Depois de alguns anos ouvindo e tendo ficado cansado do rádio-jornalismo produzido em Sergipe, sugeri a companheiros radialistas e jornalistas que buscassem elaborar uma pauta que não ficasse vinculada somente aos temas que as grandes redes nacionais elegeram como prioridade.
Pois como sabemos, nem sempre as prioridades da Veja, Globo, SBT, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, entre outros, são de fato representativas dos interesses da maioria da população. Na verdade, estão em função dos vínculos econômicos/corporativos que ligam essas empresas de comunicação a grandes grupos nacionais e internacionais articulados com outros ramos da economia e a certos esquemas de dominação e exclusão, como é o caso de brancos racistas da África do Sul, que detêm o controle acionário da revista VEJA, conforme denúncia divulgada através da Rede Bandeirantes e em outros veículos de comunicação.
Nessa mesma linha, outro aspecto importante e que me levou a afastar-me da audiência das emissoras locais, principalmente em 2006, foi a falta de respeito a uma regra básica de qualquer manual do bom jornalismo, que é sempre ouvir o outro lado. Cansei de ver o PT e o candidato a governador, Marcelo Deda, ser linchado, achincalhado ou humilhado pelas ondas do rádio e não ouvir o contraponto, a outra parte.
Por isso, passei a utilizar como fonte de informação os sites na internet e/ou a edição impressa dos seguintes veículos: Carta Maior, Adital, Brasil de Fato, Caros Amigos, Overmundo, Centro de Mídia Independente , Observatório da Imprensa e Carta Capital.
Ou como no caso do rádio, as emissoras Favela FM, de BH e a CBN, essa última apesar do posicionamento ideológico da maioria dos seus jornalistas, afinados com o famoso “Consenso de Washington” pelo menos faz um debate de alto nível, o que deixa brechas para vozes dissonantes.
Na mesma linha dessa emissora, temos aqui em nossa província, porém na forma escrita, o jornal Cinfom que, embora muitas vezes (principalmente no ano de 2006) tenha repetido a suposta “opinião pública” da qual, Veja, Globo, SBT, Folha, Estadão, se julgam porta-vozes, através de seus editoriais, pelo menos não deixou de lado a abordagem ampliada de assuntos que muito interessam a quem mora na periferia, vive de salário mínimo, anda de ônibus, tem os filhos matriculados em escola pública, depende do “humor” dos funcionários e médicos dos postos de saúde, não tem acesso à arte e cultura de qualidade e não pode investir em serviços privados de segurança etc.
São assuntos que nem sempre tem recebido o espaço, a análise profunda, o debate com especialistas, o contraditório, por parte da nossa grande imprensa, a não ser quando acontecem grandes tragédias e mesmo assim com o viés sensacionalista e supostamente “preocupado” com a maioria da população.
Neste ano de 2007 voltei a ouvir programas de rádio produzidos em Sergipe, principalmente a emissora estatal Aperipê FM, que a partir da conquista do governo estadual pela aliança PT - PC do B - PSB - PMDB - PTB etc., está possibilitando a participação de uma equipe que sabe selecionar dos nossos bons e tradicionais artistas e bandas as melhores músicas, incluindo os grandes sucessos.
O mesmo se sucede com os novos artistas e bandas, como DJ Dolores, Mombojó, Afroreggae, Naurêa e uma pá de gente boa, mas que são preteridas em favor tão somente do arrocha, do brega, do forró transgênico ou eletrônico, os únicos tipos de música que tocam na maioria das emissoras comerciais, o que, conseqüentemente, leva a população a achar que não existe mais nada além disso.
A Aperipê FM também apresenta o programa brasileiro da Rádio França Internacional, que ouvi algumas vezes pela internet e que tem uma pauta que interessa a quem quer entender e discutir os grandes temas da atualidade e também aqueles ligados diretamente à nossa realidade, pois é comum o programa entrevistar artistas, intelectuais, ativistas sociais e políticos brasileiros que estão morando, estudando, trabalhando ou de passagem pela França.
No caso da outra emissora estatal, a Aperipê AM, será necessário mudar muito mais, para que ela se torne uma emissora voltada prioritariamente para a informação plural e de qualidade, que acredito ser o papel estratégico para o qual ela parece destinada.
Espero que ela se torne algo tipo uma CBN local. Será bom para nós e para o novo governo que foi eleito pelos sergipanos para colocar Sergipe em condições de dialogar e contribuir para as mudanças que o Brasil e o mundo tanto precisam.
Uma boa referência para isso também são os programas jornalísticos gerados pela Radiobrás, que atende a todas as nossas expectativas: busca atingir uma gama variada de assuntos de interesse público, com seriedade e profundidade, e ouve o outro lado, mesmo quando é uma opinião contrária ao pensamento do governo federal.
