Pessoal,
Estou vindo agora da Praça XV e quero escrever sem pensar muito:
Sei que um post sobre esse assunto não vai fazer muito sucesso aqui (como de resto em qualquer lugar). É compreensível. Qualquer sinal de violência ou atitude violenta perto de mim costumo me afastar rapidamente. Me sinto extremamente incomodado e acho que passar longe da violência preserva minha saúde mental.
Infelizmente não está dando mais pra fazer de conta que não é com a gente. À noite, aqui no quarto, e nas madrugadas, ouço as AR-15 do Morro Dona Marta (também chamado de Santa Marta) que fica aqui pertinho, embora do lado não ocupado. De dia, ouço os porteiros comentando algum tiroteio que alcançou as escadarias que dão acesso as subidas do morro. Mais que isso, amigos dos amigos são atingidos, como o Picucha do AfroSamba ou a Delphine da Terr'Ativa com a qual mantive contato por um bom tempo. Não preciso contar das últimas nos jornais. Todo mundo leu.
Não sei quais as saídas imediatas. Imagino que existam ações a curto, médio e longo prazo. Tento enxergar algum caminho no meu trabalho com a Rede Social da Música. Como a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança? Divido com vocês minha perplexidade.
... ... ...
Atendendo a convocação do Tico Santa Cruz, vocalista dos Detonautas Roque Clube, fui até a escadarias do Palácio Tiradentes, na Praça XV, aqui no Rio, onde se reúnem os deputados estaduais na Asssembléia Legislativa do estado do RJ. A mensagem dizia "estaremos fazendo uma "contagem de corpos" das vítimas da violência da guerra do Rio de Janeiro (estas últimas palavras em Caixa alta).
Chegando lá encontro Chico Alencar que levou uma colagem com um texto bíblico onde os nomes (de mulheres) foram substituídos pelas fotos das mães publicadas nos últimos dias nos jornais. A foto está aí do lado com mais algumas da manifestação. Sem palavras.
Reproduzo na íntegra o texto que foi distribuído a todos e lido no megafone pelo Tico e repetido pelos presentes:
"Os Deputados, Senadores, Prefeitos, Governadores e Presidentes, desfrutam de muitos privilégios PAGOS com o dinheiro do povo.
E nós contamos os corpos...
Seus filhos estudam em colégios particulares e muitos de seus parentes quando precisam são atendidos erm excelentes hospitais que não pertencem a rede pública. ANDAM EM CARROS BLINDADOS e moram em locais da cidade protegidos por seguranças particulares.
E nós contamos os corpos...
55% dos deputados estaduais residentes nesta Assembléia Legislativa estão respondendo a processos cível, criminal ou eleitoral, enquanto você sequer pode prestar concurso público se estiver envolvido em algum processo judicial.
E nós contamos os corpos...
Os políticos brasileiros são processados por fraudes, corrupção, desvio de verbas ou qualquer crime cometido ao longo de seu mandato TEM DIREITO A JULGAMENTO EM FORO PRIVILEGIADO.
Até o momento nenhum político envolvido nos crimes e nos escândalos de corrupção que acompanhamos pelos jornais e TVs foram parar atrás das grades. Isso chama-se IMPUNIDADE.
E nós contamos os corpos...
Verbas que deveriam ser destinadas a Rede Pública de Ensino, aos Hospitais, a Segurança de nossas Comunidades são desviadas por muitos destes cidadãos que deveriam nos defender e nos representar.
E nós contamos os corpos...
O Supremo Tribunal Federal retomou dia primeiro de março o julgamento de recurso destinado a garantir o foro privilegiado a "agentes políticos" processados por improbidade administrativa, mesmo que já tenham deixado o cargo. Dos 11 ministros do STF seis já votaram a favor dos político e um contra. Restam votar 4 ministros.
A medida, se aprovada, impedirá que ministros de Estado e o presidente da república sejam fiscalizados por procuradores na primeira instância da Justiça, como ocorre hoje. Além de paralisar os processos em andamento a decisão do STF permitirá que administradores já condenados possam pedir a RESTITUIÇÃO de valores que foram obrigados a devolver aos cofres públicos.
Cerca de 10 mil inquéritos e ações judiciais contra autoridades acusadas de corrupção podem ser arquivadas.
Os defensores do foro privilegiado querem que presidentes, ministros, governadores e prefeitos envolvidos em corrupção não sejam mais atingidos pela lei. O Código Penal Brasileiro é de 1940.
E nós contamos os corpos...
Um soldado da polícía militar ganha 800 reais por mês.
Um professor ganha em média 400 reais por mês.
Um médico do SUS ganha em média 1.500 reais.
O Estado gasta em média com nossas crianças 300 reais por mês.
Um preso custa aos cofres públicos em média 800 reais por mês e todos nós sabemos que o Estado não oferece nas penitenciárias NENHUMA CONDIÇÃO DE REABILITAÇÃO dos apenados, cabendo a sociedade arcar com todos estes custos e mais os salários dos nossos políticos que passam de QUINZE MIL REAIS mensais.
E nós contamos os corpos...
O Rio de Janeiro está em guerra enquanto nossos representantes não fazem nada
E nós contamos os corpos...
Fim da impunidade.
Fim da imunidade parlamentar.
Fim do voto secreto no Congresso Nacional.
Queremos segurança, educação e saúde de qualidade pois
pagamos por isso.
SEM JUSTIÇA NÃO HÁ PAZ.
Deputados assumam suas responsabilidades pois elas são do mesmo tamanho de seus privilégios.
Enquanto nós contamos os corpos.
Ass) Voluntários da Pátria"
É mesmo um absurdo! Estas e tantas outras questões mancham com as cores da vergonha nosso orgulho nacional e com o vermelho do sangue as nossas ruas, nossas casas, nossas vidas. É tempo -- sempre foi tempo -- de mobilização! É a nossa falta de consciência e de atenção, a falta de responsabilidade cívica, para com a pátria e para com o povo do qual fazemos parte, que permite que tais coisas aconteçam. Vale lembrar que todo o poder emana do povo, ou assim está escrito nos cânones do pensamento democrático ao qual, ao menos pelo que me disseram, seguimos em nosso ordenamento político. Até quando vamos apenas contar os corpos, e quando, e como vamos fazer para mudar as coisas?
Penso também que este post, embora um tanto distinto da proposta do Overmundo, pode vir a ter o seu lugar -- posta sua relevância, e a importância também cultural dos temas ora abordados. Talvez alguns colegas discordem de mim, mas minha convicção é de que este post tem aqui o seu lugar, e ele tem o meu voto.
Replicarei o manifesto em meu blog Alriada Express, tão logo o novo post atual tiver tempo para curtir um bocadinho mais em destaque.
Abraços do Verde.
Realmente chegou o momento de parar com a onda de Violência e cobrar dignidade de nossas autoridades. É preciso dar um basta nesta Violência.
Um engajamento político maior se faz necessário, os partidos políticos estão escolhendo candidatos sem qualidade, e isso somos nós é que temos que interferir, nos filiando e saindo como candidato, somente com candidatos dignos e políticos dignos é que poderemos começar a moralizar o nosso país e mudar esta Violência.
Filiar-se e sair como candidato é um caminho. Não vou criticá-lo, pois é sem dúvida um caminho para os que acreditam no atual sistema político, o que não é o meu caso.
Mas eu sou um radical antiquado...
abraços do verde.
Matéria no G1 sobre o manifesto:
http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL11870-5606,00.html
É... a matéria que eu vi no RJ-TV (ou coisa parecida) frisava com um prazer mórbido que quase ninguém parou para ver a manifestação...
Daniel Duende · Brasília, DF 16/3/2007 23:44Pra quem não acompanhou, em 2006, o guitarrista do Detonautas, Rodrigo Netto, 29, o Nettinho, foi morto a tiros em uma tentativa de assalto, na zona norte do Rio.
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/3/2007 23:45Na manifestação foi lido um outro texto em forma de "Pai Nosso" que estou tentando conseguir.
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 16/3/2007 23:50O ilustrador e cartunista André Dahmer (do blog Malvados ), o analista de sistemas Vinicius Costa (do blog Spy Inc.) e Léo Torres - que estiveram presentes na manifestação - criaram à maneira do Iraque, o Rio Body Count.
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 17/3/2007 00:20
Não vou entrar no mérito jurídico porque essa discussão não cabe aqui.
Defendo que o primeiro passo para qualquer mudança é o reconhecimento de que ela é necessária. Infelizmente as manifestações por essas mudanças acontecem apenas nos momentos mais críticos e são esquecidas em muito pouco tempo. Com isso, aqueles que se beneficiam do status quo permanecem com seus benefícios enquanto outros continuam contando os corpos.
Não será também função da arte ajudar a expandir essas manifestações? Prolongá-las no tempo, para que mais mudanças sejam exigidas? Para que mais pessoas, seguindo os exemplos, passem também a fazer suas exigências, colaborando para as mudanças tão necessárias?
Também tem o meu voto essa colaboração.
Abraços
Egeu, não sei como a situação no Rio chegou a tal ponto. Descaso das autoridades, a essência maligna de alguns seres humanos (?) ?
Realmente as notícias não são nada animadoras, um amigo que mora aí me contou do sentimento de insegurança de sair de casa sem saber se volta ou não vivo. E o pior que essa onda se espalha por todo o Brasil. Até aqui, considerada a ilha da Magia, um lugar aprazível de boa qualidade de vida, já sentimos os efeitos da violência, ainda que numa escala menor.
Aplaudo iniciativas como essas: RioBodyCount e o manifesto do Tico, só que me parecem não bastar, acho que nós como povo devemos exercer pressão sobre as otoridades, uma pressão forte e eficaz.
Olá!!
Achei interessante para reflexão esta frase de inicio de manifesto: "Seus filhos estudam em colégios particulares..." Está frase insinua que o acesso ao ensino privado é sinônimo de cidadania. Então, sugiro uma reflexão sobre a educação escolar como um todo, pois, parece-me necessário mudar com este padrão de sociedade "institucional antropocêntrica" e não simplesmente nela nos incluirmos...
Agradecido, José
O pior eh achar que caveirão vai nos "salvar".
http://www.caveiraonao.org/portal/
É isso Egeu.
E já que todos nós sabemos...
Fico com o Verde também, lançando aqui a minha estranheza para com a estranha possibilidade deste post vir a ser considerado "...um tanto distinto da proposta do Overmundo". Afinal, o Overmundo é deste mundo ou não é? O Overmundo somos nós. Não é pra ser uma 'Revista de Domingo'. Ou não?
As opiniões da Fê e do Zé também são bolas dentro. Como já ando enchendo o saco da galera falando dessas coisas por aqui, darei meu voto com o maior prazer, com toda a certeza.
Abraços solidários e gerais
Egeu, já falei por e-mail que curti o texto e a proposta. Mas reforço a idéia aqui: legal ampliar os assuntos abordados. Cultura, entendida de forma ampla, é tudo aquilo que o bicho-homem produz socialmente. A violência se inclui.
