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CULTURA POPULAR

OSVALDO BARRETO
1
Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE
18/4/2007 · 183 · 10
 

Partindo de uma acepção de cultura no sentido mais amplo possível - ou seja, cultura não só como o produto ou construção cultural, mas também as relações e as diversas maneiras de pensar realidade – chegaremos a uma primeira conclusão inequívoca: toda cultura é , por definição, popular.

Expliquemos melhor. Popular, segundo o Aurélio, guarda cinco possíveis variantes, sem que , entretanto, nenhuma delas lhe esgote o conteúdo em definitivo. Vejamos:
Popular
1- Do, ou próprio do povo;
2- Feito para o povo
3- Agradável ao povo, que tem as simpatias dele;
4- Democrático;
5- Vulgar, trivial, ordinário, plebeu.
Infere-se que o adjetivo popular, quando adotado em parceria com

o vocábulo cultura restringe, aparentemente, o teor desta, toldando-lhe a própria abordagem conceitual. Em outras palavras, podemos situar cultura popular apenas como uma cultura relacionada ao povo. A palavra povo , por sua vez, possui diversas implicações ideológicas. Pode-se compreender povo como nação e até mesmo ,como querem alguns, como sinônimo de plebe ou simplesmente multidão.

Ora, o mais usual, quando nos dirigimos à expressão cultura popular, é um olhar tencionando desprestigia-la, isto é, torná-la mais próxima de cultura proveniente das classes menos favorecidas ( não que estas sejam desmerecedoras, apenas não é o caso ).

Essa observação, porém, é uma das muitas falácias próprias ao terreno movediço de quem lida com arte no seu cotidiano. Separar uma cultura popular de uma lendária cultura de elite é seccionar algo naturalmente atomizado.

Não existe cultura impopular, ou pertencente a uma única casta ou estamento. Por mais que se equipare o termo popular ao seu viés plebeu ou vulgar, não subsiste cultura sem adesão de uma parcela significativa do meio social. Isto porque o próprio pensar é impregnado de fatores e substâncias histórico-sociais, as quais operam na formação cultural e implicam aceitação tácita de costumes e valores que permeiam as populações politicamente organizadas .

Há, em qualquer criação cultural, algo de subjacente que lhe delineia as formas e lhe estabelece “limites”.O ato de criação cultural, por conseguinte, não está livre de intercâmbios e trocas, pois não se isola o criador de influências externas. O todo se sobrepõe à parte.

Assim, a cultura pode tomar esta ou aquela direção , mas sempre deverá seu respaldo a uma fatia indefinida do todo social pois terá sempre origem nos “ andrajos ” sociológicos de um povo.
A cultura popular , em verdade, mistura-se com a própria noção inesgotável de identidade nacional.

O teatro, por exemplo, dentro da atual conjuntura brasileira, encontra-se cada vez menos acessível a maioria da população. Podemos dizer que trata-se de cultura menos popular por este motivo?

Não, se entendermos o povo como os entes nacionais e a cultura como algo diverso do seu veículo.

A cultura sempre privilegia a democracia, pode-se configurar uma nação a partir dos vínculos culturais que untam os diversos segmentos de sua pirâmide social. Os veículos, não obstante, podem ser mais ou menos populares, de acordo com a dimensão que atingem em relação ao meio populacional.

Um objeto de arte, em si mesmo, como produto cultural, tanto pode servir a esta ou aquela camada da população. Se exposto graciosamente, temos uma repercussão. Se em exposição num museu, posto que se cobre um ingresso, temos uma menor acessibilidade. Mudou o veículo, o intermediário. Porém, não se perde , na alteração de um veículo para um outro, a sua essência popular. Afinal, ocorreu a intenção de se exteriorizar uma idéia ou conteúdo ideológico, determinado por uma demanda difusa, independentemente do alcance.

Quando se pensa cultura, não se pensa em se formular algo inatingível pois do contrário não há veículo disponível. Os veículos, entendidos como os meios ou instrumentos adequados ao livre trânsito cultural, são nutridos a partir de um planejamento segmentado. Podem portanto, se dar ao luxo de serem mais ou menos populares, ou até elitizados.

A cultura, por seu turno, traduz sempre algo que conecta criador e criatura. Logo, um poeta escreve um verso assim como um legislador formula uma lei. No intuito de exteriorizar, verbalizar, desenhar traços culturais, cujo matiz ideológico pode se aproximar mais deste ou daquele segmento pensante do todo social. Sem nunca , entretanto, despojar-se completamente de vínculos viscerais de afinidade com o aglomerado populacional no qual ( ou para o qual ) é forjado. Apenas para frisar, em cultura, há sempre o braço do grupo social maior orientando as mãos do criador.

