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CRANIO E O ÍNDIO AZUL

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Diogo Mizael · São Paulo, SP
9/6/2011 · 0 · 0
 

O FOLCLORE HARDCORE DO ÍNDIO AZUL

Devastou-se a verticalização embrionária das árvores centenárias. No lugar, por meio dos desenhos das plantas da construção civil, enfumaçada à poeira do pós-modernismo repressor, ergueu-se outro matagal, o do cimento seco. Com as edificações, muralhas pra proteção destas frágeis fortalezas. Em efeito, acessíveis painéis para a “nova arte”, a arte das ruas.

No espaço desordenado da metrópole, por meio da intervenção dos traços, da consciência histórica, e política, do artista plástico Fábio de Oliveira, conhecido no universo das tintas como Cranio, o antropófago ressurgiu. Regressou do fundo das latas de “spray” anil, pro habitat, hoje, incomum, 500 anos após a extinção da tribo.

Em Março do ano passado, ao lado de outros artistas, participou da primeira edição da exposição coletiva da Galeria Pop Up, projeto idealizado pela “Street Sp”, no estúdio Iritsu Tattoo, em Pinheiros. Grafitou em Paris, todavia, pólo cultural que em tempos remotos, recebeu Picasso, Modigliani e por que não, Jean Michael Basquiat?

Palestrante convidado, Cranio participará da sétima edição do Pixel Show, feira de arte e design, sediado na cidade do Recife, nos dias 16 e 17 de Julho. Además, numa matéria sobre grafite, “A cidade de spray e tinta”, seu personagem estampou a capa do jornal “Metro”, distribuído gratuitamente nos faróis. Recentemente, grafitou no programa “Manos e Minas” da TV Cultura.

Nascido na Zona Norte de São Paulo, pichador no período em que estudou no colégio Gonçalves Dias, no entanto, Cranio enveredou pro grafite, ainda no fôlego das inscrições dos “tags” nos muros. “O grafite é uma forma de linguagem mais elaborada, feita, a maioria das vezes, durante o dia e com autorização”, esclarece o artista.

Os paredões descascados, nas margens das ruas e avenidas da zona norte, e do centro da cidade, transformaram-se numa oca. Imprescindível abrigo do antropófago azul, nestes tempos penuriosos de (anti)heróis nacionais. “A paixão de pintar pela cidade é o que me marca, passar por um lugar e ver seu desenho e as pessoas admirando, não tem preço”, explica.

Segundo o artista, há onze anos o personagem urbano fôra criado. “O índio na cidade representado pelo grafite faz um contraste bem legal”, disse. Incorporado ao xamanismo anarquista, o antropófago deglute a pós-modernidade e a expele, em dosagem corrosiva de ironia, num argumento contemporâneo de vanguarda.

Munidos de missivas libertárias, o arco e flecha direcionam-se, sobretudo, aos falsos líderes, que controlaram os interesses do povo, hoje em dia, com a identidade perdida.

Com conotações críticas intensas à sociedade de consumo, portanto, o índio azul é mais que um manifesto antropológico. É a tomada de consciência, servindo-se de o estandarte do mito, que outrora, os poetas Basílio da Gama e Gonçalves Dias, içaram como ponta de lança de suas obras.

Flickr: http://www.flickr.com/photos/cranioartes/

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