Cultura Livre: sustentabilidade e autonomia

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Andrea Saraiva · Fortaleza, CE
7/7/2009 · 21 · 10
 

“Eu despedi o meu patrão (...) ele roubava o que eu mais-valia e eu não gosto de ladrão”
(Zeca Baleiro)

Adjetivar a cultura nesse caso não é só figura de retórica. Trata-se de uma atitude, uma posição, uma afirmação, uma forma de chamamamento ao fato. O risco de começar um texto com uma afirmação peremptória, é que possa soar panfletário, “militante”. Pra ser sincera, admitamos que haja a intencionalidade de difundir idéias, de gerar questionamentos e de permitir um outro olhar, novos desenhos. A opção aqui é por uma cultura aliada à economia solidária. Um não solene ao mercado. A neutralidade não existe. Quanto mais em se tratando de cultura.

Antes de entrar no cerne, cabe o recorte de que cultura aqui nesse artigo é tratada no sentido amplo. Que vai desde as linguagens artísticas como música, teatro, cinema até a cultura como bem intangível como o conhecimento, o desenvolvimento de softwares, a metaReciclagem. A própria utilização de ferramentas tecnológicas é cultura, inclusive.

Há várias abordagens, significados, condições ao que possa ser considerada “cultura livre”. Há até os que defendem que não devamos adjetivá-la. No entanto, vou tratar aqui da cultura como possibilidade de emancipação financeira sem o quê não há liberdade. E para entendê-la é preciso pincelar sobre quais paradigmas ela está alicerçada. Como o Estado, os setores privados e terceiro setor, os movimentos a estão tratando?

No setor privado, ela foi devidamente transformada em mais um objeto de consumo. Mais um produto. Mais uma forma de geração de lucros. Aliás, a economia da cultura, economia da criatividade, indústria do entretenimento – como são normalmente conhecidas – movimentam cifras estratrosféricas correspondentes, por exemplo, a mais de 7% do PIB mundial com crescimento anual de 6,3% - superior inclusive ao da economia mundial. Os dados revelam que na Europa a movimentação atinge quase 8% do PIB e nos EUA o maior item de exportação é exatamente o da dita indústria da criatividade. Assim sendo, país a fora a cultura é tratada como uma mercadoria valiosa.

Por outro lado, no setor público, a cultura vem timidamente se erguendo e se configurando de política de governo a política de Estado. Uma grande caminhada, no entanto, será necessária até se firmar como política pública. A luta dos movimentos sequer conseguiu fazer constar o mínimo de 1% da união para a cultura, como preconiza a declaração universal da UNESCO sobre a diversidade cultural e como recomenda a agenda 21 da cultura. Desafios são lançados aos ditos movimentos posto que pode até se ter liberdade sem luta, mas desconheço precedentes históricos.

Partamos, pois, do pressuposto de que o Estado tem a obrigação constitucional do direito à cultura. Mas esse direito tem atingido apenas o setor “produtivo” como empresas, indústrias do entretenimento. Há financiamento de milhões para estes via créditos no BNDES, BNB, dentre outros. E apenas e tão-somente a poucas linguagens artísticas já consagradas como a música e o cinema (audiovisual). Setores como cultura digital, cultura do conhecimento e desenvolvimento de softwares tem que se contentar com editais e/ou prêmios. Ínfimos, diga-se de passagem.

Por falar em editais, o Estado viciou o terceiro setor. O terceiro setor se acomodou. Se há liberdade nisso ainda não estou enxergando. Os editais são valiosos para a democratização, para a transparência, mas essa política apenas atinge a ponta do iceberg. Política de editais tem que vir somado a outras tantas iniciativas que promovam sustentabilidade. Ainda que se ressalve a iniciativa e a boa idéia dos pontos de cultura, este programa carece de um bom suporte à sustentabilidade financeira das entidades que abrigam um “ponto” com fins de romper com essa lógica de dependência e propiciar formas de geração de renda (diferente de lucro, ressalve-se) que garantam autonomia. E autonomia sim é liberdade. E não o “sevirismo” - ato de entregar kits e deixar que entidades “se virem”- tão propalado e difundido e que vários setores tem caído nessa esparrela. O Estado tem mais é que garantir condições técnicas tal qual o que reivindica os que defendem a reforma agrária de que não bastam distribuir terras. Há que se tenha acompanhamento técnico, ferramentas....mandar “se virar” é tentar convencer os que trabalham com cultura a ficarem satisfeitos com esmolas tal qual esfaimados à espreita de migalhas que sobram das mesas fartas do setor industrial.

Daí advém, por dedução, um ponto de fundamental entendimento. O Estado tem se tornado, um investidor no setor cultural. Sendo que está investindo no capitalismo e na perpetuação dessa mesma lógica competitiva, de fabricação de uma cultura mercadológica, de descarte. Por analogia, não é forçoso perceber que a politica pública no Brasil é cúmplice da intermediação e sustentáculo do capitalismo. Manutenção dos “atravessadores” que ganham rios de dinheiro em cima do trabalho de muitos. Sem possibilidade, portanto, da construção de uma cultura que promova liberdade.

Uma boa tendência observada é o que está sendo gestado no âmbito da espontaneidade. Vários grupos de metaRecicleiros, de ativistas da cultura digital, dos desenvolvedores de softwares livres têm trabalhado em rede, formando novos modelos de negócios. O associativismo é um bom exemplo. Muitas cooperativistas têm se formado como alternativa interessante de exercer a cultura livre, de gerar renda. É alento perceber que a cultura pode se transformar em uma atividade econômica. Não de olho no mercado, mas que pode se apoiar na economia solidária, por exemplo. Que funciona com uma lógica diferente do capitalismo.

Aliado a isso existem elementos importantes que vêm causando redefinição de vários quadros antes sacramentados. A internet, a popularização de equipamentos tecnológicos, a economia solidária como alternativa e a cultura colaborativa ensejaram uma gama de transformação no mercado cultural. A título de exemplificação, o setor da música, ao que parece, tem se adaptado bem a novos modelos de negṍ;cios. Tirando a figura do intermediário - industria fonográfica, distribuidores etc., até então o maior beneficiado financeiramente - e comercializando diretamente com seus ouvintes seja em shows ou pela venda direta na internet ou bancas de revistas. Outra boa alternativa são as cooperativas de desenvolvedores de softwares que estão abrindo mão de grandes empresas para se dedicarem a se autorganizar e fazer disso uma forma exitosa de geração de renda.

Daí que lanço muito mais questionamentos do que propriamente soluções. Pelo simples fato de que tudo ainda está por ser escrito, desenhado. Cabe o desafio de perceber: de que forma a economia solidária pode ser um instrumento para viabilização dessas alternativas de sustentabilidade financeira? É possível modelos que tragam autonomia e possibilidade de sobrevivência digna a partir da atividade laboral que não alimente a perversa lógica capitalista?

Tornar o que se gosta de fazer em atividade econômica que forneça condições dignas de sobrevivência, tornar essa atividade prazerosa. Viver do que se produz. Despedir o patrão e trabalhar pra si e para o bem de outrem já é um pouco liberdade.

Passamos da era industrial para a era do conhecimento e este sendo livre terá maiores condições de possibilidades de propiciar sinergias coletivas, da liberdade sair do plano da utopia e se tornar realidade.

A grande questão é romper com os paradigmas. Pois nem as políticas de cultura enxergam na economia solidária uma boa alternativa de sustentabilidade financeira, tampouco a economia solidária enxerga a economia da cultura como atividade econômica. Mas como diriam os nerds, paradigma bom é paradigma hackeado....eis o grande desafio.


Andréa Saraiva – Historiadora, coordenadora da ong ceará em foco: antenas e raizes, implementadora de políticas públicas de cultura com ênfase em socioeconomia da cultura.

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ayruman
 

Muito bom e oportuno.
"Tornar o que se gosta de fazer em atividade econômica que forneça condições dignas de sobrevivência, tornar essa atividade prazerosa. Viver do que se produz. Despedir o patrão e trabalhar pra si e para o bem de outrem já é um pouco liberdade".

Assino embaixo. Abraços e Paz na Terra. jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 8/7/2009 19:55
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Zezito de Oliveira
 

Andreia,
Excelente!!!
Algumas das questões colocada por você, são parte do universo de temas que temos discutido/trabalhado com dezenas de companheiros (as) ligados (as) ao segmento cultural.
Sobre a questão da economia solidária, há uma tentativa de através do consórcio cultural, realizar esta aproximação, mas esbarramos em algo bem parecido com o que você escreveu:
A grande questão é romper com os paradigmas. Pois nem as políticas de cultura enxergam na economia solidária uma boa alternativa de sustentabilidade financeira, tampouco a economia solidária enxerga a economia da cultura como atividade econômica. Mas como diriam os nerds, paradigma bom é paradigma hackeado....eis o grande desafio.
Quem tem elaborado alguns textos interessantes e que dialoga com o seu, é o Alê Barreto.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 9/7/2009 15:04
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Flávia Fontes
 

Interessante, parabéns pela forma como conduziu o assunto!

Flávia Fontes · Macapá, AP 9/7/2009 19:00
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Alê Barreto
 

Andrea, eu gosto muito da idéia "o ótimo é inimigo do bom".

Hoje em dia, o setor cultural, em sua maioria, no Brasil e no mundo, engatinha. Já não é fácil as pessoas da área cultural, como diz o professor e sociólogo José Carlos Durand reconhecerem "(...) que as práticas culturais e os bens e serviços que dela resultam sejam presididos por lógicas de interesse, inclusive e sobretudo o interesse econômico. Tal relutância - mostra a sociologia - nada mais é do que expressão inconsciente de uma antiga e aristocrática reivindicação de prestígio baseada na crença de que o mundo das artes seria, em sua essência mais íntima, o reino do completo desinteresse. Sendo aristocrática, esta é uma postura socialmente excludente, em desacordo com o consenso político contemporâneo que toma a cultura como território por excelência de vivência da igualdade e da fraternidade".

Então, eu acho que dá para sim pensarmos em aproximar cultura com economia solidária. Mas se antes, vier cultura só com economia simples, também é importante e também será um avanço.

É como a inclusão digital. Acho ótimo que seja com software livre, mas entre uma pessoa ser analfabeta digital e aprender a utilizar tecnologia de informação no word, prefiro que ela use o word. Depois ela migra para o software livre.

É a idéia de fome zero: primeiro parar a fome. Depois pensar em comer melhor.

Parabéns pelo texto,
um abraço,
Alê Barreto

Alê Barreto · Rio de Janeiro, RJ 10/7/2009 01:42
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Andrea Saraiva
 

Olá, Ayruman

Precisamente é isso. Não há nada mais prazeroso do que fazer o que se gosta. E é possível. Obrigada pelo comentário carinhoso.

Andrea Saraiva · Fortaleza, CE 10/7/2009 18:46
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Andrea Saraiva
 

Olá, Zezito

Penso que tá tamos amadurecendo pra um debate em nivel nacional sobre essa temática. Algo propositivo feito pq quem faz cultura, sente e entende sua cadeia em 3D. Abraço e obrigada pelo comentário.

Andrea Saraiva · Fortaleza, CE 10/7/2009 18:48
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Andrea Saraiva
 

Olá, Flavia
Agradeço o comentário generoso. Abraço.

Andrea Saraiva · Fortaleza, CE 10/7/2009 18:48
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Andrea Saraiva
 

Estamos num estado tão pré-histórico em termos da relação cultura-economia que quase cheguei a concordar com você.

Considero:
1. Há a ligação entre cultura e lucratividade;
2. O maior benefiado é o capitalismo 9esse sim pre-histórico) na produção btasileira;
3. O Estado deve mudar suas premissas e paradigmas.

