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Copa na Mussuca: torcida à brasileira

Foto: Márcio Garcez
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Marcelo Rangel · Aracaju, SE
20/6/2006 · 78 · 4
 

O Brasil vive momentos de agitação quando chega a Copa do Mundo. Embalada pela tão versada paixão nacional, a população muda de ritmo, impulsionada também pela pesada mídia promocional em torno do tema, um verdadeiro bombardeio de prêmios e vantagens especiais.

Em Aracaju, não é diferente. Nas bandeirinhas que decoram ruas, casas, bares e lojas, tradicionais nesta época de festejos juninos, predominam o verde e o amarelo. O Forró Caju e a Vila do Forró, mega-arraiás promovidos respectivamente pela prefeitura e pelo governo do estado, também engrossam o caldo da torcida canarinho. Nos momentos que antecedem à primeira partida da seleção brasileira, o papo é um só: onde assistir ao jogo?

Declinando todos os convites e intimações de amigos, parti para o município de Laranjeiras, cidade sergipana situada a apenas 19 km da capital do estado famosa pelas suas manifestações folclóricas, para testemunhar a estréia da seleção na comunidade do povoado Mussuca, que recebeu em abril a certificação como comunidade remanescente de quilombo da Fundação Cultural Palmares. Meu guia foi o fotógrafo Márcio Garcez, um profissional que documenta a cultura popular sergipana desde o final dos anos 90 e que elegeu o grupo folclórico de São Gonçalo do Amarante da comunidade como um de seus objetos de pesquisa visual. A dança do São Gonçalo é um folguedo popular de raízes ibéricas realizado em diferentes regiões do Brasil, mas que ocorre em Sergipe com características bem distintas, com traços notadamente africanos.

Quando o convidei para assistir à partida entre Brasil e Croácia na Mussuca, Márcio aceitou no ato. Criou laços de afeto com os líderes do grupo e seria uma boa oportunidade de rever os amigos; por isso até comprou vinho e cerveja para presentear Seu Sales e Seu Eupídio, as maiores autoridades do São Gonçalo. No caminho, os telefones tocam insistentemente para mais convites: a hora do jogo se aproxima e todos se aquecem para a peleja. Mas nosso destino não se modifica. Nossa idéia foi documentar a movimentação daquela comunidade em torno da estréia do time brasileiro, refletir sobre este evento e também produzir um ensaio fotográfico a ser disponibilizado no Banco de Cultura do Overmundo.

Tradição

Apesar de já conhecer comunidades étnicas em áreas urbanas, como a aldeia Kariri-Xocó de Porto Real do Colégio, em Alagoas, eu mesmo tinha a expectativa de viver uma experiência exótica. Conhecia o ritmo, a cadência e as fitas coloridas da dança vibrante executada por homens negros de calças compridas cobertas com saiotes, mas nunca havia estado ali na terra onde vivem os descendentes de escravos refugiados em busca de proteção contra os maus tratos dos donos da terra a partir do século 18. No entanto, exceto pelos traços e tom de pele de seus moradores, a localidade em si não tem uma característica dominante visível, um elemento visual que a diferencie de vilarejos de igual porte.

A casa do mestre do São Gonçalo, Seu Sales, 65, é nossa primeira parada na Mussuca antes do jogo. Situada bem no início da estrada que leva ao núcleo central do povoado, é uma construção simples, como tantas outras no interior do Brasil. Seu Sales e sua família já estão preparados para o jogo, devidamente vestidos com as tradicionais cores da bandeira brasileira. A TV já está ligada. Como optamos por não avisar a comunidade sobre nossa visita para não nos depararmos com uma festa “pra inglês ver”, fomos recebidos com surpresa. O bar de seu filho Reginaldo nos foi indicado como o melhor campo para nossa tarefa. Antes de nos instalarmos por lá, fizemos uma visita a Seu Eupídio, um ancião de 85 anos que na hierarquia do grupo São Gonçalo é considerado o chefe maior.

Reconhecimento

A Mussuca foi recentemente reconhecida como área remanescente de quilombo, com direito a ser incluída no programa Brasil Quilombola, que prevê uma série de projetos como regularização fundiária, infra-estrutura e serviços, desenvolvimento econômico e social e controle e participação social. Pergunto se eles já receberam algum contato sobre estes projetos. “Se tem alguma coisa foi pra associação, a gente mesmo não viu nada até agora não, mas a gente sabe que se tiver alguma coisa, todo mundo tem que assinar”, respondem-me, sem demonstrar muita preocupação com o tema e, aparentemente, sem muito valorizar a nova condição da comunidade.

