Cuiabá 80 Graus

Wladimir Dias Pino
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eduardo ferreira · Cuiabá, MT
30/5/2006 · 94 · 13
 

Lembranças de uma década efervescente que fez toda a diferença para a cultura de Cuiabá (e do Brasil)

As manifestações típicas de uma arte mais urbana surgem em Cuiabá nos anos 80. O mundo já se conectava de uma forma muito mais vibrante e de antenas ligadas em uma perspectiva pré-internet. As informações começavam a circular com muito mais intensidade, uma circulação de idéias e um tesão criativo, uma vontade de fazer muito maior que qualquer barreira, sofrendo as porradas da cultura massificada sob as batutas monstruosas das indústrias dominantes da difusão cultural. Era o tempo das gigantes.

A década de 80 foi uma década riquíssima em rupturas e buscas por novas alternativas. Rock na estrada Br abrindo picadas no sertão brasileiro de parabólicas eriçadas em palhoças explodindo metais para todo lado. Geração 80-Rio-Parque Laje irradiando cores e alegria anárquica, “expressionante!”, como diz um amigo meu. Cuiabá era ponto de muitos encontros e rupturas, importantes para a preparação de um terreno fértil onde antevíamos o surgimento luminar de novas cabeças no decorrer dessa trama caótica. Trouxemos aqui o Aguillar da Banda Performática, vieram poetas marginais, conhecemos Diô, arquiteto carioca, designer, artista gráfico, que agora mora em Barra do Garças (ele acabava de chegar do Rio de Janeiro e fazia parte do movimento da galera da Nuvem Cigana). Arrigo Barnabé e suas Claras Crocodilos no teatro Universitário. Havia aqui representantes de peso na pintura da Geração 80, dois monstros como Adir Sodré e Gervane de Paula. Bandas de rock surgindo e explodindo as garagens, SS, Caximir, Bloqueio Mental, GTW, Kabalah, Alma Negra, BR 364, Nidhog, Lynha de Montagem. O teatro maldito de Chico Amorim e o Grupo de Risco, a genialidade de décadas de Wladimir Dias Pino. Liu Arruda e Chico carnavalizando o escracho cuiabano com suas mais de mil máscaras.

Nos bares do baixo Coxipó respirava-se liberdade e exalava-se criatividade como matriz para um mundo possível, algo que demarcou um período desencadeador de forças que sobreviveram e foram realçadas com toda sua pluralidade. Acontecia aqui uma efervescência que definiu, mesmo que entropicamente, toda uma seqüência de acontecimentos que legitimam essas expressões. Uma contemporaneidade antenada nos mais de mil tentáculos da cultura, da política, da arte, da história.

Em 2006, com o surgimento de várias novas expressões e uma nova geração, o discurso é mais organizado, as ações se voltam para políticas de mercado, políticas públicas de cultura e organizações de classe. Mas o punk não morreu.

Fora os que se foram, a grande maioria das pessoas daquela década estão em franca atividade. Mário Olímpio, produtor cultural e atual secretário de Cultura de Cuiabá, lembra: “Os 80 foram a 120. A vida era divertidamente rápida e a gente pensava que nunca iria acabar. Se bem que, no eterno retorno, não acabou. Abertura política, comício das Diretas, colégio eleitoral, Fafá de Bélem, Tancredo, Rock’n Rio, Mercenárias, Inocentes, Ira, Legião e Paralamas. Em Cuiabá, nas ruas do baixo Coxipó a universidade federal exalava o perfume da contracultura. Caximir, bar do Chico, bar do Léo. Poesia cara trocada por bebida barata. Ateliê livre, Adir, Gervane, Aline e Humberto. João Sebastião. Teatro universitário tinha Pixinguinha. Parece que foi ontem. E foi mesmo”.

Encerro o artigo com os olhos - orbitais sobretudo - da professora universitária mais cult de todos os tempos em Cuiabá, a musa mau di Maurília Valderez: “Adir Sodré e seus caralhos voadores sinalizando e barbarizando o campus da UFMT, Wlademir Dias Pino e muitos outros que faziam parte da galera e também comeram o 'biscoito fino' fabricado pela poesia-literatura-filosofia oswaldianas, traçaram a cartografia dessa cidade-sol, plantada no cerrado. Feito máquina de guerra, invadiram a cidade demolindo seus ídolos. Havia Caximir, que na época tinha Bouquet e fez um grande estrago na cultura dita local/regional, mostrando que o global era aqui. Realizando um tipo de experiência criou-se algo que até então a cidade não vira, não ouvira ou sentira, enquanto conde Bakura com seus dentes afiados sangrava palavras e corpos com sua volúpia. Pura experimentação era o devir-bar Quase 84. Esses visionários que como os animais estão sempre à espreita de algo. Estavam envolvidos com processos de criação na poesia/pintura/literatura/vídeo, e nada a ver com representação e interpretação, e sim com experimentação. Você participou desse banquete devorando suas iguarias? Eu até hoje tenho o sabor dessa festa na minha boca”.

