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Código de ética para vilões de novelas

Montagem a partir de imagens do site oficial de Paraíso tropical
Bebel e Olavo: a simpatia do público não garante as portas do paraíso tropical.
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Vinícius Faustini · Rio de Janeiro, RJ
21/7/2007 · 162 · 7
 

Desde a década de 1960, quando a teledramaturgia deixou de lado (em termos) o tom melodramático para se aproximar do cotidiano brasileiro, uma das característica dos personagens mostrados nos folhetins teve uma mudança considerável. Em vez de mocinhos muito bons e vilões somente preocupados com a maldade, os personagens passaram a ter qualidades e defeitos, independente do arquétipo estruturado pelo autor.

Mas na dramaturgia de início de milênio, esta alteração nos rumos do jeito de se escrever novela gerou uma curiosa reação de uma parcela do público. Alguns espectadores atualmente priorizam os aplausos a personagens com um comportamento fora dos padrões do "politicamente correto". É o caso da atual novela que a TV Globo exibe no horário das 21h, Paraíso tropical, na qual a relação de Olavo e Bebel (ele, um mau caráter invejoso e ela, uma prostituta ambiciosa) garante a audiência de uma trama que, em seu início, parecia ser rejeitada.

As tramas que envolvem a dupla de personagens superam as histórias de amor do casal protagonista Paula e Daniel, feitos por Alessandra Negrini e Fábio Assunção, respectivamente, e do par romântico "de meia-idade" Antenor e Lúcia, interpretados pelos consagrados atores Tony Ramos e Glória Pires. Nem mesmo o conflito entre gêmeas idênticas fisicamente, mas com caráter diferente (a bondosa Paula e a inescrupulosa Taís) chamam tanta atenção quanto a relação sensual dos personagens vividos por Wagner Moura e Camila Pitanga.

O sucesso dos dois é creditado à maneira como Gilberto Braga cria seus vilões. Desde a Odete Roitman de Beatriz Segall na longínqüa Vale tudo, o dramaturgo é responsável por colocar no ar pessoas com uma vilania cínica, ilimitada, capazes das ações mais tresloucadas para conseguirem o que desejam. Com isto, o espectador acaba por "justificar" os golpes com a frase de que eles estão apenas correndo atrás de seus ideais.

O final de uma novela das 21h exibida na emissora do Jardim Botânico no ano passado despertou a discussão em relação à audiência apoiar as trapaças. Escrita por Silvio de Abreu, Belíssima reservou para a vilã Bia Falcão (vivida por Fernanda Montenegro) um final sem punição - ela fugia do país, em um jatinho, e terminava a trama vivendo na bela Paris. Decisão aplaudida por boa parcela dos espectadores, que qualificaram seu desfecho como "próximo da vida real".

Em tempos de incredulidade com a Justiça (seja ela divina ou feita nos tribunais), cada vez mais as novelas parecem ser as verdadeiras tribunas de honra para as diretrizes do destino de heróis e vilões (que em algumas tramas bem escritas, como as de Gilberto Braga, nem são totalmente duelos de mocinhos e bandidos). Resta ao "juiz" deste tribunal - o autor - decidir se absolve ou não das maldades aplaudidas pelo júri popular. Afinal de contas, por mais que os vilões sejam camaradas, há um "código de ética" entre autores e emissora para não trazer maus exemplos aos telespectadores.

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Spírito Santo
 

Boas conclusões. Penso também (não sei se alguém concorda), que os atuais padrões da ética praticados pela população brasileira, atualmente, estão muito contaminados pelos maus exemplos conhecidos e isto, aparece na maneira de se julgar os vilões. Acho que o filme do povo brasilieiro no quesito ética e moral social está bem queimado. As novelas só refletem esta constatação.

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2007 12:55
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Thiago Camelo
 

Spirito. Não sei se concordo com vc. Preciso pensar. Mas te jogo uma pergunta? Por que nunca se considera - NUNCA - a possibilidade do senso dramatúrgico da população brasileira ter melhorado e que, na verdade, o sucesso muito se deve ao fato de os personagens serem tratados de forma não-maniqueísta, sendo assim abraçados por espectadores meio cansados de tanta unilateralidade. Quem sabe, afinal, o sucesso de Bebel e Olavo nada tenha ver com a questão de ética e moral e seja, quem sabe, quem sabe , uma opção estética?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2007 19:06
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Spírito Santo
 

Muito boa a sua reflexão também, Thiago, mas, talvez sejam as duas coisas juntas (ou várias coisas misturadas). Quando a gente sai da TV e abre o leque para dramaturgia em geral, a coisa fica bem mais complexa.
Eu penso que tem esta coisa de os criadores, os formadores de opinião, etc. se deixarem levar pelos interesses do mercado, 'se venderem', em suma, informados pelo famigerado Ibope, mas tem o outro lado também, o jeitinho imoral de ser da população, influenciando bastante sobre o que se deve ou não se deve produzir, quem deve ou não deve ser eleito, etc. Existe também a pressão do marketing, do capitalismo vigente, definindo o tipo de consumidor-telespectador que interessa ao anunciante etc. etc.
Devemos considerar também, e sobretudo, que as novelas de TV obedecem a estruturas dramaturgicas herdadas do folhetim clássico dos séculos 18/19 (se não me engano) no qual este arquétipo do vilão charmoso e sedutor já estava bem estabelecido. Talvez seja a hora dele reinar, por alguma razão.
Não sou daqueles que acham que o povo brasileiro é ingênuo, honesto e trabalhador. Acho mesmo que há hoje um certo culto latente à imoralidade predominando na forma como a população do Brasil se relaciona com a sua realidade. Há uma certa canalhice social pairando sobre nós hoje, mais do que nunca.
Do mesmo modo que sempre (nos séculos do folhetim citado era mais ou menos por aí) a moral social real acaba se refletindo na moral simbólica, expressa pelas novelas de TV.
Acho também que o preço (social e artístico) disto é alto e terá que ser pago por nós.
Sobreviveremos se alguns se moverem, falando, escrevendo, pressionando. Penso que é assim, aliás, como sempre foi.

Grande abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 20/7/2007 21:01
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jujuba
 

Bem interessante! Na verdade, já que citou a Bia Falcão, pessoas próximas à mim não gostaram do final porque a Bia se deu bem e, principalemnte, porque o neto do grego vivido por Tony Ramos se mostrou um tremendo safado também.

Quanto à "canalhice social" do brasileiro, essa sempre existiu. Leis, para o Brasil, sempre foram sinônimo de "castigar o povo", por isso brasileiro tem a fama de usar o famoso "jeitinho" para burlar as leis e tudo. Isso é uma característica muito antiga e não creio que vai mudar - é como o patriotismo exagerado dos americanos ou a birra aos franceses dos ingleses. Caracteriza um povo.

Brasileiro não tenta resolver suas dificuldades, ele as contorna. E a novela apenas está mostrando o que sempre aconteceu. Não há mais "bonzinhos" totais ou 'vilões" totais no Brasil. Todos são canalhas, mas alguns canalhas são mais "adoráveis' que outros.

jujuba · Santo André, SP 21/7/2007 14:19
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acreucho
 

O artigo está bem articulado e descreve bem a realidade televisiva nacional, agora gostaria de em parte discordar do Spirito Santo, acho que o comportamento do brasileiro é influenciado pelo comportamento dos personagens que ele vê todos os dias na TV, quem já é malandro por natureza, acha o máximo a atuação do personagem Olavo e até procura imitá-lo, na cabeça de muitas meninas, na tenra idade, seria o supra sumo se pudessem ser iguais à Bebel, que me desculpe o autor, Gilberto Braga, mas nossos jovens já tem bastante "maus exemplos" para seguirem...

acreucho · Rio Branco, AC 21/7/2007 14:36
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andrecatuaba
 

A novela televisiva é um formato falido, resquício do século XIX. É incrompreensível que as emissoras ainda invistam nisso.

andrecatuaba · Brasília, DF 21/7/2007 14:42
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carol de trancinhas
 

Você descreve com clareza o atual momento da TV brasileira...um caos.Parabéns pelo texto.

carol de trancinhas · Brasília, DF 25/7/2007 02:13
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