Curiosidades de Brasília: filmes pimbas

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Samba de Uma Nova Gente · Brasília, DF
4/2/2010 · 14 · 9
 

Aproveitei os feriados de final de ano para dar uma (re)assistida em alguns filmes pimbas. A maioria dos filmes pimbas “clássicos” eu já conheço muito bem, pois, quando mais novo, assisti muitos deles influenciado por meu irmão mais velho, que os assistia como se fossem apenas “filmes de arte”. Ainda hoje muitos destes filmes são tratados desta forma, como se o seu lado pimba não existisse. É que para assistir bons filmes (“filmes de arte”, digamos), é preciso pescá-los em meio a um amontoado de filmes pimbas. Porque, em geral, arte e pimbice se misturam – embora há quem considere tudo a mesma coisa, o que, obviamente, não é o meu caso.

Mas calma. Vou explicar, para quem não sabe, o que é um filme pimba. Comecemos, contudo, explicando o que vem a ser PIMBA.

Trata-se, em primeiro lugar, de uma sigla: Pseudo Intelectual Metido a Besta e Associados. É uma designação um tanto quanto infantil. A conheci aqui em Brasília, uma cidade afeita a siglas (e a pimbas também). Mas não creio que o nome seja originário da cidade. Afinal, Parati, no Rio de Janeiro, por exemplo, deve ter muito mais pimbas. Na internet há vários sites que tratam de PIMBAS – e usando este nome mesmo. No Orkut há também várias comunidades. Algumas delas até elegem as figuras mais pimbas da TV, da música, etc.

Na prática, todo mundo que transita em “meios artísticos” sabe, intuitivamente, o que é ser pimba. Muito resumidamente, é impressionar as pessoas ignorantes mostrando-se muito sábio justamente naquela área em que o outro é ignorante. Costuma ser fácil fazer isso. É preciso, contudo, que isso aconteça em um meio onde se valorize muito a arte ou o saber intelectual, e, principalmente, com um tipo de valorização carregada de soberba, de glamour, de preciosismo, de egolatria, como se arte ou saber erudito tornassem as pessoas melhores, mais sábias, mais interessantes, de maior valor, ou mais desejadas e invejadas. Sim, a pimbice faz morada no campo da vaidade. E se torna até um jeito de ser: de se vestir, de falar, de andar, etc.

Tudo seria simples se entendêssemos a pimbice apenas como mera imitação, como uma farsa, uma fraude: o sujeito que finge ser aquilo que não é para atrair o poder, o prestígio e o glamour dos “verdadeiros” sábios e artistas. Mas a coisa não é tão simples quanto parece. Os pimbas costumam prosperar justamente em áreas onde é muito difícil, para não dizer impossível, ou mesmo incoerente, separar o que realmente tem essência daquilo que é somente imitação ou fraude.

Nas artes plásticas, por exemplo, é quase impossível separar arte de pimbice. Dois sujeitos fazem uma mancha de tinta em uma tela: um se torna tema de debates acalorados em universidades, de exposições mundo afora, de leilões caríssimos; o outro não consegue deixar de ser apenas um bobo vaidoso que joga tinta em uma tela e acha que está fazendo arte. A pimbice ganha seu lugar de crescimento ilimitado entre aqueles que dizem ver e entender porque uma determinada mancha é arte e a outra não consegue ser nada mais que mera sujeira.Toda uma linguagem técnica, erudita, rebuscada, a separar experts e ignorantes, passa a ser o reino da “grande arte”, que tanto maior se torna quanto mais difícil vem a ser sua compreensão.

A pimbice é a arte do engodo e da persuasão. Mas creio que, frequentemente, não seja uma farsa que tenha consciência de si mesma. Ao contrário, se assemelha muito mais a verdadeiros rituais sociais em torno do nada, onde quem mente ou finge para parecer denso e profundo o faz imitando quem considera ser verdadeiramente denso e profundo, mesmo que este, lá no fundo, seja apenas mais um ludibriador. Termina por ser possível, então, que camadas sucessivas de farsa acabem fazendo com que a própria ludibriação seja ensinada e recitada como verdade. Logo se torna um contínuo jogo de mentiras e persuasões, uma verdadeira demagogia da erudição. Não por acaso muitos ambientes artísticos, em lugar de serem ambientes agradáveis e criativos, são pesados e cheios de intriga. É que a arte não está ali, apenas os jogos de vaidade e de poder em torno de sua idealização.

