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Corações Blues e Serpentinas

José Martins
Lima Trindade
1
SILVASSA · Salvador, BA
13/3/2008 · 112 · 13
 

Quando escuto alguém falar em coerência na literatura, o que me vem à mente não é um livro monotemático. Aquele lance de pegar um assunto e passar não sei quantas páginas remoendo e esmiuçando, até que o leitor se encha. Pra mim tem mais a ver com sinceridade. Ou seja, quando o escritor se coloca à prova, se mostra, numa entrega incondicional. E por mais que sua escrita varie na forma, o sujeito está lá. Presente e firme.

Hoje em dia todo mundo é muito cabeçudo e intelectual. Todo mundo quer achar a frase ideal, ser elogiado e ser considerado gênio, ainda que sua literatura seja chata e inacessível. E medrosa ao extremo.

Pra mim um bom escritor tem de ter o texto pautado na vida, nas perplexidades e nas descobertas. Tem a ver com sinceridade, comoção, fúria e verdade pessoal. Isso é um bom livro.

Corações blues e Serpentinas (editora Arte PauBrasil, 2007) já diz a que veio pelo título. De causar inveja. Cheio de referências à cultura pop, aos quadrinhos e ao rock and roll, a obra supera, e muito, a questão temporal e também a panfletária, “que tantas vezes afastam os leitores de outros autores novos e promissores”, como afirma acertadamente João Carlos Rodrigues, na orelha do livro. A coesão de que falei lá no começo não surge da repetição deste ou daquele tema. O que liga um texto ao outro é a sinceridade, a coragem, um jeitão destemido de se dizer o que pensa, de rever momentos e de colocar a porra da vida em xeque- mate. Em nome disso que chamamos escrita.

Dá pra identificar o Lima. E sua coragem ou, como costumamos dizer hoje em dia – numa forma bastante delicada e sutilíssima de se justificar a ousadia –, podemos afirmar que ele “tem culhão”.

Não só a bravura. Seus contos são belos. Cheios de poesia e ritmo. São leves (como no excelente O balão amarelo, página 49), imaginativos (Uma vez no céu escuro e brilhante, página 117) e grandiosos (Noite num Hotel da Asa Norte, o primeiro de todos e o que mais me comoveu). Seu conhecimento da palavra – esse lance de dominar a língua e etc. – não o coloca na tal “zona cinzenta” citada pelo João Carlos, ainda na orelha. Trindade não se envergonha de dizer que quer ser compreendido, sem ser diminuído. Quer possuir, por pleno direito, seu espaço no grande e muitas vezes maçante universo da literatura. Reivindicar sua verdade. Da maneira mais corajosa possível. Sem se amendrontar, mostrando o quão múltiplos podemos ser, acima e além das bandeiras e dos rótulos - o que Lima nos mostra é o mundo, visto de um ângulo pessoal, intímo e, por isso mesmo, único. Sem essa de classificar pro leitor o que, em verdade, não tem classificação. Como em algumas das resenhas que pude ler. Onde alguns dos críticos reduziram o Corações Blues e Serpentinas a uma obra de temática homoerótica. Como se tudo não passasse de uma pequena obra.

Erro. Erro crasso.

Nos contos do Lima – que também é editor do site de literatura e arte, Verbo21 – o desejo não é conseqüência. Mas causa, exclusivamente. Não importando sua destinação, seu jeito ou a trilha sonora escolhida – um blues rasgadão ou um chorinho; uma música do Lô Borges ou um samba canção. Não interessando se são duas pessoas do mesmo sexo ou de idades distintas. As pessoas não amam ou trepam por que são gays ou não. Elas saem à noite, pegam táxis - cruzando o Centro Histórico de Salvador, com a alma em brasa (Anjinho barroco, página 92) –, idealizam, sentam nas praças, curtem Hq, porque querem aquele negócio chamado felicidade. E sacam, de algum jeito, que não adianta justificativas ou outras tolices: a vida anda; o tempo é matéria rara – o que ficou claro pra mim no conto Três movimentos pra um selvagem desamor (e ele ainda fala que eu sou bom em títulos: isso sim é um título!).

