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Crônica de tensão pré-estréia

Anna Marimon
1
eduardo ferreira · Cuiabá, MT
20/6/2006 · 81 · 3
 

Futebol me encanta desde menino. Os amigos heróis eram sempre os melhores com a pelota nos pés. Causavam espanto nos mais moleques como eu que era o mais novo da turma. Interior de Mato Grosso, 1970, a Copa do Mundo rolava nas ondas megahertz das centenas de rádios ligados nas portas das casas de toda a cidade. Cadeiras de palhas em círculos, todos buscando se acomodar nas portas das casas. A rua inteira era uma festa só a cada lance genial de Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson e Cia, narrados nas vozes emocionantes de Fiori Gigliotti, Jorge Cury, Waldir Amaral e tantos outros. A emoção que o rádio provocava causava histeria na galera que soltava a imaginação, a bola raspando a trave, o drible, a ginga. Tudo imaginado de uma forma muito pessoal, cada um ouve o jogo ao seu modo.

Em 2006, Cuiabá ferve, as ruas congestionadas, bandeiras tremulam nos inúmeros carros que passam, torcedores eufóricos, a índole guerreira-festiva invade todos os semblantes. Cumplicidade nos olhos, compartilhamento de expectativas pré-batalha, nossos heróis são cantados em versos e prosas. Bares cheios, telas, telinhas, telões, o álcool embalando os humores da maioria absoluta dos entusiastas que calçam chuteiras imaginárias. O sangue esquenta a lucidez, o calor agita corpos em pressão. Cerveja gelada desce pelas gargantas entaladas, bocas esperam ávidas pelo grito do gol.

A tradição impõe respeito, nunca, em nenhuma Copa do Mundo, a seleção brasileira encontrou facilidades em seus jogos de estréia. Reza a lenda que é altíssimo o grau de tensão que acomete os jogadores. Todos os olhos do mundo mirando os movimentos dos magos da bola, um esporte que exige muita habilidade. Aliás, a habilidade dos jogadores brasileiros é um capítulo à parte nessa história toda. O que esse rapaz, Ronaldinho Gaúcho, faz com a bola, impressiona qualquer mortal. A bola parece fazer parte do seu corpo, não desgruda dele, obedece a seus comandos com absoluta intimidade e doce devoção, molda-se aos seus gestos. Um cilindro de luz se equilibrando ante a ordem do maestro supremo.

O jogo foi duro. Osso duro de roer essa Croácia.

A Copa agora é tecnológica. Informações multimídia em tempo real invadem as telas de todo o planeta. Precisão cirúrgica recortando o grande balé dos guerreiros nas arenas contemporâneas. Bilhões de olhos conduzem a pelota como um corpo celeste a bailar nos pés armados como lanceiros mortais.

A bola é puro samba nos pés dos brasileiros. O futebol é invenção inglesa? A arte de jogar futebol é brasileira, eu te respondo. Aqui, a bola rola solta e faceira em nossos milhões de pés que acompanham passe a passe o jogo em sintonia com os onze guerreiros.

Comentários da geral:
-Puxa, o Ronaldo tá mal mesmo, hem?
-Ele vai reagir, acho que ainda vai arrebentar!
-Devia entrar o Juninho Pernambucano...
-O jogo tá bom é pro Robinho.
-E o Galvão Bueno, tá falando muita besteira?
-O Brasil tá muito parado em campo!
-Tem que ganhar, nem que seja por meio a zero.

Segue o jogo da seleção brasileira com a seleção croata. O estigma da estréia amarrando os mais de mil pés das centopéias brasileiras. Meus olhos se fecham a 10 minutos do final do primeiro tempo. Alguém observa ao meu lado: “O Ferreira assiste o jogo de olhos fechados, pensa que ainda é rádio, hahahahahah...” Todos riem ao mesmo tempo. Levanto um pouco as pesadas pálpebras sob a mão impiedosa de Morfeu. Kaká na entrada da área recebe passe de Cafu, olha para o goleiro, calcula, chuta com maestria, lá onde o goleiro não consegue chegar. A bola soca a rede, multidão explode em todo país, em uníssono: golaço! Meus olhos saltam, soco o ar, sou Pelé, sou Kaká e todos os Ronaldos. O país de chuteiras samba no pé.

Intervalo: deixo a casa lotada de gente, saio de fininho, corro para casa, a rua está vazia. Alto teor etílico me lança ao chão da sala. Estou só, consigo ver ainda duas grandes defesas do Dida, o goleiro que só o Parreira confia, a pátria treme nas bases das traves. Mas o cara salva a festa. Seguro, no lugar certo, na hora certa.

Acordo uma hora depois, variado, tonto, cadê o jogo? A casa vazia, a rua em silêncio, o cachorro dormindo ao meu lado. Me pergunto, será que ele lambeu minha boca?

O texto que você acabou de ler faz parte de uma série sugerida e organizada pela comunidade do Overmundo. A proposta é construir um panorama da estréia do Brasil na Copa da Alemanha, sob a ótica de colaboradores espalhados por todo o país. Para ler mais relatos sobre o assunto busque pela tag Especial_Copa, no sistema de busca do Overmundo.

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Bia Marques
 

1970. Nasci pós euforia do tri. Leonina de agosto.
2006. Na varanda etílica da casa de Ana e Fernando, o fio de voz que me sai da garganta grita:
- Cala boca Galvão!

Bia Marques · Campo Grande, MS 17/6/2006 01:29
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Gilvan Costa
 

Valeu Edu. Bela crônica. Não cheguei a ouvir a Copa pelo Rádio. Minha mais tenra lembrança dos mundiais é de 1978, na Argentina (lembra daquela decepção do Peru com a seleção da casa?) e narração de Luciano do Valle (pior é ter que ouvir o gavião bueno hoje). Você acabou perdendo o segundo tempo por acesso atílico e eu, ao fazer meu artigo pro overmundo, acabei em seco, pois vi o jogo entre os índios do CIR e era proibida a entrada de bebidas, pode? sacanagem né.

Gilvan Costa · Boa Vista, RR 19/6/2006 13:36
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Rodrigo Teixeira
 

kkkkkkkkk... só vc mesmo Edu! imprevisível sempre... como tudo q é bom! parabéns...

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 20/6/2006 12:10
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