“Estamos precisando de uma caixa [instrumento de percussão] para o São Gonçalo Mirim, vocês não conseguem pra gente?”, demanda seu Sales. O que dizer nessa hora? Garantimos aos dois que iríamos saber quanto custava o instrumento e que, se necessário, poderíamos angariar dinheiro entre os amigos para a sua aquisição. Impossível que duas pessoas como nós tivessem outra reação. Tínhamos consciência de que estávamos diante de dois compêndios vivos da tradição oral, tesouros da cultura popular brasileira. E que eles estavam ali nos solicitando apoio para preservar sua história, sua identidade, transmiti-la aos seus descendentes. “É mais de um século de dança, eu aprendi menino, mas a gente tem que ter ajuda pra continuar”, completa seu Eupídio. Sales me garante que crianças e jovens da localidade se interessam pela dança e por outras ali praticadas, como o Samba de Pareia. Mas concorda que a “juventude” aprecia as apresentações de bandas de sucesso do chamado “forró eletrônico” no Encontro Cultural de Laranjeiras, participações que têm sido constantemente criticadas em recentes edições do evento por setores mais engajados na cena cultural e no meio acadêmico. “Não tem jeito, o povo gosta, aí eles [os governos] botam pra tocar, pra divertir o povo”, conforma-se o mestre.

Eis que chega a hora do nosso compromisso patriota. Seu Eupídio prefere permanecer na tranqüilidade de seu lar, mas partimos com Seu Sales e seu neto Henrique para onde assistiríamos à partida. No caminho, muita gente vestida de acordo com a ocasião, mas nada de casas fartamente decoradas ou qualquer sinal de batucada se esquentando para o rolar da bola em campo. Os traços africanos dos moradores saltam aos olhos. É, obviamente, o sinal mais marcante da presença negra na comunidade. Mulheres e homens de porte altivo e sorriso largo, de uma beleza característica. Nos poucos bares que existem no local, mesas começam a se formar sem muito alvoroço. Um bom e velho radinho de pilha passa colado a um ouvido atento. De resto, crianças e suas mães caminham pelas ruas, conversam em grupos nas portas das casas. A Mussuca não parecia se alterar muito por causa da Copa, a vida seguia seu curso normal, correndo pelas ladeiras e morros naquele recanto de onde se pode vislumbrar Aracaju bem ao longe.

Bola rolando

Bandeirinhas verdes e amarelas adornavam o Bar do Cabecinha. Lá nos deparamos com uma grande mesa já formada. Filhos e parentes de Seu Sales e alguns amigos preparavam-se para degustar uma galinha de capoeira encomendada especialmente para a ocasião. O sorteio do bolão já havia acontecido. Dez reais para aquele que tirasse o nome do autor do primeiro gol do Brasil. No entanto, mesmo com tantos integrantes de um grupo de dança popular ali presentes, nem um chocalho. O ambiente foi se animando, e o papo também, quando a bola começou a rolar, no movimento típico de uma partida assistida entre amigos, como em qualquer esquina do Brasil naquele momento: comentários técnicos e táticos, piadas sobre o peso de Ronaldinho, mudanças necessárias no time. “Tem que colocar o Robinho!”

Quando Kaká faz o primeiro (e único) gol do Brasil, a alegria, como não poderia deixar de ser, é geral. Para manter a tradição junina nordestina, soltamos uma bomba que o fotógrafo havia levado. Ouvimos uma resposta de fogos de artifício ali por perto, muito tímida. No segundo tempo, as críticas ao desempenho do time eram uma prévia dos comentários de especialistas de programas esportivos. A insatisfação diminui um pouco com a entrada de Robinho, mas quando a cerveja desce e depois sobe para a cabeça, seguem-se discussões acaloradas de avaliação do desempenho da seleção, opiniões contundentes são disparadas, do outro lado da mesa alguém se lembra de uma piada. Até que as mulheres reclamam que querem prestar atenção no jogo. A propósito, a presença feminina já domina o ambiente. São as torcedoras mais animadas, imitando os “ahs” e “ohs” de um comercial. Não resisto e reproduzo aqui um pensamento corrente, quase clichê: em Copa do Mundo até as mulheres se interessam por futebol. São as que mais se produzem para assistir ao jogo, com camisas, lenços, pulseiras e outros acessórios. Talvez até este seja um dos motivos pelos quais a Copa no Brasil é um evento tão alegre, com ambientes e situações essencialmente masculinos sendo tomados por torcedoras fervorosas.

Impressões

Após o final da peleja, é hora da partida para Aracaju. Na despedida, Seu Sales nos relembra da caixa para o São Gonçalo mirim. Confirmamos nosso engajamento e voltamos para casa revoltados com o fato de que altos cachês são pagos a determinados artistas e bandas para que animem festas popularescas e eleitoreiras, enquanto estes pequenos, e valorosos, construtores da cultura popular têm de pedir ajuda para adquirir um simples instrumento de percussão. Refletindo sobre o momento que acabávamos de presenciar ali na Mussuca, chegamos à conclusão que a experiência de assistir a um jogo do Brasil em Copa do Mundo parecia ser a mesma de todos os cantos do país. A impressão que tivemos foi que teríamos vivenciado a mesma sensação em qualquer um dos encontros de amigos para o qual havíamos sido convocados, muito provavelmente com os mesmos comentários e brincadeiras, como nos mais diversos pontos do Brasil onde houver um grupo de brasileiros diante de um aparelho de TV sintonizado numa partida do campeonato mundial de futebol em que a seleção brasileira está jogando.

