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Curiós - Os amigos dos manezinhos

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Romeu Martins · São José, SC
25/5/2006 · 114 · 11
 

Os índios tupis deram ao pequeno pássaro um nome que significa, em português, "amigo do homem". A expressão traduz com perfeição a relação entre os habitantes de Florianópolis, popularmente conhecidos como manezinhos, e o curió, cientificamente catalogado como Oryzoborus angolensis. Para os manezinhos, andar com um curió na gaiola é tradição. A figura do ilhéu passeando com seu amigo no Mercado Público, nos arredores da Lagoa da Conceição ou pelas várias praias da cidade faz parte do cenário florianopolitano, da mesma forma que o canto característico dos cúrios compõe a trilha sonora da ilha e de toda a região litorânea catarinense.

Tal hábito cultural atravessa gerações de manezinhos. "Os moradores mais antigos da cidade se recordam de um vendedor de peixes que circulava pelo Mercado Público em uma carroça, sempre com o seu curió ao lado", confirma um dos maiores especialistas nessas aves da cidade, o empresário Luiz Carlos Hantschel. "O canto servia como um anúncio de que o peixeiro estava passando e atraia os compradores".

Naqueles tempos, as aves eram capturadas na natureza. Nunca existiram muitos espécimes vivendo livremente na ilha onde se localiza Florianópolis. Os curiós eram trazidos de regiões de mata atlântica próximas, das cidades de Paulo Lopes, Penha e Tijucas. A captura indiscriminada e, principalmente, o avanço da agricultura, começaram a ameaçar a espécie. Áreas de mata nativa foram derrubadas naqueles municípios para dar lugar a plantações, acabando com o hábitat dos animais.

Pior: o uso de defensivos agrícolas quase extingüiu as aves na Região Sul do país (hoje, curió vivendo fora da gaiola, praticamente só existe no Norte e Nordeste do país). Cúrios e outros pássaros eram retirados em grande quantidade nos locais próximos a plantações de arroz. Sem vida, dentro de enormes sacos de lixo.

Em 1967, passou a ser proibida por lei a captura desses animais. Foi a partir de então que a criação passou a ser um meio de preservação dos curiós em Santa Catarina, ela foi o único meio de tirar a ave da lista dos animais ameaçados de extinção. Isso aconteceu na cidade ainda na década de 1980, quando surgiu o primeiro Curiódromo do Brasil. O local, criado no dia 25 de julho de 1980, está situado em um espaço nobre de Florianópolis, entre a supervalorizada avenida Beira-Mar Norte e a Universidade Federal de Santa Catarina, e é administrado pela Sociedade Amigos do Curió, ou SAC.

Durante a maior parte dos seus 25 anos de existência, o Curiódromo florianopolitano foi o único do país. Só recentemente foram inauguradas duas novas estruturas, uma em São João Batista, também em Santa Catarina, e outra em Brasília. O Curiódromo é um espaço dedicado à troca de experiências entre criadores e serve de palco para exposição de animais, para torneios de canto e palestras.

Há ainda as confraternizações, como as peixadas que ocorrem todas as noites de quarta-feira. "São mais de mil associados, incluindo cerca de 150 criadores que reúnem aproximadamente três mil pássaros, entre curiós e outras espécies, como o canário, o bicudo", contabiliza Aldo Luiz Machado, fotógrafo profissional e atual presidente da SAC. "Todos as aves estão devidamente registradas de acordo com as normas do Ibama".

A organização que o Curiódromo trouxe aos criadores catarinenses permitiu importantes avanços nas pesquisas com o pássaro. Possibilitou ainda uma verdadeira operação de resgate histórico. Quando viviam soltos, os curiós do catarinenses apresentavam uma forma única de cantar, tão característica quanto o sotaque de seus amigos manezinhos. O objetivo da cantoria, como não podia deixar de ser, era atrair as fêmeas e demarcar território. Posteriormente, o dialeto local foi batizado de Canto Florianópolis, ou ainda Canto Catarina, como preferem chamá-lo passarinheiros de fora do estado.

