Confissões de um traficante de drogas

Geórgia Santiago
Beleléu demonstra nervosismo ao detalhar sua história
1
Andreh Jonathas · Fortaleza, CE
20/3/2007 · 116 · 12
 

Foi na véspera de natal do ano de 1995 que o ex-auxiliar de tesouraria de uma grande multinacional conheceu as drogas. O nome, ele não esconde, muito menos sua história, que é um exemplo de como nasce um traficante de drogas. Foram cinco anos traficando para altos funcionários do trabalho e mais seis anos para “cartaozeiros”. Manuel Valentim Júnior tem 45 anos e é recuperando da Fazenda Esperança, uma casa para dependentes químicos. Ele aceitou conversar comigo e contou tudo... sem reticências.

Uma foto de jornal mostrou a imagem de um procurado pela justiça. Isso foi o bastante para o chefe de tesouraria da multinacional reconhecer que o traficante era irmão do seu subordinado; exatamente, Júnior. Esse foi o primeiro chefe da empresa a lhe rogar drogas, relata. Cinqüenta reais de “camisa de linha”, o pedido. Júnior disse ter ficado surpreso com a situação, mas não hesitou na possibilidade de ganhar um dinheiro extra e procurou o irmão a fim de comprar a cocaína para revender. Assim, como “aviãozinho”, Júnior, conhecido como Beleléu, teve o primeiro contato com a “farinha”, conta.

A fala era bodejante. Júnior não escondia o nervosismo com a presença da reportagem. No mesmo dia, a convite do chefe, ele relata que foi a uma festa na Praia do Futuro em uma barra de praia, onde provou a cocaína: “ai eu gostei”. Em cadeia, de chefe em chefe, a venda na empresa tornou-se rotina. “Eu passava mais tempo indo lá em casa do que trabalhando. E tudo era para cargo elevado. Num era negócio de peão não”, diz Júnior. De quinta a domingo, ele tinha que abastecer cerca de 20 pessoas na fábrica da empresa onde trabalhava. “Antes, eu não era ligado com isso. Sabia que meu irmão usava. Mas eu nunca tinha usado. A gente morava numa casa de três andares. Eu sabia que a polícia iria chegar lá pra pegar meu irmão, por isso minhas contas eram separadas pra não misturar as coisas”, explica.

Nas festas juninas de 1996, o traficante estava consumado. Júnior conta que a demanda aumentou a ponto de ter que estocar o produto na própria empresa, mesmo sem o conhecimento dos chefes: “Eu pegava a moto, dava a volta no quarteirão e simulava que ligava pra meu irmão. Passei a ser traficante já.” Em 2001, ele foi demitido da empresa, onde trabalhava desde 1988. A cocaína não fazia mais efeito. O crack, então, era a salvação. Com o irmão preso, ele fala que teve de ir buscar “do mole”- cocaína - para fazer “do duro” ou “brita” - crack. “Ai, eu conheci o Lagamar e as pessoas que compravam do meu irmão”, diz.

“O que dá dinheiro é a cocaína e o crack, por isso não procurava outra coisa.” No Lagamar, ele conheceu os “cartãozeiros”, golpistas que utilizam de uma máquina chamada “chupa cabras” para clonar o cartão de correntista de banco. “Eles gostavam muito de mim. Sabiam que eu tinha uma mercadoria boa. Passavam 15 dias usando direto e vinham de Belo Horizonte, Maranhão e Natal”, diz Júnior.

O preço e o efeito. “Cinco gramas era R$110. Depende da qualidade. Chegava até a R$200, se for da pedra branca. Eu vendia por R$150 e ganhava R$40. Chegava a tirar R$1.500 por fim-de-semana”, explica Júnior. Ele fala que os cartãozeiros compravam em grande quantidade: “Num faltava dinheiro não. Era dinheiro bem novim na liga”.

