Inspirada na diversidade cultural de uma realidade que comporta hábitos e costumes de nada menos que 73 etnias, a professora de antropologia cultural, Nara Oliveira, da União Dinâmica de Faculdades Cataratas (UDC), criou há dois anos o projeto Coisaria - Gabinete de Curiosidades. A gaúcha de Porto Alegre, há 10 anos vivendo em Foz do Iguaçu, no Paraná, se encantou logo de início com as possibilidades que vislumbrou. “Não foi a beleza natural que me encantou, mas esse verdadeiro caldeirão de culturas. Passei 30 anos em Porto Alegre e todos eram gaúchos. Cheguei aqui e encontrei gente de todo biótipo, falando todas línguas e isso me fez parar para uma auto-crítica do Rio Grande do Sul: como alguém pode ficar tanto tempo diante de um único referencial?”, se perguntou.
Tão rápido quanto percebeu essa riqueza, veio a percepção de que, para os moradores da cidade, o que se mostrava a seus olhos como a maior preciosidade não era valorizado. “Se dizia muito que a cidade não tem identidade, mas acho que a identidade é exatamente essa aparente falta”, comenta. Foz do Iguaçu, como outras cidades, avalia, não considera isso um traço importante. A tendência é achar que existe um problema de descaracterização pelo fato de ter muitos estrangeiros. “Isso tinha de mudar até porque hoje em dia o conceito de identidade nacional está ameaçado e Foz é um laboratório para se estudar essa nova abordagem”, observa.
Partindo dessa percepção, ela começou a pensar em sala de aula como poderia trabalhar para reverter o quadro. “Lancei algumas provocações do tipo pensar sobre como é possível que pessoas vivam num território sem conviver. Porque em Foz há cordialidade no convívio, mas as pessoas não se conhecem de verdade.” Para ela, o mais interessante é que hábitos diferentes jogam outras luzes até sobre o que pensamos. “Decidimos apelar para os objetos porque as histórias das ‘coisas’ ajudam as pessoas a irem se acostumando com outros jeitos de ver o mundo”, diz ela, em cujo projeto atuam alunos dos cursos de comunicação social, pedagogia e turismo.
O termo “coisaria” surgiu no século 16, quando os navegadores iam recolhendo objetos e coisas de todos os tipos e natureza, até coisas inanimadas e animais. Depois organizaram exposições e aos poucos foram se criando câmaras de curiosidades e coleções privadas. Daí surgiram, mais tarde, os museus.
Aliás, outro argumento em prol do projeto é que Foz não tem museus. “Os patrimônios mais conhecidos são da Humanidade, a cidade é apenas uma depositária. Tanto as Cataratas quanto a Itaipu têm seus equivalentes no mundo. Mas as 73 etnias não. Daqui a pouco teremos pesquisadores do mundo inteiro porque é um espaço geográfico muito pequeno para tamanha diversidade e isso vai despertar a atenção”, aposta.
Mas não se trata do objeto pelo objeto. “Uma panela é só uma panela. Mas quando se conta que nela foi feita a primeira macarronada italiana para a amada de alguém e que, cinqüenta anos depois, ela é a esposa, já não temos mais só uma panela. Nos interessa trazer uma síntese da relação do objeto com o proprietário, o que lhe confere o diferencial e ainda acaba contando a história da cidade”, argumenta ela, cuja equipe conta essas histórias nas etiquetas das peças.
A idéia, diz, não é nada cronológica, mas a união de diferentes culturas. "Por exemplo, a cuia de chimarrão gaúcha fica exposta junto do tererê, do mate, do anarguilé árabe e da xícara de chá inglês, ou japonesa. Porque são objetos distintos, mas todos de uma mesma natureza: usados para unir pessoas em torno de um convívio. A intenção é quebrar essa visão de que são mundos postos. Mas isso não significa que vamos negar diferenças, ao contrário”.
A professora conferiu que essa relação provoca uma inversão e o estranhamento que em geral outras culturas provocam se dilui. “Essa troca de valores ajuda indivíduos a serem mais críticos em relação à sua própria cultura.”
Em dois anos, cerca de 700 alunos reuniram 800 objetos e mais de 20 mil itens, que incluem revistas, publicações avulsas, discos. A recepção ao projeto foi imediata. Primeiro foram os alunos que criaram todo o conceito durante as aulas, provocados que foram a pensar a cidade e suas características.
A primeira inversão de percepção aconteceu nas salas de aula. “Eles descobriram verdadeiros museus dentro das casas. Mas, antes, fizeram vários trabalhos reflexivos já reconhecendo as regiões de fronteira como ambientes dinâmicos. Foram dois anos só neste processo para depois apresentar o projeto à faculdade”, conta. Claro que a instituição encampou a idéia na hora. Também teve apoio de pequenos empresários.
Ainda falta a sede. Mesmo assim, a cada seis meses acontece uma exposição da Coisaria. O envolvimento é cada vez maior: agora os alunos e a faculdade são procurados por pessoas que querem doar seus pertences históricos. Também surgiram outros produtos paralelos, como publicações para levantar verbas para as exposições. Em relação à sede, Nara não desanima e tem certeza de que conseguirá. “Já temos o acervo que é o mais complicado. Também temos envolvimento da comunidade, de autoridades e empresários. Acredito sinceramente que esse processo não tem volta.”
Admirável o trabalho da professora Nara. A "coisaria" reflete não somente os hábitos das sociedades como revela quem somos.
Parabéns!
pois é carol, quando eu conheci a história fiquei encantada. é um trabalho muito bonito e esses "encontros profissionais" é que dão gosto e reavivam a vontade de fazer jornalismo. ainda que existem muitas pessoas assim por aí...
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