Cordas e Camarotes: cinturões da exclusão

Messias G. Bandeira
Trio Elétrico Dodô & Osmar: cordas só nas guitarras.
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messias · Salvador, BA
16/2/2012 · 27 · 5
 

A recente declaração de Bell Marques (Chiclete com Banana), justificando a manutenção das cordas no carnaval de Salvador, é o sintoma mais aparente do preconceito de classe que subsiste na Bahia. A novidade é que, ao expressar publicamente sua índole, Bell aperta, até o último buraco, o cinturão da exclusão na maior festa popular do mundo.

Poderíamos dizer que se trata de uma fala isolada, um deslize. Não é o caso. O carnaval dá relevo a uma situação sistêmica da desigualdade em Salvador. Bell Marques e sua turma acentuam a discriminação, empurrando as cordas e o preconceito contra aqueles que, ironicamente, deram-lhes palco, prestígio e riqueza.

O silêncio de outras estrelas da axé music diante de tal declaração é um aval ao apartheid pretendido por muitos blocos, camarotes e suas correias de transmissão instaladas nos órgãos e secretarias da (des)governança da cidade de Salvador. Eles não podem continuar dando as cartas. E o município não pode amesquinhar-se ante aqueles que operam no submundo do esquema marqueteiro.

Da aviltante “popcorn experience” — acreditem: um cercado que permite aos ilustres pagantes dos camarotes a vivência do carnaval no asfalto “sem se misturar” — ao sequestro dos espaços públicos por alguns camarotes, tudo parece nos expulsar do carnaval.

Não carrego ilusões. O carnaval baiano não é a festa da igualdade. No limite, ele subtrai o distanciamento físico de estratos sociais, falseando uma equidade que, na realidade, se apresenta apenas de forma simbólica durante 6 dias. Ou seja: entre “chupar um geladinho na corda” e apreciar um drink no espaço gourmet do camarote, há um imenso abismo. Inclusão social? Capitalismo de estado? Qual? Aquele que oferece 9.837 m2 ao Camarote Salvador e 0,6 m2 ao isopor de cerveja?

É bem verdade que o carnaval não será o locus da superação de disparidades sociais históricas. Trata-se de uma festa. Mas é exatamente por isso que o vetor mercadológico deveria estar submetido ao core cultural da festa. E não o contrário. O carnaval também é um campo de disputa política. Cordas e camarotes até podem ser justificáveis em algumas situações. No entanto, usá-los como forma de opressão é inaceitável.

Bem, eu poderia fugir do carnaval e virar as costas pra tudo isso. Mas estarei ali, ocupando o espaço público, na companhia de cidadãos que querem celebrar o carnaval, que exigem respeito e dignidade. E não apenas porque pago os meus impostos — o que me reduziria a um simples consumidor de serviços públicos. Mas, sobretudo, porque vivo nesta cidade.

Minha fórmula? Abaixem as cordas e desçam do camarote. Venham viver não a “popcorn experience”, mas a “human experience”. Depois de 35 anos pulando atrás do trio de Dodô e Osmar, eu garanto: além de uma atitude cidadã, é muito mais divertido!
Messias G. Bandeira
Músico, Professor da UFBA. www.messias.art.br

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Associação Histórico Cultural Mucury
 

Muito bom texto!
Vamos republica-lo em nosso blog, o www.mucurycultural.org.

Associação Histórico Cultural Mucury · Teófilo Otoni, MG 22/2/2012 10:49
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Eduardo S Santiago
 

Valeu! Agora, ainda continuo pensando que a corda ficou como vilã no processo...Em minha opinião, ela é um ínfimo detalhe na mega estrutura de exploração e sujeição que virou o carnaval de Salvador! Vivemos uma ditadura cultural: são as mesmas pessoas e musicas no natal, semana santa, carnaval etc.

Eduardo S Santiago · Serrinha, BA 23/2/2012 17:16
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gteixeira
 

Bem em tempo sua colocação, o apartheid social é bem vísivel no carnaval da Bahia, a elite fica em cima desfrutando do que a plebe lhe oferece. o espaço que as grandes empresas paga á prefeitura é irrisório, nem porisso é revertido as entidades, que não tem camarotes nem estrelas de 1 ª grandeza. Esse circulo vicioso precisa ser extinto.

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 23/2/2012 23:22
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Vinicius Peixe
 

Ainda continuo achando que Carnaval é "pão e circo". O quanto é hipócrita, mentiroso, excludente não importa. A razão existêncial já esta errada!

Vinicius Peixe · Belo Horizonte, MG 24/2/2012 19:38
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Abílio Neto
 

Até no aspecto musical a axé music caiu. Cadê aquelas famosas bandas que tocavam o samba reggae? Este Bel Marques é um sujeito que enriqueceu nas micaretas e explorando os músicos! Quanto ganham aqueles que não são da família que pertercem à banda? Uma ninharia igual àquela que pagavam ao cacique Jonhy que hoje está inválido e sem assistência nenhuma do explorador.

Vejam aqui o encontro de dois donos das ruas!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 25/2/2012 21:05
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