Coquetel Molotov põe fogo no jornalismo musical

1
ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ
8/12/2007 · 192 · 4
 

Coquetel Molotov não é somente um artefato de guerrilha urbana. É também o nome de uma das melhores revistas de música no Brasil. Na verdade, a coisa é ainda mais complexa: a revista é a vertente impressa de um projeto que inclui também um programa de rádio, a organização de festivais com bandas internacionais (Teenage Fanclub, Dungen e outras) e dois selos de música (Bazuka e o próprio Coquetel Molotov). Mais bacana ainda é saber que tudo isso acontece no Recife, graças ao trabalho de gente como Ana Garcia, que figura abaixo em entrevista revelando um pouco mais sobre o projeto.

A segunda edição (na verdade o número 1, pois antes só tinha saído o número 0) da revista acaba de ser lançada. Possui uma das programações visuais mais originais e bonitas dos impressos culturais brasileiros (feita pela Mooz), foi licenciada através do Creative Commons. Isso significa que qualquer pessoa pode republicar as matérias, desde que seja para fins não comerciais. E vale a pena: esta segunda edição traz na capa o Cidadão Instigado, novo queridinho da música nova brasileira. Traz também matéria com o Architecture in Helsinki (apontada como promessa para 2006), M. Takara, The Silvias (da Paraíba), além de entrevistas exclusivas com o Wry (banda de Sorocaba, radicada em Londres), Almir de Oliveira e o ícone da eletrônica indie Kevin Blechdom. Por fim, há uma imperdível descrição em quadrinhos da passagem pelo Brasil do grupo sueco Dungen, feita pelo próprio baixista da banda (Mattias Gustavsson).

O site da Coquetel Molotov pode ser acessado aqui.

Já falei demais. Com a palavra, Ana Garcia:

Como surgiu o Coquetel Molotov?


O Coquetel Molotov surgiu em 2000 como um programa de rádio na Universitária AM. Nessa época, era uma brincadeira nossa que amávamos muito. O programa acontecia duas vezes por semana e chegamos a entrevistar vários artistas locais e de fora por telefone. Mas fomos expulsos da rádio sem um motivo aparente - chegamos ao local e disseram que era o nosso último dia. Até hoje eu não entendo direito o que aconteceu. Mas, acho que isso foi um passo essencial para o nosso futuro. Decidimos continuar com o programa, fomos para uma outra rádio e desenvolvemos outras idéias. Logo surgiram o site e o festival No Ar Coquetel Molotov. Conseguimos fazer o nosso primeiro festival com os meninos maravilhosos da Slag Records e trouxemos pela primeira vez ao Brasil o grupo escocês Teenage Fanclub e o sueco Hell on Wheels. A experiência foi maravilhosa e inesquecível. Hoje, estamos na Universitária FM, 99.9, mas não sei até quando porque não conseguimos um apoio, temos um podcast, montamos dois selos (Coquetel Molotov e Bazuka Discos), criamos uma revista, colocamos um novo site no ar e temos também o festival Coquetel Molotov Independente, além do No Ar que terá a sua terceira edição em agosto.

O fato de estar em Recife dá uma visão privilegiada para a Revista?


Eu acho que o fato de estar em Recife pode ajudar na hora de pedir apoio ao governo do Estado ou à Prefeitura Municipal. Por exemplo, aqui a SEDUC (Secretaria de Educação e Cultura), através do Chefe de Gabinete Rodrigo Barros, dá um apoio enorme, algo que provavelmente não teríamos no Sul. A revista só foi financeiramente viável por causa do governo. Mas ao mesmo tempo, no Sul deve ser mais fácil conseguir um apoio de empresas privadas. Nesse ponto de vista, sim, é um privilégio ser de Recife. Mas eu acho que isso também é fruto do trabalho que estamos fazendo há cinco anos.

Se for pensar no respaldo da revista em si, eu acredito que possa ajudar, mas tem um limite. Não é mais novidade que Recife está fervendo e tem muita coisa acontecendo, como nas grandes capitais do país. O interesse em obter uma cópia da revista vem de todas as cidades, praticamente. O mais engraçado é que grande parte das pessoas que não moram em Recife conhece o Coquetel Molotov apenas pelo site, às vezes nem sabem que somos daqui, mas fica interessado pelos artistas que estamos escrevendo a respeito.

A revista é focada em musica interessante de todo o mundo. Como a revista está vendo e quer ver a musica brasileira de hoje?


Eu acho que o primeiro editorial da nossa revista responde isso um pouco. Primeiro, é essencial dizer que o Coquetel Molotov tem quatro pessoas que escutam música de uma forma completamente diferente e também dependemos de muitos colaboradores que normalmente escrevem sobre o que querem, sem ser dada uma pauta. Olhamos para a música brasileira da mesma forma que olhamos para a música estrangeira - queremos sentir algo com ela.