O recuperante diz que os clientes golpistas “davam uma tacada” - golpe - e voltavam para o Estado de onde vinham, ao perceber que a polícia estava investigando. “Enquanto eles estavam viajando, eu me acabava aqui com a pedra. O crack vicia na primeira tacada”, confessa. Ele explica que os efeitos são diferentes. A cocaína “dá vontade de sair” e “você fica ligado”. Segundo Júnior, ele chegou a ficar oito dias acordado por causa da droga. Já o crack, “te interna. Você fica escutando e vendo coisas que não existem”, relata.

A mãe não sabia. Maria Carmelita Gonçalves Valentim tem 71, é aposentada e desconhece a trajetória do filho. Dona Carmelita somente tinha certeza que as drogas estavam acabando com o filho. “Ele estava muito bravo. Passava o dia fora e voltava acabado”, expõe. A memória da mãe não guarda as vezes que o filho passava dias fora de casa, mas as lembranças do filho que não comia e dormia no chão, ela não esquece. “Meu Deus, o que é que eu faço”, suplicava a aposentada. Em conversa por telefone com a mãe, o recuperante teria dito que ela saberia a verdadeira história nas páginas do jornal a quem daria entrevista.
Uma batida denúncia anônima teria levado uma batida policial à casa de Júnior, onde foi encontrado maconha, cocaína e maconha. De prontidão, atribuiu a posse da droga à Ricardo Willian Gonçalves Valentim, tendo em vista que Júnior já havia iniciado o tratamento para dependentes químicos. Ricardo foi preso novamente, dessa vez, por conta do irmão, diz. O relato da mãe mostra um fim, temporário, para a história de dois filhos envolvidos com as drogas. Um se recupera e o outro está no IPPOO (Instituto Penal Professor Olavo oliveira).

Recuperação. Com o intuito de deixar o sobrinho para ser interno na Fazenda da Esperança, Júnior acabou gostando da Casa e resolveu ficar. Ele está há três meses na entidade, onde pretende permanecer até o fim, um ano. A rotina agora é trabalho, oração e convivência com outros 41 ex-dependentes químicos, filosofia da Casa. Júnior diz não saber o que vai fazer quando sair da casa, mas pretende trabalhar e cuidar da mãe. Ele finaliza a entrevista dizendo que tem a sinuca como atividade preferida e que, um dia, vai reformá-la.

A Fazenda da Esperança possui 44 unidades no Brasil e trabalha na recuperação de dependentes químicos desde 1999 no Ceará. Ela foi fundada, em 1979, pelo frei Hans Steppel e por Nelson Resende. A instituição será a única a ser homenageada pelo Papa Bento VII, no mês de maio, em São Paulo. Por isso, a casa está precisando de doações para a viagem.

Amador. O delegado titular do Departamento de Investigação de Narcóticos (Dnarc), Bruno de Figueiredo, classificou o tráfico de drogas, no Ceará, de “amador, sem estrutura e sem um poder central”. Para ele, o esquema de venda de entorpecentes não pode ser comparado ao do Rio de Janeiro. O Denarc fez um mapeamento da Capital e concluiu que existem quatro áreas onde o tráfico é forte: Região do 6º. Distrito Policial, que cobre a Favela Por-do-sol e São Miguel; 13º Distrito Policial, correspondente ao Lagamar e Cidade dos Funcionários; 30º Distrito Policial, o mais crítico e pega o Jangurussu e o Conjunto Palmeiras II; por fim, o 8º. Distrito Policial, onde estão localizada a favela Rosalina. Essa última região faz fronteira com o Pantanal.

Ele confirma que traficantes presos, portando crack, estão na frente das estatísticas. A maconha é apreendida em maior quantidade, mas menos pessoas estão usando, afirma. O mês de fevereiro fortaleceu os números e registrou, em Fortaleza, a apreensão de 334g de crack, em detrimento de 239,63g de maconha. Bruno atribui a mudança ao baixo preço da droga, além de viciar mais rapidamente. Ano passado, de acordo com o Denarc, saíram de circulação 91,002 kg de maconha, 24,448 kg de crack, 445,84 g de cocaína, 17.855 unidades de comprimidos psicotrópicos, além de 3.555 mais 190,21 de outros tipos de drogas, que inclui LSD e micropontos.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Deoclécio Castro
 

O tema é interessantíssimo...
o estilo que tu usou tbm foi legal, o tom da informalidade...
mas eu nao gostei foi da construção do texto...
muitos pontos confusos....