Já deixei de ir a exposições de artes plásticas com “instalações”, por exemplo, faz algum tempo. Talvez eu esteja enganado, e apenas 99% das instalações de arte “pós-moderna” sejam mesmo um desinteressante nada alçado à condição de arte, e o 1% restante possa valer a pena. Eu, contudo, desisti de descobrir se é assim. Caso a obra de arte “pós-moderna” traga o “conceito” de desmascarar a própria “arte universal”, pregando que o culto é que daria o valor àquilo que em essência nada seria, concluí que não preciso ficar de cabeça para baixo em um cubo escuro para entender que a modernidade é uma ilusão. Simplesmente ela é uma ilusão. Ponto final.

Mas se em alguns meios é fácil concluir que nem sempre onde há pimbice há fogo, em outros é bem mais difícil. Como saber se um antropólogo ou filósofo que se senta com você em uma mesa, e sabe citar vários livros interessantes e seus autores, e às vezes até citando trechos memorizados de alguns deles, tem a capacidade de pensar por si próprio e articular suas idéias com as idéias dos autores que memorizou? A citação de livros, autores, datas, trechos, biografias, etc. costuma ser a ferramenta impressionista mais típica de um legítimo pimba. Com freqüência, este tipo de demonstração de aparente saber é suficiente para intimidar os demais interlocutores, de modo a parecer que o sujeito realmente “domina” algum assunto. E é esta a intenção máxima de um pimba: impressionar e ser respeitado.

Em Brasília, toda uma cultura pimba é facilmente identificada: os pimbas têm os seus cafés prediletos, seus cinemas, suas locadoras de filmes, seus restaurantes e bares com música ao vivo, seu andar característico, e até sua roupa típica. Só não são uma seita porque têm uma tendência a serem laicos, e às vezes até ateus – embora também o sejam por imitação: frequentemente o seu ideal de ser é o do intelectual parisiense, sentado em um café, com ar blasé, lendo um livro, tomando café e fumando uma cigarrilha.

Bom, acho que já deu para entender. Fui, portanto, para resumir, buscar alguns filmes pimbas em uma típica locadora de filmes pimbas de Brasília. Aliás, a única da cidade; e todo mundo sabe qual é – Brasília, apesar de tudo, é muito pobre em filmes pimbas. De qualquer modo, é lá que se encontram os “filmes de arte”, quer dizer, os filmes pimbas.

É muito difícil definir o que vem a ser filme pimba sem citar exemplos. Eu tinha me comprometido a não citar exemplos neste pequeno texto, que era para ser politicamente correto, mas não vai dar, vou ter que citar alguns. Os mestres da pimbice são Bergman, Godard, Fellini, Pasolini e Herzog. Herzog? Bem, do Herzog eu gosto, mas muita gente acha que ele está nessa lista. Fazer o que!... Dá para mencionar também alguns mais pops e atuais, como David Lynch e Pedro Almodóvar. Mas chega. Só esses já dão controvérsia o suficiente. E controvérsia em torno de filmes é algo tipicamente pimba. Mais pimba do que isso só mesmo discussão sobre vinhos. Também não adianta muito citar nomes. O filme, em si, não define a pimbice. Afinal, já vi até quem defendesse Steven Spielberg pimbisticamente.

Frequentemente, a pimbice está mais no tipo de valorização que se faz do filme do que no próprio filme. Isso, contudo, não é uma regra. Muita “arte” é feita já na origem com uma atitude pimba. A meu ver, o próprio culto exacerbado da arte na civilização ocidental moderna é essencialmente pimba: carrega um quê de impressionismo e de farsa.

Consequentemente, muitos filmes já são pimbas na origem: o diretor o constrói propositalmente obscuro, sem sentido, vazio, porém com um rebuscamento tal que o deixa parecendo denso, complexo, profundo. Isso faz com que os espectadores pimbas o elejam como objeto de adoração; justamente por ele ser obscuro e servir para elucubrações pseudo-intelectuais, já que ninguém vai poder contestar muito claramente um discurso sobre um filme que é, em si, ao mesmo tempo vazio e incompreensível. Aqueles que conseguirem inventar uma boa explicação do que teriam visto no filme, além de parecerem sábios, ainda silenciarão os críticos mais realistas, que afirmarão que não entenderam nada porque não havia nada para entender. Muitos desses desentendidos poderão até ter vergonha de se assumir, pois os pimbas poderiam deles debochar, alegando que a falta de entendimento seria falta de profundidade na interpretação de um “denso filme de arte”. E é assim, entre vaidosos impressionistas e envergonhados ignorantes que a “arte” pimba faz sua história.

