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Com outros olhos e palavras
Fabinca · Chapecó (SC) · 20/12/2006 14:34 · 110 votos · 4 ·
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Imagens
Táxi-lotação de Porto Alegre
O melhor meio de uma pessoa refletir sobre sua língua e cultura é deslocar-se: mudar de cidade, estado, região ou país. Infelizmente não tive ainda a oportunidade de morar fora do Brasil para o ver com “outros olhos”, de que tanto falam os que moram no exterior por algum tempo.
Em termos de língua, viver 500 km longe da cidade natal é o suficiente não apenas para observar algumas diferenças nítidas, na fala principalmente, mas para sentir como a língua do dia-a-dia mexe com a gente. Conviver com as palavras e passar a utilizá-las não é o mesmo que tirar férias e se admirar com o jeito de falar dos nordestinos, dos cariocas ou dos manezinhos, por exemplo.
Morando em Chapecó (SC) há três anos, fui obrigada a mudar algumas expressões empregadas na minha fala: não espero mais ônibus na parada, e sim no ponto (ainda que esse termo não me agrade pelas associações que suscita). Aliás, não espero mais ônibus; espero lotação, ou “lotcha”, caso queira dar um ar mais informal ou jovial à minha fala.
Não subo mais lomba (e custei a me dar conta disso!). Depois de comentar duas a três vezes com uma colega sobre a vontade de realizar caminhadas próximo à universidade, com o porém de que havia lombas, percebi que ela simplesmente não estava me entendendo. Então chegamos à conclusão de que tinham subidas, ou ladeiras.
O mais triste, entretanto, é não poder pedir cacetinho na padaria. Pãozinho não é a mesma coisa... Até hoje não sei exatamente como me referir, pois a palavra pãozinho compreende outros tipos de pães (sovadinhos, doces, etc.), e pão francês ou pão d'água são termos mais abrangentes que pão de 50g. Felizmente aqui em Chapecó, pela proximidade com o Rio Grande do Sul, não o olham de cara feia ou assustada se ouvirem a palavra cacetinho no balcão, mas prefiro não arriscar. Quando vou a Porto Alegre, tenho o prazer de pronunciar com todos os fonemas: “Seis cacetinhos, por favor!", além do que eles são muito mais gostosos lá do que aqui. Que prazer tomar café com cacetinho e nata...
Ainda sobre a lotação, outro dia uma colega contava sobre sua primeira experiência como motorista depois de tirar a carteira: o carro parou em uma subida [lomba para mim] com uma lotação atrás, pois ela estava com o freio-de-mão puxado e não sabia. Imaginei a cena, mas com um microônibus vermelho, como os táxi-lotação de Porto Alegre. Bem diferente dos ônibus municipais amarelos de Chapecó.
tags: Chapecó SC cultura-e-sociedade lingua fala transporte-publico linguagem onibus lotacao porto-alegre variacao-linguistica
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