Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

Controvérsia Enunciada

1
taloverde · São Paulo, SP
12/9/2008 · 125 · 14
 

Recentemente, em uma de minhas críticas sobre o cinema brasileiro, apontei certa falta de amadurecimento em muitas das produções aqui realizadas. Neste momento, estou a enunciar a existência dessa controvérsia. O filme “Linha de Passe”, de Walter Salles e co dirigido por Daniela Thomas, nos apresenta, de maneira veemente, a verdadeira realidade na rotina de uma família periférica da capital paulista. Família composta por pessoas que não buscam suas identidades na criminalidade – contrariando a justaposição feita por cineastas que se submeteram a descrever os sonhos dos originários das periferias e favelas -, mas na esperança permeada pela honestidade. Que por sua vez é limitada ao mercado de trabalho informal ou a busca às peneiras de futebol, além da desesperada necessidade de crença, essa última incitada através de igrejas protestantes.

A trajetória da película é regida por interpretações plausíveis, haja vista o desempenho da personagem Cleuza, interpretada pela atriz Sandra Corveloni, ganhadora da Palma de Ouro. Embora colorido, o filme concebe uma fotografia que me remete ao clima noir do estilo Nouvelle Vague de cinema, sobretudo muito visto nas obras de Godard. Entretanto, esta é estabelecida inteligentemente como forma de preservação de uma originalidade atmosférica, típica do habitar de classes menos favorecidas.

A parceria entre Walter Salles e Daniela Thomas, percorre nesse trabalho, por uma trilha à margem dos chavões sociais já expostos nos cinemas brasileiros. Não há relevância em saber se a intenção deles foi ou não diferenciar sua obra das demais produções nacionais que se submeteram a discorrer sobre o assunto em questão. O importante mesmo é que conseguiram. Pois nos possibilitaram sermos cúmplices de uma solidez envolvente, que traduz a narrativa no gesto, na espontaneidade que os abstiveram da especulação ou banalização dos fatos.

É preciso reconhecer que o cinema mexicano, argentino e, em proporção ainda que menor, também o cinema brasileiro têm rompido com a hermética das premiações européias e americanas. Por outro lado, devemos nos tornar capazes do discernimento para o real valor de tais obras. Pois muitas alcançam tal prestigio desprovidas de critérios para exprimir suas idéias ou insinuações. É, para mim, de grande notabilidade, perceber a profundidade da proposta através da sutileza com que os diretores de “Linha de Passe” conduziram o longa. Construindo em situações aparentemente simples, a complexidade. Pois o que se pode apreender na busca do personagem Dario e de seus demais irmãos como uma busca para uma identidade, pode ser ainda mais profundo se pensarmos que tais desejos encontram-se associados à obsessão para provarem a sociedade que possuem postos de cidadãos, exageradamente exigido pela mesma através de um determinado nível social. Transmitir na cena em que um jovem, filho de uma serviçal, é convidado pelo filho da patroa de sua mãe, a participar de uma “pelada” no condomínio de classe média e, demonstrando sua habilidade, torna-se hostilizado pela intolerância de um dos moradores do respectivo condomínio, que por sua vez; diante de uma indagação sobre sua atitude inóspita, exclama "Tá bom, agora eu também vou trazer o filho da minha empregada para jogar em meu time!". Nos mostra o desprezo que sentimos por essa dicotomia e ao mesmo tempo nos afirma que insistimos em permanecermos demagogos, quando pensamos não sermos complacentes com tamanha estupidez, arrogância. Quando vamos ao cinema e contemplamos nossas ações inconseqüentes através de determinadas mensagens, sejam essas pragmáticas ou metafóricas, precisamos suprimir a indolência e enxergar a verdadeira essência que nos compete, pois essa oportunidade não se encontra em uma esquina qualquer.

Bom, ao que me resta, diante do exemplo de lucidez apresentado através de uma obra cinematográfica e, sobretudo brasileira, devo parabenizar o Walter Salles e a Daniela Thomas por nos exemplificar que nem tudo está perdido em despeito de nossas consciências. Que ainda há entre os membros da classe artística, os que enxergam além da ilusão. E, em maior importância, os que se encontram cientes de que o grande problema não está na pobreza, mas na ignorância. Os que notam na ignorância, a grande responsável por agravar ainda mais as dificuldades da população carente. Tornando o cotidiano das pessoas que vivem nesse contexto em um purgatório. Onde se houve a perturbadora ironia: “Vai para onde assim, fazer exame de fezes?!” diante de uma simples vestimenta formal, entre outras tantas provocações gratuitas e desnecessárias. Devemos, sobretudo, parabenizar os idealizadores do filme por nos mostrar que se as classes políticas atenuassem a ignorância, não nos absteríamos em refletir sobre determinadas ações por serem provenientes de realidades menos favoráveis economicamente e desprovidas da educação, que por sua vez lhes proporcionariam a noção devida de civilidade e do que é realmente necessário para tornar suas vidas melhores, mas, discorreríamos sobre tais ações nos baseando no caráter individual de cada cidadão. E isso, em minha opinião, é mais evoluído.


