A igreja não tem cara de igreja. No teto, um globo espelhado igual ao das discotecas, além de oito luzes ultravioletas, iluminam gente fantasiada de caipira, com chapéu de palha e terno xadrez (é dia de festa junina). No altar transformado provisoriamente em palco, seis dançarinos animam o público batendo palmas e fazendo uma coreografia que todos acompanham, alguns de forma bem desajeitada. Depois começam a pular e levantar os braços, como se dançassem ao som de música eletrônica. Em seguida, pára a música.
Um jovem com o microfone pede para que todos dêem as mãos. "Façamos um compromisso esta noite. Vamos nos abandonar a Deus. É isso que Deus quer, que aproveitemos esta noite como nunca aproveitamos lá fora. Deus quer conquistar o seu coração. Ele é apaixonado por você!" O jovem com o microfone pede para que todo mundo repita, olhando para a pessoa do lado: "Deus é apaixonado por você!". Todos repetem, enquanto, quase imperceptivelmente, o padre João Henrique passa pelo meio do povo com seus auxiliares rumo ao altar, decorado com bandeirolas verde-amarelas. O padre também bate palmas. Uma barulhenta banda - duas guitarras, baixo e bateria - quase estoura as quatro caixas de som posicionadas em dupla de cada lado do altar. "Boa noite a todos, bem-vindos à Cristoteca", proclama, com forte sotaque italiano. É meia-noite, vai começar a missa.
Toda sexta-feira, na Monsenhor Andrade, uma rua sem saída do Brás, em um dos pontos mais pobres e abandonados de São Paulo, é realizada a Cristoteca, uma balada voltada para jovens católicos. Cigarro e bebida não são proibidos, mas ali não há clima para isso, assim como não se vê amassos entre os cerca de mil jovens que a freqüentam toda semana. "Quando vem uma banda mais famosa, pode chegar a duas mil pessoas", conta Vanderson dos Santos Costa, de 22 anos, que estuda para ser padre e também é o organizador da festa. Por "famosa" entenda-se famosa para os católicos. A que levou mais público foi a Banda Dominus, equivalente católica às bandas gospel que lotam estádios com evangélicos.
A balada sempre começa com uma missa comandada pelo padre João Henrique, que não raro passa de duas horas de duração, como na última sexta-feira, celebrada em um galpão ao lado da Casa Restaura-me. A igreja improvisada não tem bancos, todo mundo senta-se no chão mesmo. No altar, além do crucifixo, apenas uma imagem de Nossa Senhora. Embora em alguns momentos alguns jovens comecem a conversar durante a missa e celulares toquem, a maioria participa cantando, dançando e batendo palmas. Como num show, a igreja fica escura e as luzes seguem o padre João enquanto ele faz o sermão, permeado de frases como "Fique esperto, cara, para quando Jesus passar." A missa é parte da balada. "Entendam", diz padre João, "nós não podemos não fazer festa, não podemos não pular de alegria." Uma salva de palmas e assobios entusiasmados. Balada cristã é isso.
Adorei esse texto. É interessante quando aparece alguma matéria sobre esse tipo de evento em jornal. Mas aí é um jornalista que vai, faz um texto como alguém de fora que entrou num ambiente novo. Não é difícil que apele até para a ironia. Saber como é pela voz (escrita?) de quem freqüenta o lugar (como parece ser o caso do autor do texto) é experiência muito rara e, muitas vezes, bacana. O Overmundo me parece um espaço perfeito para este tipo de relato.
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 21/6/2006 09:24
"...de quem freqüenta o lugar (como parece ser o caso do autor do texto)"
Valeu. E estive lá sim. Abraços.
Gostei do texto, sensível e muito feliz pela decrição do ambiente e do clima da festa. Só ficou um gostinho de mais informação: qual o horário, qual a idade do padre, a faixa etária do público.. talvez mais depoimenos dos frequentadores... abraço!
Júlia Tavares · Belo Horizonte, MG 26/6/2006 13:07Faltou mesmo, mas não quis dar um ar de serviço à matéria. Valeu pelo aviso.
Jones Rossi · São Paulo, SP 26/6/2006 18:24Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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