Não apenas em Sergipe, no plano nacional também há situações que precisam de uma atenção especial dos ativistas sociais, políticos e culturais. Recentemente li com pesar a notícia referentes as dificuldades para a manutenção das atividades da agência Carta Maior, que foi um veículo que serviu de trincheira no ano de 2006 ao enfrentamento do esquema midiático que pretendeu derrotar o bloco político vencedor das eleições de 2002.
Será que o governo federal e alguns estaduais comprometidos com as transformações básicas que tanto precisamos (como a democratização da comunicação) não dispõem de dinheiro de publicidade para investir nesses veículos, não como favor, mas como obrigação, considerando que as polpudas verbas de publicidade estatal são o sustentáculo principal da maioria, quiçá de todos os veículos da iniciativa “privada”?
Acho que nem é preciso lembrar aos nossos companheiros e camaradas do governo federal e dos estados que acreditam e fazem a sua parte para ajudar na construção de “outros mundos” que a ditadura militar não foi embora sem que antes se tivesse investido pesado em órgãos de comunicação como a Rede Globo, que vez por outra se lançam contra aqueles que também acreditam e desejam construir “outros mundos”.
Dentre eles, podemos citar o MST, como um símbolo desse embate entre os que detêm poderosos meios de comunicação para manter o povo na indigência intelectual e ética e aqueles que querem seres humanos à altura dos ideais de solidariedade, tolerância, inteligência e beleza que tanto precisamos para não voltarmos novamente à barbárie à qual estamos chegando rapidamente a passos largos.
Para terminar um SALVE !!! para aqueles que lutam para construir e manter Rádios e TV’s Comunitárias, sites e blogs. E não nos esqueçamos de que é preciso interagirmos mais e batalhar muito para que antes do término desse segundo mandato presidencial não continue sendo crime montar uma emissora de rádio para falar do que realmente nos interessa e tocar músicas sem precisar ficar “amarrado” às listas de umas emissoras que tocam músicas que promovem a “prostituição” ou de outras que tocam músicas que promovem a “alienação" e a “intolerância”.
Será que não podemos conquistar o direito de ir além da infeliz dicotomia entre Deus e o Diabo nas ondas do rádio?
P.S.:
1 – No artigo “Algumas reflexões sobre a crise de Carta Maior” Bernardo Kucinski, jornalista, professor da Universidade de São Paulo e editor-associado da Carta Maior, retoma algumas propostas que estiveram em discussão junto ao governo federal no primeiro mandato: (...)Entre essas propostas está o vale-jornal, que daria a todo cidadão sem recursos suficientes um vale para receber o jornal de sua preferência. Numa primeira fase , receberiam o vale jornal cidadãos já cadastrados em programas sociais (...). Outra proposta que o governo deveria retomar era a do programa de apoio à consolidação de veículos sem fins prioritariamente lucrativos, que selecionaria anualmente dez veículos impressos, dez rádios comunitárias e dez sites da internet (...). Seus projetos seriam selecionados por um comitê técnico independente. Se a Secom e as empresas estatais alocassem a esses programas e políticas apenas 3% de suas verbas publicitárias, já se daria um grande salto ma qualidade na mídia brasileira.
2 - Esse artigo foi escrito ao mesmo tempo em que se saboreava, ao fundo, músicas da Aperipê FM.
3 A primeira vez em que ouvi falar da banda Mombojó foi através do Overmundo.
4 - Para quem não quer ficar somente na indignação e quer ir além das palavras, vale a pena aprofundar-se no tema das políticas públicas e solicitar o posicionamento dos deputados e senadores sobre a questão da liberdade para a radiodifusão comunitária. Um bom caminho é começar por aqueles legisladores que se dizem de esquerda.
5 - Espero que em breve possamos ouvir o programa de Rádio do Overmundo na Aperipê. Esse programa tem entre os seus realizadores um overmano de Sergipe, Marcelo Rangel, que também, para nossa surpresa e alegria, foi indicado recentemente para ser o nosso Secretário Adjunto de Cultura.
Boa colaboração, hein, Zezito, parabéns! Merece uma visitada muito atenta em todos os links, coisa que ainda não fiz mas já está na lista. Dá muito pano pra manga essa discussão. Abraço!
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 23/4/2007 10:58
Obrigado, Helena, o que está colocado aqui é resultado de uma necessidade que percebi quando li excelentes textos aqui no overmundo, que apresentam o problema da falta de público para determinado tipo de programação, enquanto em outras é "gente saindo pelo ladrão" .
Esse texto coloca uma questão que nem sempre é considerada.
Como poderei gostar de um tipo de música e/ou outra manifestação cultural qualquer, se não a conheço? E como posso conhecê-las, se a maioria das emissoras só toca os mesmos artistas, as mesmas bandas e a maioria dos radialistas só vivem falado bobagens?
