Coquetel Molotov transpira moda e atitude

João Z - Coquetel Molotov
Momento psicodélico durante III Festival No Ar Coquetel Molotov, em Recife
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Renata Marques · Natal, RN
13/9/2006 · 158 · 6
 

Por baixo, o mangue; por cima, o asfalto, que atravessa rios e pontes. Pontes que ligam a cidade, que conduzem as pessoas. Um grupo, um duplo, um triplo, um único. A terceira edição do Festival Coquetel Molotov, em Recife, conseguiu reunir no nordeste um grande público em torno de moda, cinema e música internacional, com a facilidade da Internet.

Realizado no teatro da UFPE, a terceira edição do festival Coquetel Molotov ofereceu pluralidade na feira cultural: música com representantes de selos do nordeste e do sudeste (Peligro, Mudernage, Xubba Musik, Fábrica de Estúdios e Amplitude), leitura (Fanzine Lado[R], HQ’s e a revista Giro Cultural) e moda com uma forte tendência retrô - presença marcante de estilistas pernambucanos e suas próprias confecções. (Varal, Tresfulanas, Brechó de Bolinha). Entre as criações, até surgiram contestações científicas (“Não!” ao rebaixamento de plutão) e brincadeiras políticas nas camisetas e adesivos bem humorados (“Vendo meu voto, tratar aqui!”) de um grupo de artistas de Olinda.

Independência e multifuncionalidade

Essa mistura de assuntos, temas e canais deram cor, tom e forma ao festival, que ainda proporcionou rodas de conversas sobre empreendedorismo cultural, Ordem dos Músicos x Liberdade Artística, mídias e, claro, música do Brasil e do mundo.“Acho louváveis essas discussões, no entanto falar empreendedorismo cultural e ordem dos músicos é chover no molhado, não é mais nenhuma novidade. A pauta agora é ‘o que é e o que faz um festival independente?’”, questiona Marcelo Toledo, estudante do curso de História da UFPE.

“Independente de quê? já que estamos aqui pra ouvir bandas fora do circuito comercial, mas pra isso precisamos da colaboração das grandes corporações para viabilizar o evento?!”, completa já deixando a pergunta no ar.

Discussões à parte, a multifuncionalidade do festival estava presente até mesmo nos espaços. A mesma sala de exibição dos curtas-metragens na programação da tarde, à noite vibrava ao som das guitarras distorcidas do genuíno rock brasileiro. Destaque para a banda paulistana Debate: “um rock desgovernado, onde cada idéia faz parte de um grande discurso sonoro”, definem os próprios integrantes.

Música para ver e ouvir

Música no teatro. Um lugar inusitado pra se dançar rock, mas um bom lugar para apreciar os experimentalismos das bandas. Se em alguns shows brasileiros como Móveis Coloniais de Acaju (DF) e as Backing BallCats Barbis Vocal's a brecha entre os assentos era pequena para a euforia do público, as cadeiras foram um bom refugio para ouvir com atenção o beatbox inacreditável do Spleen (França) e a melodia angelical de timbres infantis das duas irmãs Cocorosie (EUA).

Fechando o festival um deleite para olhos e ouvidos: os cinco integrantes da banda instrumental de Chicago, Tortoise – que mais pareciam dez em cima do palco tal a amplitude da música - mostrou a combinação de rock e programações eletrônicas sofisticadas, tudo sincronizado com projeções psicodélicas. Sem dúvida hipnotizante!

Nos dois dias de eventos mais de 16 grupos, entre eles 4 internacionais, se apresentaram nos palcos do Coquetel Molotov. A descentralização da música internacional do eixo Rio-São Paulo é o diferencial do Coquetel, que começa a despontar como um novo pólo do circuito, antenado o Nordeste brasileiro com o que está sendo produzido e ouvido nos palcos undergrounds do mundo. A verdade é que poucos shows internacionais chegam por aqui, e Recife, com o Coquetel Molotov está quebrando essas fronteiras invisíveis e escancarando moda e atitude.

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eduardo ferreira
 

a onda de festivais não pára. não morre na praia. é interessante que as discussões vêm acontecendo com a galera buscando alternativas para consolidar o movimento.

mas, realmente, o termo independente está meio deslocado: afinal é independente de quê? de quem? se a maioria dos festivais são dependentes de verba pública e ainda estamos um pouco longe de vislumbrar um mercado que dê sustentabilidade?

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 13/9/2006 20:31
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Yuno Silva
 

para engrossar o caldo: e o tal termo INDIE? É hype ser indie??

Uns dizem que ser INDIE é conhecer um monte bandas suecas obscuras, outros que para ser INDIE de verdade tem também que saber o nome dos integrantes dessas bandas!!

Yuno Silva · Natal, RN 14/9/2006 03:03
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Pedro Rocha
 

pode crê. Essa discussão da sustentabilidade do que se pretende ser independente é essencial. Estamos aqui em Fortaleza com um edital municipal que pretende financiar projetos autosustentáveis na área de cultura. A gente vai começar a pensar em alguma idéia e quase sempre chega na mesma conclusão: isso é inviável.

Na verdade a gente precisa continuar com esse intercâbio de experiências, pensando nessa questão da sustentabilidade, mas sem esquecermos nossas concepções, porque se não "independente" vira só um gueto do que está fora da indústria massiva. Uma redução simples entre o que é bom versus o que é ruim.

O fomento do Estado é imprescindível nessa questão e pode ser o primeiro passo, já que nessa história de se bancar, você precisa na maioria das vezes do velho "capital"...

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 14/9/2006 10:38
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Renata Marques
 

E as soluções como o 'Cubocard' do Espaço Cubo? Será que já não há uma nova 'moeda', mesmo que estritamente local, já começando a circular dentro desse circuito dito 'independente' ?

Renata Marques · Natal, RN 19/9/2006 01:37
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graveto
 

temos que o lado bom dos festivais indepentes e que geralmente onde eles ocorrem sempre apresentam propostas que tem o caráter de propagar idéias alternativas para a cultura, a arte e até mesmo a formações de movimentos. Porém é preciso reforçar o debate sobre a sustentabilidade dos festivais e também de movimentos sociais.

graveto · Campos dos Goytacazes, RJ 2/4/2007 15:32
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Revista Sintética
 

Muito legal seu texto. Beijo!

Revista Sintética · Osasco, SP 26/4/2007 20:41
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