Na comunidade remanescente de quilombo da cidade de Laranjeiras, interior de Sergipe, também se partilha desse sentimento de ser parte da sociedade nacional proporcionado pelo futebol. Mesmo que por lá eles ainda não tenham usufruído das vantagens relacionadas à situação diferenciada a que têm direito enquanto grupo étnico e que permaneçam sendo negligenciados pelo poder público pela falta de apoio cultural e de atendimento de outras necessidades básicas, unem-se ao restante do Brasil em costumes, interpretações e manifestações de alegria diante dos canarinhos guerreiros, esse exército de chuteiras que alimenta nosso sentimento de brasilidade.

*** "O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A idéia é relatar a diversidade de manifestações que ocorrem em torno da Copa do Mundo pelo país afora. A proposta é contar como foi a estréia do Brasil no torneio em diferentes locais. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo."

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Dramarc
 

Em termos de informações e descrição está esplêndido. No entanto, penso que a crítica com relação a essa "falta de apoio" é provida de um benevolência e tratamento diferenciado com relação ao papel ativo que os habitantes de Mussuca possuem em não valorizar e lutar pela sua cultura, ou em efetivamente irm em direção a um cultura fora do âmbito da "cultura de massa'.

O fato de o governo dar milhões pro showzão e não dar um tambor pro grupo tradiconal é tão critcável quanto fato do próprio grupo de submeter a essa condição mendicante com relação a um poder público que historicamente lhe prestrou deserviço e funciona para uma lógica cultural que privelegia a modernidade.

As relações de poder que são firmes no poder publico só poderão ser efetivamente modificadas quando o povo afirmar outra lógica cultural alternativa. Se não, o que vai continuar se firmando é essa coisa do "pra inglês ver" e folclorização da cultura tradicional, que perdendo sua relação orgânica com a vida e valores cotianos, torna-se tão morta quanto as peças de museus.

Dramarc · Fortaleza, CE 18/6/2006 10:21
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Marcelo Rangel
 

Excelente comentário, cheguei mesmo a pensar se, por conta do episódio da caixa e dos comentários após o jogo, não estaria sendo paternalista e "bom samaritano" demais, mas foi como aconteceu, decidi preservar no texto. Já as relações de clientelismo e dominação dominam todo o interior do Nordeste, infelizmente é assim que várias comunidades se relacionam com o poder público. Na Mussuca, não é diferente. Também preocupa-me essa folclorização, mas notei que as tradições da Mussuca (ou seus resquícios) são preservadas pois determinados ritos relacionados à vida são conservados. Seu Eupídio e Seu Sales, por exemplo, comentavam que, devido às chuvas, havia uma fila de 8 pagamentos de promessa, ocasião em que a dança e todo o ritual do São Gonçalo são realizados. Enquanto houver promessa, a dança será executada para marcar os acontecimentos da vida dos integrantes da própria comunidade.

Marcelo Rangel · Aracaju, SE 19/6/2006 02:24
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Kadydja Albuquerque
 

Rangel, muito bom esse seu texto. Fiquei com uma vontaade de ir na Mussuca. Não acredito que você tenha sido paternalista. Foi uma leitura sua diante de uma realidade tão diferente da nossa e muito mais ainda dos integrantes de bandas de forró eletrônico.

Acredito que o poder público deve ser cobrado sim porque ministérios e secretarias da Cultura existem neste país para fomentar as nossas manifestações populares e não deixar que eles fiquem pedindo caixa de percussão para os visitantes.

Acredito também que o fato de conseguirem sobreviver à essa exclusão vivenciada por eles e por todos ou outros grupos folclóricos alijados do circuito das grandes festas e das vitrines culturais, já faz parte de uma lógica cultural alternativa (apenas citando um termo do comentário de Dramarc). Mas uma lógica imposta a eles.

Kadydja Albuquerque · Aracaju, SE 22/6/2006 10:22
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Dramarc
 

Como pode ser uma lógica alternativa, se é imposta? Sendo imposta, quem a impõe? O status quo, os historicos setores dominantes do Estado brasileiro? Se for, então o que há de alternativo no que é imposto pelo domiante? Corriga-me se eu estiver enganado, mas o alternativo é a afirmação de algo fora do âmbito do que é imposto. Nesse sentido, é evidente que as manifestações da tradição que algumas pessoas dessa comunidade insiste em continuar é parte sim de uma lógica cultural alternativa, mas uma lógica que é avaliada pelos seus herdeiros de forma cabisbaixa, que perde espaço às relações e manfiestações do mainstream, da indústria cultural e seus artifícios. Um lógica que se enfraquece a partir do momento que sua manutenção depende daqueles que não a vivem organicamente, no cotidiano, que sendo assim, só podem a sustentar com olhar tomado pelo exótico que tais manifestações adiquirem a partir de uma valorização folclorizante.

Dramarc · Fortaleza, CE 24/6/2006 20:14
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