A aproximação enter cultura e economia em termos de "governo" no Brasil já existe desde D. João VI que foi um mecenas. De lá pra cá a cultura como fonte de renda foi identificada por setores capitalistas que sugam verba até hoje do governo. Vejamos no setor do audiovisual. A movimentação financeira é estratosférica. Cifras milionárias o que denota que há sim percepção de lucratividade. Sendo que somente uns poucos se beneficiam com isso. Há varias formas de financiamento que privilegia somente as grandes produtoras e distribuidoras. E esses "incentivos" vêm em forma de edital, lei de incentivo e até financiamento do BNDES. Esse é o paradigma atual de política de cultura no nosso país.

O que tratamos aqui é que nem todo mundo pode se beneficiar dessas verbas. Somente "os grandes". No terceiro setor ou em empreendimentos solidários de cultura não há algum tipo de finaciamento que não seja por editais e ou premiações. Repito: ínfimos. Defendo que haja linha de créditos, portanto para os pequenos produtores culturais abrirem salas de cinemas e assim quebrar a lógica mercantil do audiovisual, por exemplo. A esse respeito estou escrevendo um artigo sobre o descalabro da concentração desse mercado. Os dados são gritantes. É uma cadeia produtiva monopolizante, segregacional e concentradora.

Assim, acho que o momento é de mudar o investimento da verba pública. (outros paradigmas). Não se pode aceitar, por exemplo. A empresa ganha recursos da lei de incentivo e ainda cobra ingressos exorbitantes. Ora, pagamos impostos, eles se beneficiam e ainda tempos que pagar ingresso de algo que já financiamos?

Quanto a Inclusão digital, acho que a pessoa pode até aprender seja qual for o sistema operacional que ele use. No entanto, a inclusão digital que valorize a autonomia do conhecimento, no meu modo de ver, só poderá ser sustentável se for com o Software livre. O Estado não tem que estar financiando, portanto, empresas monopolistas que não têm interesse educativos e nem muito menos que promova a quebra do ciclo de dependência. Muito mais vale afirmar que tais empresas que usam softwares proprietários têm mais interesse em nos "viciar" e nos tornar consumidores cativo. Para eles somos apenas e tão-somente seu mercado.

Um abraço e obrigada por suscitar o debate tão premente.

e entre lutar por qualquer coisa, sob alegativa de que não se tem nada, prefiro mil vezes investir

Andrea Saraiva · Fortaleza, CE 10/7/2009 19:14
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Walton Saraiva
 

Fiquei muito feliz ao ler essa maravilha que, por si só, já constitui um tratado cultural. Não deixe que o desânmo tome conta de sua vontade de fazer um país mudar seus olhares para esse universo tão esquecido e desprezado pelo poder público. Fazer cultura começa com quem constrói as raízes culturais: O POVO, no seu dia-a-dia. Fiquei seu fã. Você fala o que eu penso (e a grande maioria, quando lê algo tão in teligente e aprofundado como o que ora comento. PARABÉNS.

Walton Saraiva · Vila Velha, ES 21/10/2010 23:12
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Andrea Saraiva
 

Opa,

Agradeço seu comentário. Creio mesmo que já basta do Estado financiar grandes indústrias e empresas da cultura e apenas designar migalhas para o fazer cultural artesanal, genuíno....

Sugiro leitura de outros artigos "Economia Viva e solidária: alternativas de fomento: http://www.overmundo.com.br/banco/economia-viva-e-solidaria-alternativas-de-fomento "

"Economia colaborativa nos cineclubes: http://www.overmundo.com.br/banco/economia-colaborativa-nos-cineclubes "

"Por uma política digital: Cinturão Digital:
http://www.overmundo.com.br/overblog/por-uma-politica-digital-o-cinturao-digital "

Abraço,
Andréa

Andrea Saraiva · Fortaleza, CE 25/10/2010 23:27
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