Abraço.
muito bom o texto.
clarice laus · Rio de Janeiro, RJ 18/3/2007 04:40
Egeu,
Boa iniciativa ter trazido este assunto ao Overmundo. Refugiar-se na cultura, no sonho, na poesia, no plano da realização do possível e do impossível, enquanto que lá fora a guerra urbana com suas trágicas consequencias se instala, pode ser uma forma de alienação. Tenho visto na midia o resultado das manifestações, inclusive mencionando a falta de participação da população. O meu protesto tem sido enviar email aos detentores de cargos políticos - de todos os níveis e instituições como ABAV, RIOTUR, SECR.PF, GOVERNO DO ESTADO, TV... e incentivado amigos a fazerem o mesmo. Há pessoas querendo participar dos movimentos de protesto, aguardando o como. Pelo visto, temos que unir as formiguinhas para pressionar as instituições. Eu gostaria de conhecer uma agenda de manifestações para até mesmo ajudar a divulgar. Se alguém souber, peço informar-me. O problema é grave, o esforço da real participação não deve ser apenas dos vitimados ou pessoas próximas, mas de todos nós, de qualquer região, sob o risco de o Brasil se tornar impossível de se viver. Além da cruel estatística, perdemos empregos, investimentos e nem conseguimos dimensionar os efeitos negativos nos nossos parceiros internacionais.
Fiz um post falando sobre esta matéria, e adicionando mais alguns pensamentos ao tema, lá no meu blog Alriada Express. O endereço do post (que já está publicado, mas que ainda está sendo hyperlinkado e ilustrado e editado) é este aqui:
http://newalriadaexpress.blogspot.com/2007/03/e-contagem-de-corpos-carioca-uma.html
Adoraria ler a opinião de vocês sobre minhas reflexões, e aceito, claro, sugestões para aprimorar o texto e o post em geral.
Abraços do Verde
(que é agora, também, um morador desta cidade maravilhosa!)
Chegou no meio do tiroteio, hein, Verde!
Botei mensagem lá no Blog.
Abraço!
Como eu disse... tava só me remuniciando de inspiração para soltar o meu rojão. Espero que as pessoas leiam e se identifiquem com minhas colocações. Aquele post foi minha "colaboração de hoje" para esta luta.
Abraços do Verde
eu sinceramente não sei dizer qual é a solução pra coisa.. sei que é realmente assustador reconhecer que ouvir tiros, ver pessoas morando na rua e ter notícias de violência são parte do cotidiano. e eu também fujo delas. sei também que não é de hoje.. mas parece que a situação só piora, isso sim parece estar ficando mais claro a cada dia.
agora.. eu não acredito no sistema partidário. está bem claro que a grande maioria dos que chegam ao poder só se importa com a manutenção do mesmo, o aumento dos próprios salários e o crescimento da sua popularidade. daí tantos programas populistas. cala-bocas. todos conhecem.
também não sei até onde acredito nas manifestações populares. as mudanças, quando conquistadas, sofrem um processo relativamente lento, são em geral atenuadas e só acontecem quando a manifestação popular é muito, muito grande. e pra isso é preciso convencer a uma multidão de que aquilo realmente vale à pena, vai levar a algum lugar.
eu não sei. meu voto vai aqui, claro, mas respostas..
Como estava dizendo, em conversa com uma amiga, ainda agora:
"Manifestações populares e crimes hediondos tem, para esta questão, uma única utilidade: chamar a atenção das pessoas para o papo. É o que se faz depois que se levanta o papo é que faz a diferença.".
Logo, quantas vezes teremos que ter este papo levantado (espera-se que por manifestações e não por crimes terríveis) até que o levemos em frente?
Também não acredito no sistema partidário, nem na forma como se constitui o poder do Estado em nossa sociedade. Fazer o que, né? Sou anarquista e pagão desde criancinha ("na falta dos Reis Divinos, que o povo se governe a si mesmo", dizia o moleque verde). Creio, sobretudo, que o maior criminoso não é aquele que arrasta uma criança por 4 bairros na tentativa de roubar um carro. Calma, não me apedrejem ainda! Acredito que os maiores criminosos são aqueles que por omissão, patente descaso e incompetência, corrupção ou intenções egoístas ou desumanas colaboraram para criar a atual situação de cisão social na qual nos encontramos -- um nós e eles infindo, onde o ódio e o medo são o rastilho da pólvora da guerra urbana que ora vivemos...
É mais ou menos por aí que estava caminhando meu papo com o Egeu lá no post do meu blog. Não se trata só da reeducação dos que tem menos grana e chances, mas também da educação dos que tem mais grana, pois somos todos péssimamente educados quando se trata de organização social, respeito ao outro e civilidade. Mas, além disso, trata-se de pressionar DE VERDADE os responsáveis públicos por esta situação.
Chega de ódio por todos os lados. Chega de temer o morador do morro, e de ser temido e odiado por ele. Chega de achar que a culpa é do vizinho, ou de alguém com quem você cruza na rua. Os culpados estão quase fora do alcance, mas muitas vezes se alçaram à sua posição atual com nossa ajuda eleitoral ou nossa conivência. Já que temos governantes, representantes políticos, administradores instituídos de cima para baixo... então que os pressionemos de verdade. E não nos esqueçamos, por fim, que somos todos vítimas de uma cisão social e de uma guerra urbana em meio à uma sociedade em colapso. Todos... eu, você, ele, e o cara que pega uma arma e atira num menino para roubar seu tênis...
Temos que aprender a ser uma sociedade, antes que nossa feudalização nos mate a todos... nós e eles.
Abraços apertados do Verde.
E para quem estiver curioso pra ver minha blogada e não quiser rolar a tela para ver o endereço, eu o passo de novo:
http://newalriadaexpress.blogspot.com/2007/03/e-contagem-de-corpos-carioca-uma.html
Parabéns pelo texto! Infelizmente os nossos políticos näo têm respeito pela vida do cidadäo comum, mesmo com a quantidade de impostos que pagamos! Eles vivem em sua "ilha da fantasia" e resto que se...temos que lutar para mudar esse quadro.
Aplausos calorosos para o nosso bom e afetuoso Verde. menino sábio que soube dizer melhor o que todos nós queríamos dizer.
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 07:05
A situação é insustentável e os políticos simplesmente não se interessam. Estão muito ocupados cuidadndo de seus interesses.
Ontem escrevi sobre isso no meu blog. Sobre a indiferença das autoridades com relação ao que está acontecendo no RJ.
Creio que nada farão, nada. Até que o povo comece a reagir por sua conta, então, sim, será o caos, o inferno dentro do inferno.
Excelente o texto e a imagem.
Parabéns!
Enquanto nós contamos os corpos, os políticos contam o ervanário que ganham de nós os contribuintes. A indiferença das nossas "autoridades" ainda vai banhar de sangue a nossa cidade.
Fanny · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 08:53
Oi, Egeu. Acho fundamental colocar esse assunto na pauta do dia. Está insuportável tanto "fedor" e não podemos mais fingir que é a na casa do vizinho.
Mas o que fazer para mudar? Eu tb estou descrente de governantes, promessas, manifestações. Mas tb não posso mais ser cúmplice e seguir calada ou parada.
Creio então que minha única saída é a mudança das minhas ações no meu dia-a-dia. É como já disse alguém, parar de apontar o erro do outro e assumir os meus. É procurar agir como eu acho que é o melhor, ainda que essa não seja a postura alheia.
Falo de pequenas atitudes que vão desde o bom-dia para o motorista e o trocador do ônibus, a não jogar no chão uma guimba de cigarro ou um papel de bala. Falo de levantar para dar o lugar para um idoso ou para uma grávida, falo de limpar a minha área na areia da praia ainda que o lixo não seja meu (mas a praia é!). Falo de não fazer xixi na rua e de limpar o cocô do cachorro. Falo de não avançar o sinal fechado e de se recusar a pagar a extorsão do flanelinha.
E por que eu acho que essas pequenas coisas fazem diferença? Porque acho que isso é educação, é demonstração de respeito e de valores relativos à qualidade de vida. Da minha e dos outros tb.
O que eu quero dizer é que não adianta querer que o todo mude se o indivíduo não mudar. E que se não governamos a sociedade, ora, fazemos parte dela e então são as nossas ações que podem mudar a rota desse caminho que está indo para um lugar que eu não quero ir.
É como a fábula do beija-flor que quer apagar o incêndio da floresta com a água que traz no bico; e ao que alguém retruca dizendo "mas isso não adianta nada", ele responde "estou apenas fazendo a minha parte".
Força, coragem e sorte para nós,
Andréa
pensei em muitas coisas a escrever, sabe?! das minhas opiniões sobre isso ou aquilo, mas sinto-me pouco para ter tantas opiniões. vou então contar-lhes um sonho que tive tempos atrás e que me marcou.
diante do pensamento assustador de que a máquina do "mal" é poderosa, implacável e que não pára nunca, eu sonhei... na desesperança de que o "bem" possa realmente fazer alguma coisa pelo tal do mundo. sonhei que:
eu estava sentado em posição de lótus sobre as águas transparentes do arpoador, e uma onda que se aproximava, silenciosa, formou um tubo que me cobria com seu teto de água, quase plano, vasto. lá no fundo da onda, homens como mergulhadores vinham na minha direção e uma voz límpida, clara, vertiginosa me disse: o Bem também trabalha vinte e quatro horas.
contado assim pode paracer uma bobagem, mas acordei comovido de muitas formas.
há um trabalho lento, pesado, difícil, invisível mesmo, sendo feito por muitos de nós. quase sem querer, sem saber. pode paracer loucura ou patetice, mas estou cheio de esperanças, apesar de tudo. o caminho está sendo trilhado... talvez alguns resultados não sejam para nós. isso nos angustia... mas a realidade também é a poesia, a arte, o encontro das afinidades. isso está construindo algo. colocamos sempre o crime, a violência, o medo e o terror, como a verdadeira realidade. o "mundo real". são muitos e intrincados os mundo reais. e algo está acontecendo que não sabemos, que não dá nos jornais, porque os jornais são feitos de dor e sangue e anúncios. há muito mais coisa que simplesmente não sabemos, não abarcamos.
hoje um menino de rua, como se diz, me abordou pedindo uns trocados (poderia ter me assaltado, matado?) e dei-lhe algo que eu tinha e seguimos por aí. sei que olhei-o com algum carinho. pode-se dizer que isso não é nada, que não serve de nada. talvez seja fácil ter carinho no coração (ou onde quer que seja) com algum dinheiro no bolso.
mas é isso, olhei-o com carinho. penso que algo se moveu, em mim, em algum lugar. nele, talvez... posso estar enganado e o mundo ser esse vazio que não dá em nada e depende de leis que nós fazemos ou corrompemos. mas se eu estiver minimamente certo... algo se moveu e quem poderá prever as conseqüências?
certamente não expressei muito bem o que eu queria dizer. desculpem-me a ingenuidade. mas é um tanto do que a andréa fala logo aqui acima. egeu, meu amigo, um grande abraço de alguém que está no mundo, muitas vezes sem compreendê-lo, mas resolutamente esperançoso.
Caro Verde,
disse exatamente o que tive vontade quando voltei aqui.
Acho que é bem por aí. A educação não é apenas aquela formal que conhecemos como ir à escola, ao curso de inglês, etc... Educação precisa ser criação de consciência social. Ampliação da visão acerca do mundo em que vivemos.
Não é berrando por alteraçãoes legislativas de emergência em momentos que a sociedade entra em pânico que mudaremos a realidade. É importante a visão de que o problema é estrutural e que a mudança de regras não é capaz de alterar a estrutura.
Creio que muita mudança pode ser feita nas urnas (embora também questione o sistema como está), mas o mais importante é a luta contra o silêncio acerca do que mais importa: a detecção das verdadeiras causas de cada problema.
Não acho que culpar apenas os políticos (desculpe, Fanny, Saramar e outros tantos que talvez defendam essa posição - apesar de acreditar que não achem que seja o único problema), pois se forem apenas políticos, não são capazes de grandes influências. O problema é quando se tornam autoridades e passam a ter poderes dados por nós, a sociedade, que os elegemos, autorizando o uso desses para benefício próprio ou alheio.
