Crônica Suja – Parte 1

Desenho-instalação de Klaus Werner - Direitos reservados
Kunstprojekt der Favela Morro dos Prazeres
1
Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ
27/4/2007 · 85 · 5
 

(Esta crônica, originalmente dividida em dois episódios, não teve a sua primeira - e essencial - parte publicada no Overblog por razões, provavelmente, ocasionais - faltaram-lhe 2 votos apenas -

Embora o leitor interessado já possa ler a referida primeira parte, acessando-a no perfil do autor (ou mesmo no link inserido no início de sua segunda parte), atendendo à resposta positiva dada á consulta que fizemos a alguns dos votantes da eleição anterior - que, gentilmente, se identificaram por meio de seus comentários - decidimos submetê-la a um segundo turno, nesta nova - e definitiva - eleição.)


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Fragmentos quase diários
de um incidente infelizmente verídico


Início da década de 1990. Viajava semanalmente para o interior. O destino era sempre as cercanias de Vassouras, aprazível cidade histórica no Vale do rio Paraíba do Sul. Antigas fazendas dos tempos áureos do café, histórias do tempo da escravidão, cultura negra, tradicional, num paraíso de memórias, lendas e histórias, que quase ninguém havia parado para registrar.

Paz de espírito, quase férias no campo.

A vida, no entanto, não andava assim tão mansa. Precisava de mais trabalho. Foi assim que decidi, sem muito sofrimento, aceitar um serviço que me pareceu, a princípio, pra lá de interessante: Estimular a cultura local em duas favelas do Rio, atendidas por um plano de reflorestamento de encostas promovido pelo governo. O contrato, assumido com uma empresa de reflorestamento de outro estado, dizia mais ou menos o seguinte:

“Promover a articulação comunitária, as boas relações entre a obra de reflorestamento, seus engenheiros e a comunidade em geral, ajudando inclusive a arregimentar os operários que, selecionados entre os desempregados das comunidades atendidas pelo programa, roçariam, plantariam e revigorariam a vegetação local, que fazia parte da degradada e outrora exuberante Mata Atlântica.

A empresa havia tentado reflorestar as áreas alguns meses antes, trazendo camponeses reais de sua sede, no outro estado, mas, a inexperiência ao negociar com os traficantes e as acusações de que os camponeses estariam submetidos a um regime de trabalho escravo, acabou gerando um escândalo na imprensa que obrigou á paralisação das obras e contratação de especialistas locais, daqui do Rio de Janeiro, para intermediar a situação. Era aí que eu entrava, com o pomposo título de Coordenador de Articulação Cultural.

O contexto era simples de entender: A ocupação desordenada das encostas por parte das favelas, um problema crônico do Rio de Janeiro (que talvez tenha começado já no século 19, bem antes da Abolição da Escravatura), destruiu quase que completamente a vegetação que cobria a cadeia de serras e morros que circundam a cidade. A água de chuvas torrenciais, muito habituais na região, sem nada que as retivesse, com o desgaste do tempo, passou a descambar morro abaixo, inundando praças e ruas. Rios de esgoto, lixo, ratos mortos, dejetos de toda espécie, além de um fedor insuportável, escorriam junto, como se o saco de mazelas sociais (aqui estranhamente empurradas para o alto), geradas pelo descaso de mais de um século, estourasse, deixando à mostra as suas incômodas entranhas.

Mergulhar numa aventura sociológica infecta, porém, bem remunerada, não seria nada mau àquela altura. A aventura, no entanto pouco durou. Acabou de forma estúpida, abrupta poucos meses depois.

Ontem por acaso, bisbilhotando velhos papéis do tempo em que nem tinha ainda um computador, encontrei rascunhos esparsos do que seria o meu último e mais franco relatório, o que não tive coragem de concluir (quanto mais de entregar). Os rascunhos são fragmentos de alguns incidentes esparsos, os mais importantes entre os que ocorriam diariamente, a maioria presenciada in loco, os quais, por razões óbvias, relato cuidadosamente a vocês, ainda hoje sem poder me aprofundar muito em certos detalhes.

Vistos agora, distanciados no tempo, estes fragmentos talvez possam ajudar a lançar alguma luz sobre a atual situação da violência urbana no Rio de Janeiro, e de como ela evoluiu para o insuportável ponto no qual se encontra.

Entre os envolvidos (a maioria morta nos poucos meses em que a história durou) apenas o autor poderá ser identificado. Com nomes fictícios eles não passam muito de personagens anônimos, mesquinhos, miseráveis às vezes, outras vezes cobertos de uma inusitada aura de dignidade, quase humanidade, vislumbrada de relance em alguns poucos gestos nobres.

Nesta crônica sem nenhum charme ou poesia, não há nenhum herói presente ou ausente, pois é só sangue inutilmente derramado, sem nenhuma bravura, sem nenhuma comenda merecida, como ocorre com as guerras civis, não declaradas.