Está lá a Brasília sem floreios, longe demais das mansões e dos políticos de merda; as pessoas comuns, os seres que vivem seus dias entre balcões de farmácia, praças, ruas, asfalto: vida, em seu estado bruto.

Nas 150 páginas de seu terceiro livro, o escritor do também genial Todo Sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editora, 2004) consegue trazer à tona esse mundo que, nas mãos de algum literato medroso, só serviria como pano de fundo sem graça.

Seus 15 contos partem da premissa de que não vale a pena perder tempo com metáforas confusas e outros elementos vazios, pra poder apenas se esconder do leitor – e consequentemente da vida. Ele parte pra afronta. Pro confronto direto que dispensa bandeiras, ideologias, escolhas, gêneros. É a liberdade de ser, escrever, existir - e outros verbos de mesma intensidade. Por aí.

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Saramar

Pela resenha, já se sente a alma do livro.
Excelente!

beijos

Saramar · Goiânia, GO 9/3/2008 23:47
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Albina do GuiaParanapiacaba

Coragem e Verdade: ingredientes da vida que faz sentido! Parabéns! Beijos no coração

Albina do GuiaParanapiacaba · Santo André, SP 11/3/2008 23:26
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Mão Branca

ói, ficou bom mesmo.
tem meu voto!
[]s

Mão Branca · Brasília, DF 12/3/2008 08:25
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Valdeck Almeida de Jesus

Conheço pessoalmente o Lima Trindade e sei que ele é especial, coerente, honesto, que trabalha com afinco e dedicação em tudo o que faz.
Sua literatura segue todos os traços de sua personalidade, que é forte e de decisões firmes.
O Jean Wyllys até citou o Lima esta semana em uma entrevista.
Parabéns amigo, seu sucesso é fruto do seu trabalho incansável e do seu esmero por uma literatura engajada, social, cheia de vida e de lições de vida.

Valdeck Almeida de Jesus · Salvador, BA 12/3/2008 09:57
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Fabricio Junior

Gosto muito da obra do Lima Trindade, lí os trabalhos anteriores, emocionei-me com passagens do Todo o Sol mais o Espirito Santo e também com o Supermercado da Solidão... Agora tenho acompanhado notícias e resenhas deste Corações Blues e Serpentinas, que ainda não lí mas sei que vou gostar. Ao autor da resenha meus cumprimentos e ao Lima Trindade o abraço de amigo.

Fabricio Junior · Guariba, SP 12/3/2008 16:52
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Moab

Lima Trindade ou Vivaldo como o conhecí, sempre foi um cara intimo das palavras. Como na resenha acima, destaco seus ótimos títulos. Ele merece todo sucesso e rock sempre!

Moab · Brasília, DF 12/3/2008 18:45
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Diogo Costa

Já dei meu voto. Excelente resenha, sem blá blá blá; certeiro.

Diogo Costa · Salvador, BA 12/3/2008 19:36
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Cintia Thome

Muito boa sinopse, crítica de dar inveja a muitos que estão nas prateleiras e mídia. Gosto desse jeito de escritor, não vê só
a si, mas ao redor e fazendo uma análise do todo...Primeiro plano e segundo plano, que às vezes é mais surpreendente.
Parabéns , excelente texto em sua construção, ou seja , bem coeso e claro. abçs.

Cintia Thome · São Paulo, SP 12/3/2008 20:48
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Cintia Thome

Tem em todas as livrarias do BR?

Cintia Thome · São Paulo, SP 12/3/2008 20:54
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
SILVASSA

diogão, você é da casa.

cintia, valeu. se tem no brasil todo? acho que sim. na dúvida, manda um mail pro sujeito verbo21@terra.com.br

SILVASSA · Salvador, BA 12/3/2008 22:28
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Tati Trindade

Ah...Linda resenha e uma ótima leitura com os livros de Lima!
Beijos!

Tati Trindade · Brasília, DF 13/3/2008 10:20
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Carol Trindade

Adorei. Vc esta de parabéns.
Bjos.
Carol

Carol Trindade · Brasília, DF 14/3/2008 09:30
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Paulo Esdras

Gostei!

Paulo Esdras · Brumado, BA 20/3/2008 12:15
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