Culpar os políticos pelo que fazem ou o próprio governo pela falta de educação me parece um tanto quanto cômodo, já que conscientização social começa em casa, tratando de igual para igual os funcionários do prédio onde moramos, discutindo com eles idéias, trazendo e levando informações, falando e sabendo ouvir sem arrogância ou sensação de superioridade social.
Não dá para citicar de forma irracional o que as "autoridades" fazem no exercício dos seus cargos quando também nos aproveitamos ou ratificamos o abuso das pequenas autoridades do dia a dia.
Será que também nos importamos tanto com o que acontece com a sociedade ou apenas começamos a procurar soluções porque os nossos seguranças particulares não são mais capazes de nos defender da violência que antes era restrita aos ambientes que não precisamos freqüentar?
O crime organizado está devolvendo para a sociedade a violência com a qual determinados setores sociais estão cansados de ter que conviver. Longe de mim tentar tentar (ou sequer cogitar) defender a prática de crimes, mas apenas para tentar trazer mais argumentos para enorme discussão, gostaria de questionar sobre a violência diária de não saber o dia de amanhã, de ver seus filhos passando fome, de não ter emprego, não ter acesso à saúde, à segurança, à dignidade. Isso para nem entrar no mérito do sistema carcerário, porque aí não conseguiria parar mais de escrever. Pode parecer clichê, mas é realidade diária para grande parte da população.
É claro que assim como em qualquer setor, há os que se calam e aprendem a conviver com o status quo, mas há aqueles que não aceitam, que usam as armas que possuem e os métodos que conhecem para lutar para algo melhor para si. Quem está acostumado a lutar com palavras, vai usá-las (como estamos tentando fazer aqui), quem está acostumado a sofrer e causar dor, vai usá-la e aí por diante. Cada um usa as armas que conhece - normalmente as que mais lhe atraem ou aquelas na qual foram mais bem treinados ou da qual melhor aprenderam a se defender.
Quem não está acostumado a tratar as pessoas como pessoas, não pode agora esperar que seja tratado como tal. Não pode esperar piedade de pessoas que não têm motivo algum para te tratar como igual, porque nunca foram tratados assim.
Não sou radical a ponto de achar que todos os problemas têm a mesma origem, mas está claro que um sistema que permite tamanha desigualdade não pode trazer benesses à todos em todos os momentos. Infelizmente a sociedade está em guerra contra ela mesma. Foi dividida em setores para que uns pudessem ter mais que outros e agora agem como rivais.
Ter medo do seu vizinho faz com que ele tenha medo de você. Ambos passam a se sentir ameaçados e a achar que precisam se defender. Quando a melhor defesa se torna o ataque está instaurado o caos e ninguém mais se lembra porque passou a ter medo do vizinho. Talvez porque um dia achou que o invejava e que ele se vingaria? Quem vai saber...?
Não sei se existem respostas certas para tantos questionamentos. O fato de existirem cada vez mais dúvidas me faz cada vez mais acreditar que não. Mas isso não pode ser desculpa para simplesmente aceitarmos o que não está certo.
Questionar, discordar, discutir e exigir o máximo de informações me parece ser sempre o primeiro passo para a busca de soluções ponderadas e com mais chances de resultados reais, em qualquer setor da vida pessoal ou social.
O primeiro passo é não compactuar com o silêncio, apenas concordando com a cabeça com as poucas e mal selecionadas notícias que nos chegam a cada dia.
Desenvolver opinião própria com o máximo de informações e o mínimo de idéias pré-concebidas me parece um bom começo para buscar alguma resposta.
Abraços a todos!
Toinho e Andréa,
não tinha lido as opiniões de vocês, pois elas entraram enquanto escrevia a minha...
Queria apenas dizer que concordo com vocês e acho que é bem por aí... Fazer cada um a sua parte e principalmente manter a esperança, porque ela não é patética. Ela é o que nos move e o que não nos faz desistir. Não podemos desistir.
Abraços
Alberto Dines é um crítico severo da nossa imprensa, pelo fato de ela sistematicamente transformar em espetáculo toda a violência que assola nosso país. Mas é preciso falar sobre a coisa. Falar e buscar alternativas. E seu texto faz isso de maneira brilhante. O medo, a paranóia que se manifesta nas grades, cercas elétricas, corações e mentes é preocupante. E o pior, há quem se alimente e lucre com isso. A segurança é um mercado em plena expansão. Tem tudo a ver seu texto estar aqui. Aqui, ali, em qualquer lugar. Abraços.
Marília Chinchilla · Campo Grande, MS 19/3/2007 10:26Valeu, Egeu.
Marcus Assunção · São João del Rei, MG 19/3/2007 10:40
Violencia
Vold
Violence
Violenza
Vontade de Potência
Violência física
Violência psicológica
Violência política
Violência cultural
Violência verbal
Violência contra a mulher
Violência infantil
Violência Espontânea x Institucional
Violência Doméstica
Violência Sexual
abraços esqueléticos
Em O Globo de hoje (19/03/2007) um artigo de Jorge Werthein, educador, ex-diretor da Unesco no Brasil, sobre o "Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros". Ao lado, artigo do filósofo Denis Rosenfield sobre o mesmo assunto. Está na página 7.
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 10:57
Caro Egeu.
Era isso que eu dizia no , acredito que textos como o seu são muito importantes e relata o engajamento que precisamos.
Porém, fico entristecido quando só acontecen atos como estes depois de que alguém importante perdeu um ente querido. É só ver o histórico do Detonautas antes do episódio acontecido com o integrante da banda.
Desculpe, ainda vivo tomando bica das tags...
Higor Assis · São Paulo, SP 19/3/2007 11:07
Não se passa da indignação à ação sem planejamento e disposição coletiva.
O final que se queira para a violência só pode ser produzido pela organização social de modo distinto da que produz e reproduz a violência.
Tenho um texto em www.coisaegente.blogspot.com que sugere alguns caminhos é A Exigência Social. . A questão de fundo é que só pode ser exigido o que for socialmente organizado para este objetivo.
Contar os corpos é um protesto que cabe inclusive neste Overmundo.
Os domingos não são diferentes de outros dias em que as pessoas amam e matam no mundo inteiro. As revistas sobre a realidade e o que a cultura produz são verdadeiras ou falsas na medida em que falem do mundo ou falem ao mundo.
Meus amigos, insisto na mesma pergunta:
"Como – neste momento – a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança?"
Egeu,
A arte deveria insistentemente retratar o porquê, como o fez na contagem dos corpos.
E continuar a fazer.
A cultura deveria permanente - 24 horas pelo bem - perguntar-se por quê?
Como peguntou-se o Egípcio, já monoteísta dois mil anos antes de Cristo.
A arte deve ser quem lança pontas e farpas.
Uma cultura que condena a cultura da violência é uma outra cultura de um outro modo de reproduzir relações.
Não se sai daqui para um outro lugar se não se trocar as relações de hoje, determinadas pelas de ontem, reproduzidas diuturnamente a metralhas mil.
Egeu, isto é um mar em todo o Brasil.
A ferramenta é uma nau que chegue a todos os portos
Navegada por destemindos navegadores (e navegadoras!) de um outro porvir.
Fechar a carta de navegação desta Odisséia é:
"uma outra luta que continua, camarada".
É o que penso.
Continuar pensando e, se der, enquanto der, agindo.
É muito boa esta pergunta final do Egeu. Há muito que a arte e a cultura podem fazer -- muito que nós, gentes de arte e cultura podemos fazer. São muitas coisas pequenas (beija-flores que somos) e algumas grandes, talvez.
Reconhecer a arte que brota de todas as cidadelas já é um grande passo. A poesia e a beleza, sejam elas com a face que tiverem, brota em todos os cantos, todas as cidadelas. Há poesia e ritmo no Ritmo e Poesia. Há uma proposta humana viável na Atitude do Hip Hop. Reconhecer e ouvir o grito destas artes, destas culturas, é fundamental para começar a derrubar as barreiras.
Outras propostas e ações já grassaram nossas terras ao longo de muito tempo, desde o Teatro do Oprimido de Boal -- ao qual sempre cabem reinvenções e usos mais e mais criativos -- até as intrusões artísticas nos mais variados acampamentos desta guerra. O ensino dos rudimentos artísticos, do tocar um tambor ao instrumentalizar um computador, do dar forma ao seu sentimento em uma massa de argila ao aprendizado do empreendedorismo que torna viável a remuneração sobre qualquer expressão artística... há muito que pode ser feito.
Abraçar também todo este cenário, trazê-lo para nossa arte e permitir que ele grite sua própria verdade em nossa arte também é necessário. Um abrir de olhos, um atravessar de fronteiras, um enriquecimento temático e humano que nos permita não falar apenas por nós... mas pelo todos nós que inclui todos os eles antes excluídos.
É necessário falar e ouvir, ensinar e aprender, e perceber que a classe artística é uma só, sem endereço, assim como o povo brasileiro é um só, indiferente de cor ou contracheque -- ou do lado que ocupa na guerra que ora se instala em nossa terra.
Mas a pergunta continua, e nem de longe fiz mais do que arranhar sua dimensão gigantesca...
Como -- neste momento -- a arte e a cultura poderão contribuir para alguma mudança?
Rola a bola...
Abraços do Verde.
Caro Egeu,
(Com relação a sua última pergunta)
É uma típica situação de 'o buraco mais embaixo'. Todos teremos algo de muito importante a dizer ou a lamentar ou a sugerir mas existe uma questão-chave aí: Deixamos a coisa evoluir para um ponto realmente muito perigoso, de difícil retorno. É uma doença brasileira endêmica, que se tornou crônica. Não era nem preciso ser pitonisa para saber no que ia dar. A gente sempre soube que a doença existia mas fomos deixando pra lá porque ela só matava mesmo os do 'lado de lá'.
Agora mesmo, quando já morrem também muitos do 'lado de cá' (e, convenhamos, esta é a grande motivação da exacerbação do debate agora) a maioria das vozes clamam por 'mais segurança', mais políticas públicas paliativas, tudo regado à muita pieguice e pouca objetividade. Culpam-se entidades absolutamente vagas como as 'autoridades', os 'políticos' e o 'governo' ou seja: Pega-se um bode qualquer, bem fedido, e o enviamos para o deserto, afim de expiar nossas culpas.
É claro também que esta autocomiseração toda do tipo 'minha-culpa-minha-máxima-culpa' não vai levar a gente a lugar algum. Logo, a pergunta sobre o que a Arte e Cultura podem fazer a este respeito é meio óbvia: Arte e Cultura, em linhas bem gerais, servem para exprimir, expor a realidade para que a sociedade possa tirar suas conclusões, estabelecer suas regras, sua ética sua moral, etc. Emocionando a gente, é claro, já que são as emoções que movem o ser humano (que, talvez para isto, inventou a Arte).
A questão é que andamos vacilando muito com relação a este aspecto. Negligenciando nossa capacidade de fazer Arte e Cultura de verdade, engolfados neste mar de equívocos que a cultura 'capitalista', meio que nos enfia goela á dentro e nós, elitistas que somos, aceitamos sem pestanejar. Se temos um problema social deste tamanho, baseado inteiramente na exclusão social (ou racial, sei lá), é óbvio que temos também uma cultura empobrecida por esta mesma estratificação, esta mania de separar o joio do trigo e jogar o trigo aos porcos. Uma cultura (de massa?) exclusiva, oportunista, 'graneira' (como se dizia antigamente:'burguesa'), que omite os fatos 'mais feios', menos 'fashions' da realidade, em nome de um conceito 'farinha-pouca-meu-pirão-primeiro' bem arcaico, patriarcal, medieval.
