A gente pensa que os filhos nunca crescem. Pensava que isso era apenas história de mulheres, mais especificamente daquelas mães superprotetoras que vêem os filhos por toda a vida como criaturinhas que precisam de apoio para viver sem problemas.
Mas não são apenas elas que têm essa visão dos filhos. A maioria dos pais também, e isso pode não ficar expresso com todas as letras na correria da vida justamente pela atenção maior que o homem dá ao trabalho em detrimento dos filhos.
Mas comigo aconteceu algo interessante, para não dizer que paguei um mico.
Sempre fui paparicador do meu casal de filhos. Confesso que sempre exercitei com excelência aquele velho sestro de “lamber a cria” para lhe realçar a beleza. E não é o olho de pai quem fala aqui, se é que olho pode falar(rsrsrs). Baseio-me nos comentários que ouço, como se diz, às minhas costas sem muito cuidado com a discrição, e que me enchem de orgulho, mas também despertam desvelo.
O certo é que desde cedo a beleza de minha filha chama a atenção e agora, aos 14 anos, redobro os cuidados com as amizades. Sempre que aparece um amigo novo no pedaço, impulsivamente é submetido por mim a uma sabatina que revela ao possível pretendente a namorado que na área o jogo é duro. Minha mulher, nesse caso, fica por perto na reserva pronta para uma eventual substituição. O pentelho do meu filho cumpre o papel de mercenário, oscilando de um lado ao outro ao sabor das suas conveniências.
Pois bem. Aproximava-se o dia 12 de outubro: Dia das Crianças. Um desassossego para mim e a minha mulher: os presentes eram inevitáveis. Com o menino, tudo certo. Fã de esportes radicais, o skate estava garantido. Uma dor de cabeça a menos. E a filha? O que dar para a filha no Dia das Crianças.
Ela estava na transição da infância para a adolescência. E nós dois num beco sem saída. Com cuidados para não dar um presente que ela interpretasse que a víamos como uma imutável criancinha, mas também sem querer soltar o freio e dar um presente mais adulto que ela pudesse interpretar como uma autorização para que um frangote se aboletasse em nosso sofá da sala com cara de quem “estou aqui porque fui convidado”. E nós calados, apenas vigiando-o de esguelha.
Para prevenir tais situações e ir adiando o inevitável o quanto pudesse, decidimos que o presente para ela seria uma...boneca! Uma boneca sofisticada, dessas que inclusive falam “Olá” em várias línguas. Decidimos que seria uma boa, afinal ela faz inglês e seria um estímulo a mais para perseverar no estudo.
Com muita manobra introduzimos a grande boneca em casa. Ficamos então contando os dias para a comemoração. Quando o dia 12 chegou, a filha saiu cedo para ir à casa de uma amiga e disse que estaria de volta para o almoço. Quando ela retornou, foi recepcionada ao portão da rua. O pai, a mãe e o irmão. Este já havia recebido o seu skate e estava satisfeitíssimo. A mãe barrou-a à entrada enquanto eu corria à sala para buscar o presente. Abracei-a sorrindo, ainda à varanda, e disse: “Um presente do papai e da mamãe que amam muito a sua menininha”. Ela deu um sorrisinho desbotado de desaprovação, rasgou o papel brilhante que envolvia o presente, adivinhando o conteúdo da grande caixa, que ano após ano, repetia-se sem criatividade. Deu polidos beijinhos em nós dois, jogou a boneca sobre a mesa na varanda, recuou até o portão, como se fosse sair, o que nos fez perguntar: “Aonde vai, filha?” Ela espalmou a mão num gesto de “esperem aí”.
Saiu e voltou logo com um frangote pela mão, que tão sem graça como todos nós exclamou um sumido “Oi!”.
Ela nos olhou com olhar adolescente de quem deixou para sempre a menininha do lado de fora de casa e disse numa apresentação firme, sem sequer voltar-se para a boneca que jazia abandonada sobre a mesa: “Pai, mãe, esse é o Mário, meu namorado. Mário, os meus pais!” Os dois entraram em casa, e nós atrás; somente a boneca ficou de fora.
Legal, é isso mesmo que acontece. Crônica interessante com uma pitada de humor. Valeu!
Ulisses Holanda · Araguaína, TO 7/10/2006 08:27Belo! Uma crônica saborosa sobe relação familiar. Recomendo para que os pais leiam. Tchau
Sara · Palmas, TO 7/10/2006 14:11Ao ler o texto, enxerguei meu pai quando descobriu que sua filha não era mais tão meninha. A cada linha, ria muito. Adorei.
Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 9/10/2006 20:13
hehehehe eu posso imaginar perfeitamente a cena.
acho que vou passar por isso também. Quero 3 meninas. Eu acho que sou muito ciumento. Sei lá qual vai ser minha reação quando ver o primeiro namorado de uma delas =/
Adoro esses "causos da vida privada".
Abraço.
Uma delícia essa história de família. Mas é verdade, os pais têm que estar atento às companhias dos filhos.
Lucciv · Araguaína, TO 10/10/2006 12:43
Curiosa a história.
Valeu pelo o incentivo. :)
Rs...passamos com menos habilidade pelas transformações que ocorrem com nossos filhos que eles mesmos.
Eu AMO bonecas, até hoje, a despeito da "filha postiça", que já está de aliança no dedo!
Gente, estive viajando um mês todo a trabalho, quem dera fosse a lazer, como alguns podem pensar. Voltei e agradeço os comentários.
Obrigado Renato, Patrícia e Renata Tum,
abração a todos
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