Cultura Digital é Cultura Livre?

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h.d.mabuse · Recife, PE
14/12/2006 · 131 · 8
 

Quinta-feira, 06 de dezembro, em meio a uma tarde quente no bairro do Derby, no Recife, o Re:combo aportou na Fundação Joaquim Nabuco para a primeira rodada do debate sobre o tema: “Cultura Digital é Cultura Livre?”, como parte do evento “A cultura além do digital” (a segunda rodada se daria no dia seguinte, no Rio de Janeiro com a presença de Caio Mariano), depois do debate chegamos a conclusão que seria importante a documentação das idéias apresentadas, seja por cristalizarem nossas atenção nos últimos meses, seja como exercício para clarear temas debatidos no dia.

Então vamos lá, antes de mais nada é importante começarmos com a nossa resposta para o questionamento da mesa: acreditamos que a cultura digital é livre na medida em que todos nós (a sociedade) desejamos que ela seja. Mais ainda: acreditamos no potencial de reconstrução constante da cultura digital e no seu poder transformador da realidade social.

Para exemplificarmos o que acreditamos que seja o modelo ideal de atuação dentro da cultura digital para transformar a realidade lançamos mão de um recurso emprestado da ciência: a representação através de uma equação matemática dos elementos envolvidos nesse processo.

É importante notar que não existe aí um rigor cientifico (longe disso!), o uso da fórmula matemática é para tentar organizar os processos mentais dentro da nossa cabeça, e observar, de uma forma estruturada, o que acreditamos que seja o estado das coisas hoje.

a3 + µi = x
a3 significa acesso, autonomia e autoria.
Aqui o foco na nossa equação é o sujeito, o ser humano que é ator nessas transformações que estamos passando. O seu poder de ação é definifo pela combinação dos 3 tópicos citados:

acesso mais irrestrito possivel às redes, não só à Internet, mas às redes de convívio social, escola, familia, trabalho, esse cenário é construído com ferramentas que vão do acesso à Internet nos Pontos de Cultura até as Lan Houses de periferia de R$1,00 / hora, passando por ensino em tempo integral.

autonomia para produzir informação, arte, cultura. E através dessa autonomia, ter instrumentos para propagar mudanças na realidade, isso passa pelo ensino de linguagens de programação para que cada vez mais jovens possam recombinar a sua interface com o mundo digital e é tambm a autonomia de encontrar saídas fora dos padrões das indústrias de produção em massa. A autonomia para ocupar as ruas.

autoria : o re:combo entende que vivemos numa época em que as amarras da proteção do direito intelectual não atendem mais a uma primeira necessidade do homem, que é ter livre acesso às obras intelectuais.

Esse é um processo vivido atualmente pelos produtores de cultura que sofrem pelo tratamento desigual na remuneracão do seu trabalho, mas tambem é um processo conhecido pela cultura popular, que na sua essência tem trabalhado com conceitos dos mais diversos como a produção coletiva e colaborativa e o sampling. A compreensão da generosidade intelectual como instrumento para distribuicão do seu trabalho é um padrão seguido naturalmente pelos cantadores de feira com o orgulho de serem “sampleados” por outros cantadores mais famosos; Fazemos nossa a frase de Bakunin: “A Liberdade do outro amplia a minha ao infinito”.

µi significa micro-indústrias
Entendemos que a pirataria é um reflexo negativo da propriedade intelectual hoje em dia. Só isso.

Para falarmos sobre as micro-indústrias precisamos refletir sobre o seguinte ponto: para que de fato serve a indústria? Para atender a demandas de massa por determinados produtos de consumo. No momento em que não há demandas de massa por determinados produtos, podemos dizer que não há necessidade de manutenção e fortalecimento de uma indústria nos moldes atuais. Há sim o surgimento de pequenas indústrias, voltadas a atender as necessidades de pequenos nichos.

Pequenas indústrias atendendo a pequenos nichos de pessoas interessadas em determinadas áreas, agentes produzindo independentemente da "visualização" ou pretensão em fazer parte deste cenário.

A exemplo, podemos citar o surgimento de novos autores, que vêm se firmando no mercado única e exclusivamente graças à disponibilização de conteúdo via web. Este fenômeno, por exemplo, nos mostra que há proveitos a serem tirados desta nova ferramenta de distribuição e produção de conteúdo por uma série de pessoas que nunca estiveram ligadas à indústria ou se imaginaram autores algum dia. A exemplos, podemos citar os blogs, fotologs, flickers, net labels e afins produzidos por uma série de pessoas que jamais imaginaram que um dia produziriam algo protegível por direito de autor.

