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CULTURA NÃO É ENTRETENIMENTO

http://intermidias.blogspot.com/2007/06/cultura-em-pedaos-ou-cultura-dos-snacks.
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Luiz Geremias · Brasília, DF
11/6/2008 · 76 · 9
 

Muito tem se associado a cultura ao entretenimento. Aliás, tem sido comum resumir cultura a entretenimento, como se a cultura fosse passível de ser entendida como um boteco com música ao vivo, uma casa de shows ou a ir “atrás do trio elétrico”, isso sem falar, no campo literário, dos famigerados best-sellers e dos doutores em conceituações simplórias e enviesadas, tão comuns no meio jornalístico. Entretenimento é distração, é diversão, é divertimento, é abobrinha. Cultura é outra coisa.

Diversão é, para Antônio Houaiss, “algo que serve para divertir”, mas também, “diversionismo” – aquela manobra de manipulação política que consiste em discutir o que não é importante para ocultar o importante – e, em um uso militar, explica o filólogo, significa uma “ação que tem a finalidade de desviar a atenção do inimigo”. É interessante ligar esses três sentidos e imaginar que o regozijo da diversão pode ser, então, algo extremamente prazeroso, mas não exatamente para mim: se me divirto muito, é possível que alguém esteja se regozijando muito mais com isso.

Gargalhadas deprimentes
É muito boa a explanação de Michel Maffesoli sobre as divertidas e sensuais tribos urbanas e seu grande corpo coletivo, vivenciado nos shows musicais, nos festivais e nas comunidades simuladas dos bares, na potencialidade revolucionária da orgia e outras idéias barrocas. Muito boa mesmo. Divertida, inclusive. Mas, fica um sabor algo amargo quando é possível observar a forma de vida de quem leva a sério essa idéia de se divertir o tempo todo.

Veja-se a cultura underground. Tome-se essa utopia divertida. Eternos jovens protagonistas de frenéticos embalos, animadas e “culturais” discussões entre cervejas, drogas à vontade e sexo fácil, tudo embalado ao som do “velho e bom” rock’n’roll. Jogos de palavras e ornamentos estéticos acabam com a função de ocultar a absoluta impotência política. Isso, sem dúvida, é diversão.

Enquanto se “curte” alucinadamente a cultura do sexo, drogas e rock’n’roll, há quem se divirta muito mais. Há quem empresaria os grandes astros que divulgam os modismos culturais. Há quem movimenta os aproximadamente U$ 500 bilhões que circulam no comércio das drogas (e que ninguém venha me dizer que essa grana está nas favelas cariocas). Há quem produza, distribua e venda a bebida alcoólica, notadamente a cerveja, cuja maciça publicidade consegue surpreendente sucesso, mesmo (ou talvez por isso) interpretando seu target como composto apenas de idiotas pândegos e babões. Há quem lucre ao transformar a vida numa triste gargalhada.

Infelizmente, porém, essa bazófia não é apanágio apenas de roqueiros, head-banglers (os “batedores de cabeça” do chamado heavy metal) ou punkecas: há também os “pagodeiros mauricinhos”, os cultores daquilo que se convencionou chamar de axé music e outros tantos. Como se diz na linguagem coloquial, todos farinha do mesmo saco.

Transformar para cantar
Cultura não é entretenimento. Há uma inevitável angústia na vivência cultural. Mente todo aquele que nega sentir um insuperável incômodo ao contato com qualquer notável produto artístico. Do mesmo modo, não há quem consiga sair ileso de um diálogo no qual uma idéia completamente nova é apresentada. Uma idéia inédita e sagaz é capaz de tornar toda a nossa construção sobre identidade ou “visão de mundo” incomodamente obsoleta e esdrúxula. Até mesmo nossos desejos se tornam empoeiradas peças de museu quando nos defrontamos com o dissenso inteligente.

O contato com a cultura é devastador e, definitivamente, não combina com “ficadas”, cervejadas, cocaína e axé music, muito menos com o surrado, repetitivo e nada criativo rock’n’roll. Cultura não é diversão, não promove a mediocridade. Não quer desviar a atenção, não almeja o diversionismo.

