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Cultura Cínica

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Fabricio Kc · Salvador, BA
28/1/2008 · 43 · 0
 

O filme ‘O meu nome não é Johnny’, da Globo Filmes, tem patrocínio de empresas públicas como Petrobras, BNDES e Banco do Brasil, entre outras. Não assisti o filme e não cabe a mim julgar sua qualidade, mas, antes, lançar um olhar sobre o cinismo que impera no cenário cultural do país, considerando sobretudo as esferas política e empresarial envolvidas na regulamentação da produção e distribuição de produtos culturais audiovisuais.

É cinismo uma empresa privada financiar produtos culturais com dinheiro público (isenção fiscal), mas é algo brutal empresas públicas (empresas cujo controle majoritário é do Estado brasileiro) financiarem empresas privadas (como a Globo Filmes) que, como se não bastasse, amortizam o investimento (da grana pública!!) através da bilheteria paga pelo público. – (O caso do filme ‘Dois filhos de Francisco’, todo pago com dinheiro público e com inserções publicitárias do Bradesco – com a logomarca atual numa época em que ela nem existia – em cenas do filme chega a ser uma agressão).

A Globo noticiou o filme ‘O meu nome não é Johnny’ em todos os seus veículos de todas as formas. Jornais, revistas e programas de TV fizeram do assunto manchete noticiosa. É preciso democratizar a produção, mas é impossível diversificar o conteúdo, portanto, sem pulverizar também a distribuição. Por isso suponho que a internet, com o desenvolvimento da IPTV – e quando tivermos banda larga no Brasil – tornará obsoleta a incipiente TV Digital. O Youtube é hoje o maior difusor de microproduções independentes, e isso é um fato consumado. Os governos deveriam ocupar-se de como tornar esse cenário produtivo e favorável à democratização da produção de cultura e comunicação, pensando e desenvolvendo estratégias públicas de difusão cultural. A revolução da informação está acontecendo, feita por nós, e também a nossa revelia – mas também a revelia do ‘Poder”.

Revoluções trazem novos modelos, e os novos modelos de mercados da informação, da comunicação e da cultura precisam ser regulamentados. Contudo, muitas vezes são os políticos – que não entendem nada do que não seja política – que formulam propostas de regulamentação, e mesmo que especialistas e representantes da sociedade civil participem da discussão, a decisão é sempre dos políticos, que não são especialistas em nada que preste. Agências Reguladoras de Estado são confundidas com Agências Reguladoras de Governo – é cada vez maior a ‘politização’ de setores cujas gerências caberiam mais adequadamente a especialistas técnicos. Em suma, os modelos são decididos e geridos sem o necessário ‘conhecimento’.

A pirataria é, assim, a regulação mais ética e democrática do mercado cinematográfico e fonográfico, por exemplo. Todos nós sabemos que, quando está muito claro que uma lei já não serve a sociedade, é preciso transgredi-la já, e não esperar que ela seja mudada por políticos e lobistas. O que é feito com dinheiro público deve ser acessível ao público, e esse público é ‘todo mundo’, é ‘qualquer um’.

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