Cruzando o saguão

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O Theatro visto da Praça (imagem retirada do site http://www.online.br.com/)
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Débora Medeiros · Fortaleza, CE
26/2/2007 · 55 · 4
 

Título original - Cruzando o saguão: a voz da rua ecoa no Theatro José de Alencar?

A Praça José de Alencar pode até ter o mesmo nome que o Theatro para o qual empresta o endereço, mas um é bem diferente da outra. O Theatro é silencioso, a Praça está sempre um burburinho de gente; o Theatro é pura ordem em suas transações culturais dentro do calendário, a Praça vive do aleatório das compras feitas pelos transeuntes; pela Praça qualquer um pode passear, no Theatro não se perambula além do saguão.

Bonito, com seu piso de ladrilhos e teto adornado, o saguão acolhe o público, que, dali, só pode espiar a bela estrutura metálica característica do Theatro. Nela, os ferros escoceses de Glasgow, inaugurados junto com a construção em 1910, se fundem aos metais cearenses, agregados depois da reforma de 1918. Através das portas de vidro, o visitante adivinha o jardim projetado pelo Burle Marx, famoso por seus oitis e paus-brasis.

Para desfrutar plenamente de tudo isso, o jeito é participar de uma visita guiada (inteira: R$ 4, 00, meia: R$ 2,00) ou aproveitar a ida a algum evento cultural sediado nas instalações do Theatro.

A equipe de produção, instalada no Centro de Artes Cênicas do Ceará (CENA – anexo com entrada independente pela rua 24 de Maio), afirma que a programação é prestigiada por todos os públicos: estudantes, turistas, populares e membros da classe média e alta de Fortaleza.

O PM Afonso, que atua na segurança do saguão há 8 anos, é de outra opinião. Ele vê um fluxo predominante de turistas e pessoas de razoável poder aquisitivo, acima de qualquer outra categoria de visitantes. Se levarmos em conta que o preço de um ingresso para uma simples visita guiada pesa bastante na maioria dos bolsos cearenses, a observação do policial não é nenhuma surpresa.

Entretanto, a programação gratuita do Theatro é relativamente rica. A ela, todos, em teoria, têm acesso. Então, o que explicaria a predominância de um grupo que forma a minoria no todo da sociedade?

Será que a divulgação dessa programação pode mesmo alcançar a todos? De acordo com a produção, distribuem-se panfletos, são colocadas notícias na Internet (em diversos sites de órgãos públicos e privados, como a página da Secult e a do Informador 144), a programação é impressa e posta à disposição de quem se interessar. Mas quem é que pode acessar a Internet? Quem geralmente recebe os panfletos? Quem obtém a programação impressa?

Os horários em que as atrações gratuitas costumam ocorrer oferecem outra resposta: quase todos são no fim de tarde ou no início da noite, variando das 16h30 às 19h. Ao final dos espetáculos, com o avançado da hora, a volta para casa daqueles que não possuem outra alternativa além do transporte público pode se tornar difícil. É preciso enfrentar a famosa insegurança da área em que o Theatro está situado e confiar que o ônibus para casa passará o mais breve possível.

Atualmente, a incerteza típica das transições de governo é frisada em cada conversa. Com a mudança de Lúcio Alcântara para Cid Gomes, não se sabe nem mesmo quem ocupará a diretoria, quanto mais se os projetos gratuitos continuarão e, caso continuem, se mudarão ou não de perfil.

O importante é que todos os responsáveis, seja lá de que gestão provierem, tenham como objetivo uma democratização cada vez maior do belo espaço que é o Theatro José de Alencar. Que os dois territórios públicos que levam o nome desse grande escritor da nossa terra se tornem cada vez mais afins, com o Theatro invadindo a Praça e a Praça adentrando o Theatro.

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A
 

o teatro invadindo a praça e a praça adentrando o teatro... o pm afonso é de outra opinião... o público que, do saguão em diante, só pode mesmo espiar... olha, texto muito bom, bem elaborado e que se debruça sobre algo pouco comum por estas bandas - acesso aos chamados bens-culturais. no máximo, vejo um ou outro discutindo o preço dos ingressos dos shows de marisa monte, e só. gostei bastante.

só um detalhe: acho que tá faltando um QUEzinho em "seja lá de gestão provierem...", no começo do último parágrafo.

abraços!

Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE 23/2/2007 21:23
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Débora Medeiros
 

Obrigada :) Que bom que gostou. Esse é um tema que eu acho particularmente interessante. Tem coisas que só são públicas em teoria... Sabe-se lá por que.

Obrigada pela crítica construtiva!

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 24/2/2007 00:31
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Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A.
 

Primeiro, obrigada pelo comentário no meu texto já postado a tanto tempo, valeu a colaboração. Interessante a abordagem que faz sobre o acesso ao nosso teatro. Porém, particularmente, nao gosto quando se refere, tantas vezes, ao teatro como "tja". Nao sei, parece resumi-lo a mais um código, nao consigo visualizar bem nosso teatro quando o chama assim. E tb penso que nao pode ser muito compreensível para os leitores que nao sao cearense. É isso. Parabéns pela produção!

Raquel Gonçalves - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza, CE 24/2/2007 23:11
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Débora Medeiros
 

Obrigada pelos comentários! :)

Tentei usar "TJA" só quando fosse focar na parte institucional. Lá na administração, é assim que eles se referem ao José de Alencar. Também acho uma sigla muito feinha, mas pensei que valesse como voz da instituição, não do espaço. É algo a se trabalhar, vou tentar pelo menos ir reduzindo os "TJA" a cada edição.

Quanto a não ser compreensível pro pessoal de fora do estado, não sei... Acho que esse é só um exemplo localizado do que acontece em todo o país: lugares públicos que poderiam ser muito mais democratizados.

Abraços!

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 25/2/2007 10:46
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