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Fábio Fernandes
 

Como é bom saber o que rolou em outras cidades quando éramos vivos! :-)
Isso é muito bom para quebrarmos a hegemonia-da-nostalgia que o eixo Rio-Sampa ainda detém. Porque todos nos derretíamos nesse calor intenso dos 80 no Brasil.

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 30/5/2006 07:34
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eduardo ferreira
 

é fábio, o brasil de dentro existe. sempre existiu. cuiabá, especialmente, sofreu de isolamento (sem estrada que ligasse com o resto do brasil) por mais de dois séculos. a ligação era feita pelo rio cuiabá.
o tal eixo dominante rio-sampa devia abrir os olhos e (re)descobrir o brasil. a exemplo do overmundo e demais trabalhos que o grande antropólogo hermano vianna vem fazendo.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 30/5/2006 16:35
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Bia Marques
 

E era tanta coisa que a gente ouvia daqui que um dia peguei estrada e fui lá ver o que essa terra doida de gente tão intensa e produtiva tinha pra me mostrar. Confesso, São Paulo deixou de ser prioridade pro meu up grade cultural... Dá-lhe Cuiabá!

Bia Marques · Campo Grande, MS 30/5/2006 18:01
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Rodrigo Teixeira
 

Eduuuu... deu uma saudade doida desta Cuiabá dos anos 80, assim como Campo Grande, aqui no Matão do Sul. Houve um bar chamado Nagibão que foi o berço para muitos artistas q estão hj na ativa por aqui. E nesta época Cuiabá e Campo Grande trocavam mais figurinhas. Espero que com a vinda do Caximir finalmente em Campo Grande no dia 10 de junho esta conexão seja reativada. Estarei lá! abs hermanos

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 31/5/2006 11:58
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capileh charbel
 

certeza rodrigo, vamos misturar esses matos de novo.

capileh charbel · São Paulo, SP 1/6/2006 16:05
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Ana Murta
 

Texto bom é assim: transporta. Valeu Eduardo. Foi muito bom embarcar nessa viagem viva, lúdica e extemporal.

Ana Murta · Vitória, ES 4/6/2006 19:12
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eduardo ferreira
 

a viagem não pára ana, naveguemos.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 5/6/2006 12:38
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Valéria del Cueto
 

Edu
Nada se perdeu. está tudo aí, aqui, espalhado por aí.
Qualquer hora a terra treme e o vulcão entra em erupção novamente.
Ou então dá filhote!

Valéria del Cueto · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2006 22:31
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rendevouz
 

bem...está aí, Cuiabá em verso e prosa!
nossa terra tem mta cultura, tem poucos amantes dela, mas o que aqui residem são viscerais e não nos deixam para tráz. hoje, vejo uma inércia da maioria, nos contentando com o que vem enlatado do sudeste-centrismo. Nada de inovações nem mesmo nada autêntico cmo foi Arrigo Barnabé ou é Caximir, estamos na fase Britsh Band de qualidade (pero no mucho).
muito bom o texto, peço permissão para publicá-lo no meu blog http://www.buszine.blogspot.com lá tratams da cultura, contra-cultura e afins!

apesar da quase pouca idade, vivi grandes momentos desses nas grades de uma adolescente curiosa, rádio no ouvido e revistas a postos!

rendevouz · Cuiabá, MT 9/10/2006 10:20
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eduardo ferreira
 

oi, rendevouz! quando postamos qualquer coisa no overmundo estamos liberando alguns direitos para uso não-comercial. no seu caso não vejo problema nenhum: coloque no blog: cite autoria e a fonte (um jorro de cultura, contra-cultura e mais!) overmundo e grande abraço.

eduardo ferreira · Cuiabá, MT 9/10/2006 21:43
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Dewis Caldas
 

Ainda não consegui pensar em nada para completar meu raciocício e comentar! QUe Belo! Eu, que não sou daqui, entro em profunda nostalgia, levo-me a tuneis de sensações de saudades, algo como ver o o Velho Floyd em Pompeia - que show manignífico - . Parabéns cara. esperamos um continuação? Sim, esperamos.

Dewis Caldas · Cuiabá, MT 10/10/2006 09:53
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amaralnet
 

Edu,deu saudade da intensidade da vida naqueles anos, que não foram dourados, mas que brilho!!!!!!!!!!!!!!!!!
bjs
Vivianne

amaralnet · Florianópolis, SC 6/7/2008 19:49
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adir sodré
 

saudade nao se mata.
mata mata ,moto serra mata a mata.
mata o verde mata o ar .mata o empirico
qualquer ponto é 1 ponto
o futuro é agora
eu ja sabia disso
grande eduardo ferreira
translucido anjo ,inadequado cidadao paras reunioes sérias
justo ,coerrente caminho lisergico de centro - amo seu pai - thiers-guirratingas -tesouros.
rio de janiero
viva glenda
viva andré

balbinos em furia santa

beijos

to aqui

num exilio voluntario

sempre em atraso com as novidades

graças a DEUS E BUDA

adir sodré · Cuiabá, MT 22/2/2009 19:59
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