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Cotidiano Yanomami em caneta esferográfica

Marcelo Perez
Vera Aparecida e um de seus personagens
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Marcelo Perez · Boa Vista, RR
18/11/2006 · 164 · 3
 

Nossos ancestrais deixaram marcas nas paredes das cavernas, as conhecidas pinturas rupestres. Eles usavam substâncias tiradas da natureza, através de ervas, folhas e muitas vezes sangue de animais. Eles precisavam retratar o seu cotidiano e encontraram um jeito, consciente ou não, de se comunicarem conosco.

Apesar de todo esse tempo, tem muita gente por aí que, envolvida na necessidade de retratar o cotidiano, não perde a oportunidade e se vira com o que tem. É o caso de Vera Aparecida, 48 anos, artista plástica, carioca, que vive hoje em Roraima e trabalha também como enfermeira.

Vera, que há anos desenvolve um trabalho de resgate e valorização da cultura negra, através de quadros que retratam o cotidiano desta etnia (isto inclui uma série maravilhosa de auto-retratos), um dia recebeu um convite inusitado “pra trabalhar em um posto de saúde dentro do mato”, como ela disse, em uma maloca Yanomami. “Não consigo ficar sem desenhar”, disse ela ao me contar toda a sua experiência com os indígenas. Vera falou também que, nesse feliz convívio, teve a possibilidade de retratar o cotidiano do povo usando apenas papel e caneta esferográfica! Seus quadros foram expostos na Intendência, importante Centro Cultural de nossa cidade. Vejam só o que ela me disse:

Vera, eu estive na sua exposição e como te disse, eu fiquei impressionado ao saber que os quadros haviam sido feitos com caneta e papel. Nem se percebe devido a sutileza e perfeição de seus traços. Como surgiu essa idéia?

Eu fiquei dez meses em área indígena. Fui trabalhar na área da saúde e me apaixonei pelo cotidiano dos Yanomami. Sou artista plástica, como é que eu vou guardar toda essa memória, toda essa lembrança? Na área indígena você não tem nenhum recurso, não tem tinta, material de desenho, você sabe, os índios não se deixam fotografar e como eu sei desenhar... Então eu peguei papel ofício, caneta preta e comecei a retratar toda a minha convivência com os indígenas. Os desenhos foram acontecendo nos meus intervalos de trabalho no posto de saúde dentro do mato. Após eu preparar todos os medicamentos, eu desenhava. Não sei fazer nada sem desenhar. Sempre tô com a caneta na mão fazendo meus rabiscos e sempre sai alguma coisa.


Vera começou a desenhar uma criança e aos poucos os outros foram apreciando o seu trabalho. Os personagens retratados em seus quadros são todos conhecidos dela e isso se deu devido a grande convivência com este povo. “Todo esse cotidiano foi desenhado em tempo real. Eu olhava pra eles no seu dia-a-dia e ia desenhando. A cada trabalho que eu fazia de um personagem real, esse personagem se mostrava para os outros, que logo queriam que eu os desenhasse também. Acabou que eu tenho malocas inteiras retratadas, desde o cachorro até o Tuchaua, que é a autoridade máxima na maloca”.

Através da arte, a aproximação de Vera com esta etnia foi tão grande que quando adoecem e precisam vir pra cidade se tratar, sempre entram em contato com ela. “Inclusive aconteceu hoje. Recebi um telefonema de um deles”, disse ela.

O dia-a-dia na maloca entre remédios, esferográfica e papel, não demorou muito para despertar o interesse de médicos e enfermeiros pelos seus desenhos. A idéia da exposição surgiu daí, quando um dos médicos se propôs a ser o curador da I Mostra, como diz Vera: “Foi quando ele viu esse resultado de papel e caneta, que na verdade é muito simples e poderia ter sido feito com carvão ou urucum. Os índios se pintam com urucum e genipapo, mas como eu não tinha intimidade com esse material, usei a caneta mesmo, então surgiu a proposta da exposição. Nós conseguimos fazer essa mostra com 23 quadros, mas eu tenho mais de 100 desenhos feitos esperando uma oportunidade pra apreciação do público”. Inclusive desenhos feitos por meninas das malocas. Vera disse que na sua próxima exposição irá inclui-los. “Devo ter uns 10 desenhos das meninas Yanomami”.

Falamos um pouco também sobre a receptividade da população com os seus quadros. Sabemos que a discriminação ao povo indígena é muito forte em Roraima. Iniciativas como a de Vera, em retratar o cotidiano deste povo, contribuem bastante para que essa imagem seja modificada. Trabalho sério que não começou agora, pois há anos já desenvolve projeto similar com a cultura negra. “Muitos se assustaram, eles não sabiam que eles trabalhavam tanto. Você sempre ouviu dizer que eles são preguiçosos? Eu também. Mas eles trabalham muito. E entre todos os trabalhos expostos lá em Intendência, esse foi o que teve a melhor aceitação. Muitos professores que visitaram a mostra retornaram com grupos de alunos. Ninguém sabe como é o cotidiano deles e eu retratei tudo, foi o que eu vi. Eles brincam com o ratinho do mato, o porquinho do mato quando pequeno, eles lidam com aquilo com o maior carinho. Eles se emocionam (ela se emociona)... Eu gosto muito de falar do negro, das milhares de cores que temos e agora a do índio, que eu não conhecia, só no dia 19 de abril, mas eu respirei o que eles respiraram, eu fui caçar, eu brinquei com eles. Eles estão aí e precisam ser respeitados”.

Muito orgulhosa de ser negra, Vera é dessas pessoas simples, cheias de vida e que ao falar nos seus trabalhos com essas etnias começa a se emocionar. Sabe que precisa continuar e criar, criar e criar... Tem até vontade de levar esta exposição a outros estados do país. Quem sabe um dia até consiga e como ela mesma diz: “Esta etnia existe, é viva e tem que ser respeitada, tanto quanto o negro, digo negro porque trabalho a cultura negra. Negros e índios. Resolvi fazer essa mostra, que é a primeira e em homenagem a esse povo que é tão discriminado, tanto quanto a população negra. A gente tem que tar sempre se olhando e revendo nossa história. Fortalecendo esse lado que há entre o branco, o negro, o índio... Minha história se resume na paixão que tenho por gente”.

Vera Aparecida
Contato: (095) 9123 - 8359



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Caio Barretto
 

Marcelo, gostei muito da história, do texto e da Vera. Tenho apenas uma observação: não me parece que a comparação entre os poucos recursos dos povos antigos e da Vera seja o melhor elemento para o lead da matéria. No entanto, funciona. 1 ab.

Caio Barretto · Rio de Janeiro, RJ 19/11/2006 11:45
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Marcelo Perez
 

Legal, Caio, tem razão. Na verdade não me refiro aos poucos recursos, ela apenas faz um resgate de valorização dessas culturas, essa é a semelhança. É muito mais a questão da discriminação.
abração

Marcelo Perez · Boa Vista, RR 19/11/2006 14:08
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dMart
 

boa reportagem!

dMart · Porto Alegre, RS 19/11/2006 14:33
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Meninas Yanomami zoom
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