Conceição é uma cidadezinha do Sudeste tocantinense. Ela fica a 304 km de Palmas, capital do Estado. Chegar até lá só é possível por estrada de chão. A falta de asfalto remete gradualmente o visitante desacostumado a um outro universo.
A paisagem é árida, a estrada é ruim, pois não suporta o peso das carretas que passam levando carga para as PCH’s – Pequenas Centrais Hidrelétricas em construção. Ao passar sobre pontes e bueiros onde antes correram leitos de ribeirões agora secos, têm-se a exata noção da tragédia vivida pelas pessoas que ainda não abandonaram o local. Pois foi naquela região isolada do “mundo”, onde precisei trabalhar por três dias no começo deste duro mês agosto, mês de seca no coração do Brasil, que me dei conta do que realmente significa a expressão off line.
Conceição não tem acesso à internet, não tem sinal de nenhuma operadora de celular. De lá, para falar em casa, só usando orelhão. Para quem tem fome no meio da tarde há uma só padaria, e dois “loucos” perambulando por alí. Um visivelmente perturbado, olhar perdido, usa apenas uma calça jeans, dois números maiores que o seu, presa na cintura por um barbante. O outro é malandro escolado, se faz de louco para garantir uns trocados, andando com as roupas sujas, e visual punk.
Tudo na cidade acontece devagar. Fomos até lá cumprir agenda típica de ONG, cobrindo a formação de comitês populares que vão discutir o destino dos rios. A região de Conceição do Tocantins, Paranã, Taipas e Arraias, onde comunidades remanescentes de quilombos sobrevivem da agricultura básica, tem rios intermitentes. Fartos de águas quando o período chuvoso é pródigo, seus afluentes secam completamente no período de estiagem.
É neste cenário que estão vivendo centenas de famílias que vivem no campo, praticamente à míngua. Seus “gados”, como chamam as poucas cabeças que têm, vagam quilômetros procurando água. Quando encontram alguma cacimba que ainda possui o líquido barrento, mas necessário para garantir a vida, bebem tanto que caem prostrados, sem força para se levantar. Assim não é difícil encontrar carcaças de novilhas e bezerros secando sob o árduo sol tocantinense.Para mitigar a situação o governo do Estado já toma providências a curto prazo. A médio já começou a agir, e uma dessas ações foi justamente a que fomos documentar: cria um plano de Bacias para decidir o que se pode ou não fazer com os rios Palma e Manuel Alves, dois dos maiores da região. Mas a questão ali está além da seca.
A falta de água, circunstancial (outra seca como esta aconteceu em 1999) é básica, mas em Conceição e neste Brasil tal qual ela falta muito mais. Observando os moradores às cinco da tarde, com suas cadeiras na calçada, comentando a vida que passa nas ruas pouco movimentadas, percebe-se que falta quase tudo. Lá não existe inclusão digital. Seus jovens não têm muito para fazer. A diversão é tomar cerveja e jogar bola. Para quem gosta, um bom prato. Mas para quem quer mais, nada disto satisfaz.
Há 82 km de lá está Paranã. O acesso também se dá via estrada de chão. Ali já se pode perceber uma pequena diferença. Uma “lan house” para a cidade toda, é o point da ferveção. A qualquer hora do dia, falta cadeiras e computador disponível para a garotada acessar do Orkut a blogs, ou fazer pesquisas no Google. Paranã é também uma cidade sem sinal de telefonia celular. Nestas cidades, com população de 2 a 5 mil habitantes, com um baixo índice no FPM – Fundo de Participação dos Municípios, e baixo IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, é possível perceber o quanto nossa vida nas médias e grandes cidades é rica em possibilidades. Ali, isolados do mundo, garotos e garotas crescem com quase nenhum acesso à informação e cultura. Aliás, esta última para eles se resume à manifestações do folclore religioso.
Este Brasil que pouca gente vê, vive longe demais de tudo, e à sua maneira pede socorro. Ali, brasileiros vivem com tão pouco, que enche os olhos de quem passa e registra seu cotidiano de luta pelas condições mínimas de sobrevivência. Como estas outras cidades fora do eixo de desenvolvimento, também sobrevivem no interior do Brasil. Para aquela juventude falta música, cinema, teatro, livros. E sobra televisão. Uma TV que sabemos, não educa. Triste sina, Conceição.
Roberta, é verdade. Conheço até Silvanópolis, acho que para o mesmo rumo, né? É realmente um grande abandono, tal isolamento, como vc diz, que parece que entramos em outro mundo. Mesmo aqui perto de Araguaína existem lugares, talvez uns 25, 30 km daqui que o isolamento é tal que quando se está lá parece que o afastamento das regiões mais povoadas dista pelo menos 500 km.
E tem um agravante aí: é uma região que sofre muito com a falta d'água, vi inclusive matérias falando disso em Arraias. Belo resgate, Roberta.
Precisamos falar de uma realidade que, mesmo no Tocantins, poucos conhecem. Para o Brasil, então, é outro mundo.
abcs.
E votado pela expressividade.
Excelente artigo Roberta,
Infelizmente é essa a realidade cultural do interior do país que acha que o Brasil só se resume ao eixo Rio-São Paulo e mesmo assim só as áreas privilegiadas, pois a minha Belford Roxo também é como se fosse(desculpe da má palavra) o cu do Brasil. Mas para mudar esse triste cenário é preciso que nós o povo nos oraganizemo, e como o jjLeandro bem disse, discutemos publicamente essa realidade que é a realidade de todos nós povo brasileiro e não personagens de telenovela de horário nobre e muito menos capas de revistinha Quem ou Caras.
Bjs minha querida!!!
Roberta, amiga.
Belissim trabalho jornalistico, mostrando uma das milhões de faces do Brasil que a maioria desconhece. Desbravar e relatar os nossos problemas sociais é uma tarefa árdua, entretanto, um alerta para nossos politicos, a maioria, insensível à miséria, a falta de cultura, ao caos social que se instalou nesse país.
A condição de vida dessas pessoas, que tão bem descreves em teu texto, é o retrato vivo do descaso dos governantes.
Belo texto, querida amiga, belo trabalho, mesmo que doloroso.
Parabéns
beijos
Noélio
Bravo, Roberta!
Como sempre, seus textos primam pela inteligência e bom gosto.
Pena que dentro do nosso Brasil há tantos outros pequenos países abandonados, lugarejos escondidos dos grandes centros, onde a vida pulsa, onde se vive com tão pouco, onde falta tudo. Onde falta a obrigação do Governo.
ROBERTA,
triste sina mesmo a dessa cidade, tão parecida ou tão igual à sina de tantas outras, escondidas por esse Brasil e que há intenções em que se permaneça no anonimato. Parabéns, belo trabalho.
Abçs de Betha.
Roberta,
Seu passeio pela Conceição Tocantinense, é um primor.
Votadíssimo, amiga, e está fechado a parada.
Abçs. Benny.
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