No último dia 6 de agosto, um grande espetáculo de fé é realizado a céu aberto, numa das cidades mais antigas do Brasil. Iguape é o palco. Moradores, romeiros, turistas e a igreja fazem da devoção popular, um dos mais belos festejo de patrimônio imaterial do Brasil.
Fechando-se as janelas para o tradicional carnaval da cidade, abrem se as cortinas para festa do Bom Jesus, um grande espetáculo de fé, dirigido pelo povo. Santo este que foi encontrando na região em 1647, e que até hoje de geração a geração corteja pelas ruas de Iguape com milhares de fiéis e romeiros.
O cenário do espetáculo é natural. A cidade banhada de um lado pelo Rio Ribeira de Iguape e do outro pela Mata Atlântica, tem no centro histórico mais de 700 edificações tombadas. São casas e casarões que trazem a memória e a identidade deste povo ribeirinho remanescente do século XVI, filhos de portugueses, indÃginas e africanos. Povo este também, que detêm a tradição de manifestações de patrimônio imaterial como a festa do Divino, da SantÃssima Trindade, o carnaval, a pesca, o fandango e a tradicional festa de Bom Jesus, que caracteriza a cidade como um dos mais antigos centros de peregrinação do Brasil.
Todo fim de julho a cidade é tomada por devotos que vêm de várias cidades e estados. A demanda de visitantes neste perÃodo é tanta, que romeiros improvisam de qualquer maneira para ficar na “terra do Bonjeâ€. Os moradores do centro histórico alugam quartos, quintais e até carros para que os romeiros possam “pousarâ€. As praças e canteiros são ocupadas por trailers e barracas de camping abrigando famÃlias inteiras. A margem do Canal, também conhecida com “mar de dentroâ€, é ocupada por barcos e escunas de romeiros e filhos de pescadores que chegam a viajar mais de dois dias pelo rio para festar a devoção ao Santo.
Neste espetáculo de nove dias, o tema é sacro-profano, cuja ações se complementam, é anunciado todos os dias as 5h da manhã pelo repique dos sinos originais da BasÃlica. O centro da cidade, a igreja e seu entorno se transformam em palcos sagrados para este espetáculo de fé. Em cena, milhares de devotos nas missas campais e as longas filas para visitação da imagem protetora. As ruas que dão acesso à gruta onde a imagem de Bom Jesus foi lavada e a imagem de Cristo no Morro do Espia se tornam rotas da fé, que durante todo o dia recebem um fluxo grande romeiros e caminheiros.
Nas avenidas paralelas, o profano toma forma e espaço. Quase dois quilômetros são disputados pelas mais variadas barracas de culinária, artesanato, roupas, ferramentas etc... Tradicional em quase todos os festejos religiosos do Brasil, estas barracas, ou feira, têm como papel social permitir acessibilidade aos mais variados produtos para romeiros e devotos da zona rural e cidades distantes, otimizando a ida programada para rezar e também comprar.
O dia escurece, o movimento das pessoas continua, o som da missa acaba e as músicas festivas começam. De dia, placas espalhadas pelas ruas da cidade já anunciam que de noite tem bailão. Bailão do Filisbino, do Juca do Gaúcho que, entre outros, são realizados em casas e terrenos, transformados em pista de dança, com luzes coloridas e banda tocando até o amanhecer.
No dia de Bom Jesus, familiares e amigos começam a programar o almoço especial. Habitualmente para os moradores da cidade, o dia festivo é também o dia de se reunir e confraternizar. Convidado por uma famÃlia tradicional da cidade, a mesa, foi posta com iguarias da culinária caiçara preparadas por dona Carmelita que destacava o “peixe seco com bananaâ€,- a tainha preparada por pescadores da comunidade da Juréia – como predileto de seus filhos.
Às 16h, do dia 6 de Agosto – dia de Bom Jesus - os devotos e romeiros, que ocupam quase toda a cidade, confluem para a saÃda da imagem de Bom Jesus, ato final deste espetáculo da fé. Na BasÃlica, a imagem peregrina recebe um espaço especial para ornamentação e preparo. No andor, flores vermelhas e brancas são colocadas uma a uma por seus guardiões.
A expectativa para saÃda da imagem é grande. Milhares de pessoas já estão à espera para a tradicional caminhada. Quando o andor do Bom Jesus sai pelas portas da Igreja, a emoção vem ao choro, à s mãos estendidas, aos olhos fechados ou simplesmente num silencio ( feito por muitos) de admiração e verdade. Devotos de todas as idades seguram velas, ramos, flores e as crianças são vestidas de anjos, colocadas aos ombros de seus pais em forma de agradecimento e pagamento de promessa.
A composição do cortejo traz os guardiões da imagem, com incensários de prata, os padres da região, a tradicional e respeitada Banda Santa CecÃlia, que tocou todos os dias da novena, e por último o andor majestoso do Bom Jesus, carregado por seus devotos que revezam e disputam a cada passo para agradecer e pedir graças e milagres.
A cura, a graça alcançada, o trabalho conquistado, o fim de um sequestro, o amor são enredos que narram as estórias particulares destes personagens que foram agraciados pelo Bom Jesus e que neste dia caminham junto ao andor.
O pôr do Sol e os casarios ficam ao fundo de um mar de pessoas que em silêncio cortejam. O majestoso andor se aproxima e junto, uma energia inexplicável, extrapola os limites tangÃveis dos fieis.
Depois de um percurso de quase dois quilômetros o andor para em frente à igreja e a última missa campal termina com a entronização da imagem na BasÃlica com a valsa “Saudades de Iguapeâ€, cantada pelo coral da cidade, que traz em seus versos, “Adeus, Iguape, Adeus, terra querida , és também conhecida Terra do Bom Jesus, Berço de vida e luz raiante, espalhando fulgores , o teu porvir brilhante, há de brotar igual à s floresâ€
Com o fim da missa e da queima de fogos, fecham- se as cortinas deste grande espetáculo. Os músicos do coro, os guardiões, devotos, moradores e romeiros... ARTISTAS DA FÉ vestem seus figurinos do dia-a-dia e seus palcos voltam ser o comércio, as escolas, hospitais, prefeituras, feira e etc...
O cenário continua com o azul do céu, com o verde de sua encosta e o colorido pela memória. A estrela principal deste espetáculo da fé, vai para os palcos do coração e da esperança, onde as cortinas não se fecham, as luzes não se apagam. Apresentando todos os dias histórias, fatos, graças e milagres, que no próximo ano pelas graças do Bom Jesus, serão lembradas ao abrirem novamente as cortinas para a plateia que assisti e é assistida.
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