Tito Oliveira.




compartilhe

comentários feed

+ comentar
Nic NIlson
 

Ola, Tito, Muito legal sua materia. Porem, tenho um que: pq vcs dizem somente Daniela e Walter? Olha o roteiro tbm é de Braulio Mantovani, ok? Mas mesmo assim, Bravo!

Nic NIlson · Campinas, SP 11/9/2008 18:14
sua opinião: subir
taloverde
 

Opa! Tens razão, Nilson. Não me dei conta disso. Peço descupas aos demais responsáveis pela produção do Filme.

Grato.

taloverde · São Paulo, SP 11/9/2008 20:33
sua opinião: subir
Eloy Santos
 

Achei correta a observação do Hic Nilson e gostei muito de sua resposta a ele, taloverde. De resto, também gostei do que você escreveu sobre o filme. Abraço

Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ 12/9/2008 14:07
sua opinião: subir
taloverde
 

Grato, Eloy.

taloverde · São Paulo, SP 12/9/2008 14:16
sua opinião: subir
JACK CORREIA
 

'Linha de Passe'... vou assistir para tirar minhas conclusões, no mais, acho que o cinema brasileiro melhorou muito nos últimos anos. Prefiro ir ao cinema para ver uma boa produção brasileira que não deixa a desejar. Bela matéria. Abraços.

JACK CORREIA · Crato, CE 12/9/2008 16:23
sua opinião: subir
taloverde
 

Grato, Jack.

taloverde · São Paulo, SP 12/9/2008 16:35
sua opinião: subir
Pablo Oruê
 

Nossa muito boa a matéria.
Desde os princípios estéticos até as questões filosóficas e sociais tratada na trama do filme.
Parabéns a todos.

Pablo Oruê · São Paulo, SP 13/9/2008 13:37
sua opinião: subir
taloverde
 

Grato, Pablo.

taloverde · São Paulo, SP 13/9/2008 15:06
sua opinião: subir
M H Rolim
 

Para quem se diz pessimista, um texto que reconhece que algo pode ser feito para melhorar o que pode ser melhorado já é um avanço. Parabéns.

M H Rolim · São Paulo, SP 14/9/2008 00:32
sua opinião: subir
taloverde
 

Isso ainda não me faz otimista, meu caro. Apenas me coloquei a favor da relevância. Mas, é preciso proliferar a mesma. Pois um ponto preto no meio de uma grande tela branca não se concebe uma pintura expressionista.

taloverde · São Paulo, SP 14/9/2008 02:56
sua opinião: subir
dudavalle
 

Você assistiu esse documentário do João Moreira Salles ?
http://www.lovefilm.com/product/61688-Futebol.html

Ainda não assisti Linha de Passe mas a outra parceria entre Daniela Thomas e Walter Salles foi muito boa.
http://www.adorocinemabrasileiro.com.br/filmes/terra-estrangeira/terra-estrangeira.asp

dudavalle · Rio de Janeiro, RJ 16/9/2008 14:48
sua opinião: subir
taloverde
 

Não, caro Dudavalle. Não vi esse documentário do João Moreira Salles. Mas vi o Entreatos, que por sinal achei razoável.

Acesse esse link http://cinefilos.interativo.org/, pois a publicação original e mais algumas, de minha autoria, estão nesse site. Penso que você irá gostar.

Abs.

taloverde · São Paulo, SP 16/9/2008 21:27
sua opinião: subir
touché
 

demorei prá comentar...não tinha visto o filme e gostei.achei muito relevante o que vc escreveu...muito boa critica..embora exista há muitos anos,parece que agora o cinema brasileiro encontrou o seu caminho prá chegar até o povo...pena que tenhamos problema com distribuição...

touché · Guarulhos, SP 7/11/2008 22:30
sua opinião: subir
Inês Nin
 

Não vi o filme, Tito (queria ter visto), mas uma coisa que não deixa de estar presente, desde a premissa, é essa questão da necessidade de retratar a realidade brasileira. O que eu diria que é, por várias razões, ligada a valores e maneiras de pensar predominantes pelo país, e que eu acho que permanece um cliché mesmo assim, abordada de outra forma. Por que a realidade, por que o cinema sempre como denúncia e por que não fazer filmes sobre países imaginários ou estórias sobre qualquer outra coisa?

Inês Nin · Rio de Janeiro, RJ 24/12/2008 12:50
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados