Congado na microrregião de Viçosa

Paulo Sacramento - www.paulosacramento.com.br
Congado no Pavilhão de Aulas da Universidade Federal de Viçosa
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Paulo Sacramento · Viçosa, MG
12/1/2007 · 161 · 6
 

“Eu comecei a dançar com uns treze anos de idade. Hoje tenho 67 anos e eu só paro quando Deus falar que é dia de parar. Eu peço a ele que me deixa mais tempo, mas o dia que ele lembrar de mim, é ele que marca, né? É Deus que marca o dia, mas dizer que eu vou desanimar, que eu vou parar, não. Eu tenho amor pelo movimento que nosso pai deixou, é uma cultura nossa, então a gente não pode desprezar não."
Seu Dola, congadeiro

Este artigo apresenta em linhas gerais algumas características do Congado da microrregião de Viçosa, cidade da Zona da Mata mineira. Sei de outros lugares em que há festejos de Congado, como em Ponte Nova. Apesar disso, me detenho nas manifestações presentes em São José do Triunfo, distrito do município de Viçosa, e em Airões, distrito de Paula Cândido.

De início, acredito que é importante explicar que a manifestação cultural chamada Congado - também conhecida como congada ou congo – pode ser definida como um festejo popular religioso de formação afro-brasileira. Quando vemos o congado na rua, podemos perceber claramente a influência de expressões e costumes da África, mesclados aos elementos religiosos católicos, de origem portuguesa. Olhando o dicionário Houaiss, encontro o fenômeno descrito como “tipo de dança dramática que representa a coroação de um rei (e às vezes também de uma rainha) do Congo, constituída de um cortejo com passos e cantos, onde a música acompanha a expressão dramática dos textos, e que se caracteriza pela embaixada, por evoluções processionais e lutas simbólicas de espada. É de criação de escravos no Brasil, registrando-se desde 1674 em Pernambuco, mas na sua origem podem estar antigas disputas entre tribos rivais do Congo e de Angola.”.

Pelo que já falei, não surpreenderá ninguém que o Congado seja um movimento cultural notavelmente sincrético, principalmente sob a perspectiva religiosa. O ritual, que envolve danças, cantos, levantamento de mastros, coroações e cavalgadas, tem como centro a reverência a um santo padroeiro católico, variando de acordo com a localidade. No distrito de São José do Triunfo, o Congado é visto na rua várias vezes por ano. Entretanto, é no mês de outubro, na Festa do Rosário, que todos os elementos do Congado se expressam de forma plena, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. Há registros documentais que comprovam a ocorrência da festa na região desde o século XIX. A verdade é que não mudou muita coisa desde então. Os reis do Congado eram carregados em liteiras por oito escravos, enquanto o Congado, representando a guarda do rei, acompanha o cortejo bailando uma dança de luta típica africana. Utilizando espadas e instrumentos musicais como a cuíca, caixa, pandeiro e reco-reco, os congadeiros vão atrás da cavalgada que segue levando uma bandeira com a imagem de Nossa Senhora do Rosário. Também são carregadas as imagens de São Benedito e de Santa Efigênia pelos congadeiros. Ao final, então, se dá a coroação dos novos reis do Rosário, com o beijo da coroa, culminando na coroação de Nossa Senhora do Rosário pelas rainhas do Congado.

Do ponto de vista antropológico, o Congado nos leva a enxergar que a ação de celebrar a tradição coletivamente serve tanto para fortalecer os laços que unem os indivíduos, quanto atua para manter o movimento de recriação da identidade coletiva. Ao contrário do que poderíamos pensar, minha abordagem não provoca o desaparecimento do membro individual, visto que sua história dialoga com a tradição. Neste sentido, a palavra falada tem papel central na transmissão do saber popular. Noto uma verdadeira preocupação dos guardiões do Congado em manter viva a tradição, ensinando-as aos jovens do bairro. No Congado de São José do Triunfo, desempenham a função de guardiões Seu Zeca e Seu Dola. A verdade é que se a prática do Congado não se perdeu no tempo, isso se deve a esses homens. Recentemente temos visto o Congado ser representado em outros ambientes que não só em Airões e São José do Triunfo. Durante a Semana de Nico Lopes promovida pelo DCE (Diretório Central dos Estudantes) da Universidade Federal de Viçosa, os congadeiros de Airões foram chamados para se apresentar no Pavilhão de Aulas da Universidade, durante o horário de intervalo entre as aulas dos cursos noturnos. As fotos deste artigo foram realizadas no referido momento. Creio ser extremamente válida a iniciativa, uma vez que a interação entre grupos socialmente tão distantes, pode ser em muito rica para ambos. É de muita importância refletirmos sobre o impacto da apresentação naquele novo espaço. Maior parte da população de Viçosa nem sequer conhece o Congado, muito menos os estudantes da universidade. Muitos dos que conhecem vêem a manifestação como algo incomum e sem sentido, ignorando o quanto o festejo é importante para as pessoas que dele participam. Para os congadeiros, tal evento pode significar que suas formas de expressão são reconhecidas pela sociedade. Ao estudante, por outro lado, foi possibilitado o contato com uma manifestação cultural absolutamente fora do eixo midiático dominante. Vemos aqui que muitas vezes não é necessário viajar longe para ter contato com culturas diferentes.

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Higor Assis
 

Mais um identidade cultural que podemos perder. Muito bacana o texto.

Higor Assis · São Paulo, SP 10/1/2007 10:14
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Fabiana Mesquita
 

Bom demais.

Fabiana Mesquita · Rio Branco, AC 12/1/2007 01:37
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Carlos ETC
 

Espetacular!

Carlos ETC · Salvador, BA 12/1/2007 11:02
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Janis - ECFA
 

Lindo! Parabéns pelo texto e pela iniciativa de compartilhá-lo conosco! Nota 10!!!

Janis - ECFA · Volta Redonda, RJ 15/1/2007 00:29
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Sergio Rosa
 

O texto ficou bacana, Paulo. E as fotos também. Na foto 2 ali dá para notar bem a reação dos estudantes que você afirma no fim.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 15/1/2007 14:19
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Fabio Campos
 

Eu tenho uma opinião realmente particular. Acho que tais manifestações são tão fortes e impregnadas de história que dificilmente podem vir a se acabar. Quando se fala de reis e rainhas do congado, do maracatu, do samba, de qualquer forma de arte popular, é que isso já vem de longe e não morre, não morre mesmo. Mexer, se modificar, se transformar, sempre!, mas morrer, não morre! O que de qualquer maneira, na minha opinião, não desmerece nem diminui o trabalho apresentado pois vale - e muito - o registro e a idéia do recorte em determinado espaço/tempo, o que pode nos permitir uma futura comparação com transformações -inevitáveis e necessárias- inerentes à cultura popular e brasileira (ou produzida no Brasil, como prefere o Hermanno).
É isso aí,
meus parabéns Paulo Sacramento!
Abraços,
Fabio Campos

Fabio Campos · Rio de Janeiro, RJ 17/2/2007 01:05
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