Ou então, gravei o meu Cd e daí? Se as emissoras de rádio não tocar, o que me resta? Vender para os parentes, os amigos, ou apenas nos shows?
É, Zezito! Infelizmente esta é a triste realidade. Muitos excelentes trabalhos permanecem invisíveis pois a direção premeditada dos holofotes só contemplam "os eleitos" , e os critérios a gente já sabe quais são. Neste país múltiplo, a perda é muito grande. Dar ênfase à midia alternativa, até mesmo uma associação dos excluídos podem ser uma forma de sobrevivência.
Zezito, parabéns pela articulação bem dosada de idéias e links.
André Dib · Recife, PE 23/4/2007 21:12
Caro amigo Zezito.
Quero primeiramente lhe agradecer pelo convite e lhe dar os parabéns pelo excelente texto, que tem uma reflexão ao que nos cerca e principalmente ao que nos é imposto pelos grandes veículos de comunicação.
Realmente este tipo de articulação e pensamento tem de ser mais valente do que somos hoje em dia e cobrar mais ainda do que desejamos.
Neste caso cabe o gerúndio sim!
O Overmundo é um ótimo canal para pluralizarmos idéias, claro além dos blogs, rádios comunitárias e outros veículos menores.
Sua proposta inicial no texto achei interessantíssima, pois traz uma discussão de ideais e idéias mais conjuntas, mais complicadas e que faz repensarmos tudo o que cerca esta nova sociedade que, cada dia que passa torna-se mais capaz de entreter com o que lhes é oferecido. A começar pelas cabeças 'pensantes' os universitários onde devem ter seu engajamento sacudido e instigado para valorizar o despertar de um povo grande que ainda permanece desacordado.
Valeu ! Edna, André e Higor.
Como disse no comentário anterior, o que escrevi acima dialoga com outros textos, inclusive com um que Higor escreveu há algum tempo, "Por um overmundo mais politizado". Como vocês podem perceber, além de fazer a critica, busco registrar o que está sendo feito de positivo e que aponta saídas concretas para o desastre mental, não só ambiental, que estão perpretando contra todos nós.
Lembro das vezes, nos debates acalorados, aqui no overmundo, em que alguns overmanos e overminas colocam a pergunta inexorável. E aí, manos e minas? Qual (is) as alternativas?
Lá pelas tantas, essa pergunta apareceu por exemplo, no texto: "A nova decadência da cultura pernambucana" .
Espero ter colaborado para percebermos o quanto se faz necessário articular mais as lutas, unindo forças com outros movimentos, outras sensibilidades, outros desejos.
Um grande abraços para todos (as).
olá zezito,
é sempre bom te ler. mais uma vez voce cede seu bau de dicas para quem tá começando nesse meio de tanta indignaçao!
um abraço,
Grato Lucy. Apresento para você (s) mais um texto publicado aqui no overmundo e cujo argumento central é bem próximo do escrevi. A autoria é de de Je Durden "Miditadura"
Abraço!
Gostei muito, pois reflete bem como anda nossos meios de comunicação!!!
Abraço!!!
Valeu !!! J.D. Nascimento.
Reitero o que já disse sobre o fanzine/blog que você produz. Gostei do layout e das matérias.
Quando reponder a esse comentário deixe o endereço para a galera.
Abraços !!!
Valeu mermu Zezito!!! Um abraço!!
Ta ai o link!!!
http://jornalabaixoassinado.uniblog.com.br/
Serei sucinto: "Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura"!
Excelente postado nobre Zé. Suas colaborações são sempre primorosas.
Tenha um final de Semana. jbconrado.
Excelente postado nobre Zé. Suas colaborações são sempre primorosas.
Tenha um BOM final de Semana. jbconrado.
Ayruman,
Muito grato pela atenção, consideração e carinho.
Tudo de bom para você e para todos que acreditam e trabalham por um mundo melhor.
Raciocínio perfeito em relação à temática da gestão em comunicação no país.
É pena que atualmente não sinto avanços na política de comunicação democrática do Estado de Sergipe e investimentos para a Fundação Pública que deveria cuidar muito mais e com melhor qualidade da divulgação cultural dos sergipanos. Lembrando, inclusive, que o artigo foi escrito em 2007.
desde 2007 - quando o artigo foi escrito, cuidar muito mais da divulgação cultural
Renato,
Uma pena, que os “reforços” e sugestões contidos nesse texto, tenham sido “pouco” considerados em nosso estado. De lá pra cá, houve avanço no plano federal, com a criação e ampliação da EBC, inclusive em termos de qualidade e diversidade, porém, o governo federal não avança na questão da regulação dos meios em geral, afora a não ampliação das concessões de radio e teledifusão para organizações de cunho social, cultural e educacional, de fato. O que nos salva é a internet.
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