora: será que ainda seria possível desarmar as pessoas - e as tensões mundanas - com um simples gesto, com uma despretensiosa gentileza? Mas junto com essa mera especulação veio uma outra um pouco mais cruel da minha parte: como isso poderia acontecer se a experiência parece estar se transformando em artigo de luxo?)

Retomando.

Essas gentilezas permitiram que pudéssemos tentar, nada mais que tentar, tocar o universo de Cleber. Esse faz favor (aproximação) permitiu que adentrássemos ao mundo deste carioca que escolheu, durante a década de 70, Florianópolis para morar, e junto com ele trouxe na bagagem o know hall (que por aqui se desdobraram) de lidar (não apenas) com o livro. Ter pelo livro uma afeição, um carinho.

Por suas mãos passaram muito daquilo que podemos considerar imprescindível (em qualquer biblioteca) da poesia editada no Brasil da década de 60 até os dias de hoje. Entre outros, Cummings, Mallarmé, Augusto de Campos... Em seu hall de amizades uma infinidade de escritores – muitos que já se foram - que passa por nomes como Graciliano Ramos, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Torquato Neto... No entanto, esse universo todo passa silencioso em sua fala. Reluz, mas não ofusca.

Em tempo, para não alongar mais o texto, para quem desconhece, Cleber Teixeira é poeta (autor de Armadura, Espada, Cavalo e Fé), tipógrafo, editor, dono e responsável pela editora Noa Noa. Ele mesmo produz os livros de maneira artesanal. Tem todo aquele (que para nós, em alguns momentos, parece trabalho) cuidado de compor página por página, fazer a capa, e para finalizar, imprimir a obra em um equipamento centenário que contraria todas as lógicas imagináveis de um mundo computadorizado/robotizado (e por que não, como uma das conseqüências, por mais paradoxal que possa parecer, brutalizado). Para muitos, diante da correria do mundo moderno, essa gentileza a que me referi durante o texto, (não passa de) um fetiche, para o Cleber, e aqui recorrendo a Barthes, o que dá sabores/saberes, ou simplesmente, o tempero da vida.

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Fábio Fernandes
 

Texto saboroso, Demétrio. Gostei!

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 15/12/2006 08:09
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Fabinca
 

Gostei bastante também. Gostaria de ler um texto em que tu fosse mais a fundo nas diferenças/semelhanças entre vivência e experiência.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 15/12/2006 09:25
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Demetrio Panarotto
 

Fala Fábio, legal! Tem algumas fotos que vão ilustrar o texto, mas não consegui postá-las!!!

Fabinca, tbm acho que aprofundar a discussão vivência/experiência seria bem interessante, já estou articulando algo...

valeu!!!

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 15/12/2006 11:32
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Fabinca
 

As imagens ficaram boas. A da mesa do café fica para a nossa imaginação?

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 15/12/2006 19:42
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Egeu Laus
 

Beleza Demetrio. Cleber Teixeira foi muito maigo de meu tio Harry Laus. Aprecio muito a producao da Noa Noa. Abraco.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/12/2006 00:53
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Demetrio Panarotto
 

Legal Egeu. Terça-feira (dia 19) o Cleber fará uma fala em um projeto que acontece aqui em SC, o Terça Com Poesia, será mais uma oportunidade das pessoas terem contato com o trabalho dele.

Outra coisa, devemos iniciar na próxima semana (tbm) a produção de um documentário com o Cleber, pretendo divulga-lo (daqui um tempo) aqui no overmundo.

abs

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 17/12/2006 07:33
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RonaldAugusto
 

demetrio, sou um fã do trabalho do cleber teixeira desde 1983, ano em que conheci as edições da noa noa durante uma estação no paraíso da ilha do desterro. cleber é um sujeito muito importante para a cultura poética brasileira. parabéns pelo texto.
ronald

RonaldAugusto · Porto Alegre, RS 18/12/2006 11:55
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