Com outros olhos e palavras

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Fabinca · Bento Gonçalves, RS
20/12/2006 · 110 · 4
 

O melhor meio de uma pessoa refletir sobre sua língua e cultura é deslocar-se: mudar de cidade, estado, região ou país. Infelizmente não tive ainda a oportunidade de morar fora do Brasil para o ver com “outros olhos”, de que tanto falam os que moram no exterior por algum tempo.

Em termos de língua, viver 500 km longe da cidade natal é o suficiente não apenas para observar algumas diferenças nítidas, na fala principalmente, mas para sentir como a língua do dia-a-dia mexe com a gente. Conviver com as palavras e passar a utilizá-las não é o mesmo que tirar férias e se admirar com o jeito de falar dos nordestinos, dos cariocas ou dos manezinhos, por exemplo.

Morando em Chapecó (SC) há três anos, fui obrigada a mudar algumas expressões empregadas na minha fala: não espero mais ônibus na parada, e sim no ponto (ainda que esse termo não me agrade pelas associações que suscita). Aliás, não espero mais ônibus; espero lotação, ou “lotcha”, caso queira dar um ar mais informal ou jovial à minha fala.

Não subo mais lomba (e custei a me dar conta disso!). Depois de comentar duas a três vezes com uma colega sobre a vontade de realizar caminhadas próximo à universidade, com o porém de que havia lombas, percebi que ela simplesmente não estava me entendendo. Então chegamos à conclusão de que tinham subidas, ou ladeiras.

O mais triste, entretanto, é não poder pedir cacetinho na padaria. Pãozinho não é a mesma coisa... Até hoje não sei exatamente como me referir, pois a palavra pãozinho compreende outros tipos de pães (sovadinhos, doces, etc.), e pão francês ou pão d'água são termos mais abrangentes que pão de 50g. Felizmente aqui em Chapecó, pela proximidade com o Rio Grande do Sul, não o olham de cara feia ou assustada se ouvirem a palavra cacetinho no balcão, mas prefiro não arriscar. Quando vou a Porto Alegre, tenho o prazer de pronunciar com todos os fonemas: “Seis cacetinhos, por favor!", além do que eles são muito mais gostosos lá do que aqui. Que prazer tomar café com cacetinho e nata...

Ainda sobre a lotação, outro dia uma colega contava sobre sua primeira experiência como motorista depois de tirar a carteira: o carro parou em uma subida [lomba para mim] com uma lotação atrás, pois ela estava com o freio-de-mão puxado e não sabia. Imaginei a cena, mas com um microônibus vermelho, como os táxi-lotação de Porto Alegre. Bem diferente dos ônibus municipais amarelos de Chapecó.

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apple
 

Teve uma vez que estava em Gramado e queria ir 'a Porto Alegre. Daí, o atendente da rodoviária falou para eu comprar a passagem no ônibus.

Minutos após a partida do ônibus que a "ficha caiu": POA é Porto Alegre. E eu procurando um ônibus com os dizeres "Porto Alegre"... POA e nada para mim era a mesma coisa. Hahaha...

Então, após perder o ônibus, desisti de ir naquele dia. Humpf!

apple · Juiz de Fora, MG 20/12/2006 06:43
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Fabinca
 

Puxa!
Achava que POA era gíria apenas de "magro do bonfa". Não sabia que colocavam até nos letreiros de ônibus. Ou talvez tenha visto sem nem perceber, "traduzindo" automaticamente.

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 20/12/2006 15:10
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apple
 

"Magro do bonfa"? O quê é isso? : )

apple · Juiz de Fora, MG 20/12/2006 18:36
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Fabinca
 

"Magro do bonfa" é o nome dado aos freqüentadores da Oswaldo Aranha (rua boêmia de Porto Alegre), que fica no Bairro Bonfim. A Globo já fez uma caricatura do "magro do bonfa" em um dos seus programas humorísticos. O que mais se destaca é o jeito de falar, fortemente "cantado". O "magro do bonfa" renderia um texto. Talvez já tenha alguma a respeito aqui no Overmundo.
Não tenho certeza, mas parece que para as mulheres se pode utilizar "magrinha do bonfa".

Fabinca · Bento Gonçalves, RS 20/12/2006 20:36
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