Sugerir como alguém pode começar a trabalhar com produção cultural não é uma tarefa muito simples. É preciso entender que nem todo mundo está no mesmo momento de vida. Uma pessoa de 16 anos provavelmente irá pensar em trabalhar no backstage de um show. Uma pessoa de 30 anos talvez queira gerenciar a carreira artística de um músico. Uma pessoa de 50 anos pode se mostrar interessada em trabalhar com projetos culturais mais amplos, com impacto social. Enfim, há muitas situações diferentes, que variam conforme a idade, situação financeira, localização geográfica, grau de escolaridade, etc.
É comum se pensar em trabalhar com produção cultural quando se é jovem. E aqui não estou me referindo a juventude somente como período biológico estabelecido, mas como um estado de espírito. A pessoa jovem quer viver experiências intensas e trabalhar com a cultura é uma experiência intensa. Eu sempre me emociono quando termina um show ou um espetáculo de teatro em que trabalhei na produção. Eu sei que aquela produção que eu realizei passou a fazer parte da vida de muitas pessoas. E tornou a minha vida melhor.
Mas esse estado "jovem" de ser traz também muitos questionamentos. O adolescente que está cursando ensino médio começa ouvir sua família falar que ele deve "tomar um rumo na vida" com a conotação de que o tal rumo é trabalhar para ganhar muito dinheiro. O "jovem" que não aceita que a sua vida deve ser somente casar, ter filhos, ser refém de expectativas de sucesso (o que é sucesso?) dos grupos sociais com quem convive, também começa a pensar que faz sentido escolher uma atividade que lhe dê mais liberdade para viver a sua vida. O "jovem" que é músico, ator, dançarino, escritor, malabarista, poeta, que curte cinema, moda, arte da gastronomia, design, iluminação, que não aceita discursos equivocados de que "cultura não dá dinheiro", fica horas pensando em como conciliar a vontade de estar no meio artístico e sobreviver dignamente.
Para todos estes jovens, a primeira sugestão é: busque informações detalhadas sobre o que você quer fazer.
Há muitas formas de se fazer isso. As mais conhecidas são "dar um google" com palavras-chaves, pesquisar em livros e revistas, entrevistar pessoas que trabalham na atividade que você pretende fazer e por fim, a mais arriscada, que é começar a fazer um estágio ou trabalhar por um período em algo que você desconfia que é o que você procura, mas que ainda não tem bem certeza.
Além de buscar informações sobre o que você quer fazer, acho importante que paralelamente se façam outros dois movimentos importantes: autoconhecimento e aprender a gestionar sua carreira profissional. Com o autoconhecimento, você poderá perceber quais são as "trocas" que você necessita no seu momento atual de vida. Pode inclusive "projetar" cenários de sua vida para o futuro. Aprendendo a gerenciar sua carreira profissional, você poderá realizar ações que alavanquem o seu desenvolvimento profissional.
Então, a coisa toda pode funcionar mais ou menos assim: você começa a se autoconhecer e ver se realmente quer trabalhar com a cultura; na medida que isso vá ficando evidente, você começa a buscar informações sobre como trabalhar nesta área. Na medida que começa a trabalhar nesta área, começa a aprender a gerenciar sua carreira para que o trabalho lhe proporcione alcançar os seus objetivos.
É importante pensar ainda o seguinte: por mais que você pesquise e planeje, você nunca terá a garantia de que irá dar certo. Mas se não pesquisar e planejar, se não se implicar para que as coisas aconteçam, nunca elas vão acontecer.
Publicado originalmente em Produtor Cultural Independente.
Alê!
É preciso ter sensibilidade e sabedoria para não se deixar levar pelas ondas inconsistentes da apelação.
Abraços
Alê, acabo de visitar a página "Produtor Cultural Independente", logo após fazer a leitura desse seu texto no Overmundo. Minha atenção se voltou para o artigo "Boa notícia: 73,3 % dos municípios brasileiros podem se desenvolver dinamizando a cadeia produtiva da cultura " e volto aqui para cumprimentar você pelas reflexões de seu texto e pela página indicada. Há bastante clareza de exposição e envolvimento com o tema; e mais que uma organização de interessantes argumentos em favor da produção cultural, o artigo trouxe para mim referências valiosas. Baixei o PDF "Economia Criativa" e marquei os links com os videos da entrevista de Ana Carla Fonseca Reis sobre economia da cultura e gestão cultural, para ver nessa semana.
Ben-Hur Demeneck · Ponta Grossa, PR 22/3/2009 01:53
Alê,
Como este artigo e tantos outros que você publicou/a têm um alcance social/educativo/profissional importante.
Continue firme!
Pedro, Graça, Ben-Hur, Zezito, Kiko e todo mundo que leu, muito obrigado. Eu fico muito feliz de ver que mais gente se preocupa com estas importantes questões, que envolvem a profissão do produtor cultural. Um grande abraço! Alê
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 23/3/2009 22:19
Ajudou muito :), tô nessa fase: "começar a fazer um estágio ou trabalhar por um período em algo que você desconfia que é o que você procura" e a pergunda que me persegue... Onde? hehehehe
Parabéns pelas reflexões!
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