Viajar pelo Brasil é mergulhar na diversidade cultural. Ainda vou achar tempo para não viver de outra coisa senão disto: andar por este país imenso e tão rico culturalmente registrando peculiaridades do povo e dos lugares. Por enquanto, vou levando com desculpas esfarrapadas. Às vezes passo apressado, mas por onde ando reparo.
Tornou-se ainda mais ensolarada e lúdica aquela manhã de domingo quando a mulher de sombrinha e roupa antiga surgiu de uma esquina e danou a descer pelas acentuadas ladeiras de Ouro Preto - MG. Passinhos curtos e apressados, parecia deslizar sobre o calçamento reluzente.
Confesso que quis muito ver a face da andadeira vestida de acordo com a velha cidade, mas ela só descia e descia e descia, como se atraída por alguma urgência qualquer naquele embalo da controversa força magnética comum às ladeiras de Minas. Pra descer é fácil. Subir é que são elas.
Pensei em gritar um "Ei, das antigas!!!" sem nenhum acanhamento. Mas me contive por imaginar que talvez não fosse entendido por ela ou por quem mais atendesse ao chamamento. Sabe-se lá o que passa na cabeça de gente em manhã ensolarada de domingo na velha Ouro Preto.
Apressei o passo para me aproximar puxando prosa e caprichar num retrato. Mas, pensando no caminho de volta, desisti da empreitada. Resolvi me valer do "zum" de minha surrada máquina fotográfica. Para que afinal inventaram as lentes de aproximação? Fiz a foto e deu no que deu. Não vi a cara da dona da roupa que descia ladeiras como se flutuasse.
Restou aquela vontade danada de saber quem era a mulher da roupa que parecia andar sozinha, de tirar prosa com ela, de trocar um olhar seguro para saber, entre outras coisas, as razões daquele “desfile dominical”. É que depois fiquei sabendo, por informação de outras mulheres também vestidas como antigamente, que a “modelo” em questão não fazia propaganda de nenhum daqueles estúdios fotográficos que faturam dos turistas que queiram fazer fotos em trajes de época em cidades históricas.
Sim, Ouro Preto e outras cidades brasileiras têm estúdios que põem o sujeito bem ao estilo “tempo do ronca”, em fotos muitas vezes instantâneas e até digitais, mas envelhecidas como se saíssem de um velho baú de guardados. Tais estúdios despertam o interesse das pessoas usando modelos que se expõem nas esquinas, como se estivessem noutro tempo, completamente fora da moda atual. A estratégia, claro, é fisgar freguesia. E como funciona.
Mas isso nada tem a ver com o caso da dona que desceu a ladeira em trajes antigos e me despertou interesses. Como me disseram, "Ela é assim mesmo, uai! Todo domingo se veste desta maneira e sai passeando."
Agora tenho mais é que arranjar um desfecho para o texto que já me parece demasiado longo para uma página na Internet. E é justamente nesta hora que me ponho a pensar na necessidade de achar mais tempo para conhecer lugares como Ouro Preto e outras tantas cidades históricas, redescobrindo e registrando peculiaridades do povo e dos lugares do Brasil.
Um dia ainda acho esse tempo. E tomara que com capacidade e paciência para escrever traduzindo sensações como a de querer entender o que se passa na cabeça de alguém que se traja como antigamente e sai a andar como se flutuasse por ruas antigas e íngremes como as de Ouro Preto numa ensolarada e lúdica manhã de domingo.
Antônio, que texto gostoso e fluido! Me senti andando novamente pelas ladeiras de Ouro Preto, apesar do momento ser outro e de eu estar mergulhada na sua sensação e compartilhando do seu monólogo e conflito - aproximar ou não das moças "das antigas"...
Como mineira, agradeço por prestigiar nossas Gerais. Beijo grande.
Ps: Adorei as fotos, vou salvá-las no meu arquivo.
Minas "é o bicho", Joana. É o segundo giro que faço pelas cidades hitóricas de seu estado. Desta vez fomos com uma fotógrafa da França curiar umas coisas bem mineiras. Ela saiu com um patuá de cartões carregados de imagens. Também, né... com uns cenários naturais destes...
Salve quantas fotos quiser, Joana. Publicarei mais delas numa galeria que tenho no OLHARES.
Que sensação boa, essa de buscar o mistério no rabo-de-saia que passa e flutua oniricamente para a fonte de tudo, revestido das pregas, rendas, babados de outras eras.
No cerne sempre o mesmo mote, mistério dos mistérios: há ali uma mulher!
Parabéns.
Que pena!
Porque você não puxou uma prosa com a moça?
Tenho certeza que, no princípio ela ia ficar meio tímida, mas pelo que conheço das mineiras, logo ela ia dar uma risada meio marota e falar que nem pobre na chuva.
Quanta coisa legal a gente vivencia por esses caminhos mineiros.. Abraços.
Antônio, se for o Olhares.com de Portugal, vou correndo lá. Eu sou apaixonada por este site.
Beijos.
Ôpa. Respondi um email em que você questionava sobre link, Joana. Olhares? De fato é um bom site, com ótimo banco de imagens e autores interessantes. Tenho uma galeria lá.
Pois é, anamineira. Só não puxei prosa porque ela não me deu ouvidos. Eu tentei. Na verdade gritei um "Ei!", antes de pensar em gritar "Ei, das antigas!!!". Não insisti porque sou muito acanhado. Sabe estas laterais da foto? Pois é. Na foto original (esta teve bordas cortadas levemente) há algumas pessoas nas portas das lojas. Era cedo, mas já havia gente batendo perna pela cidade, assim como eu e a dona do vestido antigo que parecia flutuar sobre o calçamento reluzente. Da próxima vez que for a Ouro Preto e topar a "aparição em traje de época, corro atrás dela. "Podexá", como se diz em bom mineirês.
Meu caro Casagrande. Sensação boa tive eu ao ler este seu poético comentário. Assim me orgulho de ter te intimado a se registrar no site. Agora intimo a publicar uns poemas ou crônicas deste seu bau de guardados. Um viva aos rabos-de-saia.
Gostei demais de descer essa ladeira com você. E tome imaginação nos passos ligeirinhos da moça de antigamente. Também padeço dessa vontade, que chega dort, de percorrer esse Brazilzão plural.
Beijo grande.
Os dedos tropeçaram no teclado: que chega a doer.
Mais um ótimo texto. Por um momento acreditei que o passado estava se materializando em corpo e alma. Quando se está em Ouro Preto, o passado muitas vezes brota naquelas pedras.
Anilson · São Luís, MA 8/1/2008 21:02Foi uma visagem, cumpadi?! Não fossem os carros, diaria que a foto principal saiu de um velho baú mesmo. O texto é daqueles que prende a gente do começo ao fim. Viva!
bardoGIL · Palmas, TO 9/1/2008 10:19
Antônio,
Já passei pela sua galeria no OLHARES. Adorei!! Beijinhos.
Cida, que bom que você gostou de descer a ladeira comigo viajando no caminhar invisível e lúdico da dona de trajes antigos. Sei da dor que você fala.
Grande Anilson. Sei que você fala com propriedade, sobretudo quanto o assunto é fotografia e texto envolvendo cidade antiga.
Se foi visagem, bardoGIL, passou como coisa real. Não somente para mim, mas para uma meia dúzia de gente que também a observava. Gostei dessa fotinha de perfil, setinha indicativa para uma visão do tipo grande-angular. Estou feliz por vê-lo no site novamente.
Ôpa, Joana. Devia ter me avisado que ia lá. Assim arrumava melhor a casa para te receber. hehe.
A foto é belíssima! Não me canso de admirá-la.
Seu texto é uma delícia e me fez querer andar por esse Brasil também, observando o seu andar em busca de imagens assim, meio sonho, meio sol.
Adorável colaboração!
beijos
Colaboração extremamente invejável, principalmente pela tua visita/trabalho.
Higor Assis · São Paulo, SP 9/1/2008 16:57
Ah se desse pra viver só de andar em busca de imagem, Saramar.
Na verdade fui a passeio, Higor. O trabalho maior foi se entender com a tal fotógrafa francesa, que não "parlava patavinê em bom portuguê, assim como yo em porr'defrancê". hehe.
Conversamos mais por gestos e risos que por palavras.
Ah. deixo aqui o endereço de uma galeria dela no OLHARES: http://www.olhares.com/honey
Perdão, gente. Furo no link anterior.
O correto é...
http://www.olhares.com/honey59
Antônio,
Gostei desta mistura de francês e português. e a sua galeria de olhares tá linda. continue. Passeei por lá bem umas três vezes desde ontem. Sem foto publicada não dá pra fazer comentários, você sabe. Eu já me cadastrei lá, mas ainda não tenho máquina digital e a velha já virou brinquedo de netos. Parabéns por todo o seu trabalho. Abraços.
Equivoquei-me. Português que nada! Portunhol, né?
Joana Eleutério · Brasília, DF 9/1/2008 19:32
E eu que tenho um hábito, creio saudável, de ficar remechendo
"nos guardados da falecida" (Mazaropi em Jeca Tatu), coisas e lembranças, fiquei assim como se estivesse não nos guardados mas ali mesmo em tantos lugares de alguns anos,
um abração Antonio, andre.
"A mulher da ladeira"... isso deve ser até nome de música. Bem legal Antonio.
Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2008 13:07
Oi, Rezende
Estou por aqui, começando a navegar e conhecer este mundoovermundo. Comecei com uma contribuição na agenda, e aos poucos vou ensaiando outros vôos por aqui. Adorei essa tua foto e já votei.
Por ser overneófito, considero-me aspirantescriba de sorte: que mal adentro a comuna e já me deparo com produção ruidosamente bem construída. Espero, ansiosa e sinceramente, ler-te novamente em breve. Abçs. www.ovisnigra.org/mangabeira@ovisnigra.org
Mangabeira · Natal, RN 10/1/2008 18:06Grande Rezende: Obrigado pela indicação deste espaço. Coisa boa e de qualidade é comigo! Seu texto é bom, possui leveza, criatividade e evoca dimensões analíticas pertinentes. Valeu!!!
ARY CARLOS · Palmas, TO 10/1/2008 21:45
Ary e Lu...
Estou feliz por vê-los aqui. O Overmundo é sim um grande portal para a troca de informações sobre cultura no Brasil e para a publicação de produtos dessa cultura. Quero ver o trabalho de vocês repercutindo aqui. Vocês são muito bem vindos!!!
Boas vindas também a você, Mangabeira. Vamos interagir, sim.
Salve, Alê. Mulher em ladeira andando como se flutuasse, de fato, é coisa sonora, musical... sei lá.
Caramba, André. Que viagem sua!
Joana... fotografia vicia, viu?! É também uma eterna oficina. E como faz bem.
Caríssimo Rezende,
a máquina é surrada, mas a foto ficou boa demais... nem precisava do texto rezendiano para complementá-la...
Abraços,
Gameiro.
Mulheres que andam como se flutuassem são fadas como eu, tão reais quanto imaginárias. Gostei muito do que vi e li aqui.
fada · Natividade, TO 13/1/2008 21:55Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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