Comunidade.com

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Ricardo Sabóia · Fortaleza, CE
21/7/2006 · 129 · 4
 

Geograficamente, o Bairro Ellery situa-se na região noroeste de Fortaleza e tem como limites os bairros Álvaro Weyne, Alagadiço, Carlito Pamplona, Monte Castelo e Presidente Kennedy. Possui cerca de 12 mil habitantes e comemora, neste ano, 50 anos de existência oficial. Desde 26 de janeiro, porém, tornou-se um local sem fronteiras, com a inauguração do “sítio” bairroellery.com.br.

Experiência pioneira na comunicação comunitária cearense, o site é um projeto do Conselho de Desenvolvimento do Bairro Ellery, fórum das entidades populares da região, e surgiu como iniciativa do assistente administrativo Aguinaldo Aguiar, em parceria com o professor da rede estadual de ensino Raul Carlos Campos e o webdesigner Daniel Almeida. Aguinaldo explica que a origem está ligada à história de um outro veículo de comunicação do bairro, a bem-sucedida rádio Mandacaru FM, fundada em 1992 e fechada com a recente política de repressão às rádios comunitárias. “O sítio surge naturalmente após o fechamento da rádio, da necessidade de buscar novas alternativas. Claro que são mídias completamente diferentes, mas faz parte do mesmo processo”, diz.

Se as atividades desenvolvidas na Mandacaru podem ser consideradas o embrião do site, ele se tornou realidade graças a um novo cenário na região: a proliferação de lan houses. Como tantos outros bairros espalhados pelas periferias das cidades brasileiras, o Bairro Ellery vê crescer um público significativo que está bem mais próximo do ciberespaço.

Atualmente, funcionam na área oito lan houses. Cinco delas são parceiras fundamentais do projeto, através de um esquema simples, mas eficiente: comprometem-se a fazer do site do bairro a página inicial dos computadores. Em troca, são divulgadas na seção de parceiros. “O Aguinaldo disse que não precisava pagar, era só colocar o site nas máquinas. Então falei: vamos lá!”, diz Valmir Alves, dono da A.M.V. Conect Atualidades Virtuais (assim mesmo, sem um n no connect). “Funciona bem, porque todo mundo, o pessoal dos colégios, das igrejas, quem mora no bairro, ou os parentes de quem mora, entra aqui e sempre passa pela página. Quando eles saem, eu retorno para o site do bairro. Claro que o pessoal mais novo coloca seus flogs para ficar em destaque, põe foto como protetor de tela, mas eu mudo depois”. A lan house de Valmir possui cinco computadores e, mesmo em uma rua aparentemente pouco movimentada, está localizada ao lado de outra, chamada simplesmente de... LAN HOUSE! “Tem espaço pra concorrência?”, pergunto. “Se eu tivesse quinze computadores, os quinze ficariam ocupados. A população ainda é carente de computador, a maioria das casas ainda não tem, e as pessoas que têm aparecem aqui quando estouram os pulsos da conta telefônica.”

Aguinaldo traça três objetivos principais para consolidar efetivamente o site, ainda em fase de aprimoramento. O primeiro é viabilizar um instrumento de publicação direta de conteúdo por parte dos moradores. Em outras palavras, criar no Bairro Ellery uma cultura de “jornalismo colaborativo” e cidadão, onde cada morador sinta-se interessado e tenha condições de registrar acontecimentos, fatos, reivindicações. O segundo, a possibilidade do site tornar-se um banco de memória da comunidade. O terceiro é ampliar a democratização das políticas do bairro. “Ele pode preencher, pela proximidade com os moradores, pelo surgimento de uma nova rede de colaboradores, um espaço que normalmente não é ocupado pelas mídias comerciais. Pode dar visibilidade não apenas aos eventos, mas a iniciativas, a articulações, a produções da comunidade. Acho que o sítio pode ser um provocador, um estimulador de novas coisas.”

A realização destas metas implica, naturalmente, um engajamento constante dos moradores do Bairro Ellery. É possível, porém, já perceber alguns resultados interessantes na empreitada. Atualmente, funcionam uma seção de notícias exclusivas do bairro, com a cobertura de acontecimentos culturais, religiosos, esportivos e políticos (como as reuniões do Orçamento Participativo e as políticas públicas de segurança), uma agenda com eventos programados para a região e uma seção de classificados. Há ainda um projeto de se criar um guia catalogando os principais serviços oferecidos na região, que seria consultado através de um mecanismo de busca.

A média dos acessos diários é de 200 visitas, mas a cobertura de eventos populares no bairro costuma gerar picos de audiência. “Na época do carnaval, quando o sítio se lançou com a divulgação de fotos do bloco ‘Sai na Marra’, esse número saltou, foi de zero para mais de 20 mil page views”, diz o webdesigner Daniel, que criou e mantém o bairroellery.com.br a partir do uso de softwares livres. “O sítio é interessante porque quando você olha para esses números que mostram o interesse pelo bloco de carnaval ou pelas comemorações dos 50 anos do bairro, você vê que é o pessoal da comunidade olhando para si próprio.”

A análise de Daniel coincide com sua experiência pessoal em participar do site: “Fui convidado pelo Aguinaldo, ele queria me contratar. Eu falei ‘que é isso, rapaz, eu sou do bairro, cobro nada não’. O sítio acabou me aproximando das mobilizações que já existam no bairro, do local em que eu moro.”

O professor Raul compartilha as impressões de Daniel, vendo no site um espaço onde os moradores do Bairro Ellery podem se (re)encontrar: “É difícil delimitar uma função para o sítio, mas acredito que ele tem que cobrir todas as coisas daqui. Quando o bloco de carnaval saiu e as pessoas foram ver no dia seguinte na internet., elas se reconheceram ali”. Raul, porém, propõe uma leitura que transcenda os próprios limites da região. “Ele deve ser o ponto de partida para outras ações de participação comunitária na cidade. Ele deve ser do bairro, mas não bairrista.”


Bairro Ellery na internet:
http://www.bairroellery.com.br
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1009216

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Hermano Vianna
 

Muito bom o site! Bem desenhado, fácil de encontrar as coisas e saber o que está acontecendo no Ellery. Parabéns para o bairro! Utopia: todos os bairros brasileiros (e não só os das periferias - e nisso o Ellery dá lição para todos) com sites semelhantes. Alguém conhece sites como esse em outras cidades? Podemos fazer uma lista aqui nos comentários.

E realmente: na falta de telecentros (como estão os de SP?), as lan houses já estão se transformando em centros comunitários. Gostei da idéia do bairroellery.com.br de parceria com as lan houses. Podemos ter uma rede de lan houses em todo o Brasil com o Overmundo como página inicial dos computadores? Seria uma maneira interessante de encontrar colaboradores entre a imensa população sem-computador...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/7/2006 18:24
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Hermano Vianna
 

Há outro texto sobre as lan houses de Cuiabá aqui. O Vladimir Cunha me falou por email da nova lei para menores de 15 anos nas lan houses de Belém. O assunto dá boas conversas...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/7/2006 21:27
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kerla alencar
 

muito legal a iniciativa da comunidade do Ellery. muito legal tbem a iniciativa do ricardo de nos apresentar essa história. parabéns! agora, tô com vontade fazer o sitio do meu bairro, a parangaba! :)

kerla alencar · Fortaleza, CE 23/7/2006 11:10
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Edgar Borges
 

excelente iniciativa. valorizar o próximo ajuda a entendê-lo melhor.

Edgar Borges · Boa Vista, RR 24/7/2006 16:40
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