Isso não significa que a alegria e a festividade não possam compor a vivência cultural. A festa é culturalmente orgástica quando oferece efetivamente uma representação da vitória do brilho contra a escuridão, da sabedoria e do vigor contra a estupidez e a impotência. A cultura não é feita para divertir, mesmo quando é divertida. Quer ir além disso: pretende incomodar, transformar, chamar à responsabilidade de um compromisso com a vida. Assim, o divertimento é o tempero da mensagem, não a mensagem.

Talvez o dito que melhor expresse como se dá essa relação nos seja dado pelo poeta russo Maiakovski. Ele escreve, no poema “A Sierguéi Iessiênin”: “Primeiro, é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida”. É por isso que na fábula da formiga e da cigarra, a formiga tem inobscurecível razão. E é por isso, também, que entender cultura como entretenimento é sinal de inescrutável burrice ou de insanável má-fé.

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Nic NIlson

Cara, taih, sempre pensei assim. Divertimento eh divertimento e cultura tem que ser algo mais intrinseco, duradouro, que transforma...
Valew

Nic NIlson · Campinas, SP 11/6/2008 11:19
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Helga Rackel

A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente. (T.W. Adorno)

Inversão dos conceitos é ópio do povo!
Bons argumentos, ótima crítica. Votado!

Helga Rackel · Fortaleza, CE 11/6/2008 12:17
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Paulo Esdras

Os nossos meios de comunicação "vendem" a simples diversão como cultura. O tempero mencionado é um atrativo e as obras culturais podem sim trazer prazer, mas não um prazer passageiro e efêmero.

Paulo Esdras · Brumado, BA 11/6/2008 17:51
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Andre Pessego

Também, acho que voce está certo. Nada há de cultural que não possa ser sorvido por uma pessoal individualmente, a sós. Nada.
O teatro antes não não; um sxhou de música não; a estreia de uma orquestra também antes não. Tudo isto hoje é possível.
bacana
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 11/6/2008 23:55
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Gustavo Bruno

provavelmente sua vida é muito chata...

Gustavo Bruno · Divinópolis, MG 12/6/2008 00:42
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Ize

Olá Luiz Geremias, cá estamos nós nos encontrando de novo, só que dessa vez discordo de sua visão um tanto ou quanto reducionista dos efeitos alienantes do entretenimento. Bem como não me afino com sua concepção de cultura. Entre os produtos da indústria cultural (que convenhamos não se restringem ao que vc elencou) e a recepção dos mesmos há um sem fim de mediações culturais que resignificam o consumo. Acho que em algum postado por aqui vc já manisfestou que não concorda com a abordagem de Canclini e de Martin-Barbero sobre consumo cultural. Como eu, por minha vez, tb não me afino muito com Mafesoli, trago então a posição de Benjamin que nos ajuda a pensar o entretenimento de forma menos mecânica, sem esquecer que ele não pensou as questões que nossa contemporaneidade nos coloca, mas pode nos auxiliar a enfrentá-las, rejeitando a posição dos frankfurtianos de que a Arte e a Cultura seriam indsipensáveis ao "esclarecimento" das massas. Como diz Benjamin no conhecido "A obra de arte na época de sua eprodutibilidade técnica": "Pensar a experiência é o modo de alcançar o que irrompe na história com as massas e a técnica. Não se pode entender o que se passa culturalmente com as massas sem considerar a sua experiência".
Um abraço

Ize · Rio de Janeiro, RJ 12/6/2008 02:36
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Luiz Geremias