Obviamente que procuramos escrever sobre artistas que deveriam ter mais espaço na mídia, mas isso não é regra... Queremos passar o que sentimos quando escutamos um artista específico e normalmente temos interesse de passar os bons sentimentos, deixamos as bandas ruins para outras pessoas escreverem a respeito. Por exemplo, achei o disco novo do Cidadão Instigado inacreditável e eu tinha que colocá-lo na capa. Quero que todo mundo conheça esse artista. Essa é a forma que vemos a música em geral. Acho que tem coisas inacreditáveis acontecendo no Brasil, desde 3 ET's Records a Erasto Vasconcelos a Totonho e os Cabras a Tecnoshow. Só precisamos de espaço para escrever sobre todos.

A revista foi licenciada em Creative Commons, tal qual o Overmundo. O que levou a isso?

Depois de cinco palestras com Ronaldo Lemos sobre o Creative Commons, chegamos à conclusão de que esse era o caminho para a revista. Algumas pessoas ficam com medo do CC por não entenderem direito do que se trata, mas muitos artistas recifenses e de Olinda adotaram a licença, o que fica mais natural ainda para o CM adotar. Também achamos que facilita a publicação das nossas matérias em outros veículos, o que é muito importante para todos dentro desse projeto, as especificações estão todas lá - http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/br. O melhor de tudo foi perceber a reação dos colaboradores, todos, inclusive os estrangeiros, concordaram e acharam a idéia genial.

Planos para o futuro?

Lançamos recentemente [as bandas] Rádio de Outono (Coquetel Molotov) e Chambaril (Bazuka Discos), então, estaremos trabalhando em cima deles. O Coquetel Molotov Independente 3 será no final de janeiro, 28/01, gratuitamente no Pátio de São Pedro, em Recife. Em fevereiro sai O Troco, o disco da Profiterolis pelo Bazuka Discos. A segunda revista sai em março. A terceira edição do No Ar Coquetel Molotov será em agosto. E durante isso tudo, iremos lançar alguns discos, continuar atualizando o site, fazendo o programa de rádio e organizando diversos eventos menores por aí.

compartilhe

comentários feed

+ comentar
joao xavi
 

99,9% de tudo que é feito de bom no brasil vem de recife:
nação zumbi, mundo livre s/a, china... os caras comandam o baile!

empolgação a parte, já leio a coquetel a um bom tempo e admiro a iniciativa. burn baby, burn!

joao xavi · São João de Meriti, RJ 8/12/2007 12:07
sua opinião: subir
Alê Barreto
 

Ronaldo, faço um pequeno contraponto a fala da Ana, uma provocação para pensarmos. A Ana fala que "(...) no Sul deve ser mais fácil conseguir um apoio de empresas privadas".

Eu trabalho em Porto Alegre e não tenho tanta certeza disso. Aliás, cada vez que viajo para outro lugar (Salvador, Brasília, Goiânia...) as pessoas sempre se referem ao Sul como se aqui trabalhar a cultura que não está necessariamente associado ao entretenimento seja fácil. Aqui temos dificuldades muito similares a qualquer outra capital brasileira.

O interessante na questão é que como o Molotov, que organiza sua produção de conteúdo e ações culturais a partir de quatro pessoas que escutam música de uma forma completamente diferente, no Sul as práticas independentes mais organizadas, com maior visibilidade e até sustentabilidade, são aquelas que possuem a diferenciação como razão de ser e estratégia de ação.

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 10/12/2007 00:41
sua opinião: subir
Felipe Gurgel
 

Ué, essa capa com o Cidadão Instigado já tem um bom tempo, não?!

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 10/12/2007 03:48
sua opinião: subir
Dico da Fonseca
 

Bom, muitas coisas para falar, mas sem uma ordem específica. Primeiro, fiquei muito feliz em perceber que a produção recifense continua a mil pelo Brasil. De fato, embora não ache muito adequado falar em termos quantitativos, tenho visto coisas excelentes saindo desta terrinha que AINDA não conheço. Meu primeiro contato com a revista foi também pela internet, sem saber mesmo a sua origem física. REalmente ela num primeiro momento chamou-me a atenção pelo seu visual: uma estética florida e rosada sem ser piegas nem kitch. A mim agrada muitíssimo esta "estratégia" de ação sustentada pelos 4 integrantes do grupo. Seguir o fluxo do prazer pessoal! Não há razão e estratégia de ação que substitua este tipo de orientação fluida e autêntica! Parabéns pelo texto e parabéns à Coquetel Molotov!

Dico da Fonseca · Porto Alegre, RS 10/12/2007 09:00
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados