O movimento cooperativista musical é uma filosofia que surgiu da prática e reflexão a partir do ativismo dos autoprodutores no sistema contra-industrial.
As cooperativas de música dilatam o conceito de cooperativismo não só no campo da sustentabilidade e dos novos modelos de negócio, mas também, e principalmente, nas esferas da economia criativa, da comunicação em rede e da representatividade coletiva. Mais do que isso, deslocam o foco da produção para a criação, mudando o perfil clássico do cooperativismo baseado nas cooperativas de trabalho para as cooperativas de criação, estendendo os princípios do cooperativismo para um sentindo amplo de cultura.
Isso porque células criativas da música se apropriaram dos ideais do cooperativismo e o adequaram às suas necessidades e desejos, assim como às novas demandas, vislumbres e possibilidades da tecnologia.
A música é um dos setores da indústria que mais sofreu o impacto das novas tecnologias e seus criadores foram dos primeiros a apresentar alternativas viáveis para a conversão do aparato tecnológico em ferramenta ativa na revolução de costumes, usos e hábitos pelos quais passamos. Vírus transformador ao invés de panacéia futurista, a apropriação das tecnologias inovadoras assumiu um caráter subversivo capaz de desestabilizar conceitos enraizados no modo de produção, consumo e fruição de cultura herdados da revolução industrial, do fordismo, do copyright e do próprio conceito iluminista de criação. Diante de um monolito de dúvidas a única certeza possível é a experimentação, a busca de alternativas inusitadas, emboram muitas vezes simples e rarefeitas como nuvens.
Nesse contexto de transformações estruturais é natural a renovação conceitual. Contra industria surge como um meme pós-industrial num momento de esgarçamento de conceitos como independente, indie, alternativo, marginal.
O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O autoprodutor portanto é o operário da contra-indústria que encontrou no cooperativismo a força coletiva para instaurar uma nova realidade. A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras.
O cooperativismo encontra nessa contra-indústria um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, e essa contradição perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.
Nada como uma crise para alimentar a imaginação, aproximar opostos em busca de saídas comuns e alimentar a colônia para que seja possível proliferar o germe da solidariedade. Um dos germes são os Bancos de Serviços, com código genético herdado dos Bancos de Horas e utilizando a unidade hora/aula - princípio pedagógico-social - fomentando a troca de serviços, saberes e experiências e buscando a auto-sustentabilidade para as atividades promovidas pelos cooperados.
Além de viabilizar uma forma inovadora e pioneira de gestão coletiva das carreiras baseada na economia solidária e no comércio justo e auto-sustentável, as cooperativas de música ocupam uma lacuna gigantesca na organização e representação política do setor musical, utilizando elementos da democracia experimental, do cyberativismo e da comunicação em redes para mobilizar o setor e estabelecer interlocução com governos e instituições.
Subvertendo o pragmatismo mercantilista que reduziu empresas jurídicas a emissores de nota fiscal, alimentando um mercado paralelo na sombra da legalidade, as cooperativas de música elevam também a outro patamar a discussão acerca de questões trabalhistas e previdenciárias, no âmbito da regulamentação profissional e dos encargos tributários bem como as questões educacionais, valorizando a troca de informação desierarquizada e o reconhecimento de saberes intuitivos.
O grande desafio das cooperativas de música agora é integrar todos os estados numa rede rizomática capaz de dar vazão a essa produção latente, criando circuitos para o fluxo de artistas, pesquisadores, técnicos, pensadores, jornalistas e produtos. Essa plataforma aponta para a consolidação de uma grande malha formada por todas as cooperativas de cultura, dando outra dimensão para o cooperativismo e inaugurando um novo momento no modo de fazer e consumir cultura no país.
Makely Ka é compositor e presidente da COMUM
Muito pertinente o texto e olhar que você traz.
Estêvão Moura · Recife, PE 16/9/2011 08:16Confesso que quando li/ouvi pela primeira vez o conceito "contra-indústria" torci o nariz. Mas vejo em seu texto o amadurecimento e a pertinência de tal ideia no horizonte da produção cultural de hoje. Novas formas de produção requerem novas terminologias e etcs. Parabéns.
Anizio Vianna · Nova Lima, MG 16/9/2011 08:44Com a evolução das técnicas e o baratemanento de equipamentos de produção e de edição seja de som e imagens, o cidadão comum ganhou maior autonomia para criar e buscar novas alternativas. Gostei da parte "faça-você-mesmo". Parabéns pelo texto
Rodolfo Mondoni · São Paulo, SP 16/9/2011 18:16Como uma cooperativa participaria de um EDITAL...como Pessoa Jurídica ou como Pessoa Física ?
Estêvão Moura · Recife, PE 20/9/2011 17:52Se a cooperativa se difere de um modelo de negócio "convencional" justamente no quesito CRIAÇÃO ( e não trabalho) , talvez essa mesma postura pudesse ser tomada como um desafio para os modelos de Gestão mais tradicionais sem necessariamente ganhar a alcunha de "cooperativa de criação"...É só um comentário para abrir um debate por aqui.Abraços.
Estêvão Moura · Recife, PE 20/9/2011 17:53
Grato a todos pelos comentários! Eu não recebi a atualização de comentário deste artigo e por isso só estou retornando hoje quando passei para rever alguns artigos.
Estevão, a cooperativa entra nos editais como pessoal jurídica em nome dos seus cooperados, ou se quiser, os cooperados entram nos editais como pessoa jurídica através da cooperativa. Com relação ao modelo de negócio, na verdade todas as cooperativas de música estão registradas no ramo do trabalho porque não existe o ramo da cultura dentro das categorias do cooperativismo. Essa inclusive é uma reivindicação nossa. Eu insisto na cooperativa de criação justamente porque cada vez menos o nosso produto é algo palpável. Quer dizer, uma cooperativa de música não é necessariamente uma produtora e distribuidora de CDs e DVDs. Nosso escopo é muito mais amplo. Então, ao contrário de uma cooperativa de produtores de leite por exemplo, que tem um produto muito bem definido e um mercado regular e consolidado, nós atuamos como cooperativa de trabalho por uma determinação legal, mas temos algumas peculiaridades que nos distinguem das cooperativas de trabalho propriamente ditas, o que implica numa tributação muitas vezes injusta.
A propósito, iniciamos um diálogo com alguns agentes que atuam na cena pernambucana e houve interesse na criação de uma cooperativa em Pernambuco. Se tiver interesse posso colocá-lo em contato com esse pessoal.
Abraços
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