Crônica de uma guerra suja.

Fragmento #1
Um Morro sem Prazeres

Na chegada, havia ainda um pouco de honrosa adrenalina animando a missão que se iniciava, mas, a nossa entrada no campo de batalha até que não foi lá muito apoteótica.

A do pessoal da véspera foi. Até demais. Como num verdadeiro desembarque na Normandia eles foram recebidos com um enorme foguetório e uma comitiva de recepção furiosa que, assomando de sopetão num barranco, apontou dezenas de revólveres e fuzis de última geração, como se a favela fosse um braço de praia (ou um Iraque) invadido.

É que os engenheiros que faziam o papel de precursores do contato com os líderes comunitários do local, presunçosos como sempre, haviam decidido na última hora, sem que nem por que, trocar o Fiat verde escuro, combinado como senha com os traficantes, por um Fiat branco. Faltou muito pouco para serem metralhados, estropiados por uma saraivada de balas. Quase viraram esta estrepitosa notícia de jornal:

” ENGENHEIROS DO GOVERNO ESTADUAL ASSASSINADOS POR TRAFICANTES EM EMBOSCADA! ”


Desta escaparam.

Não vi a cena, mas, me contaram que o sujeito que comandava o grupo de traficantes, desceu correndo do barranco com uma automática prateada levantada e passou uma constrangedora descompostura no engenheiro, que se dizia chefe dos precursores, todos funcionários de um órgão do governo estadual.

_ “Você quer morrer, seu filho da puta? Tá pensando que nós é o que, Mané? Tem respeito não, é? Da próxima vez já sabe...Passamo o cerol!”

Ficou muito claro naquele momento quem é que realmente era o chefe de alguma coisa por ali.

Conosco não foi assim. Graças a Deus. Equipe mínima: apenas eu, o motorista e uma engenheira florestal. As regras do protocolo foram seguidas á risca, até a hora da chegada foi cronometrada: 10 hs., em ponto, o Fiat verde estacionou no local combinado, o pátio em frente a associação de moradores. Desembarcamos um pouco tensos, suando frio, com as mãos, exageradamente, à vista, longe da cintura, quase para o alto.

Não demorou muito para que um menino descalço voltasse acompanhado por um mulato baixinho e bem falante, de cerca de trinta anos de idade, que se apresentou oferecendo a mão esquerda e escondendo discretamente a direita que, podemos perceber, era meio atrofiada.

_’Bom dia! Sou o presidente da associação. De dia sou o José Antônio da Silva. De noite eu sou o Zu!”

Zu? Nome sinistro, não? O que ele queria dizer com isto? Um nome de dia outro de noite? Dava para intuir, certo? Zu acumulava funções: De dia o abnegado líder comunitário. De noite, o implacável chefão do tráfico local.

A mão oferecida era mole, gelada. Aperto de mão não era definitivamente uma especialidade dele. Não lhe apetecia. Gentil, em poucos minutos contou tudo que achou que nos interessava e nos levou para mostrar o que lhe interessava: As instalações da associação, um prédio de dois andares imundo, a quadra de esportes em frente, a creche em construção.

Apresentou também alguns estranhos funcionários: Uma mulher trintona e sestrosa, responsável pela creche e uma figura que, pelo jeito que se expressava, era semi-alfabetizada, mas, que talvez por gostar muito de ler, havia sido incumbida de tomar conta da pobre e poeirenta biblioteca, composta, quase que exclusivamente, por livros didáticos superados, desconjuntados e romances medíocres, fruto de edições encalhadas, refugo de sebos. Quase lixo.

A mulher trintona era sexy, de uma beleza muito insinuante, ainda visível sob o ‘leg’ que lhe apertava as banhas que já se avolumavam. Quando entramos no úmido e escuro salão onde se realizavam os bailes Funk, ela e Zu trocaram afagos de mão e ironias sensuais, fingindo que nos ignoravam. Ele, querendo talvez exibir de antemão o seu status de garanhão do morro, de Galo do pedaço. Ela, pretendendo, com toda certeza, mostrar o seu poder de concubina do rei. Nos dias seguintes muitas mulheres, algumas adolescentes ainda, desfilaram para nós neste ritual de exibição do seu status de cortesãs.

_” Passa lá depois, bem. Você some... Depois vai reclamar. Vem um gavião ai e, ó... Vai ficar chupando dedo”.
Dizia uma.

_” Que chupando o que? Que nada... só se o gavião for maluco ...” Respondia Zu seguro de seu poder de galo em seu terreiro, de sultão vingativo.

No harém do sultão Zu só quem não se exibia era a Ném, a verdadeira mulher do cara. Uma figura que parecia não caber naquele contexto. Trancinhas afro, discurso articulado, despachada e empreendedora, Ném embolava completamente a análise que eu fazia do ambiente. Não entendia ela ali. Era sinal trocado, enviesado.

