Texto: Luiza Delamare e Giselle Godoi
Com uma arara repleta de exuberantes roupas vermelhas, além do sofá com estampa de oncinha, a sala do apartamento de Walério Araújo contrasta com o cinza dos 400 quilos de concreto por metro cúbico que formam o edifÃcio Copan, localizado no centro de São Paulo.
Particularidades como o apartamento do estilista pernambucano de 35 anos podem ser encontradas antes mesmo que se suba no edifÃcio. Já na galeria, em frente ao tradicional Café Floresta, que acompanha boa parte da história do Copan, todas as noites um grupo de moradores se reúne para conversar e relembrar histórias e lendas do edifÃcio. Um dos moradores do bloco F, Gaspar de Castro, conhecido como Copan News, costuma contar a história de uma moradora do bloco E, que, depois de dizer que Nossa Senhora tinha aparecido em seu apartamento, passou a sair pelos corredores e pela galeria vestida de branco com um megafone, espalhando o fato e pregando a palavra de Deus. São comuns também histórias de brigas em que eletrodomésticos são atirados pelas janelas do edifÃcio. “Já vi fogão, geladeira e até botijão de gás caindo. Ainda bem que ninguém se machucou com isso’’, conta Gaspar.
Outra história bem conhecida do Copan é contada pelo sÃndico, Affonso Celso Prazeres de Oliveira. Ele diz que um fantasma ronda a casa de máquinas do edifÃcio e faz a bomba de água funcionar à s três ou quatro da madrugada. “Esse mesmo fantasma costuma me visitar também na administração. Todo dia, no fim do expediente, ele passa e dá tchauzinho’’, diz Afonso.
No edifÃcio há aproximadamente 5 mil moradores e circulam no local em torno de 6.500 pessoas por dia. A diversidade não se restringe à s histórias narradas, elas estão presentes na diferente identidade das pessoas que compõem o Copan. Às vezes o elevador desce com drag queen, gay, senhora de idade, criança... E não há nenhum problema’’, revela João Signhoini, que mora no bloco B há um ano. Essas diferenças alcançam as classes sociais, como ressalta o sÃndico: “Aqui tem de analfabeto a PHD. Na nossa garagem você encontra de mercedes a fuscaâ€. Isso se explica porque o tamanho dos apartamentos muda conforme o bloco, que varia de 29 mÂ2 (nesse caso, são 20 apartamentos por andar) a 214 m2 .
Os moradores dos andares mais altos, onde nenhum prédio atrapalha a bela imagem, conseguem ver São Paulo como em poucos pontos da cidade. Às vezes, eles são surpreendidos por morcegos em seus apartamentos, ou até mesmo por urubus, que pousam na janela. “Quando isso acontece, eu chamo o porteiro, que já está acostumado a essa coisa de espantar morcegos e outros bichos que aparecem por aquiâ€, conta Marcelo Adriano Amarro, que mora no 28° andar do bloco B. Os prédios ficam pequeninos lá de cima, e isso liberta a imaginação. “É como se de minha janela eu pudesse ver o futuro e imaginá-lo como no desenho dos Jetsons: a cidade lá em baixo e os carros voando bem em frente ao meu apartamento. Talvez até enfrentando certo trânsito aqui em cimaâ€, diz Marcelo Adriano ao se deslumbrar com a vista de seu apartamento.
Se de cima o cenário permite que a imaginação remeta ao futuro; de baixo, do exterior do prédio, o passado pode ser relembrado. O nova-iorquino Kevin, que mora no Copan há apenas seis meses, diz que o edifÃcio lembra a época de sua infância, década de 60, quando eram predominantes o otimismo e o sonho de manter uma comunidade que vivesse em harmonia numa única estrutura. Algo que, arquitetonicamente, ele identifica com o edifÃcio Copan.
Hoje, o edifÃcio tem normas de conduta rÃgidas. São as chamadas Leis do Copan, que apresentam algumas curiosidades, como proibir a limpeza das janelas do lado de fora. Mesmo assim, não faltam elogios. “Hoje o Copan é um edifÃcio padrãoâ€, diz Willian Cardoso Espósito, porteiro do bloco B. A liberdade de antes dava espaço aos pontos-de-venda de drogas. Havia também casos de garotas de programas que traziam o seu trabalho para dentro do edifÃcio. Mas tudo isso mudou com a entrada do atual sÃndico e a eficácia de suas regras. A mudança já está tão consolidada que os antigos moradores quase não se lembram deste passado do Copan. Carla, 70 anos, que mora no bloco C há 31 anos, ao ser questionada sobre esse passado do edifÃcio, diz que, graças ao sÃndico, tudo está mudado e ele só merece elogios. “Não saio daqui por nada. Minha história está aqui. A única coisa ruim que posso citar é que uma vez fiquei presa no elevador. Não me lembro de mais que não gosteâ€, comenta a moradora.
De qualquer maneira, uma única visita ao edifÃcio basta para encontrar cenas e histórias que permitem que o Copan seja entendido como uma vitrine paulistana. Logo de manhã, o pequeno tumulto das pessoas que estão no hall do bloco B ilustra isso: um rapaz traz em seu ombro um papagaio, um homem de terno e maleta espera o elevador, uma moça com um cachorro conversa com o porteiro, enquanto uma senhora chega da feira com suas compras. Mais uma vez as cores do Copan e suas histórias impregnam o cinza de sua fachada.