O convívio com pássaros vindos de outros lugares, estava descaracterizando a linguagem original. O curió é famoso por sua habilidade de imitar o canto de outros indivíduos, sejam de sua própria espécie ou até mesmo de outras aves. Existem mais de 100 tipos de cantos regionais no Brasil inteiro, sendo que o mais difundido é original do litoral de São Paulo, o Praia Grande. Espécie de inglês do mundo dos curiós, esse modo de cantar ameaçava uma forma de riqueza natural e de diversidade cultural. Foi a partir da constatação de que o Canto Florianópolis se perdia que vieram as iniciativas para a sua preservação.

Fininho foi o primeiro curió a ter o canto registrado, isso em 1982, em uma simples fita cassete. A partir disso, criadores locais passaram a utilizar gravações do Canto Florianópolis, em todas as suas variáveis, para ensinar as novas gerações dos amigos do homem. Literalmente desde o ovo, através de caixas de som estrategicamente localizadas nos criadouros, vários campeões aprenderam a preservar a herança da família.

A prática se modernizou e hoje outros curiós, como o Guri, têm seu canto gravado em CDs. É o que acontece em lugares como o Sítio do Curió, administrado por Jorge Guerreiro Heusi. Na página do criadouro na internet é possível ouvir o legítimo Canto Florianópolis, interpretado por Estrela do Sul, um curió que foi campeão Sul-Brasileiro em 1999.

A própria complexidade da melodia e das variáveis desse canto regional passaram a ser melhor compreendidas depois que foram registradas. O modo clássico de cantar é caracterizado por uma entrada de canto (que pode ser longa ou curta), seguida pela passagem, a alteada em duas notas e termina com um remate. Pode também ser seguido pelo intitulado "pandeirinho", algo como três rápidos assovios com os quais o curió encerra seu fraseado.

Tais detalhes são minimamente analisados por juizes especializados durante os já citados torneios, que se concentram no último trimestre do ano. Um dos mais renomados especialistas é Luiz Carlos Hantschel, dono do campeão Paulo Lopes, outro curió que teve seu canto registrado em CD. “Quem cria um macho ou uma fêmea de procedência boa, e coloca o canto em CD para os curiós ouvirem desde pequenos, tem capacidade de formar novos campeões e preservar o dialeto”, afirma o criador.

Devidamente treinados, os pássaros competem em duas categorias: fibra e qualidade de canto. Da mesma forma, existem dois tipos de atletas, os pardos (os pássaros jovens, até cinco anos em média) e os pretos (adultos que já desenvolveram plenamente seu canto). A diferenciação é necessária para que os pardos não sejam intimidados pelos mais experientes, algo que afetaria o desempenho desses novatos na arena.

Durante as competições que ocorreram no final de 2005, a grande preocupação dos criadores eram as várias epidemias animais que viravam manchetes pelo mundo. A famigerada gripe aviária, obviamente, alarmava muitos deles, apesar dos casos só terem surgido do outro lado do planeta. Mas foram as barreiras fitossanitárias provocadas pela febre aftosa que trouxeram complicações de ordem prática. Como a movimentação de animais vivos estava proibida entre as divisas dos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, quase foi inviabilizada etapa catarinense da liga nacional.

Muitos dos animais que estavam inscritos para o torneio viriam de Brasília, Paraná e Mato Grosso do Sul. Foi preciso uma verdadeira mobilização da Sociedade Amigos do Curió, envolvendo vereadores e o prefeito de Florianópolis, além do governador do estado. Por fim, uma decisão deste último permitiu a realização do evento, que reuniu aproximadamente duas mil pessoas e 800 aves na espaçosa base aérea da cidade, em outubro passado.

De hábito cultural, a criação de curiós passou a ser também uma atividade econômica que gera empregos diretos e indiretos. São milhares de fabricantes de equipamentos, de medicação e de ração entre outros tantos profissionais. Aves campeãs passam a ser valorizadas como reprodutores de boa linhagem e, com o avanço da espécie, os curiós que hoje são criados em cativeiro chegam a ter uma expectativa de vida de cinco a seis vezes superior à de aves selvagens. Na natureza, raramente se via um pássaro da espécie que ultrapassasse os cinco anos de vida, ou seja, eles morriam logo após as penas escurecerem. Em cativeiro, é normal os cúrios, paparicados por seus orgulhosos proprietários, chegarem aos 30 ou 35 anos.