Ném era bem novinha. Ali pelos seus 23, 24 anos. As trancinhas afro não eram um look comum em mulheres de favela naquela época. De jeito nenhum. O look dos 90 das tchutchucas era mais a chapinha, o henné, algo que formasse madeixas lisas como as de Withney Houston. Trancinhas afro era coisa de nega fina, universitária, militante de movimento negro, feminista, estas coisas. E era exatamente este o discurso de Ném que, logo que fomos apresentados, me mostrou, numa folha de papel meio amassada, as linhas programáticas que compunham o seu plano de montar uma Ong para captar fundos para a Associação de moradores do Morro dos Prazeres.

A prioridade era a creche. Me falou do padre italiano que ajudava a comunidade e de um dinheiro que poderia vir de uma congregação católica alemã se a Ong tivesse os papéis em dia.

É claro que achei aquilo tudo com pinta de uma tremenda armação, mas, as trancinhas da Ném não combinavam com armações. Sabe como é? Orgulho racial e armação, num contexto violento como aquele, de regras e protocolos de honra tão rígidos...

O fato é que fui me envolvendo, inteiramente, na empolgação de Ném. Aceitei o rascunho de um estatuto que ela me deu, pedindo que eu fizesse uma breve tradução em alemão, para ser mostrada ao padre.

Zu olhava de banda mas parecia apoiar aquele esforço da sua concubina preferida. A esposa, como ele dizia. Parecia estar honestamente solidário com ela, por amor, por remorso, por algum resquício de humanidade que sobrara nele. Quem saberá?

Ném me passava seriedade mas e Zu? Traficante com responsabilidade social? Um cara com duas automáticas na cintura, comandando um bando de famigerados bandidos com AR15, AK47 e, como diziam, outros ‘bicos’?

Não. Era melhor não viajar muito nesta maionese de Robin Hood tropical.

Na visita seguinte Zu fez questão de me apresentar o padre. Conversei rapidamente com ele. Era um padre normal, militante, a história da Ong, do estatuto e da verba possível, parecia ser fato.

Subi com Zu para o segundo andar da associação, seu escritório. Ele me ofereceu uma carreira de pó. Recusei gentilmente, mas, ele ficou constrangido (muito estranho ver um sujeito como Zu, constrangido). Sentiu vontade de me contar particularidades suas, não sei por quê. Não perguntei nada, mas, ele cismou de dizer:

_” Não gostava de pó não. Comecei aqui, nesta vida. Não tô viciado ainda não. Acho que, quando quiser posso parar. Só não posso é parar com esta vida. Já avancei demais nela. Agora ...”

Havia sido guarda ferroviário. Vinha da Baixada Fluminense. De policial corrupto, expulso da corporação acabou virando miliciano de um grupo de justiceiros da Baixada (um dos embriões das milícias que agora infestam o Rio de Janeiro). Um dia um amigo de fé, ex-policial como ele, já envolvido até o pescoço com o crime organizado, o convidou para integrar a tropa do Terceiro Comando que invadiria o Morro dos Prazeres, que pertencia na ocasião ao Comando Vermelho. Topou.

Fizeram uma carnificina no local e tomaram a favela. O amigo morreu ou se escafedeu. Zu acabou assumindo com o irmão o comando das ‘bocas’ do local. Zu o chefe do preto (maconha); o irmão, o chefe do branco(cocaína).

Saímos para dar uma volta pelo morro. Pensando que eu era engenheiro, Zu queria me mostrar os postes de luz de vapor de mercúrio que havia instalado na larga rua que, subindo por um lado do morro, passava em frente a um casarão abandonado, perto da associação.

_”Os ‘Cu-de-galinha’ dos 'alemão' (os inimigos da facção rival) podem subir por aqui mas agora, se subirem a gente vê eles e aí é só metralhar... Vão morrer na praia. Que é que tu acha? Tá bacana a gambiarra?”

Disse que sim, que estava maneira. Como dizer que não?

(Leia a Parte 2 aqui)

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Edna Queiroz
 

Trago para cá o meu comentário anterior:

Muito bom. É uma história envolvente, densa e revela a triste realidade que aí está, vista por dentro e que, no entanto, só sabemos (o clímax) pelas manchetes dos jornais ou telas de TV.
As imagens estão ótimas!

Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 20:14
1 pessoa achou til · sua opinio: subir
Spírito Santo
 

Valeu, Edna, mais uma vez.
Mandei umas modestas dicas pra você, recebeu?

Grande abraço,

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 21:20
1 pessoa achou til · sua opinio: subir
Edna Queiroz
 

Recebi sim. Obrigada. Parece um tanto difícil inserir imagens em série.
Abraços

Edna Queiroz · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 22:37
1 pessoa achou til · sua opinio: subir
Egeu Laus
 

Spirito, sugiro colocar a frase direitos autorais como texto de créditos da foto e não na legenda.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 24/4/2007 22:40
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Spírito Santo
 

Já coloquei, Parceiro!

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/4/2007 22:44
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