Bom, mas então por que eu, tendo consciência disso, fui buscar filmes pimbas em uma típica locadora pimba em Brasília? Para ver filmes vazios que foram aclamados por críticos e telespectadores como a mais refinada sétima arte? Em parte, também por isso, já que, de certa forma, é uma verdadeira arte conseguir convencer apreciadores de arte de que seria arte aquilo que essencialmente não é. Mas o motivo principal não é este: é que os filmes realmente feitos com arte geralmente estão misturados, perdidos, confundidos com os filmes pimbas, ou, às vezes, até sendo ao mesmo tempo pimbice e arte. E eu, nestes dias chuvosos de final de ano, não estava a fim de assistir rasteiros filmes de entretenimento. Afinal, até diversão cansa. E entre o vazio da pimbice e o vazio do entretenimento, o primeiro ainda tem chance de não ser lá tão vazio.

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Alinde Kühner
 

E como há pimbas no mundo... não só em Brasília, mas no Rio então...aff, enjoa. Mas nunca deixarei de ver/ler/ouvir algo só pq os pimbas são fãs, fato. Seria me igualar a eles pra tentar ser o oposto... o negócio é ser autêntico, ponto.

Alinde Kühner · Rio de Janeiro, RJ 4/2/2010 17:11
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Viktor Chagas
 

Muito interessante esse conceito do filme "pimba"! Bom de aplicá-lo! :)

Fiquei pensando na leva de pimbas brasileiros. Quais seriam? Talvez o Bressane ou o Claudio Assis... Temos muitos pimbas no Brasil?

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 6/2/2010 12:32
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Samba de Uma Nova Gente
 

Concordo plenamente com você, Alinde. Às vezes, a pseudo-intelectualidade estraga um pouco algumas coisas, mas há muito mais do que isso mesmo em muitos filmes cultuados por pseudo-intelectuais.

Samba de Uma Nova Gente · Brasília, DF 10/2/2010 21:37
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Samba de Uma Nova Gente
 

Viktor, sou de opinião que onde tem arte tem pimba. É inevitável. Mas, como você disse, é um conceito interessante de aplicar: evita que nos percamos na arte vazia, ou lendo sobre ela.
Abraço pra você.

Samba de Uma Nova Gente · Brasília, DF 10/2/2010 22:06
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Makely Ka
 

Acho que há uma importante função social desempenhada pela pimbice, que é essa compulsão para criar simulacros. No fim, toda a arte é simulacro e portanto, toda arte é pimba. Por outro lado isso depende do contexto. Na música, por exemplo, o conceito de música pimba varia de acordo com o período, com a época. Radiohead, Bjork e Kraftwerk são pimba? Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento são pimba? E quem vai dizer quem é e quem não é pseudo-intelectual? Talvez o critério da produção seja um parâmetro.

Makely Ka · Belo Horizonte, MG 16/2/2010 00:35
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Ilhandarilha
 

Texto interessante e divertido. Mas, me enquadrei perfeitamentamente na definição: sou uma autêntica Pimba! Cato todos os filmes de Felinni nas locadoras e amo alguns filmes de Bergman (embora não todos). Como disse vc n final do texto, "entre o vazio da pimbice e o vazio do entretenimento, o primeiro ainda tem chance de não ser lá tão vazio."
Concordo em gênero, número e grau com o Makey: quem é e quem não é pseudo-intelectual?
Viktor, acho que no Brasil, filme pimba mesmo são os do Carlos Reichenbach!

Ilhandarilha · Vitória, ES 17/2/2010 09:17
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Samba de Uma Nova Gente
 

Concordo totalmente com o Makely. Que, aliás, deixou um instrutivo comentário. Toda arte é sempre a construção de um outro (mesmo que limitado) universo sensorial. E, obviamente, este outro universo nunca é real. Por isso mesmo insinuei, no texto, que a diferença talvez esteja na intencionalidade de quem produz arte. Se ele a produz por necessidade afetiva e existencial de se expressar ou simplesmente para ser tratado pelos outros como artista profundo. Ainda assim, contudo, esse parâmetro também é frágil. Acho, ao final das contatas, que não cabe mesmo nenhum tipo de definição universal neste campo.

Samba de Uma Nova Gente · Brasília, DF 17/2/2010 13:23
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Hermano Vianna
 

engraçado o termo pimba usado com esse significado... conhecia pimba como rótulo para música brega portuguesa - e tem aquele filme Aquele Querido Mês de Agosto (ver trailer aqui) onde os dois sentidos de pimba se cruzam de modo poderoso!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/2/2010 23:42
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MorilloCa
 

Sensacional o texto!
Aproveito para mandar o link com a minha opinião sobre os pimbas, no meu antigo blog, o Drops Culturais.
É o texto "The pimbas e os taxistas de Salvador"
Grande abraço, vamos falando mais sobre pimbarias!

MorilloCa · Brasília, DF 19/2/2010 16:26
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