Outra coisa, onde a estava a polícia no mês do carnaval que só apreendeu 500gr de droga??

Olha qual deveria ser a matéria de capa!!!

POLICIA VAI PULAR CARNAVAL E APREENDE SÓ 500g DE DROGA NO MES DE FEVEREIRO

Tbm acho que o uso dos muitos termos do linguajar do tráfico de drogas tbm dificultou o entendimento...

Usar mais aspas nas falas do entrevistado e verificar a pontuação pode facilitar....

Deoclécio Castro · Fortaleza, CE 17/3/2007 22:08
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andreh Jonathas
 

Opa! Olá, deo. Obrigado pelo comentário. De fato, gostaria de mais objetividade em relação aos "muitos pontos confusos" para que eu saiba exatamente do que está falando.

em relação ao trabalho da policia no período de carnaval, eu n estava com eles pra saber se foram esses números exatamente, mas tbm achei pouco. No mês de janeiro, foi apreendido mais drogas. A fonte dos dados foi a conhecida como "oficial" e é uma das mais confiáveis, no caso, o prórprio Denarc. É relevante seu comentário pq tbm é função nossa, dos jornalistas, o comprometimento com a informação mais próximo da realidade, já que, por motivos de filtros, espaço, linha editorial, interpretação, a realidade pura é um tanto complicada. Pode ter havido desvios de drogas? Sim, mas n era esse o direcionamento da matéria. A matéria denuncista é importante, mas n podemos ser levianos, tendenciosos e levarmos em consideração apenas uma suspeição. A quantidade pode ter sido somente essa mesmo.

A partir desses dados, é possível seguir para uma matéria de cunho investigativa, mas a informação tem q ser repassada, até pq conversei sobre as estatístivas com o titular do Denarc, Delegado Bruno.

Procurei fazer um texto diferente pra aproximar o leitor do entervistado por isso usei termos do "linguajar do tráfico ", mas tentei dá sempre informações sober o significado.

As aspas são itilizadas em passagens ipsi literis (tal qual) a fala do entrevistado, caso contrário, n coloca-se aspas pq sou q estrou escrevendo o sentido q ele falou. Dai, mais uma grande responsabilidade do repórter.

Se for possível indicar os erros de pontuação, agradeceria.
no mais, valeu pelas observações. vou ler o texto novamente.
abraço pessoal

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 17/3/2007 22:31
sua opinião: subir
Helena Aragão
 

Andreh, desculpa avisar em cima da hora (só faltam 2 h de edição), mas a legenda tá cortada. Provavelmente pq você usou alguma palavra entre aspas e, por um problema do sistema, as aspas causam um bug no sistema. Seria bom você conferir lá.
Abraço

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 11:45
sua opinião: subir
Andreh Jonathas
 

Olá, Helena,
uma pequena mágica e mudo a legenda. Brincadeira! Em contato com um dos moderadores, consegui modificar a legenda.
Você gostou do texto?
abraço pessoal

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 19/3/2007 22:37
sua opinião: subir
Roberta Tum
 

Oi Andreh. Vim, li, gostei. Talvez o aspecto confuso sejam as indas e vindas no tempo da matéria (por exemplo, enquanto você fala com ele, você se refere á mãe, e ao recado dele para ela). Mas tá ótimo, tá compreensível. O assunto é bem delicado.
Aqui em Palmas-TO também há uma Fazenda Esperança, iniciativa muito interessante da igreja católica, embora de métodos questionáveis. Mas´pelo menos é alguém procurando fazer alguma coisa. O resultado prático para os que conseguem sair, é fantástico. Acho que no geral, falta mais atenção ao dependente químico que tenta deixar de usar a droga, no Sistema de Saúde. O acompanhamento psicológico, alem do médico, é fundamental.