O Brasil, basta observar, é um lugar onde se separa tudo. Cultura popular de Cultura em geral. A nossa universidade está aí, até hoje baseando ainda sua beletrista antropologia – para ficar só nesta matéria – em requentadas teses da década de 30 do século 20, que nos remetem as idéias racistas de um Gilberto Freire, por exemplo. No Brasil se separa também Educação popular de Educação em geral (me lembro que a idéia de horário integral nas escolas chamadas Cieps, foi combatida ferozmente por muitos educadores importantes do país, por ser uma solução 'muito cara' – custava 50 U$ por mês/aluno-. Educadores iguais a estes – senão eles mesmos- afirmam agora que o principal fator de sucesso da escola privada no Brasil é exatamente o horário integral). A grande guerra agora (igualzinho ao anti abolicionismo do séc.19) é o combate às cotas 'raciais' na universidade. Querem mais iniqüidade? O pior é o que o problema maior não são nem estes. São tantas emoções...
E agora, José? Como é que vamos recuperar a vergonha na cara que fomos perdendo, desta forma tão medíocre. Angola – pátria mãe da maioria de nossos negros- é hoje o segundo país que mais cresce no mundo. O Brasil só cresce mais que o Haiti. Entre Angola e o Haiti vivem os que tem tudo no Brasil (em relação ao resto do mundo, são pessoas ricas pra caramba). Quem vai dar cultura real para esta gente? Quem vai reeducá-las? Desculpe aí a franqueza gente mas, tem hora que só assim.
Carro blindado você ainda vai ter um.
Noticias de uma guerra particular, muito "particular"
O filme Noticias de uma Guerra Particular deveria passar em horário nobre em todos os canais de TV aberta durante uma semana, todos os dias!
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 14:19
violência tá foda. A situação não tá brincadeira não. O pra quem acha que morar no interior é a solução, tá enganado também. Nessa última semana, em duas cidadezinha do interior do RN, dois crimes chocaram a população. Em Acari, há 190 km da capital, um namorado ciumento deu cabo da namorada com 3 facadas e um tiro na cabeça. No final o cara cometeu suicídio...
Pior do que isso foi uma mãe que matou o filho e depois de matou. Motivo: O marido saiu de casa, e ela queria que ele voltasse...enfim, vamo mudar de assunto...
Vocês conhecem a escopetarra ? Fiot Paez e Shakira jah tem uma
http://www.cesarlopez.org/
Olha aih
http://www.iansa.org/un/review2006/images/cesarlopez.jpg
Essa ótima pergunta que Egeu fez já vem sendo respondida há alguns anos, em ações diversas.
São ações comunitárias realizadas por atores, artistas plásticos, coreógrafos, fotógrafos, cineastas, enfim, pessoas que tem levado seu ofício para dentro de comunidades de baixa renda e lá desenvolvido trabalhos que aos poucos chega ao conhecimento geral da nação.
O primeiro e mais conhecido deles é o Nós do Morro, brilhante trabalho iniciado pelo ator e diretor Guti Fraga, que ganhou adesões dos diretores de cinema Rosane Svartmann e Vinícius Reis e ficou nacionalmente conhecido depois que o grupo trabalhou no filme Cidade de Deus.
Mas além desse há muito mais: a bailarina Carmen Luz com o pessoal da Maré, a fotógrafa Tatiana Altberg, o artista gráfico Gringo Cardia e outros tantos que minha memória afetada se nega em citar.
Mas isso é só um começo de um ação muito maior que nos envolve também, bem como todos os tipos de mídia.
Esses trabalhos devem ser divulgados, apreciados e valorizados.
Isso já vem sendo bem executado pelo projeto Tangolomango, da produtora carioca Marina Vieira, que percebeu a importância dessas ações - até então isoladas - e há seis anos organiza um evento cultural que reúne exclusivamente esses trabalhos produzidos junto às comunidades. E é lindo de se ver. Há coisas incríveis sendo realizadas e que ninguém fica sabendo porque é muito difícil divulgar na grande imprensa.
Mas o importante é saber que os primeiros passos já estão sendo dados. E que mesmo que não seja esse o meu/seu papel, nos cabe incentivar e descobrir como nós podemos colaborar. Ainda que seja só apreciando.
E como já diz a música do clube da esquina, a arte tem que ir aonde o povo está.
Duda,
Não valle propor armar, comprar blindado ou lança-foguetes. Tem de dizer m quem vamos atirar pra nos defender.
Os que têm e os que não têm não se identificam assim tão facilmente em nosso país.
As ações pontuais, André, vêm se desenvolvendo no território já desde 1980/1990. constituí-las em rede além de para si é uma jornada longa e necessária.
Outra coisa que ajudaria muito e já é convencer quem arma o tráfico de parar de comprar deles o que consomem.
Desde Woodstock está provado:
Respirar oxigênio também dá barato.
O que a arte pode fazer...?
Admito que vou responder sem muito pensar. Se tiver novas idéias, posto de novo...
Acho que a arte é o maior meio de escancarar de forma crua o que a imprensa comum omite ou interpreta ao seu modo. A arte também pode ser tendenciosa, é verdade. É muito fácil mascarar de "arte" idéias duvidosas, mas ainda assim, creio ser um dos melhores meios para discutir e polemizar da forma mais democrática possível.
É uma outra batalha fazer com que a arte considerada periférica (e que muitas vezes é a que mais denuncia a realidade) seja reconhecida pelos grandes veículos. Também muito difícil fazer com que a produção cultural esteja disponível para qualquer pessoa.
Mas apesar das dificuldades, é isso que precisamos fazer, sem desistir. Continuar divulgando, criticando, discordando, polemizando, elogiando...
A arte é também o meio onde é possível a maior integração social. É o veículo que de forma mais livre consegue circular por todos os "brasis", tendo sempre alguma aceitação, ainda que não plena.
Precisa ser bem utilizado para integrar e fazer com que as pessoas se enxerguem como iguais. Seres humanos. Apenas mortais.
Ok... Foi sem pensar. Daqui a pouco eu volto...
Se bem lembro, anotado em uma página de uma agenda da Tribo não sei de que ano: "Pra quê procurar a vida em Marte, se a vida está aqui e ninguém faz nada por ela?!!".
Ao entrar nesta página, estava começando a ouvir a música "Uma vida", do disco Dom Salvador e Abolição, que ensina "Não descanso, não, eu não desisto, eu insisto! Eu insisto procurando o amor!.
Tenho dito aos amigos e mais próximos que esta vida é muito simples: 'Respeite seu vizinho da mesma forma que quer ser respeitado'. Esse ensinamento tem MUITO mais de 2000 anos e ainda não aprendemos.
Vivemos num mundo em que o amor é uma UTOPIA?!
Quanto tempo teremos o dinheiro comprando mísseis ao invés de coisas que mantenham a vida da melhor forma possível?
Temos que viver um mundo em que as pessoas aprendam que 'para mudá-lo é necessária a contribuição de cada um'.
Há muito ainda o que falar pois parece que todos estão se cansando ao mesmo tempo dos sons da violência.
GRANDE abraço!!!
às vezes acho que nao tem mais jeito.
às vezes acho que tem jeito, mas demora.
às vezes acho que a arte da jeito.
às vezes acho que a arte é aspirina contra o câncer.
sinceramente, nao sei o que deve ser feito.
parar o país por 30 diias?
todas as televisoes pararem de transimitir seus programas por um dia e todas, sem exceção, passarem um programao, um fantasticao, sobre a violencia, e gerar desconforto e atitude?
campanhas publicitarias de verdade contra a violência?
invasão dos morros pelo exército?
educaçao, educaçao, educaçao? mas vai levar quanto tempo, duas gerações?
se o BBB7 gera 41 milhões de votos para um dos idiotas ser eliminado, porque a tv nao consegue mobilizar tanta gente contra a violência?
aceito sugestões. eu não sei mais o que sugerir, e já faz tempo.
Quero auditporia nesta contagem.
41 milhões de telefonemas para um idiota, sei não, sei não.
Vai ver é outro papa-tudo.
BBBalela (vide kibe loco) é estupro-diário-incessante da inteligência e curra da paciência.
Tem gente que bosta.
Quer dizer, tem gente que gosta, assim como moscas de latrinas.
Pedir ao estuprador que combata a violência beira a demência.
Pergunte-mo-nos, a esta altura do debate porque o fazemos no Overmundo e nã no ou na Globo?
Sabemos há muito a resposta, tanto que estamos aqui e noutros canais que não lá, onde as aves não gorjeiam como cá.
Essa situação de violência que vemos todos os dias tá cada vez mais inacreditável. O pior é que ficamos quase que de mãos atadas sem poder fazer nada, já que as autoridades que deveriam fazer algo por essa situação já nem se importam com isso e, na maioria das vezes, são as próprias causadoras da violência exacerbada... Já não me animo mais em ler notícias de jornal ou vê-las em tele jornais. Sinto vergonha de ter representantes de governo alheios a todo o caos que está instalado no nosso país...
Joanna D. A. · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 17:01
Infelizmente, o brasileiro é um povo muito, muito passivo. Basta você ver a catárse popular que o Big Brother 7 gera, e imaginar que quase ninguém mais se interessa pelo assunto. Já não chegam Joãos Hélios e a menina que recentemente perdeu a vida numa bala perdida e que, infelizmente, esqueci o nome.
Por isso mesmo, eu acho que isso não tem mesmo solução. E creio que é isso o que faz que muitos que pensam como eu não se sintam motivados a se mobilizar. Infelizmente, talvez só no dia que a Globo fizer uma minissérie sobre essa barbárie e comandar as mobilizações algo vai acontecer (vide aquela minissérie que "derrubou o Collor" com a glamourização dos protestos - o que criou a fantasia do "cara-pintada")... :)
Em primeiro lugar, parabéns ao Egeu pela abordagem de tema tão oportuno e, aos demais overmundistas, pelo nível do debate. Demorei, mas resolvi dar um piteco, já que o assunto merece ação e reflexão urgentes. De minha parte, entendo que a concentração de riqueza, a desigualdade social, a corrupção em todos os níveis do Estado, a impunidade, a incompetência, o desemprego e falta de educação – variantes que de uma forma ou outra muitos aqui já apontaram - formam o caldo de cultura onde viceja a violência. E que a única forma de alterar este quadro é mudar o próprio paradigma de desenvolvimento que o capitalismo em sua fase globalizante nos impõem. É preciso lutar por um novo modelo de sociedade que privilegie o homem e a natureza, não o capital e o lucro. Só assim vamos superar a visão positivista de que progresso se mede pelo acúmulo de riquezas (divisas) e investir no que realmente vale a pena: melhores condições de vida, justiça e bem-estar social.
A propósito deste tema, recomendo uma excelente matéria “Jovem e pobre: na mira do tiro”, de José de Castro, publicada na revista eletrônica nova economia (http://www.novae-inf.br) e que pode ser lida em http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=548. Ela fornece valiosas pistas para que possamos compreender o fenômeno da violência no Brasil e formar opinião sobre como enfrentar o problema. Segundo a matéria, a vítima preferencial da violência no país é pobre, jovem e negra. “As pesquisas indicam que jovens entre 15 e 19 anos são as maiores vítimas de homicídios no País, correspondendo a 87,6% dos casos, e ocorrem geralmente em vilas e favelas. (...) “Os jovens negros têm um índice de mortes por assassinato 85,3% superior aos brancos.” Essa mortandade – como já foi dito aqui no Over - tem muito a ver com o comércio e o consumo de drogas, inclusive de álcool.
Vejam alguns dados obtidos pelo Observatório de Favelas do Rio de Janeiro em pesquisa realizada com 230 trabalhadores do tráfico de 34 favelas cariocas, entre 2004 e 2006. Nesse período, 45 foram assassinados (66% por policiais, 13% por integrantes do próprio grupo e 9% por grupos rivais). Os entrevistados apontaram como o mais desagradável na profissão o risco de morte (73,5%), seguido do risco de ser preso (8,7%), do temor das milícias (5,7%) e da discriminação (3,9%). Entre outros mitos, cai por terra, na pesquisa, a idéia de que é impossível sair do crime: 40% abandonaram a atividade por conta própria. Mesmo porque, ao contrário do que se pensa, poucos ganham dinheiro no tráfico. Em 2001, o ‘vapor’ -- ou ‘aviãozinho’, como eram chamados antigamente os que fazem o comércio varejista da droga nas ruas -- ganhava de 10 a 15 salários mínimos, agora ganha no máximo três. Hoje, 60% deles trabalham 12 horas por dia, 7 dias por semana. O risco de morte aumentou significativamente e 73% desses jovens já foram espancados pela polícia. Quase metade, 55%, foi vítima de extorsão e apenas 28% foram detidos.” Espero que os dados possam fornecer pistas para compreendermos e enfrentarmos melhor o problema. Um abraço em todos.
enfrentar o problema. isso sim, precisa ser feito. não apenas enfrentar os bandidos. enfrentar a vergonha, a corrupção, a pobreza, a imprensa comprada/vendida, etc, etc, etc, etc
André Gonçalves · Teresina, PI 19/3/2007 17:42
falamos todos muito em mudanças, mas que mudanças são essas que tanto queremos? eu quero a mesma mudança que você? existe pouco consenso quanto ao método e objetivo dessas "mudanças"... queremos todos um mundo sem fome, sem violência, um mundo justo e com a arte espalhada por toda parte. harmonia, enfim... não queremos mais essa brutalidade. mas parece que há muitos conceitos diferentes de um mundo mais justo. uma complicada equação que muitos já tentaram resolver perpretando guerras, conflitos, intransigências.
o quanto nos deslocaremos da nossa própria vida? a verdade é que falamos como se o mundo fosse um lugar congelado nisso que estamos vendo. as mudanças estão acontecendo o tempo inteiro. a pergunta é o quanto queremos, ou podemos, realmente, nos envolver nelas. a mudança é contínua, mas até onde podemos controlar esse movimento?
Uma sociedade menos desigual, onde exista investimento em educação, saúde, moradia, enfim dignidade e qualidade de vida para muitos, certamente diminuirá o grau de violência.
Vivemos um período de intensa barbárie, que faz parte de um processo detonado há muitos séculos atrás e que veio se consolidadando de forma mais efetiva nas últimas décadas.
Os invisíveis da sociedade, cada vez mais mostram a sua cara e cabe a essa sociedade cobrar de forma contundente as mudanças na gestão do Estado.
Possso eu falar que é injusto, irracional
Crimes cometer contra a ordem social
Se essa não há?
A pressão social é fundamental para que possam acontecer as mudanças que desejamos.
Precisamos de ações contínuas e organizadas.
Temos que acreditar na rede como um canal aglutinador e multiplicador.
Abs
Paulo Bi
Olá, Egeu!!!
Alertar nunca é demais.
A gente vive problemas que são consequências e causas, numa sociedade que sabe que não mudará da noite para o dia, em tempos de absurda transição regional e mundial.
Olhando o problema com profundidade, eu vejo que a solução é, acima de tudo, CARINHO pelas PESSOAS!!!
Se tivermos carinho com quem está ao nosso lado, respeito pelos que nos cercam, tomaremos as decisões certas para melhorar essa bagunça que é nossa sociedade.
Vai mudar da noite para o dia? Não.
E o que é o certo? Infelizmente, para grande parte das pessoas, a atitude correta é combater fogo com fogo - violência com mais violência. (Da mesma forma que, tirando as devidas proporções, o papa tenta combater o islamismo com atitudes de semelhante ortodoxia.)
Até onde chegaremos?
O Rio é termômetro da nossa sociedade - a mídia principal do Brasil está aí e em São Paulo.
Mas a violência corre solta pelo mundo afora... pelo Brasil afora. A região mais violenta do Brasil é a região norte, onde, por exemplo, um menino de 8 anos matou um colega de 3 anos, outro dia.
O que é absurdo na violência? Tudo. Em qualquer lugar...
infelizmente, também, a violência, consequência de todo um contexto e situação que se alastram pelos últimos 20 anos, é causa imediata de dor e sofrimento.
Parabéns pelo texto, Egeu.
Outra coisa...
Não esqueçamos que vivemos num país com uma estimativa de 25.000 trabalhadores em regime de ESCRAVIDÃO!!!
Como se muda? RESPEITO, pra começar!!!
Sem dúvida que há imensas diferenças sobre o que de fato seria o ideal. Inclusive creio que esse seja um dos entraves para que algo seja feito. O ser humano tem a tendência de não se enchergar no outro. Novamente há o interesse próprio ou a opinião própria sobre o que é bom para o outro. Nem nisso chegamos num consenso.
Acaba que nada se faz, nada se fez e chagamos no ponto em que estamos, onde infelizmente o medo da violência está fazendo uma parte da sociedade se colocar na posíção de vítima e com isso aparentar ter os mesmos interesses. Talvez daí saia alguma coisa? Talvez. Temo apenas que acabem encontrando a solução mais tradicional (endurecimento penal), que não resolve nada mas acalma as pessoas, para que elas voltem calmamente para suas casas, até que um novo fato mobilize todo mundo para repetir a solução que não soluciona.
Atribuo a esse fato à natureza humana. Somos seres individuais, embora vivamos em sociedade. Nunca haverá uma sociedade onde absolutamente todos estejam satisfeitos, ainda que seja igualitária no que diz respeito ao acesso ao básico.
Acho que está aí a beleza de ser ser humano e é por isso que podemos crescer o tempo todo, com opiniões alheias às nossas. Fôssemos todos iguais, que graça teria?
Importante reconhecer (como já foi colocado), ações que buscam através do mais diversos meios a inclusão social. Acho que é melhor fazer pouco do que não fazer nada. Acho até melhor fazer errado do que não fazer nada. A indiferença é mais cruel do que qualquer outro sentimento.
Usei acima o termo inclusão social, porque é ele o usado. Mas gostaria de questioná-lo: inclusão em qual sociedade? Não será esse mais um termo separatista? Por que não "reconhecimento social"? "Participação social"? "Conscientização social"?
Estou adorando essa discussão, porque ela está buscando a fuga dos clichês, que pessoalmente considero um dos venenos para qualquer tentativa de análise sobre casos extremos como esses.
Infelizmente não encontrei as fontes (até porque li tanta coisa sobre isso que já não sei mais de onde vem cada coisa...), mas uma das melhores análises que li a respeito da violência está ligada à presença do Estado. Essa idéia não é nova, mas achei interessante expô-la.
Há carência de tudo. Saúde, boa alimentação, segurança, transporte, educação, cultura, diversão, esportes... As pessoas vivem por si com praticamente nada que o Estado lhes fornece e não têm, como o resto da sociedade, uma maneira de suprir essas necessidades de forma particular. A diferença não está entre o que o Estado fornece para uns e não fornece para outros, mas no que cada um consegue ter acesso de acordo com as suas capacidades econômicas.
Todos culpam o Estado. Ele é deficiente para todos os setores. Mas quem pode pagar colégio particular, seguranças, aluguéis, planos de saúde, de previdencia, seguro do carro... Não sente no dia a dia a falta que isso tudo faz. Por não sentir, não se revolta, porque aparentemente está tudo bem. Acontece que não está. Para aqueles que são obrigados a batalhar diariamente para poder viver com menos do que o mínimo que a dignidade humana exige, não está bem.
Resultado: violência contra o Estado, enfrentamento e tentativa de obter aquilo que lhes falta (e que é tido como necessidade para reconhecimento do indivíduo).
Quando se tem o Estado representado apenas pelos policiais que entram atirando, extorquindo, questionando e violando a organização constituída, esse Estado é questionado porque, quem é ele para querer influenciar naquilo que não ajudou a organizar? Que Estado tem o direito de exigir se nada tem a oferecer?
É aí que entra o crime organizado, ocupando os lugares que o Estado abandonou (ou onde nunca esteve). Nada mais são os chefes do crime organizado que pessoas inteligentíssimas, que centralizaram os mercados não oficiais (drogas e armas), acumularam capital e poder (principalmente poder) e passaram a fornecer (ainda que em troca de proteção) aquilo que o Estado não fornecia.
Seus métodos são violentos porque é a forma que sabem trabalhar. Suas leis são de vida e de morte porque como dependem de atividades ilegais não podem correr o risco de serem traídos. Mas, exceto pelos métodos, nada mais são do que grandes empresas e grandes políticos populistas.
Nem sempre é fácil ver as coisas dessa maneira, mas temos um Estado dentro do Estado. Dentro, porque estão sim submetidos às leis, mas não as respeitam porque não as reconhecem como válidas.
Não podemos nos esquecer que boa parte do crime organizado atualmente está dentro dos presídios. Não há melhor exemplo de ausência do Estado do que nesses estabelecimentos. O único braço Estatal em uma penitenciária é o carcereiro, mal pago, mal preparado, violento e corruptível, que não tem nenhum compromisso com aqueles que estã ali para cumprir suas penas.
Não é a toa que dentro desses estabelecimentos é que surgiram os maiores grupos organizados contemporâneos.
Bom... Só mais elementos para esse caldeirão.
Leia-se: "Atribuo esse fato à natureza humana." (uma letra a mais que sobrou de uma alteração)
Fê Pavanello · Brasília, DF 19/3/2007 19:23
Brilhante matéria! Parabéns! Honesta e direto ao ponto! Bem, mas tem gente que acha que o RJ não é uma cidade violenta. Meus colegas de faculdade, por exemplo (ECO/UFRJ), que dizem que é a mídia que passa uma imagem ruim do RJ para fora. Eles devem estar na mesma torre de marfim blindada que os nossos políticos.
Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ 19/3/2007 21:30
Pessoal,
Nessa manifestação acontecida dia 16 de março em frente a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, foi lido, além do Manifesto Contagem de Corpos, o Pai Nosso para o Rio de Janeiro, escrito e declamado pelo seu autor Igor Cotrim.
O texto-oração já está postado no Banco de Cultura.
Parabéns pelo texto!
Talvez por uma questão democrática, grande parte da sociedade segue o seu curso apenas, sem a possibilidade de mudança e de ter um presente melhor. E como as florestas, as bacias hidrográficas, o solo e o subsolo brasileiro, servem apenas para ser utilizada, exaurida. Ou por uma questão democrática esperam que atraves através de um passe dado a um mágico, o subdesenvolvimento mudará a direção desta história que se arrasta por mais de meio século, passará a ser desenvolvido. Deste montão de comentários, há somente uma sugestão de ação, em prol da melhoria desta desorganização social brasileira e extremamente acentuada no Rio de Janeiro. Como é mais válido errar através de uma ação, do que através da omissão. Por uma questão democrática, deste montão de comentarios, não sairá alguma ação, por parte da comunidade dp overmundo, em prol da melhoria desta desorganização social brasileira? Ou estaremos malogrados a viver como subdesenvolvidos?
CStur · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2007 01:28Quem gosta do sombrio, da escuridão proviniente desta desorganização social, desta guerra estúpida sem o objetivo de vencer, são os psicopatas e os sociopatas. E é consequência, proveniente do subdenvolvimento. E não é compactuada pela maioria da espécie humana e brasileira!
CStur · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2007 01:42
Tanta coisa foi dita aqui... o que posso dizer é como me sinto...
Impotente por não saber por onde começar, o que começar, com quem começar...
E a gente fica tentando sobreviver dentro do capitalismo... tentando viver de arte...
Às vezes me sinto inútil, fútil, egoísta por estar tentando viver da minha arte, enquanto tanta gente trabalha pra viver... e sem esperança... e assistindo aos assassinos roubando dinheiro público... o imposto pago pra nada funcionar... não... não queria ser redundante... queria estar dizendo algo pra mudar... pra melhorar... mas... não tenho nada pra dizer... não tenho nada.... só não quero me congelar... quero manter minha compaixão e estar pronta pra começar algo...
Isso foi apenas um desabafo...
Abraços a todos e parabéns pelo texto, Egeu!
até quando iremos fazer as contagens?
definitivo teu texto Egeu
vida longa (mais que nunca)
Lembrando que o texto é do Tico Santa Cruz e de seus amigos...
Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2007 09:21
egeu, obrigada por nos contar como foi este manifesto. concordo com você sobre o 'notícias...', de jão moreira salles e katia lund. e quando a gente se vê? beijo :)
Monica Ramalho · Rio de Janeiro, RJ 20/3/2007 09:50
EXTRA! EXTRA!
UMA SÍNTESE PARA AÇÕES POSSÍVEIS - Parte 1
Egeu - Sei que um post sobre esse assunto não vai fazer muito sucesso aqui...
Não sei quais as saídas imediatas. Imagino que existam ações a curto, médio e longo prazo. Tento enxergar algum caminho no meu trabalho com a Rede Social da Música.
convocação do Tico Santa Cruz, vocalista dos Detonautas Roque Clube... contagem de corpos" das vítimas da violência da guerra do Rio de Janeiro
Daniel Duende - Penso também que este post, embora um tanto distinto da proposta do Overmundo, pode vir a ter o seu lugar -- posta sua relevância, e a importância também cultural dos temas ora abordados. Talvez alguns colegas discordem de mim, mas minha convicção é de que este post tem aqui o seu lugar, e ele tem o meu voto.
Replicarei o manifesto em meu blog Alriada Express, tão logo o novo post atual tiver tempo para curtir um bocadinho mais em destaq
Marcelo Torca - Um engajamento político maior se faz necessário, os partidos políticos estão escolhendo candidatos sem qualidade, e isso somos nós é que temos que interferir, nos filiando e saindo como candidato...
Egeu 2 - O ilustrador e cartunista André Dahmer (do blog Malvados ), o analista de sistemas Vinicius Costa (do blog Spy Inc.) e Léo Torres - que estiveram presentes na manifestação - criaram à maneira do Iraque, o Rio Body Count.
Fê Ravanello - Não será também função da arte ajudar a expandir essas manifestações? Prolongá-las no tempo, para que mais mudanças sejam exigidas? Para que mais pessoas, seguindo os exemplos, passem também a fazer suas exigências, colaborando para as mudanças tão necessárias?
Leandróide - RioBodyCount e o manifesto do Tico, só... me parecem não bastar, acho que nós como povo devemos exercer pressão sobre as otoridades, uma pressão forte e eficaz.
José - sugiro uma reflexão sobre a educação escolar como um todo, pois, parece-me necessário mudar com este padrão de sociedade "institucional antropocêntrica" e não simplesmente nela nos incluirmos...
Felipe Orber - sugiro uma reflexão sobre a educação escolar como um todo, pois, parece-me necessário mudar com este padrão de sociedade "institucional antropocêntrica" e não simplesmente nela nos incluirmos...
Edna Queiroz - Refugiar-se na cultura, no sonho, na poesia, no plano da realização do possível e do impossível, enquanto lá fora a guerra urbana com suas trágicas conseqüências se instala pode ser uma forma de alienação. O meu protesto tem sido enviar email aos detentores de cargos políticos - de todos os níveis e instituições e incentivado amigos a fazerem o mesmo. Há pessoas querendo participar dos movimentos... Eu gostaria de conhecer uma agenda de manifestações para ajudar a divulgar.
Unês Nin - as mudanças, quando conquistadas, sofrem um processo relativamente lento, são em geral atenuadas e só acontecem quando a manifestação popular é muito, muito grande. e pra isso é preciso convencer a uma multidão de que aquilo realmente vale à pena.
Daniel Duende 2 - Manifestações populares e crimes hediondos... Chamar a atenção das pessoas... É o que se faz depois que se levanta o papo é que faz a diferença." Não se trata só da reeducação dos que tem menos grana e chances, mas também da educação dos que tem mais grana, pois somos todos pessimamente educados quando se trata de organização social, respeito ao outro e civilidade. Mas, além disso, trata-se de pressionar DE VERDADE os responsáveis públicos por esta situação. Chega de ódio por todos os lados.... somos todos vítimas de uma cisão social e de uma guerra urbana em meio a uma sociedade em colapso. Todos... eu, você, ele, e o cara que pega uma arma e atira num menino para roubar seu tênis...
Andréa Cals - não posso mais ser cúmplice e seguir calada ou parada... saída é mudança das ações no dia-a-dia...
Desde o bom-dia para o motorista e o trocador do ônibus, não jogar no chão uma guimba de cigarro ou um papel de bala... Levantar para dar lugar para idoso ou grávida, limpar a minha área da praia, ainda que o lixo não seja meu a praia é! Não fazer xixi na rua, limpar o cocô do cachorro. Não avançar sinal fechado, recusar a pagar a extorsão de flanelinha... Isso é educação, é demonstração de respeito e de valores relativos à qualidade de vida. Da minha e dos outros... Não adianta querer que o todo mude se o indivíduo não mudar... É como o beija-flor que quer apagar o incêndio da floresta com a água que traz no bico que responde ao cético: "estou apenas fazendo a minha parte".
Toinho Castro - O Bem também trabalha 24 horas. Há um trabalho lento, pesado, difícil, invisível mesmo, sendo feito por muitos de nós. Pode parecer loucura ou patetice, mas estou cheio de esperanças... O caminho está sendo trilhado... Talvez alguns resultados não sejam para nós. Isso nos angustia... A realidade também é a poesia, a arte, o encontro das afinidades. Isso está construindo algo. Colocamos sempre o crime, a violência, o medo e o terror, como a verdadeira realidade.
EXTRA! EXTRA!
UMA SÍNTESE PARA AÇÕES POSSÍVEIS - Parte 2
Fê 2 - Educação precisa ser criação de consciência social. Ampliação da visão acerca do mundo em que vivemos.
Não é berrando por alterações de emergência em momentos que a sociedade entra em pânico que mudaremos a realidade. É importante a visão de que o problema é estrutural e que mudança de regras não altera a estrutura... O mais importante é a luta contra o silêncio acerca do que mais importa: a detecção das verdadeiras causas de cada problema. Será que apenas começamos a procurar soluções porque os nossos seguranças particulares não são mais capazes de nos defender da violência? O crime organizado está devolvendo para a sociedade a violência com a qual determinados setores sociais estão cansados de ter que conviver. Longe de eu tentar (ou sequer cogitar) defender a prática de crimes, mas apenas para tentar trazer mais argumentosão, questionar sobre a violência diária de não saber o dia de amanhã, de ver os filhos passando fome, de não ter emprego, não ter acesso à saúde, à segurança, à dignidade. Isso é realidade diária para grande parte da população... Quem não está acostumado a tratar as pessoas como pessoas não pode agora esperar que seja tratado como tal. Não pode esperar piedade de pessoas que não têm motivo algum para te tratar como igual, porque nunca foram tratados assim... um sistema que permite tamanha desigualdade não pode trazer benesses a todos em todos os momentos. Infelizmente a sociedade está em guerra contra ela mesma. Foi dividida em setores para que uns pudessem ter mais que outros e agora agem como rivais. Questionar, discordar, discutir e exigir o máximo de informações me parece ser sempre o primeiro passo para a busca de soluções ponderadas e com mais chances de resultados reais, em qualquer setor da vida pessoal ou social.
Adroaldo Bauer - Não se passa da indignação à ação sem planejamento e disposição coletiva.
O final que se queira para a violência só pode ser produzido pela organização social de modo distinto da que produz e reproduz a violência. Esta é necessariamente uma caminhada política organizada. Em A Exigência Social www.coisaegente.blogspot.com sugiro caminhos políticos a ser pensados.
Juliaura - A arte deveria insistentemente retratar o porquê, como o fez na contagem dos corpos.
E continuar a fazê-lo. A cultura deve - 24 horas pelo bem - perguntar-se sempre por quê?
A arte lança pontas e farpas. Uma cultura que condena a cultura da violência é uma outra cultura de um outro modo de reproduzir relações. Não se sai daqui para um outro lugar se não se acabam as relações de dominação política geradas pela acumulação privada da riqueza coletiva.
Daniel Duende 3 - Reconhecer a arte que brota de todas as cidadelas... A poesia e a beleza, com a face que tiverem, brota em todos os cantos. Há poesia e ritmo no Ritmo e Poesia. Há uma proposta humana viável na Atitude do Hip Hop. Reconhecer e ouvir o grito destas artes, destas culturas né fundamental para começar a derrubar as barreiras. Outras propostas e ações, desde o Teatro do Oprimido... intrusões artísticas nos mais variados acampamentos desta guerra. O ensino dos rudimentos artísticos, do tocar um tambor, instrumentalizar um computador, dar forma ao sentimento em uma massa de argila, ao aprendizado do empreendedorismo que torna viável a remuneração sobre qualquer expressão artística... Há muito que pode ser feito.
Reconhecer a arte que brota de todas as cidadelas já é um grande passo. A poesia e a beleza, sejam elas com a face que tiverem, brota em todos os cantos, todas as cidadelas. Há poesia e ritmo no Ritmo e Poesia. Há uma proposta humana viável na Atitude do Hip Hop. Reconhecer e ouvir o grito destas artes, destas culturas, é fundamental para começar a derrubar as barreiras.
Spírito Santo - Arte e Cultura servem para exprimir, expor a realidade para que a sociedade possa tirar suas conclusões, estabelecer suas regras, sua ética sua moral. Emocionando a gente, é claro, já que são as emoções que movem o ser humano. A questão é que andamos vacilando muito com relação a este aspecto. Negligenciando nossa capacidade de fazer Arte e Cultura, engolfados neste mar de equívocos que a cultura 'capitalista', meio que nos enfia goela à dentro... Se temos um problema social baseado inteiramente na exclusão social ou racial, é óbvio que temos também uma cultura empobrecida por esta mesma estratificação... Uma cultura oportunista, 'graneira' (como se dizia antigamente: 'burguesa'), que omite os fatos 'mais feios', menos 'fashions' da realidade, em nome de um conceito 'farinha-pouca-meu-pirão-primeiro'...
Egeu Laus • O filme Noticias de uma Guerra Particular deveria passar em horário nobre em todos os canais de TV aberta durante uma semana, todos os dias!
(Não perca a última e sensacional terceira parte!)
EXTRA! EXTRA!
UMA SÍNTESE PARA AÇÕES POSSÍVEIS - Parte FinalAndréa 2 - Ações comunitárias realizadas por atores, artistas plásticos, coreógrafos, fotógrafos, cineastas, seu ofício para dentro de comunidades de baixa renda e lá desenvolvido...O Nós do Morro iniciado pelo ator e diretor Guti Fraga, que ficou nacionalmente conhecido depois que o grupo trabalhou no filme Cidade de Deus.