Cara Ise. Já sabemos que temos percepções diversas sobre cultura. A discussão é vasta e o texto publicado acima é apenas uma provocação que intenta gerar uma reflexão e, é claro, uma discussão. Contrapõe duas referências, apenas isso. Um texto com um tamanho pequeno não tem como ser muito abrangente, acaba sendo um pouco reducionista. No entanto, o vértice é esse. Simpatizei com o livro “Consumidores e cidadãos”, de Canclini, também com o do Barbero, mas creio que é hora de formular uma compreensão macropolítica, o que, me parece, falta nesses e em outros autores. Há um Império que dita suas normas, DITA, não sugere – e chegam a ser risíveis as abordagens que põem num mesmo patamar o Império e a Multidão. A “revolta” de Benjamin com seus colegas era justificadíssima pela abordagem um tanto reducionista – não em textos pequenos como esse – de Adorno e sua turma (que mesmo assim tiveram uma importância inaudita). A batalha me parece micropolítica, mas com um referencial macropolítico. Baseado nesse princípio escrevi o texto acima. Quem disse que a Arte e a Cultura seriam indispensáveis ao “esclarecimento” das massas foram Adorno e Cia e vc, não eu. Esclarecimento? Tô fora. Não sou iluminista. Abraço.
Caro Gustavo, não me tome por seu espelho.

Luiz Geremias · Brasília, DF 12/6/2008 12:06
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Luiz Carlos Garrocho

Luiz,

Não colocaria a oposição entretenimento X cultura. Até porque um conceito mais ampliado de cultura incluiria as formas de lazer, diversão e entretenimento.

Adorno pode ver a indústria cultural daquele jeito. Via no Jazz a degradação da música.

Mas é justo a máquina social que cria tais oposições: trabalho X lazer.

Não precisamos ir de volta a um passado idílico para ver que diversão e trabalho andaram de mãos juntas, cooperando entre si. O capitalismo trouxe a novidade: o trabalho é uma coisa, o lazer e a festa outras. Veja bem: o próprio capitalismo avança sobre as áreas de criação, faz delas sua produtividade. A cultura não se separa da diversão de modo tão simples...

Que possamos, nós militanes estético-culturais (para lembrar Nietzsche), não nos submetermos também à lógica que transforma tudo em diversionismo. Mas isso é outra coisa...

E o rock? E a festa do boi da manta? E o congado? E as artes da sedução no Japão antigo? E o lance de soltar pipas? E os brincantes do Recife? E os encontros no meio da rua, em plena noite urbana de sábado, em Belo Horizonte, dos apaixonados pela Soul Music, com uma caixinha de som ligada, rolando um clima fantástico? Quem pode dizer que isso não é cultura? E quem pode dizer que isso não é diversão?

Luiz Carlos Garrocho · Belo Horizonte, MG 13/6/2008 09:52
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Luiz Geremias

Caro xará,
Pensei ter deixado claro que a diversão compõe a vivência cultural.
Sei bem da noção de Adorno, até comentei acima – para a Ise – que o Adorno teceu considerações reducionistas, como essa do jazz, embora tenha sido muito importante no percurso do desenvolvimento do pensamento crítico. Me parece que ele trazia consigo uma tradição marxista muito ortodoxa, que rangia os dentes para as festas.
Com relação à díade trabalho x lazer, perfeito. O pessoal ligado ao Deleuze compreende que até um certo momento da história havia um sentimento de “imanência”, que conjugava o corpo e a terra, perdido com a civilização ocidental.
Quanto ao rock, o primeiro item que vc cita como ligação entre cultura e diversão, sou muito crítico. O rock tem suas raízes culturais lá na metade do século XX, mas quando a mídia de massa o capturou perdeu esse vínculo. Essa captura não ocorreu à toa, foi um das estratégias de produção de um ethos propício para o estabelecimento do capitalismo tardio – com fundamentações na vivência do entretenimento. Já escrevi, aqui, sobre isso e estou com um trabalho pronto especificamente sobre o tema para publicar – é um trabalho extenso.
De todo modo, mesmo com relação ao rock e com relação às outras festas citadas, cabe ver como cada grupo ou indivíduo vivencia isso. Na minha experiência com alguns grupos sociais que “curtem” o rock, por exemplo, percebo que há diversão, no sentido proposto no segundo parágrafo: muito mais mediocridade do que imanência.
Abraço

Obrigado a todos pelos comentários.
Abraços e tudo de bom.

Luiz Geremias · Brasília, DF 13/6/2008 10:18
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