Abraço

Roberta Tum · Palmas, TO 20/3/2007 16:07
sua opinião: subir
Andreh Jonathas
 

Valeu pelo comentário, Roberta,
tive um pouco de dificuldades pra fazer esse texto por conta da maneira atemporal que o júnior inseriu na entrevista. Ele ainda fala um pouco embolado por conta da quantidade de drogas q usou. Um dos moderadores me questionou a publicação deste texto, tendo em vista a linha do overmundo, mas o convenci com o simples argumento de q está inserido em "comportamento" e por ser um assunto importante pra sociedade. Tentei dar um destaque pro Júnior e sua história, espero ter conseguido.
abraço pessoal

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 20/3/2007 22:14
sua opinião: subir
Juliaura
 

A. J.
Parabenzãos pelo postado.
Cê diz com as provas provadas todas que a enfuneração na drogadição parte do estímulo de quem tem as granas e a gana.
Por necessitado, o entrante em fria vai deixando a bunda na janela porque zoado é pior que bebum, passam a mão nela e cê nem dá por achado.
Quando dá por si, tá cagado.
Aí o delegado Bruno nos explica que a coisa não é estruturada.
Vai ver ele também acha que ninguém exporta menina, nem traz do interior pra colocar no trabalho do lenocínio e turismo sexual, por uma rendinha micha, que a parte do leão é do Giga-lô.
Tem delegado que é cego, se cego fosse burro, nesses tempos de inclusão.
João Bosco já dizia, acho que pelos versos de Aldir Blanc: "...não tem mais lugar pra amador!"

Juliaura · Porto Alegre, RS 22/3/2007 10:56
sua opinião: subir
Verônica
 

Parabêns pela reportagem, e parabêns para ele que buscou ajuda antes que fosse tarde.

Verônica · Fortaleza, CE 26/3/2007 14:18
sua opinião: subir
Andreh Jonathas
 

Olá galera,
A.J., a gente sabe q o tráfico mantém um sistema q n quer ser destruído. Óbvio tbm q existem homens da lei no esquema e tal....mas o pessoal daqui de Fortaleza faz um trabalho legal e, de fato, a coisa é meio amadora. Ai vc me pergunta: entao pq n acaba de uma vez? Não sei.
Em relação ao Turismo sexual, acho q ele sabe bem q existe pq aqui é a segunda cidade do BRasil dessa prática. Estatística que n orgulha nenhum fortalezense.

Verônica, espero q possa ter lhe ajudado em alguam coisa.

abraço pessoal
e obrigado pelo comentário

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 27/3/2007 23:21
sua opinião: subir
Juliaura
 

Ô querido Andreh Jonatathas,
Creio teres respondido a mim pensando estares te referindo a A. J., quando A. J. foi uma maneira que encontrei de substituir tua identidade overmundista grandona.
Entendi assim. É isso?

Tenho acordo que não seja tudo vinho da mesma pipa assim como sei que muita maçã ensacada sempre tem uma não muito santa. Fica tranqüilo.
Acho que há muitas mais pessoas do bem que do mal no mundo.
Abraçãozão.

Juliaura · Porto Alegre, RS 28/3/2007 08:57
sua opinião: subir
Verônica
 

Me ajudou sim Andreh, só em ter conversado comigo e me esclarecido algumas dúvidas já foi muito...obrigada menino!

Verônica · Fortaleza, CE 28/3/2007 10:36
sua opinião: subir
Andreh Jonathas
 

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....perdão, Juliaura
A correria com q respondi me fez trocar as graças.
A mão santa nas maçãs ensacadas foi irado
abraço pessoal

Andreh Jonathas · Fortaleza, CE 28/3/2007 10:45
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

imagens clique para ampliar

Júnior diz que nunca foi preso nem se envolveu com brigas zoom
Júnior diz que nunca foi preso nem se envolveu com brigas
A recuperação dura um ano, mas o acompanhamento continua zoom
A recuperação dura um ano, mas o acompanhamento continua
Trabalho, oração e convivência fazem parte do tratamento zoom
Trabalho, oração e convivência fazem parte do tratamento
A Fazenda da Esperança conta com mais 40, além de Júnior zoom
A Fazenda da Esperança conta com mais 40, além de Júnior

veja também

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados