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Código de ética para vilões de novelas

Montagem a partir de imagens do site oficial de Paraíso tropical
Bebel e Olavo: a simpatia do público não garante as portas do paraíso tropical.

Desde a década de 1960, quando a teledramaturgia deixou de lado (em termos) o tom melodramático para se aproximar do cotidiano brasileiro, uma das característica dos personagens mostrados nos folhetins teve uma mudança considerável. Em vez de mocinhos muito bons e vilões somente preocupados com a maldade, os personagens passaram a ter qualidades e defeitos, independente do arquétipo estruturado pelo autor.

Mas na dramaturgia de início de milênio, esta alteração nos rumos do jeito de se escrever novela gerou uma curiosa reação de uma parcela do público. Alguns espectadores atualmente priorizam os aplausos a personagens com um comportamento fora dos padrões do "politicamente correto". É o caso da atual novela que a TV Globo exibe no horário das 21h, Paraíso tropical, na qual a relação de Olavo e Bebel (ele, um mau caráter invejoso e ela, uma prostituta ambiciosa) garante a audiência de uma trama que, em seu início, parecia ser rejeitada.

As tramas que envolvem a dupla de personagens superam as histórias de amor do casal protagonista Paula e Daniel, feitos por Alessandra Negrini e Fábio Assunção, respectivamente, e do par romântico "de meia-idade" Antenor e Lúcia, interpretados pelos consagrados atores Tony Ramos e Glória Pires. Nem mesmo o conflito entre gêmeas idênticas fisicamente, mas com caráter diferente (a bondosa Paula e a inescrupulosa Taís) chamam tanta atenção quanto a relação sensual dos personagens vividos por Wagner Moura e Camila Pitanga.

O sucesso dos dois é creditado à maneira como Gilberto Braga cria seus vilões. Desde a Odete Roitman de Beatriz Segall na longínqüa Vale tudo, o dramaturgo é responsável por colocar no ar pessoas com uma vilania cínica, ilimitada, capazes das ações mais tresloucadas para conseguirem o que desejam. Com isto, o espectador acaba por "justificar" os golpes com a frase de que eles estão apenas correndo atrás de seus ideais.

O final de uma novela das 21h exibida na emissora do Jardim Botânico no ano passado despertou a discussão em relação à audiência apoiar as trapaças. Escrita por Silvio de Abreu, Belíssima reservou para a vilã Bia Falcão (vivida por Fernanda Montenegro) um final sem punição - ela fugia do país, em um jatinho, e terminava a trama vivendo na bela Paris. Decisão aplaudida por boa parcela dos espectadores, que qualificaram seu desfecho como "próximo da vida real".

Em tempos de incredulidade com a Justiça (seja ela divina ou feita nos tribunais), cada vez mais as novelas parecem ser as verdadeiras tribunas de honra para as diretrizes do destino de heróis e vilões (que em algumas tramas bem escritas, como as de Gilberto Braga, nem são totalmente duelos de mocinhos e bandidos). Resta ao "juiz" deste tribunal - o autor - decidir se absolve ou não das maldades aplaudidas pelo júri popular. Afinal de contas, por mais que os vilões sejam camaradas, há um "código de ética" entre autores e emissora para não trazer maus exemplos aos telespectadores.

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