O principal veículo de um escritor, por exemplo, é a palavra. A linguagem portanto determina se aquele conteúdo vai ser mais ou menos difundido, mas uma vez concebido em determinado idioma, por um autor desta ou daquela nacionalidade, o texto se incorpora definitivamente ao patrimônio cultural daquele conjunto de cidadãos.

Logo, chegamos a duas conclusões basilares. Um estado para fomentar, de modo positivo, a sua veia artística popular, não há de se preocupar com a criação em si, mas primeiramente com os veículos através dos quais esta ou aquela manifestação é absorvida. Assim, a cultura gerada no seio deste ou daquele estamento deverá atingir os recantos mais impensáveis, culturalmente falando, desde que se abra atalhos e fendas por onde esta possa trilhar com segurança. Daí, a importância de estruturação e regulação de veículos, para que todos eles assumam a sua postura participativa e o seu comprometimento com a divulgação cultural abrangente.

Por outro lado, o pleonasmo cultura popular nos serve de anteparo no caminho de uma cultura mais resguardada de influências vis e de dominação. Auxilia-nos nas veredas sinuosas de um mosaico cultural inerte ou não engajado. E por fim, desperta a consciência dos artistas, políticos, líderes e formadores de opinião para aquilo que é o próprio sustentáculo de uma nação: a sua diversidade cultural.

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FILIPE MAMEDE
 

Fala Marcos, quanto a diagramação do texto, seria bom dar um "espaço" entre os parágrafos. Isso facilita a leitura e não cansa a vista. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 16/4/2007 10:07
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FILIPE MAMEDE
 

Sobre esta celeuma que envolve o conceito de cultura, um texto que vale a pena ver é, Apocalipticos e Integrados, onde Humberto eco "propõe a divisão" da cultura em categorias. Excelente reflexão. Abraço.

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 16/4/2007 10:23
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Marcos André Carvalho Lins
 

valeu a dica, filipe.
grande abraço,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 16/4/2007 10:59
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Viktor Chagas
 

Oi, Marcos.
Acho que pode ajudar na sua reflexão incorporar algumas das idéias do Chartier sobre cultura popular. Não sei se você já leu um artigo dele chamado "Cultura popular: revisitando um conceito historiográfico" (o link leva ao resumo, o texto integral pode ser baixado em PDF da Revista Estudos Históricos, no site do Cpdoc). A idéia que abre o artigo é, no meu entender, espetacular. Demolidor, ele já começa dizendo que cultura popular nada mais é do que uma categoria erudita! :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 16/4/2007 15:51
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Marcos André Carvalho Lins
 

muitíssimo obrigado pelo link!!
abraços, viktor.

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 16/4/2007 16:31
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Egeu Laus
 

Obrigado, Viktor, vou lá tb. dar uma lida...

Marcos, o MinC tenta atualmente esta mudança de paradigma, deslocando o foco de seu incentivo para o público (o "cidadão beneficiário" segundo alguns ou o "consumidor' segundo outros).

Lançar luz sobre a "outra ponta" dessa cadeia produtiva talvez possa incentivar o surgimento e fortalecimento desses veículos.

Como você sabe, os "produtores" (melhor dizer os empresários) depois que recebem sua remuneração, diminuem um pouco o interesse em saber se realmente seu trabalho está chegando ao público.

Foi o caso, por exemplo do cinema brasileiro na época da Embrafilme. Os produtores eram pagos para produzir filmes; se eles seriam assistidos ou não, já não era mais de sua alçada.

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2007 03:38
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Egeu Laus
 

Dizem que foi daí que surgiu a expressão "o diretor é genial, mas o filme é uma merda"... : ))

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 18/4/2007 09:24
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Marcos André Carvalho Lins
 

obrigado pelos comentários, Egeu!!
abços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 18/4/2007 13:40
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Marcelo V.
 

Egeu, a história é um pouco mais diferente: a Embrafilme investia, mas os produtores deveriam pagar depois (se pagavam ou não, é outra história); hoje a coisa é bem pior, porque o produtor capta recursos com leis de incentivo via renúncia fiscal (ou seja, o Estado deixa de receber impostos, e os produtores precisam passar o chapéu nas empresas, ficando à mercê de seus diretores de marketing; se der sorte, consegue fazer o filme, que se paga antes do lançamento e não depende muito da bilheteria _isso quando os mesmos são lançados ou conseguem entrar em mais de uma sala ou ficar em cartaz por mais de uma semana...).

Marcelo V. · São Paulo, SP 18/4/2007 17:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Pedro Vianna
 

Grande texto. Abordou muito bem o tema.
Aproveite e leia: http://www.overmundo.com.br/banco/suite-206

Pedro Vianna · Belém, PA 19/4/2007 18:22
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