Há muitos mais: O projeto Tangolomango, da produtora carioca Marina Vieira, que percebeu a importância dessas ações - até então isoladas - e há seis anos organiza um evento cultural que reúne exclusivamente esses trabalhos. Há coisas incríveis sendo realizadas e que ninguém fica sabendo pela grande imprensa. O importante é saber que os primeiros passos estão sendo dados. E nos cabe incentivar e descobrir como colaborar. Como em Clube da Esquina, ir onde o povo está.
Adroaldo Bauer 2 - Os que têm e os que não têm não se identificam tão facilmente em nosso país.
Outra coisa que ajudaria muito e já é convencer quem arma o tráfico de parar de comprar deles o que consomem. Desde Woodstock está provado: Respirar oxigênio também dá barato... Não se pede ao estuprador que combata a violência. Perguntemo-nos, porque fazemos o debate no Overmundo e não na Globo?
Sabemos a resposta, tanto que estamos aqui e noutros canais que não lá, onde as aves não gorjeiam como cá.
Nivaldo Llemos - O assunto merece ação e reflexão urgentes. A concentração de riqueza, a desigualdade social, a corrupção em todos os níveis do Estado, a impunidade, a incompetência, o desemprego e falta de educação formam o caldo de cultura onde viceja a violência. A única forma de alterar este quadro é mudar o próprio paradigma de desenvolvimento que o capitalismo em sua fase globalizante nos impõem. É preciso lutar por um novo modelo de sociedade que privilegie o homem e a natureza, não o capital e o lucro. Só assim vamos... investir no que realmente vale a pena: melhores condições de vida, justiça e bem-estar social.
Recomendo uma excelente matéria “Jovem e pobre: na mira do tiro”, de José de Castro, publicada na revista eletrônica nova economia (http://www.novae-inf.br) e que pode ser lida em http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=548. Segundo a matéria, a vítima preferencial da violência no país é pobre, jovem e negra. “As pesquisas indicam que jovens entre 15 e 19 anos são as maiores vítimas de homicídios no País, correspondendo a 87,6% dos casos, e ocorrem geralmente em vilas e favelas. (...) “Os jovens negros têm um índice de mortes por assassinato 85,3% superior aos brancos.” Essa mortandade – como já foi dito aqui no Over - tem muito a ver com o comércio e o consumo de drogas, inclusive de álcool.
Paulo Bi - A pressão social é fundamental para que possam acontecer as mudanças que desejamos.
Precisamos de ações contínuas e organizadas. Temos que acreditar na rede como um canal aglutinador e multiplicador.
Celim - Se tivermos carinho com quem está ao nosso lado, respeito pelos que nos cercam, tomaremos as decisões certas para melhorar essa bagunça que é nossa sociedade. Vai mudar da noite para o dia? Não.
Fê 3 - Temos um Estado dentro do Estado. O crime organizado atualmente está dentro dos presídios. Não há melhor exemplo de ausência do Estado do que nesses estabelecimentos. O único braço Estatal em uma penitenciária é o carcereiro, mal pago, mal preparado, violento e corruptível.
MarthaV - ...quero manter minha compaixão e estar pronta pra começar algo...
(A Síntese não buscou a uniformidade. Referiu diversas ações, como dexiou de referir diversas outras de que falamos ou nem sequer lembramos e que estão no mundo, como nos diz Paulinho da Viola; é preciso aprender).
Não é um programa para todos, nem necessariamente único. Mas dá passos-luz à frente, antes que nos matemos todos e meus netos e netas fiquem sem a poesia de vós todas, pessoas legitimamente sensíveis e preocupadas em ver o futuro feliz.)
Beijos nos corações.
Adroaldo, meu amigo.
Excelente seu resumo das intervenções deste impressionante e profícuo debate sobre a violência. Todos sem exceção colocaram democraticamente seus pontos de vista a partir de suas experiências existenciais e culturais, e uma coisa ficou claro: é preciso resistir e construir alternativas para uma nova forma de convivência social. O Overmundo mostrou-se mais uma vez uma plataforma de expressão democrática e de aglutinação de idéias. Neste sentido - e para que não percamos o fio da meada e a oportunidade - proponho, mesmo sem saber se isso é possível, que se crie no Over uma rubrica Mobilização Social ou Resistência Social ou Sociedade Civil, não importa o nome, mas que seja um espaço de aglutinação de experiências voltadas para a transformação social. Desde grupos como o Nós no Morro, até experiências educacionais e mobilizações contra a violência nos mais distantes rincões do país. O objetivo seria integrar essas experiências através da plataforma do Overmundo e assim promover o encontro e a interatividade entre as diversas iniciativas, criando uma Rede de Mobilização Social. Não sei se viajei na maionese, mas é uma sugestão. O que acham?
Este artigo de Egeu Laus foi fantastico no contexto do Overmundo e do pais hoje.
Na verdade o que está acontecendo com nosso Rio - e outras cidades no Brasil - é difícil de se refletir, chegar a conclusões... enfim, é uma baita crise!
Acho que estamos passando por uma crise anunciada, diariamente anunciada. Os seres humanos demoram a reagir.
Mas em meio a tudo isso, o que me veio a mente é o seguinte: sou pouco conhecedor de questões jurídicas, mas sei que o STF e outros orgãos do judiciário não votam apenas embasados em questões jurídicas, jurisprudências ou Constituição que seja. ELES DECIDEM SIM INFLUENCIADOS PELA MARÉ POLÍTICA. Suas decisões também são pautadas pelas pressões políticas de vários tipos. Daí concluo que somente um movimento nacionalmente forte poderá fazer eles cairem na real. E isso vale também para os parlamentares. Como seria esse movimento? Não sei. Mas acho que todos estamos muito quietos... esperando uma grande tragédia que já está meio que por ai.
Bom...MartaV, sugiro que vc continue trabalhando com cultura e arte numa boa. Criatividade e sentimentos, isso é nosso, é de cada um de nós e não podemos abrir mão devido a calhordagem reinante. É a nossa vida.
"Extensões de água abriam-se a nossa frente e fechavam-se atrás, como se a floresta houvesse avançado displicentemente sobre o rio, barrando o caminho de nosso retorno. Penetrávamos cada vez mais fundo no coração das trevas." (...) "Ordenei que a âncora, que começava a ser içada, fosse solta novamente. Antes que ela parasse de correr, rangendo surdamente, um grito bastante elevado, como de infinita desolação, pairou lentamente no ar opaco. Ao cessar, um clamor de lamento, modulando em selvagens dissonâncias, encheu nossos ouvidos. Simplesmente inesperado, arrepiou-me os cabelos sob o boné. Não sei como atingiu os outros: para mim foi como se a própria neblina houvesse gritado, de repente, e parecendo vir de todos os lados ao mesmo tempo, provocando aquele desesperado e triste clamor. Culminou numa rápida explosão de guinchos exagerados, quase intoleráveis, que cessaram em breve, deixando-nos entorpecidos numa variedade de atitudes tolas, e obstinadamente ouvindo o silêncio, quase tão assustador e exagerado."
trechos do livro Coração das trevas de Joseph Conrad Korzeniowski.
Nós realmente fugimos um pouco dessa situação de violência e achamos não acontecer conosco. Talvez sejamos agentes dessa guerra, agentes involuntários... Claro, há todo um sistema que deve ser revisto, reajustado, mas nós também temos que nos reajustar, senão teremos que conta-los(os corpos) até fazermos parte da matemática.
abraços...
eu tambem como o Toinho castro,me perguntei onde está o bem?
alguem deve lucrar com o mal,com a violencia, para o mal vencer basta que o bem cruze os braços! me revoltava contra Deus e contra o mundo,tão sincera era a minha dor e desolação que tambem tive um sonho,nele vi a luz de Deus e ela banhava todo o universo,acordei e tive uma orientaçao que dizia; quando não puder fazer nada por alguem ore por ela,e é o que faço todo dia,oro por todos os meus,pelo meu país,pelas vitimas de violência e suas familias,e faço tudo que esta ao meu alcançe para o bem,começando por minha casa!porque é aí que está a raiz!
Meu único comentário sobre esta colaboração foi:
Egeu, já falei por e-mail que curti o texto e a proposta. Mas reforço a idéia aqui: legal ampliar os assuntos abordados. Cultura, entendida de forma ampla, é tudo aquilo que o bicho-homem produz socialmente. A violência se inclui.
Abraço.
Felipe Obrer · Florianópolis (SC) · 17/3/2007 22:45
Só pra constar: Adroaldo fez um resumo dos comentários, e me atribuiu uma fala que não proferi, além de trocar meu nome (acidentes que acontecem, não estou ofendido). Colocou: "Felipe Orber - sugiro uma reflexão sobre a educação escolar como um todo, pois, parece-me necessário mudar com este padrão de sociedade "institucional antropocêntrica" e não simplesmente nela nos incluirmos..".
Nem fui conferir quem fez o comentário, e ao apontar que não fui o autor não significa que discorde, a intenção é apenas não assumir palavras que não disse.
Peço desculpas por ocupar o espaço com um esclarecimento cuja relevância é individual.
Abraços.
Pelamordedeus!
Retorno para pedir sinceras desculpas ao amigo Felipe Obrer.
Atribui a ele uma fala do José que, se tiverem a curiosidade de verificar, está repetida, uma vez como a dele própria, outra vez (no tal de recorta e cola que facilita, mas prega estas peças na gente) como a de Felipe.
Perdão pessoas.
Egeu e vc ainda achava que seu post não iria fazer muito sucesso! Fez sucesso pq é ótimo e pq ninguém agüenta mais este estado de coisa. Estamos vivendo uma barbárie.
abração
Muito bom esse texto, parabéns. Infelizmente só assim mesmo para "as pessoas" se tocarem quanto a seriedade do assunto. Não é só ver isso tudo e achar que só acontecem com os outros, devemos pensar nos nossos filhos, nas gerações futuras, como vai ser daqui a 50 anos??? a solução está em nossas mãos. E é só chocando a sociedade com atos e imagens fortes pra ver se muda alguma coisa.
Um abraço a todos que fazem parte desse site maravilhoso.
Se toda a discussão sobre origem, causas e efeitos da violência não produzirem resultados práticos ou então não sinalizarem para uma possível ação no mundo lá fora, haverá um sério risco de termos como objeto de inspiração a dor, a lágrima, a ausência, a fatalidade decorrentes da vítima que estará cada vez mais próxima. Não haverá leitores para o último escritor. Desculpe-me o tom trágico, mas é muito comum a banda do bem desabafar, apregoar que a sociedade não tem jeito, que o governo é omisso, que P.A.Cabral foi o culpado..., como que isto fosse prova de conscientização e desse um certo alívio diante da falta de ação mais efetiva. A sociedade, os brasileiros somos nós. Acho que vale até um manifesto poético, quem sabe tocará mais ao coração do descrente, do que se sente só dependendo apenas de um estímulo para se integrar ao grupo que está aí protestando, denunciando, indo às ruas.
* Se alguém souber de contato (email, site...) dos que estão encabeçando os movimentos, gostaria de conhecer a agenda.
Edna,
O grupo/movimento criado por Tico Santa Cruz chama-se Voluntários da Pátria. Você pode entrar em contato com ele pelo blog Clube da Insônia. As próximas atividades (em conjunto com outros grupos) são a Missa na Igreja de S. Francisco Xavier, na Tijuca, pelos 4 anos sem Gabriela (vítima de bala perdida no Metrô da Tijuca) no dia 25/3, domingo, as 18 horas; e no dia 26/3, segunda-feira Rio unido contra a violência, manifestação (vista-se de preto e leve velas) na Cinelândia, as 19 horas.
Há pelo menos um portal de internet tentando agregar os movimentos contra a violência. Chama-se Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência. Algumas das entidades que participam:
Associação de Defensores Públicos do Rio de Janeiro;
Associação de Familiares de Vítimas da Violência na Baixada;
Associação dos Moradores da Favela do Morro do Dendê;
Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis;
Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré;
Federação das Associações dos Moradores da Ilha do Governador;
Grupo Legítima Defesa;
Grupo Tortura Nunca Mais/RJ;
Justiça Global;
Laboratório de Análises da Violência da UERJ;
Observatório de Favelas;
Organização de Direitos Humanos Projeto Legal;
SOS Queimados.
Alguns telefones:
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência: (21) 2221.2906
Justiça Global: (21) 2544.2320
Observatório de Favelas: (21) 3014.4057
Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis: (21) 2242.2462
Obrigada, Egeu. Sua informação foi valiosíssima.
Isto aqui tá parecendo o samba de cada um pra si, o ritmo e o enredo ruim para o ouvido de todos!
CStur · Rio de Janeiro, RJ 21/3/2007 04:35
A violência já atravessou os nossos portões, a cada dia um novo fato que se sobrepõe a outro, e outro, com requintes cada vez mais cruéis. Ao nos acostumarmos com essas notícias, não há cobrança, nem organização em busca de uma resposta do poder público e da classe política. Atitudes como essa da "contagem de corpos", devem a cada dia se multiplicar, para que nossa voz se reverbere em blocos. Não há o que resista, a uma multidão aos gritos. As raízes do problema são profundas, precisamos de planos estratégicos para o futuro, mas também de atitudes imediatas. E quanto à dúvida se entra ou não esse post em uma comunidade de cultura, é absolutamente pertinente, já que a própria cultura, através de tantas manifestações artísticas é um dos tentáculos para o resgate de nossos jovens que andam por aí, flertando com o mundo do crime.
Lula Ricardi · São Paulo, SP 21/3/2007 08:46
Pessoal,
Agradeço aos overmanos que de uma forma ou de outra deixaram aqui seus comentários, críticas, questionamentos, sugestões e depoimentos: Daniel Duende, Marcelo Torca, Fê Pavanello, Leandróide, José de Criciúma, Dudavalle, Spirito Santo, Felipe Obrer, Clarice Laus, Edna Queiroz, Ines Nin, Ribasmayer, Saramar, Fanny, Andrea Cals, Toinho Castro, Marilia Chinchilla, Marcus Assunção, Marimbondo_rnw, Higor Assis, Adroaldo Bauer, Juliaura, Filipe Mamede, André Teixeira, André Gonçalves, Joanna D.A., Vômito Negro, Nivaldo Lemos, Paulo Bi, Celim, Julia Wiltgen, Marcus Vinicius, CStur, MarthaV, Gustavo Rios, Monica Ramalho, Marcos Valerio Maia, Alexandre Grecco, N. Shinhe, Julio Cesar Correa, Isabela Ramos e Lula Ricardi.
Tenho certeza de que tudo isso vai colaborar para a mudanca. A própria existência do Overmundo já uma ferramenta para esta mudança. A soma de todos esses comentários colabora para a construção de um Manual Prático de Ações Culturais contra a Violência que precisamos ter no bolso atualmente. Obrigado.
Sacando do bolso um trecho de Trégua, do Lixo Extraordinário:
"Nem na nata, nem na draga
nem na sarjeta
nem pose, nem passeata
que eu sei toda a reza
a tua arte combate ou só faz show?"
É isso aí.
Abração do Verde.
A partir das indicações dos sites e grupos acima, tive a oportunidade de comparecer à manifestação pública realizada ontem, 26/03, na Cinelândia-RJ. Na expressão de cada um era possível ler a interrogação maior, cujo ponto sedia no coração diretamente ferido, rasgado, transpassado pela navalha da perda daquele a quem ama e tantos outros que, solidários, empaticamente comungavam da mesma dor... - em "Contagem de Corpos" (continuação).
Egeu, mais uma vez obrigada. Propus-me a divulgar os eventos para amigos e quem estiver ao meu alcance.
Edna,
Estive na manifestação as 18 horas mas infelizmente não pude ficar.
Um abraço.
Egeu, Edna, Verde, etc...
Eu não tenho contado diariamente os corpos. Porem baseado na estatítica. posso dizer que desde a publicação do texto, foram assinados no Rio de Janeiro, cerca de quinhentas pessoas. E que o total anual, será 10.000 pessoas, somente no Estado do Rio. Embora a estatística tambem aponte para o crescimento deste monstro. Será que esta situação caótica por si só, encontrará meios para reverter esta situação? E devemos esperar pra ver, por que não há nada o que fazer?
Olá, CStur
As duas perguntas, cada um deve fazer a si mesmo e incluir uma terceira: Como posso dar minha parcela de contribuição para atenuar este estado de coisas? Nem há necessidade de acompanhar o placar para saber sobre a triste realidade que está aí. "Quem cala consente". Enquanto houver pessoas de bem se calando por omissão, por descrença ou por indiferença, os terroristas sociais (não só os bandidos armados, mas aqueles que têm o poder de agir e não agem), estarão livres, com o passe dado por nós, para fazerem o que quiserem. O momento é de ação.
Veja o desdobramento deste artigo em: http://www.overmundo.com.br/overblog/contagem-de-corpos-continuacao
e http://www.overmundo.com.br/banco/cruel-estatistica
Complemento meu comentário acima indicando a colaboração de Brunno SV - PRECE URBANA, um grande achado que considero uma das respostas às nossas indagações.
Edna Queiroz.
Primeiramente há o caminho e não é somente com preces. Este caminho passa pelo exercicio da cidadania. E sei que as ações devem ser de cunho político e organizada pela sociedade. Por que a causa da violência é resutado da icompetencia dos poderes públicos e da omissão da sociedade.
Oi, CStur
No link "PRECE URBANA" acima (clique na expressão em azul), o conteúdo tem um sentido que extrapola o entregar o problema a um Ser Superior, pelo contrário, referi-me a ele como ilustrativo da nossa capacidade de se indignar - atitude primeira para o exercício da cidadania. Conformar-se é aceitar o 'status quo', é omitir-se. A omissão se dá de "n" formas. Eu também sou a sociedade e tento, na qualidade de cidadã comum, anônima na multidão, dar minha parcela de contribuição, expressar de alguma forma meu inconformismo comparecendo a manifestações públicas, enviando emails para autoridades, instituições, estimulando amigos de minha lista a participarem.
Em Contagem de Corpos (continuação) - (link: http://www.overmundo.com.br/overblog/contagem-de-corpos-continuacao), expresso a minha primeira participação em manifesto público a partir desta colaboração do Egeu.
Em Cruel Estatística (link: http://www.overmundo.com.br/banco/cruel-estatistica), reforço o impacto do inconformismo. Fatos estes, que infelizmente, continuam basta ver cada noticiário. Sobre as possíveis causas, tanta gente já as elecou nos debates televisivos!!!! Debater será útil se o propósito for a apresentação de propostas viáveis para conter esta onda. Bom seria pudéssemos usar dos poderes dos super-heróis para combater as forças do mal, seja dos agentes diretos (os marginais), seja dos indiretos (todos os que têm o poder nas mãos e se omitem ou são incompetentes, ou até tenham interesse na causa). Por isso, na minha pequenez, tento participar. Gostaria de fazer mais, aceito sugestões pacíficas. Acredito que politicos incompetentes junto com um bando de omissos forma um ambiente perfeito para que os "jogadores" livremente continuem no terrorismo diário. Até quando, até quando? Não tenho a resposta, mas quero fazer coro com os inconformados e alistar-me no exército do bem.
Parece que a "sociedade" só irá agir em peso quando todos tiverem um amigo próximo, ou um de seus membros atingidos. É lamentável.
Que possamos, realmente, ir além da palavra, do plano semântico, mesmo porque essa banda podre e todos os brasileiros não estão cadastrados no overmundo para se sensibilizarem com a nossa sapiência. Podemos, sim, aqui e agora, nos municiarmos de elementos para agir.
Desculpe-me o texto longo, mas é que estou mais indignada com os últimos acontecimentos.
Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 29/4/2007 22:06
Edna,
Mater a esperança, é criar meios mais efetivos para a mudança l O ato de escrever, a mim parece, apenas uma maneira de tentar desencadea-la. Quais serão as ourtras maneiras, as outras vias?
http://www.overmundo.com.br/banco/cruel-estatistica
http://www.overmundo.com.br/banco/vamos-contar
Com certeza, a esperança é o combustível.
No mais, todas as maneiras são válidas e cada um sabe o potencial de participação. Surtirá algum efeito se o método empregado agregar algum valor, por menor que seja, ao problema em questão e tantos outros. Caso contrário correríamos em círculo atrás do próprio discurso.
A fábula O Beija-Flor e a floresta é significativa:
"Houve um incêndio na floresta e enquanto todos os bichos corriam apavorados, um pequeno beija-flor ia do rio para o incêndio levando gotinhas de água em seu bico. O leão, vendo aquilo, perguntou para o beija-flor: Ô beija-flor, você acha que vai conseguir apagar o incêndio sozinho? E o beija-flor respondeu: Eu não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte.
Usada por Betinho, no video disponível para download.
Edna,
A fábula é significativa, representa muito bem a situação, em todos os sentidos e ilustra muito bem os personagens! Considerando o leão como a maioria dos cidadãos do Rio de Janeiro, Você o beija-flôr. Quanto a mim, espero criar um personagem para entrar nesta fábula.
Considero beija-flor todos os que isoladamente, ou em organizações, tentam ir contra a correnteza no sentido de valorizar a vida, de fazer valer os direitos da cidadania.
Aproveitando o ensejo, se desejar, dê uma olhadinha nas colaborações: CULTURA EM AGONIA: http://www.overmundo.com.br/overblog/cultura-em-agonia-sos-museu-naif
e VAMOS REABRIR O MUSEU NAÏF: http://www.overmundo.com.br/agenda/vamos-reabrir-o-museu-naif
Bem, vou entrar no meio desse tiroteio que encontrei aqui e agora para expressar minha opinião a respeito. Compreendo e faço jus que nossos políticos não têm cumprimo com lisura seus papéis na sociedade, contudo, tal sociedade, a meu ver, se mostra complacente e inerte aos desmazelos políticos. Infelizmente, tenho de admitir que quando políticos de showbusiness como Clodovil, Frank Aguiar, Maluf são votados em larga escala, há de se "conformar" com o nosso caos. Sou de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país e, por vergonha própria, de uma péssima consciência política. Não precisamos ficar o tempo todo recordando os pequenos e momentâneos casos de absurdos discrepantes que assolam nosso país. Basta refletirmos que se tais coisas ocorrem, num país democrático, é que algo de errado há com essa democracia. Me cansei de ser tida como chata ao querer discutir sobre política com um jovem colega da classe média. Discutor assuntos como legalização de drogas, prostituição, aborto, ou até mesmo reforma política. Os políticos fazem sua baladinha, num país no qual a nova geração eleitora, só pensa em baladinhas ....
É uma boa surpresa assistir a uma discussão como essa trazida aqui .. coisa rara a ser prestigiada ...
Parab[ens pelo texto, uma cronica nua e crua que disserta a realidade.
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