Do ponto de vista prático há uma série de novos autores que querem que suas obras fiquem disponíveis na internet - procurando inclusive meios legais para que o acesso seja legítimo e a cadeia de direitos autorais e conexos seja respeitada no âmbito da utilização da obra.

No entanto, enquanto discutimos as pessoas estão criando e re:criando novos modelos de negócio relacionados a esta realidade ou desenvolvendo novas culturas relacionadas ao meio digital que ultrapassam o objeto da discussão ora observada. A realidade é que, enquanto discutimos saídas legais ou modelos de negócio viáveis para solucionar estas questões, a dinâmica do fato social sobrepõe-se a qualquer definição que venhamos a criar ou aceitar como consenso.

a3 + µi = x
Por fim, qual o resultado dessa equação? Essa é uma pergunta que, para nossa felicidade, continua em aberto, uma lacuna para que nós mesmos possamos preencher com as nossas soluções e combinações emergentes.

Mas para encerrarmos o texto de um modo mais didático podemos dar dois exemplos atuais desse fenômeno:

a) o teconobrega do Pará: através da produção autônoma dos compositores do tecnobrega, em pequenos estúdios com a distribuição por conta da micro-indústria de CDs “pirata” (termo que não se aplica a esse genero, onde não há outra distribuição “oficial”), o artista lota apresentações na sua aparelhagem, realimentando o processo de criação

b) a cobertura jornalistica das ultimas manifestações populares em Oaxaca, México. Em meio a uma crise política de proporções inéditas desde o levante Zapatista em Chiapas não tinha se visto nada como em Oaxaca, e se dependessemos do mercado de notícias das grandes redes de comunicação continuariamos sem ver nada, mas os fotógrafos que tiveram acesso, autonomia e empenharam sua autoria num caráter jornalístico das manifestações utilizaram todos os meios possiveis, inclusive a micro-indústria da web 2.0 representada pelo Flickr, para mostrar para o mundo o que está acontecendo lá.
Através desse exercicio acreditamos que um agente (ou conjunto de agentes) com acesso, autonomia e poder de autoria, juntando-se A micro-indústrias emergentes pode modificar a realidade atual da forma que desejar. Na verdade é apenas o início da discussão sobre como podemos manter nossa cultura digital livre.

h.d.mabuse e Caio Mariano

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ronaldo lemos
 

Grandes Mabuse e Caio, excelente ver a contribuição de vocês aqui no Overmundo. Eu estive presente na apresentação do Caio aqui no Rio de Janeiro e ele deixou todo mundo curioso ao mostrar essa equação para a platéia, mas sem entrar nos detalhes. Acho que o texto satisfaz a curiosidade de todo mundo que estava lá no auditório. E vamos nessa. Abs!

ronaldo lemos · Rio de Janeiro, RJ 11/12/2006 23:58
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h.d.mabuse
 

Massa Ronaldo, espero que tenha ficado mais clara agora essa reflexao sobre cultura digital hoje. abs!

h.d.mabuse · Recife, PE 12/12/2006 11:40
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Fábio Fernandes
 

Salve, Mabuse! Eu sou aquele de quem o Joatan lhe falou, está lembrado? Vamos trocar umas idéias por estas bandas...

Fábio Fernandes · São Paulo, SP 14/12/2006 08:53
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Kuja
 

Grande Mabuse! Adorei a formuleta! Há que se lembrar de outro grande, este o von Foerster: na antiga causalidade, A implica em B que implica em A. Na nova (ultrage!), A implica em A!

Kuja · São Paulo, SP 14/12/2006 10:36
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Mitchel Bruno
 

hahaha mto maneira essa equação xP

Mitchel Bruno · Recife, PE 19/12/2006 02:33
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Mitchel Bruno
 

po ronaldo.. soh faltou vc la no recife =\

malditos atrasos nos aeroportos ¬¬'

Mitchel Bruno · Recife, PE 19/12/2006 02:38
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Keila
 

Parabéns pela palestra! Pena que poucas pessoas participem de um evento como esse, não imagino como estudantes e profissionais de de varias aréas não estejam preocupados ou interessado por este assunto.

Keila · Recife, PE 19/12/2006 14:29
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vetorc
 

Oi Mabuse, é o Pedro do www.vetorcultural.com - li a matéria e encontrei muitos pontos de valor, e outros que merecem ser discutidos com o tempo. Disponibilizo o www.vetorcultural.com para qualquer discussão sobre o assunto. Estamos preparando o site para que seja um espaço livre de debates sobre Cultura e Arte. Em breve estaremos funcionando com post de mensagens. Mas você pode enviar qualquer colaboração que será publicada.
Abraços,

Pedro Rodrigues
www.vetorcultural.com
jornalismo@vetorcultural.com

vetorc · Recife, PE 18/5/2007 11:56
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