Bela matéria sobre o Copan. 6.500 pessoas circulando num edifÃcio diariamente é muita coisa, não? O Brasil deve ter cidades com esse número de habitantes. O Copan seria uma cidade dentro de São Paulo? Acho que renderia muitas histórias mais.
abraços!
Gosto das histórias desses lugares enormes cheios de pessoas. Me lembra alguma coisa de cenário futurÃstico, apesar de serem construções do passado.
Ia ser muito bom mesmo ver mais fotos!
Tem uma bem interessante do Capilé Charbel aqui no Overmundo, chamada copan cabana.
Felipe Obrer · Florianópolis, SC 20/7/2008 04:45
Querida LuÃza:
Por falar em Copancabana o Copan já foi minha praia. Senti falta de mais ilustrações, inclusive do ap do estilista, mas também da cidade vista lá de cima. Vc sabia que a Companhia de Engenharia de Tráfego - CET monitora o trânsito do centro lá do alto? Seja como for, parabéns pela matéria!
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Entao, acrescenta aeh esta história q tenho como provar se quiser: Em 86 eu me mudei p Sp. Entrei no Copan pela manhã e sai à tarde, assim q o sÃndico soube q eu era artista. Me chamou e disse: vc é travestÃ? Não senhor. Entao fora, q únicos artistas q ganham dinheiro aqui são os travestis. Vc nao vai pagar. e Colocou todas as minhas sacolas na rua.
Nic NIlson · Campinas, SP 20/7/2008 18:43
Luiza,
Ótimo texto.
Ab,
Sinuoso Copan.
Sinuosas vidas.
Tive alguns amigos morando lá.
Quando eu morava em Sampa.
Reflete a cidade.
Parabéns pelo texto. Está muito bom.
um abraço
Oportuna, merecida e bem feita referên cia - Luiza,
adorei o retrato, uma isométrica e tanta
abraço
an dre.
a vista de sampa do copan é mesmo incrÃvel e o prédio é uma sÃntese da cidade
Evandro Bonfim · Rio de Janeiro, RJ 21/7/2008 18:50
Olá Luiza, Como vai?
Seu texto me deliciou do inÃcio ao fim.
Me interesso muito por histórias de edifÃcios famosos. Há alguns documentários interessantes tais como o "EdifÃcio Master" do Eduardo Coutinho, mas enfim...
Percebo que o desenho do COPAN se assemelha espantosamente com outro edifÃcio projetado por Oscar Niemeyer em Belo Horizonte. Talvez já conheçam, pos trata-se de um famoso sÃmbolo da capital mineira, situado na Praça da Liberdade e que leva popularmente o nome de seu criador.
Segue uma fotografia que encontrei, onde poderá vislumbrar o que estou dizendo:
www.flickr.com/photos/viniciusaugusto/764085168/
Fato ainda mais curioso, foi o de enxergar através histórias do COPAN, que o mesmo perfil de moradia e moradores pode ser encontrado em Belo Horizonte, também numa construção de Niemeyer, denominada "Conjunto JK" (são dois prédios) que por sua vez tem um desenho bastante parecido com o prédio da ONU em Nova Iorque (naturalmente mais bem acabado) e também de sua autoria.
Sempre tive a impressão de que a obra de Oscar se confunde com o criador, tornando-se mais do que sÃmbolo, um verdadeiro Ãcone de sua criação. Seu texto me despertou para as semelhanças de projeto e até mesmo de histórias acontecidas em locais tão distintos. Voltarei por aqui mais vezes. Um abraço!
muito bom pegar a vida no prédio por essas "lendas", luÃza. fiz umas fotos do alto do prédio no ano passado e coloquei neste blog do sesc (http://mostrasesc.wordpress.com/2007/12/01/audiotour-ultimo-dia). é um lugar que vale a pena dar um pulo, mesmo.
Jefferson Alves de Lima · São Paulo, SP 21/7/2008 19:24Gostei muito da sua matéria Luiza, Parabens!
Karine Pegoraro · Campo Grande, MS 21/7/2008 21:13
Ah, o Copan ainda vou morar nesse prédio!
Parabéns Luiza
Já morei lá, pouco tempo, mas morei. Acho importante dizer que é um projeto do Oscar Niemeyer? sei lá acho que é. Lindo Edificio, cara de sampa.
Pedro Rivero · Bélgica , WW 22/7/2008 07:26
Excelente matéria, senti falta apenas, de mais algumas fotografias. Por que não faz algumas e posta no banco de cultura???
Um abraço.
Que ótimo! Fiquei com vontade de conhecer o prédio, tal como a vontade que senti vento o ed. master.
Parabéns.
Ai muito legal a materia, vi uma materia sobre o edificio ontem naquele programa do Otavio Mesquita, sou graduando em teatro no estado de Goiás e pretendo mudar pra Sampa, dai resolvi fazer algumas pesquisas sobre o edificio, espero conhece-lo e morar nele quem sabe. Muito interessante!
CaetanoCaio · Goiânia, GO 27/12/2008 16:11Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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