Contra a degeneração da Língua

Fotomontagem: Delfin
1
Delfin · São Paulo, SP
12/5/2006 · 53 · 4
 

Quando se fala na defesa da língua portuguesa, hoje em dia, pensamos em nomes como Aurélio, Houaiss e Pasquale. Mas, no Rio de Janeiro, há outro nome, que não aparece com nenhuma freqüência no noticiário local, mas que é um defensor apaixonado do uso de um bom português. Seu nome é Diógenes Magalhães e sua indignação contra a má utilização do português se reflete em diversos livros de sua autoria. Um deles, Redação com base na Lingüística (e não na Gramática...), é um mega-sucesso independente: já vendeu 12,5 mil cópias e está, atualmente, na sétima edição — bancada pelo próprio autor.

Um dos fatores do sucesso do livro é certamente seu preço, extremamente baixo se comparado a outras obras de igual peso. Custando apenas cinco reais e distribuído pelo próprio Diógenes em livrarias e feiras de livros no centro do Rio, o material se torna acessível a um extrato muito maior da população. Tudo para que o povo tenha acesso ao seu pensamento particular acerca da língua.

O autor, nascido Diógenes Magalhães Pereira da Silva, tem 82 anos. Lançou a primeira edição deste livro em 1981 e, oito anos depois, recebeu o Prêmio Francisco Alves da Academia Brasileira de Letras. Bacharel em Direito (sem, no entanto, ter feito o Exame da OAB), se intitula Professor do Ensino Livre e, entre suas características marcantes, está o fato de acreditar que os jornalistas em geral são responsáveis por disseminar o uso vernacular errôneo no Brasil.

“Jornalista não sabe, ele aprende é com outro jornalista que também não sabe e aí fica essa besteira”, desabafou o professor em entrevista concedida por telefone ao Overmundo. Segundo Diógenes, alguns axiomas defendidos em redações e manuais de estilo são absurdos. Ele deu um exemplo: “Nome próprio não tem plural? Balela. Mas o jornalista acha que é assim. Mas, se você observar na Bíblia, nas placas das ruas, os nomes estão no plural. Afinal, são substantivos!”, indignou-se.

Do mesmo modo, critica a invenção de palavras que, de acordo com suas origens, estão erradas: “Aeródromo é a pista onde se voa*. Mas o que é um camelódromo? Alguém já viu um camelô sair voando? E o que dizer do sambódromo?”, disse o professor. Sua principal bronca, no entanto, é que a justificativa utilizada para o uso destas regras e expressões exemplificadas é a evolução do português como língua viva. No que ele respondeu, sem pestanejar: “A língua não evolui, a língua degenera”.

Estas e outras visões acerca do português podem ser vistas em seu livro. Que, inclusive, dá prejuízo para o autor: o preço de venda equivale a 2/3 do preço de produção. “É a minha depressão. Eu estou pagando pra ver”, desabafou Diógenes que, em seguida, complementou: “Eu fiz tratamento para esta depressão, mas estou me curando fazendo livros”.

A carreira de Diógenes como escritor, em verdade, é bem longa. Já publicou mais de vinte livros, entre prosa, poesia, livros de estudos de línguas e outros. Alguns, inclusive, por grandes editoras, como a Ediouro. Mas, quanto ao Redação..., saiu independente (pelo próprio selo, chamado Edições Coisa Nossa) porque ninguém se interessou em publicar. “Procurei as quatro maiores editoras do estado, mas nenhuma aceitou”, afirmou, resignado. Ainda assim, tem motivos para se animar: está concorrendo, pela 27ª vez, a uma cadeira na ABL. Conta, inclusive, que em uma das votações passadas soube ter recebido seis votos. “Mas eu faço por fazer, eu não quero mesmo entrar. Da 1ª vez, inclusive, foi de brincadeira”, conta o escritor.

O livro, em si, tem um acabamento bem simples, com capa manual e impressão convencional. Pode ser encontrado facilmente, pois a tiragem de dois mil exemplares desta sétima edição de seu livro, feita no meio do ano passado, está longe de acabar. Mas alerta que a edição anterior se esgotou em apenas um ano. Portanto, se quiser ter contato com uma visão polêmica, sincera e interessante sobre o uso do português no dia-a-dia, vale conferir a obra de Diógenes Magalhães. Que pode não ser famoso, mas tem suas próprias armas para defender o que acredita ser um dos maiores bens de uma nação: sua língua.

*A propósito, o sufixo dromo siginifica, na verdade, lugar onde se corre. Ainda assim, só conseguimos comprovar que os camelôs só correm do rapa e os sambistas só se apressam na passarela se o tempo estourou. Nada, realmente, que justifique o uso do tal sufixo.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
Ana Murta
 

Eu adoraria ver um documentário sobre esse cara.

Ana Murta · Vitória, ES 10/5/2006 12:26
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Thiago Camelo
 

ele me pareceu um pouco conservador nessa entrevista, em algumas passagens... não sei... oq acha Delfin?

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 10/5/2006 16:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Delfin
 

Mas ele é.
Esse me pareceu o ponto principal da matéria: normalmente, as pautas do Overmundo são, como tendência, mais à esquerda. Mas há os alternativos à direita, com um radicalismo que vai ao conservadorismo. E acho pertnente que se mostre este lado também. É, novamente, o pluralismo do Overmundo em ação.

Delfin · São Paulo, SP 10/5/2006 18:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Marcos Carvalho Lopes
 

Essa visão da língua é bem platônica e conservadora demais: "a língua não evolui degenera"...Pasquale e outros advogam a idéia do português "certo", que é um português que ninguem fala: a língua existe sempre em movimento...a percepção da contingência da linguagem está intiamamente ligada a percepção da contingência da identidade e da aceitação do diferente...Por isso mesmo, mais e mais essa visão "gramatiqueira" está perdendo espaço: ainda bem!
O texto gera mesmo polêmica...

Marcos Carvalho Lopes · Jataí, GO 10/5/2006 19:28
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados