Cultura popular virou ração?

Robson Araujo
Nem porco come ração...
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Robson Araujo · Campina Grande, PB
6/2/2008 · 203 · 17
 

No passado, em vários Sítios Rurais e Cidades do Seridó e do Curimataú era possível encontrar manifestações culturais convidativas e bem freqüentadas. Existia uma agenda oculta que era passada de boca em boca. Com o passar do tempo, das secas, da influência da mídia e do incentivo de festas com atrações fabricadas por empresários, a nossa expressão cultural foi embotada, engolida por práticas políticas inadequadas e que muitas vezes deixam de lado nossas próprias tradições.

De acordo com pesquisa sobre a cultura realizada pelo IBGE (2006), dos mais de 5.000 municípios brasileiros, apenas 13 municípios (sendo 01 da região Nordeste) procuram garantir a sobrevivência das suas tradições culturais.

Na Paraíba, nenhum município colocou isso como o principal objetivo da secretaria municipal. Nossos próprios representantes culturais (quando existem) estão desatentos com a preservação de nosso produto mais autêntico, aquele que aprendemos na vivência de nossos antepassados.

Das formas de expressão popular abaixo, qual você viu ou participou na sua cidade ou sítio nos últimos 12 meses?

• Aboios (aqueles do dia a dia, ou concursos de aboio);
• Repentistas e Tocadores de Viola;
• Novenas [daquelas que depois tinham os Botequins, Leilão, comes e bebes e forró. Como faziam o Euclides Clemente (Sítio Navio) e o Basto Cesário (na Baixa da Nega)];
• O autêntico Forró do Sítio [Dudu Galvíncio (Sítio Pedra Branca) e mais antigamente dos Caboclos da Serra Baixa]; As Graciosas em Pedra Lavrada e Nova Palmeira.
• Quadrilhas, corridas de saco, corrida de jumento, ovo na colher, pau de sebo, fogos, pular fogueira, padrinhos de fogueira, etc.
• Campeonatos de Argolinha (cordão encarnado versus cordão azul)
• Farra do Judas na Semana Santa (de madrugada), vários Sítios ainda fazem;
• Vaquejadas, antigamente a do Zé Chagas no Lagêdo (que tinha um Bolão de Vaquejada),
• Farinhada nas Casas de Farinha (beijus e tapiocas, medir força na prensa à luz de candeeiros);

O que está acontecendo com nossas tradições culturais? Existem novos mecanismos de expressão popular? Será que nosso povo não se expressa mais? A verdadeira arte nunca rompe completamente com o passado, segue fazendo uma leitura do presente e criando possibilidades para se adaptar às gerações futuras. Avalie se sua comunidade está seguindo este caminho.

A regra das tradições populares está pautada na comunidade que se junta para organizar seus folguedos. Todos trabalham e todos se divertem. Mesmo nas festas em que poucos trabalham na organização, tanto o trabalho durante a festa e o divertimento dos pares termina sendo dividido. O problema não está em que faz, mas na forma passiva de se participar das festas. Sem trabalhar na organização ou na apresentação de algo, a participação do povo acaba por ser de expectador e não de agente da cultura local. O que nos faz concluir que muitas das festas atuais não dão espaço para o povo se expressar.

Por outro lado, mesmo reforçando a cultura de prateleira, em alguns estados e cidades os locais de tradição cultural são tombados como patrimônio histórico, enquanto que em nossa região esses locais são apenas esquecidos e extintos.

Nossos dirigentes municipais de cultura estão mais preocupados com Feiras de Artes e Artesanato, Feiras de Livros, de Agropecuária e de Moda. Claro, de acordo com o IBGE, na Paraíba, 96% responderam que não têm secretaria municipal de cultura, os dirigentes trabalham subordinados a outra secretaria do município, sendo que apenas 47,9% possuem sua própria Política Municipal de Cultura.

Cerca de 80% dos dirigentes municipais de cultura possuem Nível Superior e/ou Pós-graduação, o que pensam essas pessoas sobre a cultura popular local? Não é só a de falta apoio dos prefeitos, mas sim a falta de uma política de valorização da cultura através do apoio aos nossos pares e conterrâneos mais autênticos.

Precisamos de projetos culturais integrados que atendam às necessidades de expressão popular. Ou seja, ações que fomentem a integração social através do saber e da prática popular. É o contato direto com o povo que fortalece a cultura, pois é ele que sabe contar sua própria história. Assim, não é suficiente que se criem grupos de terceira idade com atividades isoladas de promoção de saúde, mas, que eles sejam agentes culturais fomentadores dos eventos locais. Desse modo, teremos resultados que irão além da busca pela saúde física, porque também cuidaremos da saúde mental e espiritual.

A rua é nosso palco, chame alguém para ver a banda passar. Cadê a banda? Como se pode apoiar uma cultura popular local se as pessoas de lá nem sabem que folguedos são comuns na história de seu povo? Antigamente, as pessoas saíam de um município para outro a fim de “brincar” daquele jeito alegre que as pessoas do outro município sabiam fazer.

Se não cuidarmos de nossa diversidade cultural agora, vamos transformar o nordeste em um saco de gatos, perderemos todas as nossas tradições locais. Li um artigo muito interessante intitulado “Pelo fim do nordestino” que nos leva a uma pergunta interessante: porque carioca é carioca, mineiro é mineiro, paulista é paulista e capixaba é capixaba? Enquanto que paraibanos, pernambucanos, potiguares, cearenses, baianos, sergipanos, alagoanos, maranhenses e piauienses são todos nordestinos... Não poderíamos chamar os outros de sudestinos?

E continua:
“Esse termo, tão usado, tão comum, o “nordestino”, alimenta a preguiça em relação a pensarmos melhor o nosso País, conhecê-lo o mais de verdade possível, sem colocar “aquele amontoado de estados pequenos”, seus povos e culturas, sotaques e costumes, na mesma categoria: “Os nordestinos”.

Aliás, porque chamar de cultura popular e não brasileira? Se o que faz do brasil uma riqueza cultural são as nossas diferenças, então façamos força para mantê-las autênticas! Vamos voltar a admirar as diferenças dos vizinhos e fomentar internamente algo que seja só nosso, um legado. A Paraíba sendo um dos quatro menores estados do nordeste, sempre teve uma expressão muito forte no cenário da cultura nacional. Essa tem sido uma contribuição de cada município, cabe-nos controlar mais as influências do mercado cultural massificante.

“Vamos fazer um tirinete
sair dessa pindaíba
ligeiro que nem coceira de preá,
frexêrar na cultura da Paraíba!”

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Ester Charmeira
 

Robson!
Parabéns pelo artigo! Gostei muito e achei sua colocação fundamental para os dias de hoje. Espero que o seu texto provoque muitas pessoas!
Você poderia me passar o link da pesquisa do IBGE?
Obridada!

Ester Charmeira · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2008 18:30
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Zezito de Oliveira
 

Robson,
O seu texto é bastante pertinente e dialoga com o que escrevi há pouco tempo. Importante trazer o tema "cultura popular" para a discussão para pensarmos estratégias de enfrentamento para as tentativas de destruição da diversidade cultural.
Que coisa mais horrivel vivermos em um planeta de cultura "global".
Abraço

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 6/2/2008 19:22
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Adroaldo Bauer
 

Sempre fiz questão de dizer que sou piauiense (onde nasci e vivi um ano e um mês) e que lá é terra de moça bonita e de cabra bom no fuzi...
No restante, como parte de uma equipe de gestão cultural no município e no estado aqui, por um período, disputamos o conceito de que popular é a cultura que permanece entre o povo, seja ela dos folguedos ou da academia.
O brasil não conhece o Brasil e não vai ser pela mesmice da tevê que irá conhecer.
Eu acompanhei algumas notas de uma tevê sobre o carnaval em Salvador, Olinda, Recife, e é só imagem aberta de multidão e uma fala oca de repórter querendo se livrar da tarefa em 30 segundos.
Por essa tevê fiquei sabendo que tem uma cantora só na Bahia, a da cerveja e do xampu, menina superpoderosa que deu certo.
Em dez anos de projeto Descentralização da Cultura em Porto Alegre, a comandita dessa rede de bobos deu nenhuma cobertura a qualquer de nossos programas, que reuniram mais de um milhão de pessoas em variadas programações, da dança ao carnaval, da música às artes plásticas, do teatro de rua à Capoeira.
Ração para quem queira, que ficamos aqui com nossas manifestações culturais inteiras, apesar deles e de uns outros paisanos.
Boa matéria, tchê!!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 6/2/2008 20:42
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Robson Araujo
 

ESTER, eu peguei os dados do Perfil dos Municípios Brasileiros - Cultura 2006, fiz um filtro dos dados apenas para o município de interesse, mas no link acima tem os dados de todo o Brasil, além do próprio relatório do IBGE.

ZEZITO, interessante sa matéria, penso que uma boa estratégia é colocar na agenda escolar os costumes culturais de cada local. Isso fará com que as novas gerações mantenham essas tradições. Nessa época midiúnica, fica difícil concorrer com os prazeres televisivos. Nas escola essa briga seria mais justa.

ADROALDO, sonho com o dia em que teremos tantos eventos descentralizados que a TV não dê conta de divulgar a todos. Ou estaríamos muito envolvidos no do nosso município para ver o que ocorre no outro lado da fronteira municipal. Mas isso é utopia, claro. Acho que temos que cuidar do que está perto, deixa que a mídia brinque com o que ela quiser, acaba sendo útil quando não é a única alternativa de ter contato com a cultura.
Com muita atividades e um bom intercâmbio a TV vira facilmente segundo plano, nosso problema está nos locais que as pessoas param tudo pra ver TV. No interior do país isso está cada vez mais sério.

MUITO OBRIGADO a todos pelos comentários. Foram contribuições interessantes.

Grande abraço!

Robson Araujo · Campina Grande, PB 6/2/2008 21:49
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Ester Charmeira
 

Obrigada!!!

Ester Charmeira · Rio de Janeiro, RJ 7/2/2008 09:42
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Paulo Esdras
 

Robson, muito bem escrito e adequado.
Reflexão e atitude é o que precisamos para mudar este quadro.

abraços fraternos,

Paulo Esdras · Brumado, BA 7/2/2008 10:45
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heldi dantas
 

Mais um grito consciente que ecoa no overmundo. Um alívio para todos nós. Salve, salve, nossa cultura. votei e pena não poder votar mais vezes.

heldi dantas · Aracaju, SE 7/2/2008 13:26
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Alexandre Grecco
 

Muito bom o texto, mas fala rde cultura é complicado, por que sempre temos o peso da própria manipulando as palavras! Acho as vezes que as expressões culturais que conhecemos tendem a acabar, viram lembrança, culturas engolem culturas!

Alexandre Grecco · Fortaleza, CE 7/2/2008 16:32
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Robson Araujo
 

Caro Alexandre, o Brasil sempre foi dito um país sem memória o que contrasta com as nossas heranças, pois mantemos na cultura memórias de vários continentes. Hoje em dia o que assusta é ver pessoas desconhecerem os costumes de seus avós, ou seus avós não terem costumes culturais. Falar de cultura é fácil, ultimamente difícil tem sido fazer.
Abraço

Robson Araujo · Campina Grande, PB 7/2/2008 16:45
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Robson Araujo
 

Errata, na primeira linha em vez de "contrasta", leia-se "se contrapõe".
Obrigado

Robson Araujo · Campina Grande, PB 7/2/2008 16:47
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Rodrigo Teixeira
 

Olá Robson, superpertinente a questão. Está na hora da nação brasileira ter orgulho e conhecimento de TODA a sua diversidade. Está na hora de respeitar os fusos horários de cada Estado. Neste NOVO país não cabe mais a idéia de sucesso nos anos 60 e 70 de REDE NACIONAL. Não dá mais para a novela das oito ser exibida as seis no Acre. Está na hora do brasileiro ser educado para saber que sul-mato-grossense é bem diferente de mato-grossense, mesmo com tantas coisas em comum. Na verdade NORDESTINO é praticamente um sinônimo de desqualificado para os sulistas. Já morei em São Paulo e já ouvi pessoas dizeram naturalmente ao abrir a geladeira vazia: "Está o maior Ceará". No Rio de Janeiro idem: "Tá um nordeste geral!". O mesmo acontece com os nossos vizinhos do Paraguai. Quem nunca caiu no lugar-comum de afirmar que algo "é paraguaio" para denominar um objeto que não funciona???? Pois é! A caminhada é longa ainda... abs

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 9/2/2008 02:00
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Alex / Nova Palmeira - PB
 

Olá Róbson!
Aqui no município de Nova Palmeira-PB, já foi tomada algumas iniciativas no ano passado em relação as "culturas esquecidas"... A corrida de jegue, ovo-na-colher, pau-de-cebo, maratona, exposição artesanal, literários, pinturas e mais, aconteceu no ano passado onde foi criado o 1º dia da cultura deste município. Esperamos aprimorar mais ainda este ano.

Alex / Nova Palmeira - PB · Nova Palmeira, PB 20/2/2008 11:16
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Andre Pessego
 

Robson, um tanto atrasadao, um abraço, andre.

tenho entrado no na pagina ;.

Andre Pessego · São Paulo, SP 27/2/2008 20:19
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Pedro Monteiro
 

Parabéns Robson, é preciso provocar os lerdos acomodados...
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 13/4/2008 17:07
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Coluna do Domingos
 

Votado

Coluna do Domingos · Aurora, CE 28/10/2008 14:08
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Robenaldo Dantas
 

Como o Sec. Axes Relatou, em Nova Palmeira o governo municipal tem feito resurgir nossa cultura adormecida, mas é preciso fazer muito ainda, e estamos cientes disso, cabe a cada um um de nós amantes dessa cultura tão ímpar, lutar para que que a mesma não seja esquecida no tempo, daí o importante papel desse seu trabalho Robson...
Parabéns

Robenaldo Dantas · Nova Palmeira, PB 26/11/2008 17:14
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Henrike
 

Robson PARABÉNS! pode me passar o link dessa pesquisa do IBGE? aguardo com urgência

Henrike · Fortaleza, CE 6/10/2010 23:40
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