“Vários curiós vivem mais e estão saudáveis porque cantam. Aqui na ilha você leva um curió para praia, ele canta no carro, na casa e alegra as pessoas, como um cachorro, um gato. Vira um companheiro da família”, explica Hantschel. Os cuidados envolvem muito mais que esses tradicionais passeios pelas ruas da cidade, vão desde a aplicação de fortificantes e de vermífugos até a preocupação em nunca usar jornal para forrar o fundo das gaiolas. Todo o esforço para preservar a saúde do companheiro vale a pena. Mesmo assim, é de grande interesse dos criadores, dar uma nova chance à espécie de viver em liberdade.

Uma proposta já encaminhada por Hantschel ao Ibama prevê a criação de um parque ambiental onde curiós possam repovoar uma região de mata preservada a salvo de predadores (sejam humanos ou animais) e de poluentes. Criadores se comprometeriam a doar parte de cada nova ninhada a esse projeto. Dessa forma, a iniciativa que começou com o objetivo de preservar uma tradição secular passa a ter sua visão voltada para o futuro, trazendo novas esperanças para esses velhos amigos, o curió e o manezinho.

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Hermano Vianna
 

Caramba! Curiódromo! Este país é realmente surpreendente!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 22/5/2006 00:11
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Tiago Carvalho
 

romeu, sugiro que você crie links para os endereços que estão no texto. há uma ferramenta no mecanismo de publicação que serve para isso. interessante, essa história.

Tiago Carvalho · Rio de Janeiro, RJ 22/5/2006 20:38
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Romeu Martins
 

Tiago, gostaria de criar os linkscitados (e também pôr em negrito o nome científico dos curiós, como seria o correto). Mas não estou conseguindo localizar as ferramentas. Talvez elas não sejam compatíveis com meu browser.

Por favor, caso a matéria seja publicada, alguém poderia inserir essas modificações? Desde já, agradeço.

Romeu Martins · São José, SC 23/5/2006 00:14
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Demetrio Panarotto
 

Os lincks realmente vão dar um ganho legal para a matéria...

Demetrio Panarotto · Florianópolis, SC 23/5/2006 01:23
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Romeu Martins
 

Corrigindo: pôr em itálico o nome científico dos curiós....

Romeu Martins · São José, SC 23/5/2006 01:49
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Viktor Chagas
 

Pessoal, para quem tem browsers mais recentes, os botõezinhos azuis que aparecem em cima do campo de texto funcionam para colocar negrito, itálico ou link. Quem não enxerga os botõezinhos, pode escrever os comando no próprio corpo do texto, colocando a palavra que se quer em negrito entre as tags < strong> e < /strong> . O itálico é com < em> e < /em> . E os links com < a href="endereço do site"> e < /a> . Deu pra entender?
Quem tiver mais dúvidas, pode olhar aqui, aqui e aqui.
Abraços a todos.

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 23/5/2006 12:50
5 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Romeu Martins
 

Opa, valeu pela edição e pelos esclarecimentos.

Romeu Martins · São José, SC 24/5/2006 02:24
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Sergio Rosa
 

por que nao se deve usar jornal para forrar o fudo das gaiolas?

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 25/5/2006 11:16
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Romeu Martins
 

O papel do jornal não é a coisa mais higiência deste mundo, concorda. Os curiós podem ser contaminados com a química da tinta, por exemplo...

Romeu Martins · São José, SC 25/5/2006 13:53
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
ouriques
 

Alguém pode me dá um toque, tenho 2 filhotes de curió quero saber qnd eles começam a abrir o canto?
Abs

ouriques · Florianópolis, SC 22/4/2008 19:50
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Romeu Martins
 

Já tentou entrar em contato com o criador citado nesta matéria?

Romeu Martins · São José, SC 22/4/2008 20:32
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